05 Janeiro 2010

'Kamasutra', el libro electrónico más 'pirateado' en 2009


El e-book más pirateado en 2009 ha sido el clásico hindú sobre comportamiento erótico Kamasutra. Freakbits ha publicado la lista de libros electrónicos más descargados a través de BitTorrent. El tema erótico domina en al menos cuatro de los títulos escogidos por estos lectores. La cifra de copias descargadas por cada título de esta lista oscila entre las cien mil y las 250.000.
Tras el Kamasutra, aparece Adobe Photoshop Secrets, un tutorial sobre este popular programa de tratamiento de fotos. El tercero es The Complete Idiot's Guide to Amazing Sex. En este caso, el precio no es un obstáculo porque Amazon ofrece copias usadas a 0,59 dólares.
Tras The Lost Notebooks of Leonardo da Vinci, aparece una guía práctica para instalar un generador de energía solar en casa. Solar House - A Guide for the Solar Designer tiene una edición para Kindle, a 50,09 dólares.
El sexto lugar lo ocupa Before Pornography - Erotic Writing In Early Modern England, trabajo que recibió en su día una buena acogida académica. Un estudio sobre la literatura erótica y sus vinculaciones con asuntos de género y políticos en la Inglaterra de los Tudor. La serie de las cuatro narraciones sobre vampiros de Stephenie Meyer, Twilight (Crepúsculo) ocupa la séptima plaza. El octavo puesto es para un manual de técnicas de persuasión, How To Get Anyone To Say YES, cuya edición para Kindle cuesta 19,98 dólares.
Nude Photography - The Art And The Craft, un manual para elaborar este tipo de fotografías con consejos sobre localizaciones, poses, etcétera ocupa el noveno lugar y cierra la lista otro manual, éste de bricolage (Fix It - How To Do All Those Little Repair Jobs Around The Home)

30 Dezembro 2009

IMPENSAR


O FIM DO MUNDO COMO O CONCEBEMOS

IMPENSAR:

Impensar é uma palavra que Wallerstein criou em português para traduzir o termo “unthink”, que criou em inglês. Ele queria uma palavra que fosse diferente de “rethink” ou repensar em português. O que busca com ela é "tentar remover do nosso inconsciente as pressuposições e categorias conceituais que as gerações anteriores nos deixaram como herança, no caso, as deixadas pelas Ciências Sociais do século XIX. Quando impensarmos essas pressuposições e categorias conceituais estaremos prontos para ver a realidade social com olhos diferentes, quiçá ,mais capacitados a perceber de modo útil e adequado o mundo em que vivemos” (2002, p.65).

FELIZ 2010!

25 Dezembro 2009

POEMA DE NATAL


Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

23 Dezembro 2009

Humanidade sem raças?


Este é o título do livro do geneticista Sergio Danilo Pena.
A obra, um verdadeiro manifesto contra o racismo, reúne os veementes argumentos do geneticista para combater a racialização da humanidade. Essa discussão não é novidade para os leitores de “Deriva Genética”, a coluna que o autor publica na segunda sexta-feira do mês na CH On-line – a denúncia da inexistência das raças do ponto de vista biológico é um tema recorrente em seus textos.
"Jornal de Resenhas" - Discurso Editorial: http://www.discurso.com.br/discurso.php

22 Dezembro 2009

¿Por qué prohibir?




J. L. LÓPEZ DE GUEREÑU POLÁN - Pontevedra - 23/12/2009

La tauromaquia:
una fiesta que entraña tradición, cultura, historia... Es una fiesta arraigada y es uno de nuestros sellos de identidad. ¿Por qué privar a los siete millones de catalanes de poder disfrutar de las corridas? ¿Por qué vernos privados de nuestra libertad? Quien quiere, paga su entrada y disfruta del espectáculo y quien no quiere, no va, a nadie se le obliga. Cada uno es libre de decidir sobre el qué hacer en su tiempo libre.
Prohibiendo a los menores de 14 años la entrada en la Monumental se empezó a crear una ambiente de rechazo hacia la fiesta taurina aprovechando los fáciles argumentos del maltrato del toro. Este debate se ha llevado al terreno de la defensa del animal sin saber realmente que gracias a la fiesta taurina el toro de lidia existe. Sabemos que hay vacas que se dedican a dar leche, otras dan carne, pues bien, el toro de lidia sirve para torear. Hay extensas hectáreas dedicadas a la cría de toros, esas tierras se mantienen en buen estado y los toros viven con todos los cuidados. Gana el ecosistema y ganan los animales.
Si el toro ha demostrado su valentía y su coraje, se le indulta. El toro volverá a su ganadería y el resto de sus días los pasará en el campo montando a cientos de vacas y con todos los honores y privilegios que se merece. Si no es así, después de 20 minutos de corrida se le dará muerte y se irá de esta vida habiendo demostrado sus dotes y, gracias a él, miles de aficionados habrán vibrado, temblado y se les habrá puesto la piel de gallina.
No me robéis la libertad de decidir si ir a ver los toros o no.- Carlota Sáenz Guillén. Lliçà d'Amunt, Barcelona.
A mí me gustan tanto los toros que no quiero que se les martirice ni se les maltrate. El que quiera hacer negocios que los haga sin hacer sufrir a ningún animal para venderlo como espectáculo. Visca Catalunya, siempre por delante en el conjunto de España. Soy gallego y amigo de los toros... enemigo, por lo tanto, de los verdugos.

BOAS FESTAS E FELIZ 2010!



Prezados,

Boas Festas e Prosperidade em 2010!
Muita saúde e alegrias!

"Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu".
Eclesiastes.

Alexandre Fernandes Corrêa

CRISOL - Pesquisas e Estudos Culturais

20 Dezembro 2009

O fim das aberrações da Lei Rouanet


A semana que se encerra foi uma das mais felizes para a cultura brasileira. O Senado aprovou o Vale Cultura e a possibilidade de enquadramento na qualidade de Simples, para as empresas que atuam no setor com benefícios no pagamento de impostos. Além disso, ao apagar das luzes do ano, o ministro Juca Ferreira conseguiu um ousado e corajoso feito, que já o coloca para sempre em lugar de destaque na história cultural do Brasil. Entregou na última quarta-feira à Câmara dos Deputados o projeto de lei de Fomento e Incentivo à Cultura, a Lei Juca, que substituirá a Rouanet, renovando o Fundo Nacional de Cultura, que contará com investimento inicial de R$ 800 milhões e será o principal mecanismo de financiamento a projetos culturais.
O ministro também afirmou que a mudança vai garantir maior controle social e oferecerá um aporte direto de recursos, eliminando a etapa de busca por patrocinador.
O fundo é direto na veia.
Aprovado o projeto, o produtor recebe o dinheiro?, euforicamente disse Ferreira. Isso simboliza que as torturas na cultura para captação de recursos possam acabar ou que pelo menos os recursos possam chegar democraticamente aos criadores culturais. O modelo segue o que as Ciências e Tecnologias fazem há muitos anos. Se nossos cientistas tivessem tido que ficar horas e horas, dias e dias, anos e anos, nas salas de espera dos torturadores especializados em marketing das grandes empresas, as nossas pesquisas científicas não estariam tão avançadas como estão, hoje referencias mundiais.
Acreditamos que estejam chegando ao fim as chances de continuidade nas aberrações existentes desde o nascimento da Lei Rouanet, como a recente notícia de que a escola de samba Acadêmicos da Rocinha foi autorizada pelo MinC a captar R$ 2 milhões, assim como os baianos do Bloco do Psirico, que podem pleitear outros R$ 402.545. O carnaval na Sapucaí e a folia baiana são cada vez mais voltados para turistas e celebridades, atendendo ao que grandes empresas esperam de retorno para seus patrocínios ? pois geram enorme visibilidade com as garantidas transmissões dos desfiles pela TV.
Fazer atualmente com que um diretor de marketing olhe com bons olhos para um projeto de filme ou uma boa peça que fuja dos padrões mercadológicos e que não tenha artistas globais; que não seja ?comercial? e ainda competir com as escolas de samba... vamos e venhamos, se torna uma competição nada olímpica e desleal, com o agravante, de conhecimento público, que muitas dessas agremiações carnavalescas, também recebem financiamentos obscuros, para se dizer o mínimo.
Portanto esperamos que tais polêmicos incentivos também obtidos para eventos nacionais e/ou internacionais, que já vêm carimbados por milionárias campanhas publicitárias, sejam avaliados mais criteriosamente.
E que projetos artísticos, culturais e educacionais de maior necessidade para o povo brasileiro, tenham enfim sua hora e sua vez de desfilar nas avenidas, nas escolas, nas universidades, nos nossos cinemas, palcos e televisões, enfeitando, alegrando, milhões de corações e mentes; iluminando douradamente nossas consciências.
Que 2010 seja o ano novo da redenção artística e cultural do povo brasileiro.

Noilton Nunes
CINEASTA

15 Dezembro 2009

LAB-PAC - Laboratório de Patrimônio Cultural


Institucionalizado no primeiro semestre de 2008, o Laboratório de Patrimônio Cultural teve sua criação ligada, antes de tudo, às necessidades da disciplina de “Prática Curricular – Patrimônio Cultural”, incorporada à grade curricular do Curso de Graduação em História do Centro de Ciências Humanas e da Educação da UDESC em 2005.
A existência da disciplina, ao estimular a reflexão acerca de ações de preservação de bens culturais, ressaltou o papel dos historiadores e dos acervos no registro das experiências históricas e nos processos sociais de construção de memórias. Por conseqüência, foram geradas demandas para a implantação de um laboratório voltado para as temáticas do patrimônio cultural, que abrigasse materiais para estudo, experimentação e criação relativos à área, e que integrasse docentes e discentes, programas e projetos de pesquisa, ensino e extensão afins.
Com a implantação do Programa de Pós-Graduação em História, em março de 2007, na área de concentração de História do Tempo Presente, a temática do patrimônio cultural também se mostrou relevante, tanto na produção de docentes como na de discentes. Afinal, contemporaneamente, memória e patrimônio cultural têm se imbricado com intensidade, permitindo a autores de diferentes perfis diagnosticar, ao menos desde a década de 1970, uma verdadeira “obsessão pela memória”, vinculada, por seu turno, a uma febre de “patrimonialização”.
O Laboratório de Patrimônio Cultural busca, assim, dar suporte a investigações acerca dos processos de constituição social de memórias e das ações e instituições voltadas para a preservação de bens culturais.
O Laboratório de Patrimônio Cultural está aberto à participação de docentes e discentes de outros cursos de graduação e pós-graduação da UDESC, bem como de profissionais e interessados em geral nas questões relacionadas à preservação do patrimônio cultural.

11 Dezembro 2009

Entre Deus e o Diabo: Luiz Felipe Pondé


O HABITAT natural da alma é viver entre Deus e o Diabo. Sem esse combate, a alma se dissolve em pequenas manias diárias e fica pequena.
Uma das faces da miséria humana é a vaidade, e a vaidade quer agradar. Como diz a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, hoje todo mundo quer agradar, o professor, o artista, o metafísico. Sua tese é que no fundo deste desejo de agradar está o trauma infantil do desamparo que nos afeta a todos. Ao tentar agradar, buscamos fugir do medo do desamparo. Quando o intelectual é afetado por este desejo, ele se transforma numa máquina de repetição de unanimidades a fim de agradar a opinião pública.
Luiz Felipe Pondé.
Texto Completo: http://antropologiadomal.blogspot.com/2009/12/entre-deus-e-o-diabo-luiz-felipe-ponde.html

'CULTURA E SUBJETIVIDADE': Proposta de Evento Nacional


EVENTO NACIONAL (Esboço 1) 'CULTURA E SUBJETIVIDADE': UMA DIALOGIA COMPLEXA NA ATUALIDADE (UFMA-UFBA-UFF-UERJ).

São Luís, 06 a 08 de Outubro de 2010.

O propósito desse evento é manter viva a reflexão sobre tópicos pouco explorados em nosso meio universitário preso ainda muito excessivamente a ordem disciplinar. Assim, gostaríamos de dar continuidade a um trabalho que se iniciou em 2008, dando sequência ao 'I Encontro de Estudos Culturais de São Luís' e uma mesa redonda
ocorrida no Encontro Humanístico/2008. Esses trabalhos constituíram esforço concentrado no sentido de promover massa crítica para a criação e elaboração do Projeto do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFMA, no decorrer dos anos de 2008 e 2009. Nesse sentido, temos intenção de promover o diálogo entre diferentes áreas e campos do conhecimento, promovendo um contágio contínuo, estimulando a mestiçagem dos saberes, na direção de uma reflexão aberta à unidade do campo epistemológico. Evitando as fragmentações excessivas, tomamos como base as contribuições da Epistemologia da Complexidade e os Estudos Culturais. A partir daí, promovemos o diálogo com a Psicanálise, a Arte (Teatro, Literatura etc) e a Educação. Esses são os eixos temáticos que pretendemos articular, nesse próximo encontro. A promoção desse intercâmbio interinstitucional, com a participação de pesquisadores e professores de Universidades do Sudeste e Nordeste (UFBA, UERJ, UFF, UFMA) objetiva qualificar o debate e promover a difusão do pensamento e da cultura, enfrentando os insulamentos e isolamentos regionais. Tendo em vista a elaboração de convênios e intercâmbios entre os pesquisadores e professores dessas instituições, pretendemos que o resultado dessa atividade produza novos projetos, concorrendo para a institucionalização do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, recentemente instaurado e aprovado pela CAPES. Ao promover o intercâmbio de Grupos de Pesquisa e contato entre Linhas de Pesquisa, almejamos construir nossa participação no próximo Edital Pró-Cultura da CAPES/MINC. Considerando essa apresentação sumária, escolhemos como tema transversal, que servirá como crisol para reflexão, as relações entre a 'Cultura e Subjetividade'.

08 Dezembro 2009

IDEIA INTERESSANTE!


Rubem Alves, educador, no artigo "A função cultural das privadas".

"E se as empresas passarem a colocar, na porta diante dos tronos, trechos literários curtos, para serem lidos pelos intelectuais assentados? Muitas experiências de iluminação científica surgiram em momentos de solidão meditativa".

Folha de São Paulo – 08/12/2009

30 Novembro 2009

A IMAGINAÇÃO NO PODER


O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro apresenta a mostra “Gérard Fromanger – A Imaginação no Poder”, trazendo cerca de 50 trabalhos do artista nascido em 1939, um dos ícones da Nova Figuração francesa, movimento surgido nos anos 1960. A mostra tem curadoria da francesa Anne Dary, que reuniu trabalhos de diversos acervos importantes, como do Museu de Arte Moderna de Paris e do Centro Georges Pompidou, além da coleção do próprio artista. Anne Dary é curadora dos Museus do Jura, nos Alpes franceses.
A exposição terá um caráter panorâmico, já que abrangerá obras dos anos 1960 até trabalhos recentes e inéditos, sem uma ordem cronológica definida, e ocupará o terceiro andar do museu.



A Nova Figuração foi um contraponto europeu crítico e irônico à Pop Art americana, e Fromanger incursionou por vários meios, associando pintura à fotografia e à colagem. Estarão no MAM pinturas, colagens e gravuras, trabalhadas, em grande parte, a partir de fotografias. Um dos destaques são os retratos feitos de seus amigos, os grandes pensadores Felix Guatarri, Gilles Deleuze, Michel Foucault e o cineasta Jean-Luc Godard.

Luiz Camillo Osório, curador do MAM, destaca o diálogo entre os trabalhos de Fromanger e de Carlos Vergara, em exposição no segundo andar. “Acho fundamental esta conversa entre as Novas Figurações brasileira e francesa, pois elas têm em comum uma mesma contaminação pop, só que atravessada por um tônus político distinto da vertente americana”. “A conversa com o Vergara será interessante, pois traz também o desdobramento da obra desde o começo dos anos 1960 – o primeiro trabalho do Vergara na exposição também é de 1962 – até o presente. Ambos usam técnicas diversas: colagem, gravura, fotografia, cinema, mas tudo converge para a pintura”, observa.

Gérard Fromanger

Artista francês nascido em setembro de 1939, em Jouars-Pontchartrain, Yvelines, Fromanger estudou na École des Beaux-Arts, em Paris. Foi na capital francesa que realizou, em 1966, a sua primeira exposição individual e em 1968, tornou-se anfitrião do Atelier Populaire na mesma escola. Neste mesmo ano, ele expôs nas ruas seus Souffles, meias-esferas grandes e translúcidas, e atraiu atenção para sua arte. Em 1971, começa a pintar as cenas da vida urbana, com a série do Boulevard des Italiens. Embora mantendo a mesma técnica, acrescenta temas políticos ao seu trabalho e desenvolve uma série de retratos de seus amigos, incluindo Michel Foucault.



Mais tarde adiciona um toque de abstração em sua pintura, mantendo as figuras em vermelho, uma característica de suas telas, e o jogo de linhas. Atualmente, ele se divide entre Paris e Siena, na Itália. “Meu ateliê é arrumado como Manhattan. Interesso-Me pouco na matéria: o ateliê deve me libertar da técnica, e todos meus instrumentos são aqueles que me permitem pensar”, define-se.

Museu de Arte Moderna
Rio de Janeiro
Av Infante Dom Henrique 85 - Parque do Flamengo
Tel +55 (21) 2240 4944
Horários ter - sex 12h - 18h sab - dom e feriados 12h - 19h
A bilheteria fecha 30 min antes do término do horário de visitação

29 Novembro 2009

Filósofo que reduziu crimes em Bogotá


Manuela Andreoni, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Em março de 2007, o governador Sérgio Cabral e o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame visitaram a Colômbia a fim de conhecer as políticas públicas que conseguiram reduzir os índices de criminalidade da região.
Hoje, é a vez de o prefeito Eduardo Paes buscar uma “cola”, em um workshop, com o precursor das mudanças na política daquele país, Antanas Mockus, político, matemático, filósofo e ex-prefeito de Bogotá. Em dois mandatos, ele reduziu de 72 para 51 a taxa de homicídios a cada 100 mil habitantes. Atualmente, a capital colombiana registra 18 mortos para o mesmo universo populacional (uma redução 75% no número de assassinatos).
O encontro para o prefeito Eduardo Paes é promovido pela ONG Rio Como Vamos. Uma das bandeiras que Mockus vai agitar diante do prefeito carioca é o estímulo à defesa da cidadania. Para ele, a política de segurança não deve depender apenas da ação policial.
– Ela (polícia) é uma das ferramentas. Quando vemos o orçamento, estão lá as armas que devem ser compradas. A secretaria de cultura, no entanto, também deve ser um instrumento de ação usado para garantir a segurança da população – exemplificou.
O filósofo colombiano não negou a necessidade do enfrentamento, mas questionou sua eficácia fora de contexto. O ex-prefeito defendeu o que chama de "otimização do ganho pedagógico" das operações de confronto, a fim de que a população não vire inimiga da polícia.
– Há de se provocar o máximo de temor com o mínimo de ódio – ensina Mockus.
Ao comentar sobre a recente proposta do prefeito Eduardo Paes de suspender o trabalho de limpeza da cidade por um dia, para mostrar aos cariocas o lixo que a população produz, Mockus encontrou gancho para explicar que cidadania é um processo cultural.
– Existem três sistemas de controle (da população): o legal, o social e o moral. Então, não há apenas uma impunidade, mas três. A pessoa que mata uma menina por causa de um celular, por exemplo, deveria morrer de culpa – filosofou.
Enquanto explicava o raciocínio, Mockus buscava na lixeira um pedaço de guardanapo que enrolava um chiclete mastigado para comer. Diante da reação dos ouvintes, ele explicou que o que impede uma pessoa de comer lixo e matar alguém é um único mecanismo: a moral.

21:34 - 27/11/2009

27 Novembro 2009

COR e GENÉTICA: Pesquisa mostra diferença entre autodefinição de cor e genética


Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil

RIO - Muito se fala que todo brasileiro tem um pé na África. Mas uma pesquisa brasileira recém-concluída aponta para outra direção: muitas pessoas que se consideram ou se definem como negras ou pardas tem um pé, ou até mesmo uma perna inteira, na Europa, só que não sabem disso. A constatação é resultado de um estudo feito por pesquisadores brasileiros, entre antropólogos e geneticistas, junto a estudantes de ensino médio da cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense.
Por se debruçar sobre universo fechado, um grupo escolar, a pesquisa não retrata a realidade de um país tão diversificado regionalmente. Mas a intenção dos pesquisadores foi checar a reação dos alunos sobre a diferença entre como eles se autodefinem em relação à cor e sua ancestralidade genética.
A pesquisa procurou saber como os estudantes se percebiam em relação à sua cor, segundo classificações do IBGE (branca, negra e parda). Depois, foram feitos testes de DNA para checar a origem geográfica: europeia, africana ou indígena.

Ascendência

Os estudantes que se classificaram como “negros”, por exemplo, relataram, em média, ascendência africana de 63%; indígena de 20% e 17% europeia. Os testes de DNA mostraram resultados bem diferentes: a ascendência européia domina. A média é de 52% de ancestralidade européia; 41% africana, e 7% a indígena.
Os alunos que se autodefiniram como “pardos” referiram que teriam aproximadamente os mesmos índices de ancestralidade europeia (37,9%), africana (33,5%), e ameríndia (28,6). O teste de DNA, de novo, trouxe resultados com índices mais “europeizantes”: mais de 80% em média, contra a ascendência indígena (4,1%) e africana (5,6%).
Os estudantes “brancos”, que se percebiam como portadores de substancial ascendência africana (17,1%) e ameríndia (21,1%), se defrontaram com resultados de testes genéticos que, na realidade, evidenciaram muito pouca ancestralidade tanto africana (5,6%) como ameríndia (4,1%), contra 90,3% de ascendência europeia.
– A percepção das pessoas quanto à sua cor ou raça é muito diferente da realidade biológica – diz o antropólogo Ricardo Ventura Santos, na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), da Fiocruz, um dos coordenadores da pesquisa.
A pesquisa de campo foi feita com adolescentes do CEFET-Química, em Nilópolis, há três anos, segundo Ventura:
– O conceito de raça, biologicamente, é superado, mas ainda tem impacto relevante sobre a dinâmica social. Tanto é que existem as políticas afirmativas, como as que reservam vagas para estudantes que se declaram negros nas universidades brasileiras – diz o antropólogo.

Estudantes pesquisados se surpreendem com resultados

No artigo que deu origem à esta reportagem, que está sendo publicado na edição de dezembro da revista americana Current Anthropology, o jornalista Kevin Stacey compila a íntegra da pesquisa brasileira. Ele selecionou trechos sobre a reação dos estudantes aos resultados. Ainda fez reflexões sobre conceitos de raça e sobre estas implicações na sociedade brasileira. O material do jornalista americano, traduzido por Ruth B. Martins, segue abaixo.
“Os alunos que se classificaram como 'brancos' em geral declararam-se decepcionados com os baixos percentuais para as categorias africano e ameríndio a partir dos testes de ancestralidade genômica", dizem os pesquisadores brasileiros. Outros ficaram "desconcertados" quando verificaram que os resultados dos testes genéticos mostraram alta ascendência européia.
Alguns inclusive colocaram em um segundo plano a importância da evidência biológica.
– Apesar da elevada percentagem de ancestralidade genômica européia, não deixarei de ser negra nunca! – disse uma estudante.
Alguns estudantes levantaram temas relacionados com políticas públicas de cotas raciais para o ensino universitário.
– A minha ancestralidade genômica é 96% europeia, 1% ameríndia e 3% africana – disse um aluno. – Acho que a única coisa que muda é que eu não tenho mais a chance de conseguir a cota – ironizou.
A pesquisa brasileira traz reflexões sobre o controverso conceito de raça: “nas últimas décadas, biólogos, especialmente os geneticistas, têm afirmado repetidamente que a noção de raça não se aplica à espécie humana". "Por outro lado”, sustentam os autores, “cientistas sociais afirmam que o conceito de 'raça' é altamente significativo em termos culturais, históricos e sócio-econômicos”.

Debates

Atualmente, as questões relacionadas com a temática da raça, suas concepções científicas e culturais, despertam muitos debates em todo o mundo, inclusive no Brasil. Os brasileiros se orgulham de sua ascendência miscigenada, fruto da relação histórica entre europeus, africanos e ameríndios. No entanto, nos últimos anos, as desigualdades raciais têm estimulado o surgimento de propostas de políticas que despertam controvérsias, como as cotas raciais para empregos em órgãos do governo e vagas para estudantes nas universidades públicas.
”Ao mesmo tempo“, destacam os autores, "os resultados dos estudos no campo da genética, que enfatizam a ampla miscigenação da população brasileira, têm sido divulgados nos meios de comunicação e tem desempenhado um papel importante nos debates sobre a implementação de políticas públicas baseadas em raça".
Os alunos material colhido em raspagem das mucosas bucais, a partir da qual foram realizados testes de ancestralidade genômica, com base na análise do DNA nuclear, na UFMG. Na etapa final da pesquisa, os dados de percepção de ancestralidade e dos testes genômicos foram debatidos pelos estudantes.
”Os resultados dos testes de ancestralidade genômica são bastante diferentes das estimativas de ascendência percebidas“, relatam os investigadores. Em geral, os resultados dos testes genéticos mostraram que os alunos têm ascendência européia bem maior do que pensavam.
“Neste estudo”, escrevem os autores, "ressaltamos a importância de se melhor compreender as complexas formas de como as informações genéticas são interpretadas pelo público leigo”.
Os autores também discutem seus achados à luz das políticas públicas relacionadas às questões raciais, visando promover a inclusão social. Outro aspecto destacado pela equipe interdisciplinar de pesquisadores é quanto a necessidade de um maior diálogo entre as ciências biológicas (genética, em especial) e as ciências humanas, em torno de complexos temas como cor, raça e ancestralidade.

Autores

O estudo foi feito por sete pesquisadores, três deles da Fundação Oswaldo Cruz: o sociólogo Marcos Chor Maio, da Casa de Oswaldo Cruz, os antropólogos Ricardo Ventura Santos, da Escola Nacional de Saúde Pública, e Simone Monteiro, do Instituto Oswaldo Cruz; os antropólogos Peter Fry, da UFRJ, e José Carlos Rodrigues, da PUC-Rio; além dos geneticistas Luciana Bastos-Rodrigues e Sergio Pena, da UFMG.
A revista Current Anthropology é publicada pela Editora da Universidade de Chicago. O artigo de Ricardo Ventura Santos e colaboradores tem o título “Color, race and genomic ancestry in Brazil: Dialogues between anthropology and genetics” (“Cor, raça e ancestralidade no Brasil: Diálogos entre antropologia e genética”).

22:51 - 25/11/2009
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24 Novembro 2009

O QUE FAZER COM A 'TRADIÇÃO'?



Maior sacrifício de animais do mundo em festa hindu no Nepal

BARIYAPUR, Nepal (AFP) - Quase um milhão de hindus se reuniram nesta terça-feira em um vilarejo do Nepal para assistir o maior sacrifício de animais do mundo, um ritual que termina com a morte de milhares de animais e que é objeto de duras críticas.
Os fiéis chegaram a Bariyapur procedentes de todo o país e até da vizinha Índia (onde muitos estados proíbem o sacrifício de animais), para celebrar a festa de Gadhimai, deusa hindu que simboliza o poder.
Esta festa religiosa, que acontece a cada cinco anos, teve início com o grito de "Viva Gadhimai" da multidão, enquanto o sacerdote do templo do vilarejo sacrificava dois ratos, duas pombas, dois galos, um cordeiro e um porco.
A multidão se reuniu mais tarde em um campo vizinho, no qual 250 homens armados com espadas aguardavam o início do grande sacrifício de quase 20.000 búfalos, levados pelos fiéis para que fossem mortos perto do templo sagrado.
"Todos os que estão aqui hoje para celebrar Gadhimai aguardaram este dia durante um longo tempo. Estou orgulhoso de participar neste acontecimento", declarou à AFP o sacerdote Chaudhary Tharu, cuja família dirige o templo há quatro gerações.
O governo nepalês se negou a acabar com o que considera uma tradição religiosa de vários séculos, apesar da campanha de protestos de organizações de defesa dos animais.
A atriz francesa Brigitte Bardot, que se dedica há mais de 20 anos à proteção dos animais, escreveu recentemente uma carta ao presidente do Nepal para pedir a proibição dos sacrifícios rituais de animais.

22 Novembro 2009

Brasil Negro







Negros, estrangeiros no Brasil

Integração material e simbólica à nação só começa a ser construída a partir da República, frente a uma elite que se pretendia branca

