04 novembro 2007

II FÓRUM TEMÁTICO PAISAGEM E CULTURA




II FÓRUM TEMÁTICO PAISAGEM E CULTURA:
Dinâmicas do Patrimônio e da Memória na Atualidade
5 a 7 de dezembro de 2007


16:30–18:30h Mesa-redonda: Paisagens, Patrimônios e Dinâmicas da Memória

O COMPLEXO DE DÉDALO EM PERSPECTIVA: dinâmicas das paisagens, dos patrimônios e das memórias na atualidade.

Resumo
Breve artigo analisando o ‘complexo de Dédalo’, num paralelo com a mitologia Grega, para se interpretar as ‘encruzilhadas do labirinto’ das políticas do patrimônio e da memória na atualidade. O foco da análise recai especialmente para as recentes dinâmicas de aceleração dos processos de ‘turistificação’ e ‘gentrificação’ da paisagem urbana dos Centros Antigos das metrópoles brasileiras.

Palavras-chave: Patrimônio – Memória – Paisagem – Urbanismo – Turismo


Por
Alexandre Fernandes Corrêa (UFMA)


Vou apresentar nessa Mesa-Redonda algumas idéias heterodoxas que tenho elaborado a partir de minhas experiências com pesquisa-ação e ação cultural nos bairros que compõem o Centro Antigo de São Luís, desde o final da década de 1990. Nestas experiências em pesquisa e extensão universitária tenho observado processos metamórficos que oferecem sinais significativos dos processos profundos de mudança que ocorrem atualmente no imaginário social brasileiro, em relação a gestão das paisagens culturais urbanas e das memórias sociais.
Apoiado nas intervenções críticas de Castoriadis, especialmente na série de textos designados Encruzilhadas do Labirinto, vou trabalhar provisoriamente com a expressão ‘Complexo de Dédalo’, para tentar interpretar o conjunto de fenômenos que observo se sedimentar no quadro empírico referido acima.
Trata-se de um estudo sobre os processos sócio-culturais que identifico desenvolverem-se, através de vultosos investimentos coletivos, nos centros urbanos antigos e nos diversos acervos patrimoniais e museológicos contemporâneos. Nestes cenários privilegiados vemos encenarem-se forças poderosas que agenciam todo um conjunto de equipamentos que compõem as paisagens culturais urbanas dos Centros Antigos das metrópoles brasileiras. São novos agenciamentos coletivos, manifestos cenograficamente, e que surgem como um novo ‘brinquedo’ nas mãos de arquitetos e engenheiros: combinando novos e velhos tecnocratas especialistas do patrimônio histórico e cultural.
Trata-se de uma construção histórica cada vez mais sofisticada. Mas também é uma construção política que tem nos conduzido ao mais fantasmagórico dos labirintos da modernidade. Labirinto urbano, que atravessou o milênio, deixando como herança à sociedade cada vez atônita, uma fantasmagoria certamente desconcertante.
A natureza dessa fantasmagoria se funda no desenraizamento evidente que se manifesta na engenhosidade estetizada, nas artificialidades fabricadas (ou autenticidades encenadas ) pelos projetos arquitetônicos, e de engenharia cultural, que se distanciaram e romperam os laços da sociabilidade básica e fundamental, ainda resistentes nesses Centros Urbanos Antigos. São ‘Projetos de Intervenção Tecnocrática’ que se distanciam cada vez mais do cotidiano e da vivência social mais concreta. Mas, é preciso que se descreva particularidades desta outra realidade, para que se possa fazer toda justiça. Os arquitetos, engenheiros e tecnocratas do patrimônio surgem como sintomas tardios numa sociedade em crise, crise da sociabilidade artificializada num complexo sócio-cultural que se impõem de modo inédito e sem precedentes. O “fim do social”, enfocado por vários sociólogos contemporâneos, entre os quais cito Jean Baudrillard, se cristaliza nessas “memórias do social” que vemos engendrarem-se como paródias, sinais de uma irrisão tardia. Ironicamente, é no momento que se tenta salvaguardar, com esforços concentrados com apelos sentimentais apoiados uma retórica romântica e nostálgica, muito sedutora e super-elitizada, que vemos manifestar-se o sintoma de uma falência, a falência da sociabilidade numa sociedade cada vez mais individualista e anti-social.
