24 agosto 2007

HENRI-PIERRE JEUDY EM PORTO ALEGRE



A cristalização do tempo
Agosto 22nd, 2007

Autor de publicações sobre arte, comunicação, cultura e estética urbana, Henri-Pierre Jeudy estabeleceu sua palestra sobre o que chama de “metamorfose das cidades”.
Jeudy articulou sua teoria sob Freud e a analogia com a cidade de Roma. A relação construída pelo psicanalista austríaco explicava sua definição do inconsciente humano, na medida em que a capital italiana é uma superposição de vestígios históricos das mais diferentes épocas, que se manifestam ao mesmo tempo. Reflexo de um imaginário ― de arquitetos, políticos e até dos próprios cidadãos ― ainda em construção, a cidade sofre esta constante atualização que, de acordo com Jeudy, nunca pára.
A crítica do sociólogo começa na tentativa da cristalização desta metamorfose ― por parte de quem organiza os projetos e de quem os encomenda. Enquanto os arquitetos se preocupam com a inscrição de suas criações no tempo, os políticos erguem cidades como impérios de poder, argumenta Jeudy, pois não raramente a força do político é lembrada pela obras construídas ao longo dos mandatos. O meio em que o indivíduo vive se torna uma imposição: “Quem tem poder para decidir qual forma uma cidade deve ter?”, questiona.
Mais do que um método de conservação, esta patrimonialização da urbe é uma gestão da memória coletiva, que tenta ordenar objetivamente a liberdade e o elemento enigmático de uma sociedade que se interroga sobre o passado e o futuro continuamente. A cristalização da arquitetura a fim de preservar os cidadãos da angústia de um futuro incerto é ineficaz, pois não é possível poupar a cidade dos eventos que a abalam, justifica Jeudy. De ataques terroristas a catástrofes climáticas, os habitantes da urbe necessitam do desafio existente na alternância entre a destruição e reconstrução de suas cidades.
Destes eventos caóticos, multiplicam-se os memoriais em homenagem às centenas de mortos que geralmente ocasionam. O hábito de retirar um pedaço do muro de Berlim como lembrança da cidade e o projeto “topografia do terror”, prédios no centro da capital alemã, onde ficavam as centrais da Gestapo, que atualmente expõem métodos de tortura nazistas são exemplos do impacto que a preservação dos símbolos históricos possui, de tal forma que o sentimento da separação, do sofrimento e da morte, ainda muito forte no país, seguirá até as próximas gerações, defende o pensador francês.
Estes memoriais ― uma tentativa de reparar o dano emocional dos acontecimentos fatais ― acabam por cristalizar justamente a sensação da morte. Para concluir, Henri-Pierre Jeudy adverte para um perigoso paradoxo, pois a obsessão pela patrimonialização, que existe com o intuito de conservar a vida passada pode vir a ter um efeito oposto e petrificar a própria morte.

Entrevista de Henri-Pierre Jeudy

Transcrição literal da entrevista de Henri-Pierre Jeudy, sociólogo francês
Publicada no jornal Zero Hora, caderno Cultura, 18 ago.2007, p.8 [Porto Alegre]

[ilustra página foto tradicional, com a seguinte legenda: Centros históricos como o Pelourinho, em Salvador, na Bahia, são o exemplo daquilo que critica Henri-Pierre Jeudy: a cidade virou um museu]

Promete polêmica a próxima conferência do ciclo Fronteiras do Pensamento, terça, às 20h, no Salão de Atos da PUCRS, em Porto Alegre. O sociólogo francês Henri-Pierre Jeudy vai apresentar uma série de idéias singulares sobre a conservação do patrimônio histórico. Professor da Escola de Arquitetura de Paris-Villemin, autor de vários livros (alguns deles disponíveis em português, como A Ironia da Comunicação), Jeudy é radicalmente contra as políticas de preservação de prédios e centros históricos. Argumenta ele que isso é uma imposição autoritária à memória coletiva, "uma tirania", sublinha. Jeudy elogia as comunidades que não se preocupam com isso, mas não chega a propor que se coloque tudo abaixo. Vê com entusiasmo, por exemplo, o que se faz hoje em Berlim, onde arquitetos contemporâneos interferem em prédios antigos. A conferência será acompanhada pela exibição de um vídeo com a fala do pensador norte-americano Marshall Berman. Por problemas de saúde, o autor de Tudo que É Sólido Desmancha no Ar, que deveria dividir a noite com Jeudy, foi desaconselhado a enfrentar a viagem.

Cultura – Em diferentes livros e ensaios, o senhor procura denunciar uma certa espetacularização dos centros históricos nas cidades contemporâneas, aquilo que o senhor chama de patrimonialismo. Prédios e áreas históricas são negados à população e oferecidos ao deleite dos turistas. Qual é na sua opinião a questão mais grave desse processo?

Henri-Pierre Jeudy – Na minha opinião, a questão mais grave é que todos os territórios, em nível mundial, vão acabar sendo patrimonializados. Há um espírito de patrimonialização, hoje, difundindo a idéia de que a única solução possível passa pela conservação. Essa, dizem, seria a única forma de sobrevivência das culturas. Para mim, essa patrimonialização significa a morte das culturas.

Cultura – O senhor fala de morte das culturas no sentido de que as culturas correriam o risco, com o movimento de conservação, de virar peça de museu?

Jeudy – É isso. O mundo pode se transformar em um museu gigantesco.

Cultura – O senhor conhece bem o caso brasileiro em termos de políticas de conservação do patrimônio. Talvez uma cidade como Salvador, em que o Pelourinho foi transformado em centro histórico-cultural mas expulsou boa parte das comunidades que viviam lá, corresponda àquilo que o senhor chama de patrimonialização. Mas não há, no país, o caso mais grave de áreas e prédios históricos sendo destruídos. Há lugares em que não se tem nenhuma consciência pela preservação. Isso não é pior?

Jeudy – Eu acho que não. Quem pensa que é pior já está no espírito de patrimonialização. Ao contrário, o fato de haver lugares e comunidades que não se preocupam com a conservação é um signo de liberdade. É um modo de resistência à captura das culturas, à captura museográfica das culturas.

Cultura – Mas, sem o movimento de preservação do patrimônio, o que vai restar da memória das cidades?

Jeudy – Para mim, há uma diferença total entre memória e patrimônio. Patrimônio é um modo de gerir a memória. A memória pode sobreviver sem uma concepção patrimonial. A memória coletiva é algo muito livre, ela não está subordinada à conservação museográfica.

Cultura – O senhor é contra a idéia de preservar a memória?

Jeudy – Preservar memória, para mim, é uma aberração. A memória se preserva ela mesma. O que passa ao esquecimento é o que passa ao esquecimento. Preservar memória traz a idéia de que se vai gerir a memória. Que direito, hoje, se pode ter sobre a memória coletiva?

Cultura – Em sua concepção, não deveriam ser preservados nem mesmo os chamados centros históricos das cidades tidas como históricas?

Jeudy – A conservação desses lugares já se faz hoje quase como um automatismo. Mas a memória coletiva não entra somente em uma inscrição sistemática nos lugares históricos. A História que pertence à memória coletiva está sujeita sempre a novas interpretações. Se ela for determinada apenas pelos centros históricos, teremos um sentido único. Ora, a memória coletiva oferece interpretações muito mais variáveis. A memória coletiva exprime uma liberdade de culturas, uma liberdade total.

Cultura – O senhor acredita em alguma política governamental em relação a casas e prédios antigos nas cidades?

Jeudy – Não acredito em nenhuma. Acho que os governos que geram os lugares históricos não prestam um serviço à memória coletiva. Para mim, é uma tirania sobre a memória coletiva, esse caminho da monumentalização. Tudo vira monumento.

Cultura – Qual seria, em sua análise, a situação ideal nesse tema do patrimônio?

Jeudy – Não posso saber o que seria o ideal. Sei que, hoje, há um excesso da conservação patrimonial. Ela pode provocar uma saturação. Nesse sentido, ela permite acreditar em uma alternativa: uma mentalidade baseada na memória coletiva, que não pode aceitar ser prisioneira da conservação monumental.

Cultura – O que, em sua opinião, estaria na base desse movimento de conservação de patrimônio?

Jeudy – A origem está em uma angústia coletiva sobre o que seria o futuro das sociedades de hoje. Temos medo do futuro, temos medo do que está por vir, há uma série de incertezas sobre o futuro do homem e do planeta. Nesse sentido, o princípio da conservação patrimonial é um princípio terapêutico. É uma tentativa de se voltar ao passado, de dizer que o passado ainda está presente.


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