Antonio Sérgio Alfredo Guimarães


Os negros brasileiros têm sofrido, ao longo de nossa história, de estereótipos arrasadores, sendo a eles atribuídos o vício, a brutalidade e a incivilidade. A justificativa para tais acusações variou com a voga intelectual da época: a teologia da descendência pervertida dos filhos de Caim; a teoria científica das raças; a sociologia da escravidão como sistema amoral e brutalizador; a antropologia evolucionista dos povos primitivos; a sociologia da herança da escravidão; o jornalismo da criminalidade urbana etc etc.
O fato é que, no Brasil Colônia e no Brasil Império, não houve lugar para o negro no imaginário nacional português ou brasileiro. País que se queria branco, o Brasil se esforçava para realmente brutalizar os negros que importava da África como escravos e os que aqui nasciam. Sua tarefa, e justificativa moral, era civilizar pela disciplina do trabalho escravo; seu objetivo real era extorquir o máximo possível de trabalho ao menor custo. Poucos descendentes negros se contavam no pequeno espaço social reservado para o exercício da igualdade, da cidadania e da civilidade. Esses poucos, produtos da humanidade que sempre restou em negros e brancos, individualmente. À maioria dos negros ficou reservado o espaço maior da subalternidade, da inferioridade, da violência.
Apenas na República, tardiamente finda a escravidão, a elite se colocou o problema de como integrar simbólica e materialmente os negros à nação. As primeiras soluções foram ridículas e cínicas, como até hoje: as elites se queixavam e se envergonhavam de não contarem com um povo branco e homogêneo como elas. Um povo pervertido pela escravidão, diziam alguns; pela raça, diziam outros; pelo primitivismo cultural, diziam ainda outros. À medida que os discursos se repetem sem dar lugar a ações e se rotinizam, todos, como sempre, fogem de qualquer responsabilidade histórica. A solução que continuamos a tecer foi preservar a dicotomia da ordem social; substituir os negros por uma nova onda de trabalhadores importados, esses livres e brancos; embranquecer a nação pela substituição dos negros e pela mestiçagem sucessiva das gerações futuras.
Só o modernismo, nos anos 30, foi capaz de elaborar uma solução decente, ao menos no plano simbólico da nacionalidade. Depois de 30, a lógica da política republicana com relação à população negra brasileira (de origem africana) passou a ser balizada por três construções simbólicas: o reconhecimento da escravidão como um sistema inumano e aviltante (ao contrário da justificativa monarquista, escravista, da escravidão como tempo da colonização cultural dos negros e índios, ou seja, da sua "domesticação" ou "civilização"); o reconhecimento da dívida cultural que a nação brasileira tem em relação aos negros (tratar o negro como um colonizador, foi uma das maiores inspirações de Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala); a idéia de que enquanto povo, os brasileiros "ultrapassaram" os elementos formadores da nação (os brancos, os negros, os índios - em termos raciais; ou os portugueses, italianos, nagôs, bantos, tupinambás, guaranis etc - em termos nacionais) para se constituir numa meta-raça, num povo, o povo brasileiro. Segundo tal representação, largamente freyriana, nós não temos propriamente uma "raça" - não somos brancos, negros ou índios - mas uma nação: somos um povo mestiço. Qualquer dos três pólos, se reivindicado sem mestiçagem, é estrangeiro à nação.
Os negros e índios, portanto, na política republicana, são apropriados como objetos culturais, símbolos e marcos fundadores de uma civilização brasileira. Mas, esse é o lado perverso, até hoje têm negado o direito a uma existência singular plena como cidadãos. São marcos da fronteira da civilização brasileira, remanescentes dos antepassados que criaram a nação, restos e vestígios das origens. Não são aceitos integralmente como indivíduos portadores de direitos ou coletividades singulares. Deles, os mestiços, em sua vida cotidiana, afastam-se, através de discriminações e formas de inferiorização, como se afastam do passado, ainda que, e talvez por isso mesmo, a eles estejam, simbólica e às vezes socialmente misturados. A recuperação moral dos negros e índios fica, portanto, reservada ao espaço mitológico, interno, largamente discursivo. O Brasil real, do trabalho e das finanças, continua se vendo a partir dos olhos dos brancos estrangeiros: europeus e americanos.
A brasilidade simbólica se manifesta, no campo político, por ofertas igualmente simbólicas em relação às reivindicações do movimento negro (ele mesmo em contradição com tal simbologia, posto que encarna um dos elementos de formação, que não deveria ter encarnação política, mas apenas cultural). Tais ofertas vão desde a incorporação da cultura afro-brasileira à cultura nacional até a incorporação à ordem jurídico-normativa das reivindicações políticas do movimento negro, tais como os princípios constitucionais da não-discriminação e da integração sócio-econômica dos negros. Em 20 de novembro de 1995, no ano do tricentenário de morte de Zumbi, o estado republicano brasileiro, portanto, não teve grandes dificuldades de incorporá-lo ao panteão dos heróis nacionais, e de aceitar o quilombo como símbolo da resistência à escravidão.
Do mesmo modo, do ponto de vista de dotação de poder político, a maior abertura às reivindicações do movimento negro veio na forma da criação de uma fundação, ligada ao Ministério da Cultura: a Fundação Palmares, para tratar da herança cultural negra, em 1988, ano do tricentenário da abolição da escravidão. Do ponto de vista do ordenamento jurídico, a Constituição brasileira de 1988 parece avançar numa direção menos simbólica, através de três medidas: radicaliza o tratamento da discriminação racial, transformando-a em crime imprescritível e inafiançável; cria a figura jurídica dos "remanescentes de quilombos"; abre a possibilidade de ações reparatórias, seja em relação a esses últimos, seja em relação à população negra em geral, ao aceitar a possibilidade de ações afirmativas de reparação das desigualdades raciais. Mas tal ordenamento jurídico, referido ao ordenamento simbólico acima descrito, tem tudo para ficar encapsulado na lógica cultural, se o movimento negro não resistir bravamente, como tem resistido.
Algo, entretanto, está mudando mais radicalmente nos últimos anos. Se DaMatta tem razão, como eu acho que tem, em dizer que a nacionalidade brasileira, enquanto definição de identidade racial, se construiu no último século no espaço de representação demarcado por três pólos raciais - o branco, o negro e o índio -, se distanciando cuidadosamente de cada um deles, ainda que tomando-os por referência, para a definição de uma mestiçagem singular; pois bem, se esse é o modo de definir-se racialmente, esse modo está mudando. Sua crise é visível na busca de identificação a partir da recriação de cada um desses pólos. O branco de classe média busca sua segunda nacionalidade na Europa, nos Estados Unidos ou no Japão - ou cria uma xenofobia regional racializada; o negro constrói uma África imaginária para traçar a sua ascendência, ou busca os Estados Unidos como Meca afro-americana; os índios recriam a sua tribo de origem.
Ainda que tais movimentos centrípetos (de reagrupar-se em torno de um dos pólos) não sejam movimentos de massa, ou seja, movimentos populares, eles são, entretanto, movimentos muito bem vestidos de ideologia e expressos, com crescente aceitação (com exceção da xenofobia racista), pela intelectualidade brasileira e internacional, que tendem a ver o país como uma nação multirracial, ao invés de nação mestiça.
Para o negro brasileiro, o multirracialismo tem uma releitura própria. No plano cultural, significará o direito de não ser absorvido de modo genérico, como "brasileiro", mas ser respeitado como "africano" ou "afro-descendente". Assim, apesar da beleza dessa invenção modernista latino-americana que é a mestiçagem nacional, infelizmente talvez só o cultivo da etnicidade possa dar aos negros a possibilidade de se ver e serem vistos como negros, sem os estereótipos de origem.

Antonio Sérgio Alfredo Guimarães é professor de Sociologia da Universidade de São Paulo

# Índice Idéias Especial De Cabral a Cardoso

20 Novembro 2009

CULTURA MESTIÇA


Derek Walcott defende a cultura mestiça

“Derek Walcott defende a cultura mestiça” é o título da entrevista concedida por Derek Walcott a Guillermo Altares,
do jornal El País, reproduzida, com tradução de Clara Allain, no jornal Folha de São Paulo (Caderno Ilustrada, 29 de junho, 1994. p. 5). O entrevistado é o laureado pelo Nobel de Literatura de 1992. Ele afirma que a riqueza de sua literatura vem da fermentação de idiomas do Caribe, especialmente de sua terra-natal, Castries, capital da ilha de Santa Lucia. Na introdução à entrevista, menciona-se que Derek Walcott, quando do recebimento do prêmio Nobel, era um autor quase desconhecido na Espanha. Pode-se dizer que, em geral, no Brasil também.
Os temas abordados nessa entrevista foram: em Omeros, seu imenso poema de 300 páginas, há uma defesa do Caribe como ponto de fusão de raças e culturas; a segregação racial no Caribe é diferente, pois é como estar num barco, onde é preciso compartilhar tudo que há, não existindo hostilidade entre as diferentes raças; tudo no Caribe é um fermento de idiomas; as consequências do imperialismo são vistas na vida diária dos caribenhos, fazendo com que seja necessário um certo distanciamento para examinar certos aspectos do que chamamos de história; a experiência poética consiste em lutar para encontrar toda a riqueza de uma língua; Omeros não é um livro épico, pois a épica tem a ver com o patriotismo, com um destino religioso, com o militar... e Derek Walcott quis expressar uma gratidão imensa para com as pessoas do lugar de onde veio; para aqueles que chegaram da África, todos os nomes mudaram, e Walcott se questiona se é uma rendição aceitar o novo nome, para o quê responde que não, apesar de ser importante saber o que se era antes e o que se é agora.

Publicado em: novembro 08, 2009

O Conceito de Rede na Filosofia Mestiça



Marcia Oliveira Moraes

Doutora em Psicologia Clínica – PUC/SP
Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da UFF

Publicado em: MORAES, Marcia Oliveira. O conceito de rede na filosofia mestiça. Revista Informare, v. 6, n. 1, p. 12-20, 2000.

Resumo: Esse artigo visa discutir o conceito de rede tanto na filosofia mestiça de M. Serres quanto na antropologia das ciências e das técnicas proposta por Bruno Latour. O conceito de rede é o fio condutor de uma filosofia da ciência – proposta pelos dois autores – que trata a ciência como bricolage, prática díspar e heterogênea.

Palavras-chave: rede, ciências, filosofia das ciências.
Considerações preliminares

Se aceitamos o convite de Latour e analisamos a ciência em ação, aquela praticada pelos cientistas no interior de seus laboratórios, somos conduzidos a um domínio de ação díspar e heterogêneo que não está contido nos estudos epistemológicos sobre a ciência. Porque à epistemologia interessa definir a ciência a partir da sua produção conceitual. E, nesse caso, a análise das ciências se vincula a uma pesquisa no campo do conhecimento. A proposta de Latour, ao contrário, coloca em cena elementos díspares e heterogêneos, tais como um dispositivo experimental, a rivalidade entre um filósofo político e um filósofo experimentalista, enfim, a natureza e a sociedade. Esse procedimento traz para o campo das ciências uma heterogeneidade de elementos e conexões que ultrapassam as delimitações epistemológicas entre o que é da ordem do conhecimento e o que não é. Se do ponto de vista epistemológico a ciência se define pela especificidade de sua produção conceitual, do ponto de vista de sua prática a ciência se define por sua bricolage, isto é, na prática um cientista não cessa de misturar elementos heterogêneos. Como uma das facetas do pensamento moderno, a epistemologia estuda as ciências com a preocupação de estabelecer cortes, rupturas entre o que é científico e o que não é. Em última instância, a epistemologia analisa as ciências tomando como referenciais as noções que orientam o pensamento moderno: sujeito e objeto, natureza e sociedade. Partindo de tais noções, a epistemologia acaba por se deixar guiar por uma crítica das condições de possibilidade do conhecimento científico.
Analisar a ciência em ação nos conduz a um domínio de ação díspar que alarga o foco de investigação. Se a prática científica não se define exclusivamente por sua racionalidade - ou por sua produção conceitual - mas por sua bricolage, então somos levados a perguntar sobre as suas implicações filosóficas. Porque, é certo que uma filosofia fundamentada nos ideais do pensamento crítico ou moderno - ideais de normatização e purificação - não dá conta das ciências; uma filosofia, em suma, de um modo ou outro, comprometida com a tarefa de purificar num fenômeno o que ele tem de puramente objetivo, ou o que ele tem de puramente subjetivo. Estudar a ciência em ação nos leva a um universo filosófico que não se confunde com o paradigma dualista típico do pensamento moderno. Como a ciência em ação se movimenta num mundo cuja realidade é múltipla, um mundo de conexões e elementos díspares, então precisamos buscar uma filosofia que faça da bricolagem, da mistura entre sujeito e objeto o seu ponto de origem. Não se trata mais de uma filosofia que se constitua a partir de uma crítica, de um esclarecimento das condições de possibilidade do conhecimento científico. Trata-se, sim, de uma filosofia mestiça, híbrida que se refere “à análise e à retórica juntas, aos mitos e às religiões, às técnicas e às ciências, ao mestiço incluso.”[1]

