13 setembro 2006

Artigo Teatro das Memórias Jornal O Estado do Maranhão

TEATRO DAS MEMÓRIAS DE SÃO LUÍS 400 ANOS

A cidade de São Luís, daqui a apenas seis anos, completará 400 anos de existência histórica, atestada em registros e documentos oficiais. São quatro séculos de formação urbana e configuração de uma paisagem humana e natural transformada pela ação de diferentes povos, que não habitavam a ilha do Maranhão. Isso não quer dizer que a ilha não fosse habitada, ou que não houvesse vestígios de qualquer civilização anterior a 1612. Pelo contrário, com a comemoração dos quatro séculos de São Luís não devemos esquecer que a presença humana na ilha do Maranhão (Upaon-Açu) vem de longa data. Ao tomarmos como certa as datações do sítio arqueológico da Serra da Capivara (Piauí), a presença de grupos humanos no Maranhão e na ilha de São Luís, nos reporta, por dedução, provavelmente a milhares de anos.
O teatro das memórias sociais e naturais de São Luís, então não deve deixar de levar em conta o vasto perfil histórico e arqueológico dos povoamentos da ilha. Todos sabemos que ao chegar em Upaon-Açu, nas primeiras décadas de 1610, os europeus (portugueses, espanhóis e franceses) encontraram grupos de Tupinambás que se deslocavam da Bahia e que haviam expulsados os grupos autóctones chamados pejorativamente de Tapuias, em língua Tupi, refugiados no interior do continente. Ao construirmos as comemorações pelos 400 anos de São Luís, não devemos esquecer da complexidade cultural e histórica do processo de povoamento da ilha. No teatro das memórias da São Luís não podemos vacilar e desprezar o jogo complexo do esquecer e do lembrar da sociedade local. Ao investir na história cultural de São Luís, devemos saber cultivar com injustiça a pluralidade dos grupos humanos que contribuíram para sua formação, como, por exemplo, os negros africanos, transportados em séculos de tráfico de escravos, e os sírios e libaneses que desde o começo do século XX migram para o Maranhão.
Chegou a hora – pode-se dizer que com algum atraso – de passarmos a investir na memória social e natural plural da ilha e da cidade. Devemos superar o reducionismo de um investimento restrito que insiste em restringir-se a expressão arquitetônica do patrimônio histórico inscrito na lista da Unesco, em 1997. Ao ficarmos presos a matriz arquitetural, desprezamos as múltiplas determinações da formação humana da cidade. Nas comemorações pelos 400 anos devemos nos preparar para promover e investir na pluralidade e na multiplicidade da expressão cultural e histórica dos diferentes grupos humanos que povoaram e povoam a ilha e a cidade. Porém, não podemos nos restringir apenas a memória social e histórica. Devemos ir mais além, não nos esquecendo da paisagem natural da cidade. É lamentável que ainda não tenhamos um Jardim Botânico, um Jardim Zoológico, um Parque da Cidade! O teatro das memórias de São Luís está mutilado, não está completo. Sem um investimento social e coletivo nas expressões do patrimônio bio-cultural integrado, não se estará contribuindo para o desenvolvimento equilibrado das forças sociais e culturais da ilha e da cidade. É preciso integrar a natureza e o meio ambiente no processo de preservação, ao custo de estarmos promovendo um desenvolvimento unilateral fraturado, pois ao nos fixarmos apenas no cenário arquitetônico estamos contribuindo, como mero álibi, para a destruição da natureza e a perda da pluralidade da diversidade bio-cultural exuberante dessa parte do país, que merece mais atenção e respeito de todos nós e, principalmente, das autoridades estabelecidas.

Prof. Dr. Alexandre Fernandes Corrêa – UFMA – alex@ufma.br
Coordenador do Grupo de Pesquisa Patrimônio e Memória

Veja Notícia - ASCOM/UFMA
http://panaquatira.ufma.br/noticias/noticia.php?id=1334&print=1

Sem comentários: