13 agosto 2006

Estudos sobre o Barroco Brasileiro

Dissertação de Mestrado

Festim Barroco

Um estudo sobre o significado cultural da festa de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes em Pernambuco.

Alexandre Fernandes Corrêa

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.
METODOLOGIA.
CAPÍTULO I . Barroco: Os Problemas de um conceito.
CAPíTULO II. As Origens do Culto à Nossa Senhora dos Prazeres.
II.1. As Origens Orientais do Culto.
II.1.1. A Deusa Ishtar dos Babilônios.
II.1.2. A Santa Rainha Ester dos Hebreus.
II.2. As Origens do Culto em Portugal.
II.3. As Origens do Culto no Brasil.
II.3.1. O Sincretismo Afro Brasileiro: Orixás, Obá e Oxum.
CAPÍTULO III. A Etnografia da Festa e da Procissão Religiosa.
III.1. Localização, Aspectos Históricos e Sócio Econômicos.
III.2. A Procissão de Abertura.
III.3. A Festa Religiosa.
CAPÍTULO IV
O Significado Cultural da Festa de N. S. dos Prazeres.
IV.1. A Mitanálise.
IV.2. Mito e Sociedade.
IV.3. Exercício de Mitanálise.
IV.4. Exercício de Mitocrítica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: A Imagem Barroca de ma Civilização Latino-Americana.
BIBLIOGRAFIA
ANEXOS

Epígrafes

“Não adotemos esses espetáculos exclusivos que encerram tristemente um pequeno número de pessoas em um antro escuro; que os mantêm temerosos e imóveis no silêncio e na inércia. (...) Não, povos felizes, não são estas as vossas festas. É preciso reunir vos ao ar livre, sob o céu aberto e entregar vos ao doce sentimento de vossa felicidade. (...) Mas quais serão afinal os objetivos desses espetáculos? O que mostrarão? Nada, se quisermos. Com liberdade, por toda parte onde reinar a afluência o bem estar aí estará reinando. Erigi em meio a uma praça uma estaca coroada de flores, reuni em torno o povo e tereis uma festa. Fazei melhor ainda: transformai eles próprios em atores, fazei com que cada um se veja e se ame nos outros a fim de que todos estejam mais unidos”.

JEAN JACQUES ROUSSEAU, Lettre à d’ Alembert

“Aquele fenômeno social que distingue as civilizações é o fenômeno religioso. É o único que não pode ser imposto por uma elite; é o único que representa diretamente as emoções humanas que é donde a ação nasce; é o único que reúne fortemente as qualidades de ser, ao mesmo tempo que intimamente individual, inteiramente coletivo, abrangendo assim completamente tudo quanto constitui a forma espiritual de determinada civilização”.

FERNANDO PESSOA, 1918

“Diria que barroco é aquele estilo que deliberadamente esgota (ou pretende esgotar) suas possibilidades e faz limite com a própria caricatura. (...) Barroco (baroco) é o nome de um dos modos do silogismo. O século XVIII aplicou o a determinados abusos da arquitetura e da pintura do século XVII. Eu diria que é barroca a fase final de toda arte, quando ela exibe e exaure os seus recursos. O barroquismo é intelectual e Bernard Shaw disse que todo trabalho intelectual é humorístico. Esse humorismo é involuntário (...) ou é voluntário e consentido”

JORGE LUIS BORGES. História Universal da Infâmia (1986, p. XXX)

APRESENTAÇÃO. FESTIM BARROCO

Desde tempos imemoriais, boa parte da humanidade tem se dedicado a cultuar grandes deusas de caráter maternal que no fundo simbolizavam talvez a velha Terra, que nos carrega e amamenta com seus frutos. Numa longa seqüência, que possivelmente inclui a Vênus Calipígia e outras contemporâneas, temos Ishtar, a Rainha Ester, Isis - a Grande Mãe(de "as Brumas de Avalon"). Nos países católicos este culto se reflete nas mil e uma versões de Nossa Senhora, como é o caso brasileiro. Aqui, de norte a sul do país, a maioria das grandes festas populares religiosas homenageia estas deusas mães, sendo que algumas delas estão associadas a também deusas mães de origem africana, como Iemanjá e Oxum. O mais interessante é que, longe de estarem em declínio, tais festas, pelo contrário crescem a cada momento que passa.
O culto público a tais divindades, no Brasil, tem certas características recorrentes. Uma delas é a capacidade que estes eventos possuem de incorporar num mesmo todo, simultaneamente, elementos aparentemente desconexos, seja a nível de dimensões materiais, concretas, seja a nível das representações dos vários grupos aí envolvidos. Temos, então, por exemplo, tanto o "Salve Nossa Senhora Tal", como a saudação em Nagô para a Santa com a qual é associada; tanto o discurso moral-conservador dos padres, como o esfrega-esfrega dos casais de namorados; meninos vestidos de anjo tomando coca-cola: isto é, o antigo e o novo, sem regras aparentes, tudo convivendo lado a lado no mesmo espaço.
Esta mistura de elementos, recortada e caprichosa, policroma e dinâmica, agregando épocas e estilos, é justamente o que caracteriza o barroco, seja na arquitetura, seja na música.
Para Alexandre Corrêa, entretanto, o barroco, como expressão cultural, não se restringe apenas a estes dois campos: revela-se, e de maneira privilegiada, também nestas festas, pois incorporam, tal como na arte, dimensões múltiplas da realidade histórica e social das populações que delas participam. Considerando isto é que assinala a importância de se estudar tais eventos, visto que representam expressões totais da vida destas populações.
Partindo de uma abordagem antropológica, o autor toma como objeto duas festividades: uma, a de Nossa Senhora dos Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, com profundo sentido histórico. Outra, a que ocorre no que ele chama "Bairro-Festa" da Madre de Deus, em São Luis do Maranhão, representativa por ocorrer no locus sentimental-cultural da cidade.
A primeira, que centra o trabalho, adquire importância relevante por envolver um acontecimento crucial na cultura brasileira: o momento em que, derrotando e expulsando os holandeses, o Brasil opta pela cultura latina. A solenidade transcorrem numa área transformada em Parque Nacional e tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico(o que basta para sublinhar o significado do acontecimento), onde o templo religioso ali existente dedicado à Santa, é simultaneamente o monumento que simboliza a vitória. O próprio Exército Brasileiro, que situa seu surgimento exatamente a partir daquelas batalhas, encarrega-se, na data, de apresentar uma dramatização do combate. Diz uma lenda que Nossa Senhora dos Prazeres transformava em bombas as pedras, que em falta de coisa melhor nossos mal-aparelhados combatentes jogavam nos invasores.
Tanta a festa dos Guararapes como as da Madre de Deus são ocasiões, sem dúvida, onde podemos surpreender o tipicamente barroco ao vivo e à cores, ilustrado ainda pelo fato de que ambas as homenageadas são representantes clássicas da Grande Mãe protetora da humanidade.
Escrevendo em estilo claro, sem as não incomuns academicices rançosas que costumam assolar tais trabalhos, Alexandre Corrêa produziu uma obra que sem dúvida atuará como referência para futuras incursões antropológicas no rico terreno das festas populares brasileiras. Portanto, que vale a pena ser lida e consultada.

Norton F. Corrêa.
*Antropologo, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMa. Doutor em Antropologia pela PUC\SP.

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