O conceito de rede

Do ponto de vista topológico, uma rede é caracterizada por suas conexões, seus pontos de convergência e bifurcação. Ela é uma lógica de conexões, e não de superfícies, definidas por seus agenciamentos internos e não por seus limites externos. Assim, uma rede é uma totalidade aberta capaz de crescer em todos os lados e direções, sendo seu único elemento constitutivo o nó. As redes tecnológicas, como as redes ferroviárias, telefônicas e informáticas são, para Latour[2], apenas um caso particular, um exemplo da noção de rede no sentido ontológico e radical que ele lhe confere.
No sentido que lhe atribui Serres[3], a rede é mais do que um conceito topológico: ela é ontológica. Talvez pudéssemos dizer que Serres expande na direção do real o sentido topológico da noção de rede. Na perspectiva do filósofo, uma rede é formada num dado instante por uma pluralidade de pontos ligados entre si por uma pluralidade de conexões. Por definição, nenhum ponto é privilegiado em relação a outro, o que faz com que uma rede tenha múltiplas entradas. Serres nos faz ver que essa rede irregular, desigual está na gênese das regularidades. Em outras palavras, as chamadas redes regulares marcadas por pontos privilegiados são um caso particular da rede escalena, irregular na qual é possível o máximo de diferenciação interna. Com esse argumento Serres mostra que as oposições binárias, caracterizadas por possuírem apenas duas entradas privilegiadas, são elas próprias efeitos da rede irregular. Tal é o caso do pensamento dialético, uma vez que, segundo Serres, ele é unilinear e caracterizado pela unicidade e simplicidade da via que liga uma tese a uma antítese. O modelo da rede, ao contrário, é marcado pela pluralidade e complexidade das vias mediadoras; não há um caminho logicamente necessário. O modelo tabular da rede toma, portanto, a pluralidade como um substantivo, e não como um atributo, isto é, não se trata de acrescentar um fator de variação e desvio a um campo já marcado por caminhos privilegiados, como aquele da tese e da antítese. Por isso, conclui Serres o modelo da rede “não é, de direito, redutível a um tecido complexo de seqüências dialéticas múltiplas: este tecido é apenas um caso particular”[4]. Uma rede é um campo heterogêneo de tensões que não resultam necessariamente numa síntese enquanto o pensamento dialético é um caso particular da rede: ele reduz a tensão interna que lhe é constitutiva a uma luta contínua, numa direção única e constante.
No espaço irregular das redes, pode-se entretanto, destacar subconjuntos restritos e localmente organizados de tal maneira que os seus elementos se refiram mais a esta parte do que ao conjunto total. Estes conjuntos organizados formam agrupamentos e coexistem com outros agrupamentos do mesmo tipo, havendo entre eles uma forte interferência. A afirmação de que uma rede comporta uma pluralidade de subtotalidades é, para Serres, crucial: “ela dá lugar a uma aproximação mais detalhada, que as vulgares teses do local ou da legislação global, do atomismo epistemológico ou do enciclopedismo dedutivo”[5]. É importante verificarmos que uma rede implica variações, distribuições, desvios ocorrentes ora no espaço, ora no tempo. Seria mais correto afirmarmos, com Serres[6], que uma rede implica uma variação num espaço-tempo. Tomando como exemplo o jogo de xadrez, Serres mostra que, no espaço-tempo do jogo, as duas redes diferentes e diferenciadas que o compõem entram numa transformação, cada uma por si e cada uma segundo a transformação da outra. Na situação do jogo, é possível distinguir dois tipos de situação: as situações subdeterminadas e as situações sobredeterminadas. No espaço-tempo do jogo, “tudo sucede como se houvesse um preenchimento progressivo do conceito de determinação”[7]. As jogadas vão se realizando num gradiente de determinação, mas vale notar que, no modelo de rede, é possível variar o próprio gradiente dessa variação. Isto é, pode-se preencher esse gradiente de modo fulminante, lento, nulo, havendo casos em que se vai de uma indeterminação inicial a outra. “Não é pois tanto a primeira distinção entre dois tipos de situação, preparatória e decisiva, que é interessante, como as múltiplas maneiras pelas quais a situação de um conjunto passa de um a outro (ou por vezes não passa)”[8].
Longe, portanto, de ser indeterminada uma rede é o lugar onde a determinação é construída, negociada, ensaiada. Serres situa a rede numa certa distância tanto em relação a uma filosofia do aleatório quanto em relação a um determinismo unívoco. A primeira trata de afirmar uma pluralidade espacial, uma dispersão aleatória distribuída espacialmente, enquanto o segundo, exemplificado com o pensamento dialético, aceita a transformação desde que reduzida numa seqüência temporal e evolutiva cujo limite é a síntese. Dois extremos de uma cadeia que a noção de rede permite segurar: por um lado, dispersão espacializada; por outro, seqüência temporal sobredeterminada. Uma rede não se reduz nem a uma pura dispersão entre elementos no espaço nem a uma evolução temporal dos acontecimentos. Ao contrário, ela é o lugar de construção simultânea, do espaço e do tempo. No caso do jogo de xadrez, o espaço e o tempo são negociados a cada jogada, da mesma forma que a cada jogada é negociado o grau de determinação das outras jogadas até o xeque-mate sobredeterminado. A rede não é, portanto, indiferenciada, ela é o dinamismo das diferenças; há uma implicação recíproca entre rede e diferença. A rede afirma um real heterogêneo, uma experimentação ontológica. E vale ressaltar que, se a rede é o solo a partir do qual serão construídos o espaço e o tempo, isso não significa estabelecer um construtivismo no sentido kantiano, isto é, que parte de formas a priori para tratar da constituição do fenômeno. Na domínio das redes, construção é sinônimo de ensaio e de experimentação, em suma, a construção como vetor de devir[9].
A noção de rede traz à cena um tipo de causalidade que Serres chama de causalidade semi-cíclica. Como a rede é caracterizada por múltiplas conexões sem haver entre elas uma necessidade lógica, é possível conceber uma causa sem efeito, uma causa perdida, ou mesmo uma causa contemporânea de seus efeitos. A causalidade não é irreversível, ela implica uma retumbância do efeito na causa. Há uma série de perturbações, desvios, retroalimentações que reverberam sobre a causa. Por isso, o filósofo conclui que “esta teoria da causalidade semi-cíclica tem aplicações extremamente numerosas e variadas. Tem a vantagem de aniquilar a irreversibilidade lógica da conseqüência e a irreversibilidade temporal da seqüência: a origem e a recepção são simultaneamente efeito e causa.” (Serres, M. s/d, p.15).
Assim, uma rede se caracteriza por sua heterogeneidade, tem múltiplas entradas, é a multiplicidade substantiva, a determinação é um gradiente, espaço e tempo são efeitos das suas tramas, a causalidade nela é reversível, e ela é caracterizada por subconjuntos restritos marcados por fortes relações de interferência entre eles. Numa palavra, na rede, “a complexidade já não é um obstáculo ao conhecimento, ou, pior, um juízo descritivo, é o melhor dos adjuvantes do saber”[10]. Uma ontologia em rede é o que Serres[11] nos propõe quando fala de uma filosofia das ciências.
As redes que agitam as ciências
Em seus trabalhos, Serres mostra como essa rede agita as ciências, desestabilizando seus domínios, fazendo-as derivar. Com um estilo muito singular[12] - talvez um estilo e uma escrita também em rede - ele descreve as fortunas e desventuras que as ciências humanas sofreram quando foram atravessadas por métodos e questões oriundos de outros domínios. Da história das religiões à lingüística, os objetos de estudo eram submetidos a uma estratégia de investigação que constava de seis pontos principais: “o tratamento por subconjuntos, o evidenciamento de elementos, o reconhecimento de operações simples e gerais, uma álgebra combinatória, a construção de modelos e a demonstração de invariâncias ou de estabilidades pela variação dos modelos”[13]. As ciências humanas estavam implicadas num paradigma cujo sentido geral era o de buscar uma invariância, uma mathesis universalis. O estruturalismo é, para Serres, a transformação desse paradigma num sistema cujo sentido geral é designado por um “conjunto que compreende elementos e [é] munido de uma ou de várias operações, invariantes de modelo a modelo.”[14] Esse paradigma funcionava como fio condutor, que em sua simplicidade, recobria todo o espaço do saber. Por meio desse canal, era criado uma espécie de repertório comum a partir do qual todos os estudiosos em ciências podiam se compreender.
Partindo da noção de rede, a filosofia de Serres constitui-se como uma revisão da modernidade[15]. Serres situa a filosofia centrada na imagem do sujeito legislador, filosofia inaugurada, segundo ele, na era cartesiana, como uma filosofia subjacente e comum ao empreendimento industrial ou à noção de uma ciência desinteressada. Nesse âmbito, a relação da razão com os objetos se resume à dominação e à propriedade. “A palavra-chave de Descartes resume-se na aplicação ao conhecimento científico e às intervenções técnicas do direito de propriedade, individual ou coletivo.”[16] O império dessa filosofia tem como conseqüência a perda do mundo, porque sob o seu império a natureza se reduz à natureza humana, em última instância, à razão humana.[17] Em resumo, a filosofia cartesiana promove o esquecimento do mundo em favor da razão humana. Assim, a concepção de ciência moderna é marcada por um princípio de exclusão do mundo, isto é, o mundo e a natureza são dominados por uma razão que lhe impõe suas leis, suas regras, os seus códigos. No entanto, a partir de dois focos principais, uma grave crise se abate sobre essa concepção de ciência: o primeiro com a termodinâmica e, o segundo, com as reações da natureza às intervenções da razão.
Em primeiro lugar, um imprevisto entrou em cena no século XIX: o calor. A termodinâmica foi certamente apropriada num acordo com o senso comum, o que fazia com que a diferença por ela atestada fosse tomada como uma diferença reduzida, anulada, controlada. Mas Serres resgata o sentido ontológico da noção de calor e considera o fogo como um acontecimento que coloca em evidência a potência da diferença: “o calor modifica as condições da matéria, perturba os edifícios moleculares, pesquisa o interior das coisas e o altera. O calor é anticartesiano e, para dizer tudo, antipositivista...”[18]. Sob o efeito do fogo, as coisas não permanecem intactas. O fogo afirma a transformação do objeto, mais do que o seu deslocamento num espaço homogêneo. A potência do fogo atravessa o saber, agitando-o do interior, afirmando o vigor da diferença. “Do mundo relógio passa-se ao mundo forno”[19]. O real é diferença, e não mecanismo, e o objeto do saber só pode ser entendido por sua multiplicidade, sua variação. As ciências entram em crise, o fogo agita do interior as classificações estabelecidas, as estruturas fechadas, as invariâncias.
Aquele repertório comum fundamentado em invariâncias é colocado em xeque pela prática diária da interferência, dos curtos-circuitos entre subconjuntos restritos. Aqui vale ressaltar que uma rede se caracteriza pela formação de tais subconjuntos locais, relativamente organizados e que mantêm entre si fortes relações de interferência. Essa noção de interferência é, a meu ver, crucial para a filosofia de Serres. Interferência entendida como um lugar de intersecção, de cruzamento e ressonância entre subconjuntos locais. Lugar de intersecção é sinônimo de lugar das mestiçagens. Cada ciência, aparece como um subconjunto em uma rede e, como tal, ela é agitada por práticas de interferências, cruzamentos com outros conjuntos, intersecções, mestiçagens. Cada ciência é atravessada, rasgada por um hibridismo cujo modelo é dado pela noção de rede. Parece-me que o conceito de interferência na filosofia de Serres implica a afirmação de uma mestiçagem sempre em operação no campo das práticas científicas, fazendo-as derivar, bifurcar - termo que, segundo o autor, “quer dizer obrigatoriamente decidir-se por um caminho transversal que conduz a um lugar ignorado.”[20] Enquanto na estratégia estruturalista está em jogo uma busca das invariâncias, na filosofia mestiça o foco das atenções está nas variações, nas bifurcações, na errância que caracterizam não só as ciências humanas, mas as ciências de um modo geral, bem como todas as nossas práticas. Ao falar de um mundo forno, Serres parece resgatar esse sentido de transformação ontológica que define o real. As leis, a cadeia, a ordem são exceções ou antes efeitos da potência do fogo ou, o que dá no mesmo, da potência da rede. É com rigor que Serres afirma a lei[21] como um aniquilamento da diferenciação, uma parada na variação que constitui o real. Isso não significa que se abandonem as leis, mas sim que a previsão baixe até uma relativa imprevisibilidade, ou dito de outro modo, que a previsão seja antes um efeito negociado em rede.

As coisas: A revolução contra-copernicana operada pela filosofia mestiça

Em segundo lugar, um outro evento marca para Serres uma crise nas ciências modernas, centradas no exercício da razão: trata-se da reação da natureza às intervenções e dominações da razão humana. O império da filosofia cartesiana é mais uma vez questionado, porque, nela a natureza é reduzida à natureza humana, à razão. Na perspectiva de Serres, essa filosofia faz com que o mundo seja esquecido em favor da razão e no entanto, o domínio da razão sobre a natureza “cava buracos na vegetação, esburaca a camada de ozônio, expõe o mundo a grandes perigos...”[22] A natureza, até então considerada uma área livre para a expansão e domínio da razão, retorna, impõe questões e exige que um acordo, um contrato seja estabelecido levando em conta tais questões. É o próprio Serres quem afirma que “o aumento dos nossos meios racionais nos leva, numa velocidade difícil de calcular, em direção à destruição do mundo que por um efeito de retorno bastante recente, pode condenar-nos todos juntos, e não mais por localidades, à extinção automática.”[23] É uma reação da natureza impondo uma revisão das nossas políticas e das nossas filosofias.
Partindo dessas considerações, Serres, como Latour, opera uma revolução contra-copernicana quando coloca a hibridação no centro de suas análises. Ele nos convida a voltar às próprias coisas[24] e nós, com cautela e já de sobreaviso - porque outros já nos fizeram esse convite[25] e nos conduziram a uma consciência transcendental -, perguntamo-nos quais são as coisas em questão. Atento, Serres nos adverte que “voltar às próprias coisas [significa voltar] às multiplicidades misturadas, às dispersões, tomando-as como tais (...) Restituir às coisas a totalidade de seus direitos, antes de intervir. Todas as nossas divisões e os nossos cortes, as nossas diferenças, as cadeias, as séries, as seqüências, as conseqüências, os sistemas, as ordens, as formações, as hierarquias e archês, são eleição, poder, arbitrário, o milagre probabilitário do historiador-deus, e devem ser dissolvidos, devem ser fundidos, devem ser misturados, como conjuntos móveis, no fogo an-árquico.” (Serres, M. 1988, p.178-9).
Revolução contra-copernicana operada por Serres: nem o sol, nem a terra se encontram no centro do mundo, mas sim as coisas ontologicamente definidas por sua mistura, sua mestiçagem[26]. “Corpo, músculos, nervos, sentidos e sensibilidade, alma, cérebro e conhecimento, tudo converge para esse lugar mestiço...”[27] Frente a uma filosofia crítica, marcada pelo ideal de purificação, Serres afirma uma filosofia mestiça, marcada por uma prática híbrida. A uma ontologia dualista, dividida entre o sol e a terra, Serres propõe uma ontologia monista da mestiçagem. O lugar mestiço não é, para Serres, um meio-termo entre dois pontos, entre o certo e o errado, o sujeito e o objeto. Ele é, antes, o mundo em torno de nós, é um meio que ocupa a totalidade do volume no qual vivemos. A filosofia de Serres afirma a inclusão do mestiço em nosso mundo, mestiço que fundamenta as nossas práticas, as nossas ciências, o nosso ambiente[28].
O ideal de purificação, ideal moderno, implica a exclusão do lugar mestiço, exclusão que deixa escapar a própria história. Michel Serres[29] mostra que, quando referido às ciências, esse ideal implica uma concepção de conhecimento científico que não se depara com a morte, com a violência. Ele toca nesse tema de diversas maneiras. Numa entrevista ao Jornal Le Monde[30], Serres afirma que Hiroshima foi o ato inaugural que o fez filósofo; a mesma afirmação encontramos na entrevista concedida a Latour[31]. O que significa dizer que a ciência ocidental não se depara com a morte e assim sendo por que falar de Hiroshima? Serres mostra que a história da razão ocidental encontra seu sentido num princípio de exclusão: os ideais de pureza e abstração são os seus fios condutores. A partir desses ideais a razão se constitui de modo repetitivo sempre se deparando com os seus a prioris. Segundo o autor, “o Ocidente começa com o problema do mal e trava contra ele um diálogo e um combate consubstanciais.”[32] A razão kantiana é a esse respeito exemplar. Nesse percurso, a morte, o sofrimento, o mal ficam excluídos em nome de uma atitude crítica que tem como alvo depurar as condições de possibilidade - condições a priori - do conhecimento. O ego transcendental de Kant não conhece o sofrimento. A ciência ocidental se constitui, ela também, a partir da exclusão desse lugar mestiço, híbrido de que falávamos acima. As categorias fundamentais dessa ciência advêm da tentativa de exclusão do mal, da morte, do sofrimento, são categorias tais como pureza, rigor, objetividade. O sentido geral de uma filosofia crítica consiste nesse expurgo, na busca de uma constante, uma invariância que possa se repetir em todo o lugar a despeito de qualquer singularidade, qualquer dor ou sofrimento. Quais as conseqüências dessa exclusão? Certamente ela faz surgir um mundo lateralizado: direita ou esquerda, terra ou sol, sujeito ou objeto, natureza ou sociedade. E, mais do que isso, ela faz surgir a violência, a guerra, a discriminação em nome de uma verdade tomada como única, como homogênea: o império da verdade. Hiroshima é para Serres[33] um dos efeitos da expansão do império do pensamento crítico. Ao falar de sua formação intelectual, Serres diz que cresceu no meio de muitas guerras, guerra Espanhola, Hiroshima, Vietnã, Argélia. Numa guerra, conclui ele, há sofrimentos de ambos os lados, há mortes de ambos os lados. Aqui toda a potência da sua reflexão filosófica é lançada sobre uma análise muito aguda acerca dos dualismos que caracterizam o pensamento crítico e da violência que tais dualismos incitam. Para falar dessa lateralização do mundo Serres conta a seguinte estória: “Um dia, em Veneza, entrando na igreja dos Eslavônios, vi são Jorge matando o dragão. Aquilo me pareceu simbolizar o que eu sempre conhecera. São Jorge estava de um lado, e o dragão do outro, simétricos e absolutamente semelhantes. Sob o peitoral do dragão, sob o ventre do cavalo, havia os membros espalhados de um homem e de uma mulher. Essa era a minha geração; à esquerda e à direita, estavam são Jorge e o dragão, formando um tipo de arco. Foi esta dualidade que nunca pude aceitar. Essa teologia de Deus e de Diabo.” (Serres, M. apud Guillebaud, J-C, 1990, p.187).
Toda a sua filosofia é marcada por essa conclusão e a afirmação da rede, um lugar mestiço, adquire seu pleno sentido frente a ela, uma filosofia cujo princípio não se encontra na purificação, mas na mestiçagem; uma filosofia, portanto, que acolhe a diferença e faz dela o seu objeto; uma filosofia, enfim, cujo lema não é a violência, mas sim a tolerância. “Como adquirir tolerância e não-violência, senão colocando-se no ponto de vista do outro, saber do outro lado?”[34]
A filosofia da ciência é, para Serres, uma reflexão sobre as relações da ciência com a violência. “Desde que nasceu a literatura lamenta a miséria e o sofrimento. A ciência ainda não aprendeu a linguagem desse soluço.”[35] Ao contrário, “nada na ciência ajuda, de fato, a suportar a finitude, nem a pensar a morte das crianças, a injustiça que atinge os inocentes, o triunfo permanente dos violentos, a felicidade fugidia do amor nem a estranheza do sofrimento...”[36] A ciência marcada pelo pensamento crítico, pelos dualismos, por princípios de exclusão e ideais de purificação incita a violência e o terror[37]. Uma crise legítima das ciências consiste precisamente em resgatar o encontro da ciência com o mal, com o sofrimento e a dor, em última instância, o encontro da ciência com o barulho de Hiroshima. Esse é o sentido que Serres atribui ao fogo: fazer arder a ordem, a lei, a invariância fazendo-as descer até “os turbilhões fluidos”[38] que definem o real, até a finitude do homem. Não se trata de afirmar um irracionalismo, mas ao contrário, trata-se de afirmar uma razão instruída com a mestiçagem. Isso significa dizer uma razão tolerante, que acolhe a diferença, que engendra verdades locais, provisórias e temporárias. Ao eu penso do cogito, Serres mistura o eu sofro, e conclui que “não há razão nem proporção sem mistura”[39]. No enfoque do filósofo, Hiroshima é o testemunho de que podemos morrer dos efeitos dos produtos da razão. E mais do que isso, Hiroshima é o testemunho da morte, da finitude do homem no coração da ciência: “átomo e bomba, química e ambiente, genética e bioética.”[40] É o fracasso dos dualismos que opõem razão e objeto. Hiroshima nos apresenta um alerta, uma exigência de prudência da razão e dos seus dualismos.
Partindo dessa análise, Serres nos propõe então uma retenção do pensamento crítico e da violência que ele produz. Uma retenção da razão moderna e de seus dualismos. Como conseqüência dessa retenção, uma verdade não reina sem partilha, um modo de conhecer não se constitui em única solução de acesso ao mundo, um a priori não se repete homogeneamente sobre todo o espaço. Ao contrário, a retenção da razão esposa a diferença ao acolhê-la e faz da racionalidade um efeito temporário, da causalidade uma relação reversível, do tempo e do espaço resultados negociados localmente, da lei um caso particular de uma ontologia de relações variáveis, do pensamento crítico um dos modos de um pensamento mestiço, enfim, a retenção da razão opera uma passagem da violência à tolerância.

Dos dualismos a uma pragmatogonia: considerações finais

Para Latour, Serres apresenta uma genealogia das coisas cujas conseqüências ressoam no domínio das práticas científicas: “a invenção dos fatos não é a descoberta das coisas out there, é uma criação antropológica que redistribui Deus, a vontade, o amor, o ódio, e a justiça.”[41] Serres faz da ciência um ramo do Judiciário quando define a coisa como multiplicidade ontológica, o que significa dizer que um fato não existe isoladamente, ele só existe a partir da rede heterogênea que o sustenta. Na ciência experimental de Boyle, o vácuo como fato só existia na medida em que era produzido e sustentado pela bomba de ar, pela Royal Society, pelos colegas de Boyle; uma rede é o que produz e sustenta um fato científico. Citando Serres, Latour mostra que a palavra coisa tem como origem ou raiz a palavra causa, proveniente da área jurídica. “Como se os objetos em si existissem apenas de acordo com os debates de uma assembléia (...).”[42] Assim, a sociedade moderna não é aquela que, diferentemente de todas as outras, está livre das relações com a religião, com as questões políticas, enfim com o que Serres chamou de mal, sofrimento, morte. Ao contrário, da mesma forma que qualquer outra sociedade, a nossa também redistribui acusações, “substituindo uma causa - judiciária, coletiva, social - por uma causa - científica, não-social, matter of factual - substituindo Ding por Thing.”[43] Em todo caso, uma causa que engendra uma série de substituições, traduções, desvios.
Ao invés de partir de um mundo já dividido entre pólos opostos, a filosofia de Serres, retomada por Latour, coloca em cena as coisas definidas ontologicamente por sua multiplicidade e por seu estatuto de causa. À violência dos cortes, das separações, das rupturas, Serres propõe as substituições que definem uma pragmatogonia, isto é, “uma genealogia da troca de propriedades entre humanos e não-humanos.”[44] Uma genealogia, portanto, das coisas, esses seres híbridos que fundamentam o nosso coletivo[45] e que por seu estatuto de causa redistribuem em última instância natureza e sociedade; genealogia que não procede por metamorfoses, mutações ou dialética, mas antes por substituições e desvios. Na perspectiva de Latour, as ciências nada mais são do que retardatárias nessa longa série de substituições: os fatos científicos são coisas - things - e, do mesmo modo que qualquer outra coisa, em seu estatuto de causa, redefinem a natureza e a sociedade. Foi o que Boyle fez com o vácuo, esse testemunho arrancado de uma pena de galinha inserida no dispositivo da bomba de ar[46]. Com o vácuo, Boyle almejava o fim das guerras civis, questionava o testemunho dos humanos, propunha, enfim, uma sociedade pacificada pela objetividade do fato. Em jogo, uma redistribuição, uma reinvenção da natureza e da sociedade. Tal é o sentido da ciência como rede de atores.

Abstract: This essays aims to discuss the concept of network considering the point of view of M. Serres and the point of view of science and tecnology antropology of Bruno Latour. The concept of network is the conducting wire of a philosophy of science – defended by both authors – that defines science as a bricolage and as an heterogeneous practice.
Bibliografia:

Buydens, M. Sahara. L’Eshetique de Gilles Deleuze. Paris, Vrin, 1990.
Guillebaud, J. C. Michel Serres. Filosofias. Entrevistas do Le Monde. São Paulo, Ed. Ática, pp.178-189, 1990.
Latour, B. Pragmatonies. A Mythical Account of How Humans and Nonhumans Swap Properties. American Behavioral Scientist. Vol. 37, nº 6, pp. 791-806, 1994-a.
Latour, B. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1994-b.
Latour, B. Michel Serres. Eclaircissements. Paris, Ed. François Bourin, 1992.
Latour, B. Postmodern? No, Simply Amodern! Steps Towards an Antropolgy of Science. Studies in History and Philosophy of Science, 21(1), Grã Bretanha, Pergamon Press, pp. 145-71, 1990.
Serres, M. Filosofia Mestiça. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993.
Serres, M. O Contrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991.
Serres, M. As Ciências. In: Le Goff, J. & Nora, P. História. Novas Abordagens. Rio de Janeiro, F. Alves, pp.160-179, 1988.
Serres, M. Estima. In: Grisoni, D. Políticas da Filosofia. Lisboa, Ed.Moraes, pp.81-95, 1977.
Serres, M. A comunicação. Portugal, Rés Editora, s/d.

Notas

[1] Serres, M. 1993, p. 100.
[2] Crawford, H. 1993, p.09.
[3] Serres, M. s/d, p. 07-27. Devo a Anelize Terezinha Araújo a preciosa sugestão da leitura desse trabalho de Serres.
[4] Serres, M. op. cit., p. 09-10.
[5] Serres, M. op. cit., p.12.
[6] Serres, M. op. cit.
[7] Serres, M. op. cit., p.13.
[8] Serres, M. op. cit., p.13.
[9] O conceito de devir é aqui tomado na seguinte acepção: “O devir deve ser considerado nele mesmo como uma prática de aliança e de contágio que se faz segundo sua própria linha ‘entre’ os termos colocados em jogo.” Buydens, M. 1990, p. 50.
[10] Serres, M. s/d, p.15.
[11] Serres, M. 1988, 1977.
[12] Latour tece um comentário muito interessante acerca do estilo dos textos de Serres. Ele afirma que o estilo de Serres é parte de seu próprio argumento filosófico, isto é, a língua é um material no qual ele experimenta os seus argumentos. Assim, a sua escrita é ela também marcada por múltiplas conexões e entradas. Não há em seus textos o apego a uma única metalinguagem, a um referencial único que centralize todas as argumentações. Entendendo o pensamento crítico como aquele marcado por um ideal de purificação que funciona como um centro sobrecodificador de todos os elementos da periferia, Latour afirma o caráter não-crítico da filosofia de Serres, bem como de sua escrita. Não-crítico porque não parte desse centro unificador - seja ele definido como sujeito, objeto, natureza ou sociedade. Ao contrário, trata-se de acompanhar o modo como esses muitos centros são construídos, engendrados a partir de uma rede. Seu estilo de escrita é, pois, uma experimentação dessa ontologia, o que faz com que os seus textos sejam, segundo Latour, mais fáceis de ler do que muitos outros textos porque para lê-los nós não precisamos abandonar o mundo em que vivemos. Cf. Latour, B. 1992, p. 96-7.
[13] Serres, M. 1977, p. 81-2.
[14] Serres, M. op. cit., p. 83.
[15] Serres define a modernidade a partir da seguinte característica: a separação radical entre a razão e o mundo. Mais do que separação, trata-se de uma relação de dominação da primeira sobre a segunda. A modernidade, sob o império da filosofia cartesiana, faz com que “o sujeito do conhecimento e da ação goze de todos os direitos e seus objetos, de nenhum.” Serres, M. 1991, p. 47-8.
[16] Serres, M. 1991, p. 45.
[17] Cf. Serres, M. op. cit., p. 47.
[18] Serres, M. 1988, p. 171.
[19] Serres, M. op. cit., p. 172. Talvez seja possível dizer que o calor é antikantiano uma vez que ele implica uma concepção do real que tem como fio condutor a irredutibilidade de direito das práticas de mediação. O calor não se presta a purificações, ele não aceita ser filtrado em elementos puros. Ele é hibridação.
[20] Serres, M. 1993, p.15.
[21] Serres, M. 1988, p. 176.
[22] Serres, M. 1991, p. 78.
[23] Serres, M. op. cit., p. 24.
[24] Serres, M. 1988, p.178.
[25] Esse é também o convite da fenomenologia husserliana, mas nesse enfoque, voltar às próprias coisas aponta para “o procedimento necessário para que se faça a passagem das ‘representações impróprias’ às ‘representações próprias’ determinadas pela intuitividade e pelo preenchimento”. Trata-se de um retorno “ao conhecimento em sua doação intuitiva (...) O ‘retorno aos objetos’ não é assim senão o retorno aos atos através dos quais se tem um conhecimento dos objetos.” Por isso, na fenomenologia, retornar às coisas é retornar à consciência transcendental. As coisas não se confundem com os objetos, elas são antes os correlatos da consciência. Aqui voltar às próprias coisas é um dos resultados obtidos por um prática de purificação. Cf. Moura, C. A. R. 1989, p. 18-25.
[26] Cf. Serres, M. 1993, p. 47.
[27] Serres, M. op. cit., p. 17.
[28] Cf. Serres, M. op. cit., p. 59.
[29] Serres, M. op. cit., p.82.
[30] Guillebaud, J. C. 1990, p. 186.
[31] Latour, B. 1992, p.29.
[32] Serres, M. 1993, p.82.
[33] Cf. Latour, B. 1992; Serres, M. 1993; Guillebaud, J. C. 1990.
[34] Serres, M. 1993, p. 21.
[35] Serres, M. op. cit., p. 84.
[36] Serres, M. op. cit., p. 83.
[37] Cf. Latour, B. 1992, p.92.
[38] Serres, M. 1993, p. 68.
[39] Serres, M. op. cit., p.140.
[40] Serres, M. 1991, p.108.
[41] Latour, B. op. cit., p.83.
[42] Serres citado por Latour, B. op. cit., p.82.
[43] Latour, B. 1990, p. 163.
[44] Latour, B. 1994-a, p. 794.
[45] Latour utiliza a palavra coletivo para definir a sociedade em termos de uma hibridação entre humanos e não-humanos. O objetivo é marcar o sentido híbrido das relações sociais compostas não apenas das relações entre os homens de um lado e as coisas de outro, mas por conexões heterogêneas, díspares da qual fazem parte humanos e não-humanos. Cf. Latour, B. op. cit., p. 807, nota 5.
[46] Sobre a pena de galinha como testemunho da existência do vácuo, cf Latour, B. 1994-b, pp. 26 e sgts.

18 Novembro 2009

El tango ya es Patrimonio Cultural de la Humanidad


DECLARACION OFICIAL DE LA UNESCO: PRESENTACION DE BUENOS AIRES Y MONTEVIDEO EN LOS EMIRATOS ARABES

Fue el primero de 76 elementos inmateriales del mundo incluidos en una lista que reconoció el organismo de Naciones Unidas. Valora la identidad que les confiere a los habitantes rioplatenses.

El tango ya es Patrimonio Cultural Inmaterial de la Humanidad. Ni Gardel ni Troilo lo hubieran imaginado: la declaración de la UNESCO se hizo en la tierra de los beduinos, ahora convertida en la moderna ciudad de Abu Dhabi. Allí, en la capital de los Emiratos Arabes, el género rioplatense recibió el reconocimiento unánime del Comité Intergubernamental de la UNESCO y se convirtió en el primer elemento inscripto en la lista representativa del patrimonio intangible mundial. Las otras 75 postulaciones, que ya tenían el visto bueno de un comité de expertos, fueron inscriptas en la lista a continuación, incluido el candombe uruguayo. Para celebrar, este fin de semana, habrá milongas populares en Montevideo y en Buenos Aires, donde en San Juan y Boedo actuaran Susana Rinaldi y Rubén Rada.
El anuncio de la declaración del tango fue realizado hacia las 3.30, hora argentina y desató el primer aplauso de la sesión. "Argentina y Uruguay han postulado como patrimonio cultural al tango, un género musical que incluye danza, música, poesía y canto, y que es considerado una de las principales manifestaciones de identidad para los habitantes de la región del Río de la Plata", recordaron las autoridades del comité. "No veo ninguna objeción. Queda aprobado", sentenció Awad Ali Saleh Al Musabi, el emiratí que lo preside, ante los ojos de la prensa de todo el globo, incluyendo a varias periodistas mujeres del mundo árabe, algunas vestidas de negro y con sólo los ojos al descubierto.

En las delegaciones argentina y uruguaya, que propusieron al tango hace exactamente un año, hubo lágrimas. Eduardo Duter, el director de cultura montevideano, leyó un agradecimiento conjunto: "En este momento, una paica y un milonguero se estrechan en un firulete", dijo, ocasionándole algunas dificultades a los atribulados traductores en simultáneo. El ministro de Cultura porteño, Hernán Lombardi, que por los nervios no pudo dormir en toda la noche, recordó la Milonga de los orientales, de Borges: "Milonga para que el tiempo/ vaya borrando fronteras; /por algo tienen los mismos /colores las dos banderas", recitó.
Con ellos estaba el embajador argentino en la UNESCO, el pianista Miguel Angel Estrella, que después confeso su emoción "como argentino, como hombre que ama al Uruguay y como músico. Este es un homenaje tardío para aquella gente muy pobre de los conventillos montevideanos y porteños, que fueron los inventores del tango", afirmó.

Formar parte del Patrimonio Cultural Inmaterial de la Humanidad significa para el tango estar reconocido como uno de los usos, representaciones, conocimientos y técnicas que se transmiten de generación en generación y que le confieren identidad a una comunidad. En términos prácticos, la declaración es una carta de presentación para solicitar fondos de ayuda internacionales. Además, compromete Buenos Aires y Montevideo a realizar con fondos propios las medidas de salvaguarda que propusieron en su presentación conjunta. Entre otras cosas, crear un centro documental del tango, la orquesta de tango binacional Río de La Plata, un programa para entrenar a jóvenes luthiers en la reparación y mantenimiento del bandoneón y un sello discográfico para promover nuevas orquestas.
"En tiempos en que las relaciones de Argentina y Uruguay atravesaron momentos no muy felices, esta presentación conjunta es todo un símbolo", comentó Lombardi. "Ha habido diferencias entre los gobiernos, pero a nivel cultural eso no fue ningún impedimento para trabajar juntos", dijo Duter.

Ambos funcionarios anticiparon que este fin de semana habrá celebraciones en Buenos Aires y en Montevideo (ver Los festejos). Ayer, el comité de la UNESCO también declaró patrimonio intangible a expresiones como el arte Ashiq de Azerbaiján o la opera tibetana de la China.
Aun en este país con una cultura tan distinta, el tango es conocido y hay dos clubes: el Tango Dubai y el Tango Abu Dhabi. Una periodista emiratí, cubierta por un pañuelo negro, confió: "Muchos toman clases de tango en Abu Dhabi. A mí me gustaría aprender, pero no puedo bailar con un hombre".
Mas tarde, en dialogo con Clarín, Awad Ali Saleh, presidente del comité intergubernamental, felicitó a la Argentina: "Esperamos que propongan mas ítems para la lista. Nos complace incluir elementos como el tango", dijo. Vestido con la túnica blanca que usan los habitantes del desierto, se entusiasmó: "Me encanta bailar y creo que podría danzar tango sin problemas". Esta universalidad del tango es la que ayer avaló la UNESCO: ahora es parte del patrimonio cultural inmaterial de la humanidad.

FOTO: A BAILAR LA CALLE. UNA MULTITUD SALE DE HARRODS Y GANA LA CALLE FLORIDA, EN LA GRAN MILONGA DE CIERRE DEL ULTIMO MUNDIAL DE TANGO: AGOSTO FUE EL MES DEDICADO AL GENERO.

Programa Cultura e Pensamento 2009-2010


Inscrições abertas para financiamento de debates e publicações

O Programa Cultura e Pensamento está com inscrições abertas para a terceira edição
das seleções públicas de projetos visando à realização de ciclos de debates e
publicação de periódicos impressos em âmbito nacional. Os editais são voltados a
projetos concebidos por intelectuais, pensadores da cultura, acadêmicos, artistas,
pesquisadores, movimentos sociais e grupos culturais organizados, entre outros
agentes, no intuito de fortalecer espaços públicos para o diálogo e reflexão de
temas relevantes na contemporaneidade. Ao todo, serão destinados mais de R$ 1 milhão
para a realização do Programa. Os formulários, regulamentos e anexos estão
disponíveis no Portal Cultura e Pensamento (www.culturaepensamento.net.br), onde os
interessados podem se inscrever gratuitamente.
O Programa Cultura e Pensamento, desde 2006, destina recursos para apoio a projetos
que desenvolvem o debate crítico por meio de eventos presenciais e publicações,
selecionados por editais. Na primeira edição foram apoiadas 11 iniciativas, e na
segunda, 14, que, no total, receberam quase R$ 2 milhões.
Para ampliar o alcance das ações viabilizadas pelo Programa e favorecer a circulação
das ideias e a continuidade das reflexões propostas, todo o conteúdo produzido –
vídeos, áudios e textos – será disponibilizado gratuitamente no Portal. A página
estabelece uma plataforma digital de difusão de conteúdo e estímulo a interações
entre participantes da Rede Cultura e Pensamento, sejam eles realizadores de
projetos ou público interessado.
As propostas selecionadas serão contratadas para realização em 2010, e os seus
resultados, além da veiculação na web, poderão fazer parte de publicações a serem
amplamente distribuídas pelo Programa.
A edição 2009-2010 do Programa Cultura e Pensamento é uma iniciativa do Ministério
da Cultura, com o patrocínio da Petrobras, realizada em parceria com a Fundação de
Apoio à Pesquisa e Extensão (Fapex) e a Associação dos Amigos da Casa de Rui
Barbosa. Também são parceiros nesta realização o Sesc-SP e a Rede Nacional de Ensino
e Pesquisa (RNP).

Novo formato para seleção de debates

Na edição 2009-2010, o edital de apoio aos debates presenciais disponibilizará até
R$ 90 mil para cada um dos oito projetos vencedores. O processo de seleção
acontecerá em duas etapas, sendo a primeira delas efetuada por meio de formulário
online, no qual o proponente deverá apresentar e justificar sua proposta, sem a
necessidade de detalhamento completo quanto a questões operacionais de execução.
A simplificação dos procedimentos nesta etapa inicial visa à ampliação do número e
da variedade de propostas inscritas, que passarão por uma pré-seleção. Serão
habilitadas para a segunda etapa de seleção as propostas que apresentarem maior
potencial de questionamento e temáticas de maior relevância, de acordo com os
princípios gerais do Programa Cultura e Pensamento e as orientações do regulamento
de inscrição.
Os responsáveis pelas propostas pré-selecionadas realizarão um encontro com a
Comissão de Seleção e a Coordenação do Programa para uma apresentação mais detalhada
e discussão da formatação final do projeto. Após essa reunião, os proponentes terão
um novo prazo para apresentar a versão final de seus projetos, incluindo todo o
detalhamento da execução proposta e a documentação necessária, para que seja
realizada a seleção definitiva e, posteriormente, a contratação do patrocínio.

Publicação de periódicos impressos

O edital de apoio a revistas voltadas para a reflexão crítica sobre a produção
cultural brasileira contemporânea viabilizará quatro projetos editoriais, com o
repasse de R$ 88,8 mil para a edição e a editoração eletrônica do conteúdo de seis
números bimestrais de cada projeto. A impressão e a distribuição nacional de 10.000
exemplares destas edições serão financiadas pelo Programa Cultura e Pensamento.
Esta seleção tem por objetivo estimular a criação e a sustentabilidade de periódicos
de cultura com abrangência nacional, além de promover o mapeamento da produção
cultural contemporânea nas diversas regiões do país. As publicações também poderão
apresentar ao público importantes manifestações da cultura brasileira contemporânea
de forma acessível e didática, fomentando, ao mesmo tempo, o diálogo entre a
produção e a reflexão cultural das diferentes linguagens artísticas e procedências
geográficas.

Inscrições: de 10 de novembro a 17 de janeiro
www.culturaepensamento.net.br

Informações à imprensa: (61) 2024-2407/2405, com Marcelo Lucena e Grazielle Machado,
na Assessoria de Comunicação Social do Ministério da Cultura.