Esse processo se encaixa como uma luva, especialmente no nosso contexto sul-americano. Contexto sócio-cultural em que a sociabilidade mais cotidiana, a sociabilidade da cultura popular resistente e viva, sempre foi um grande estorvo para os arquitetos, engenheiros e tecnocratas da elite. Estorvo, pois, esses vestígios e traços da vivência cultural popular atrapalhavam, e ainda atrapalham, o jogo de ‘brincar’ e ‘experimentar’ seus projetos ‘fetichizados’ de intervenção, no que poderíamos chamar aqui novos parques do ‘admirável mundo novo’ do passado tornado mercadoria turística. Os processos de ‘gentrification’ que se observam desenvolver pelo país a fora, replicando aqui o que ocorre em vários países ocidentais, é reflexo desse processo de intensificação da ‘marginalização’, sem precedentes, dos grupos dos imigrantes, desempregados, excluídos e de todas as minorias que ainda ocupam os Centros Antigos das grandes cidades brasileiras. Isso se faz hoje com o acordo unânime de todos, acadêmicos e cidadãos, que chancelam a ‘ideologia’ da ‘turistificação’ , com a esperança de que haverá enfim a redenção econômica do país, com as promessas de desenvolvimento capitaneado pela chamada ‘indústria limpa e sanitária do turismo sustentável’ – ideologia poderosa que merece ser analisada criticamente, superando este estado hipnótico em que nos encontramos aprisionados: políticos, comunidades, especialistas, profissionais, professores, universitários, etc. De tal sorte que criticar essa ‘ideologia’ é ser considerado um tipo de ‘pessimista’ incurável, um derrotista, um ‘idiota’ crítico, que não admira as maravilhas que o turismo pode oferecer para o país e, especialmente, para as regiões mais pobres do país que possuem acervos paisagísticos bioculturais com ‘grande potencial’ turístico...
Contudo, é evidente que mesmo gozando de forte apelo comercial e empresarial, esse modelo está em crise, esgota-se a passos largos, pois as contradições são cada vez mais presentes, assim como densas, tensas e eloqüentes. É certo também que assistimos e testemunhamos metamorfoses e avatares de um modelo já bastante conhecido, que se reconhece apenas na sua atual fase como uma momentânea e passageira teatralização sanitária e higienizadora, que aglomera e condensa como uma onda, uma moda fugaz de consumo passadista chique, em templos consumistas simulados e com referências e citações refinadas e estetizadas do ‘passado’.
Mas, essa onda modista nostálgica, tem deixado um rastro fantasmagórico cada vez mais curioso. Antes de se esgotar totalmente, pretende deixar seus ‘fósseis’ tombados e inscritos nas paisagens urbanas das cidades, aspirando uma ‘eternidade’ sacralizada, como prenúncio de um fim heróico e glorioso, mas profundamente decadente. É sim, uma inscrição do imaginário de uma classe social que se vê desmoronando junto com o modelo e uma visão de mundo específica, em que seu predomínio, em mais de um século de intervenções arbitrárias e autoritárias, nas cidades brasileiras, finalmente parece anunciar seu fim.
É preciso contextualizar esse processo, pois isso não se dá fragmentariamente, como preconizam os profetas e poetas do fragmento, trata-se de uma ‘imaginação de classe’, uma cenologia-de-classe imposta por um tipo de subjetividade de classe particular. As classes médias e altas estão sempre ávidas por novos espaços nas cidades, querem novos símbolos descartáveis para consumir, e para aplacar o vazio de um consumismo passivo e alienante. Mas logo desaparecem do cenário criado para eles, e volta a ser encenada a decadência e a desvalorização imobiliária do lugar, e de novo voltam os grupos sociais e culturais expulsos do lugar, recolhendo os pedaços do que sobrou do consumo passivo e passageiro.
Esse processo é desencantador, crítico e preocupante. Poucas vozes se levantam contra esse estado de coisas, poucos hoje ousam apontar para os vícios desse ciclo. Nesse trajeto repetitivo e labiríntico, os tecnocratas, os arquitetos e os engenheiros, com fobia do social e do que eles chamam de ‘intelectualismo inútil’, continuam a não dar ouvidos à crítica. Todavia, sempre chega a hora de se assumir as responsabilidades sociais e políticas pelas escolhas mal sucedidas. Destarte, é preciso mudar essa matriz de atuação alienante, reducionista, classista e anti-democrática. Os Centros Urbanos Antigos devem ser para todos os cidadãos, não só para turistas, nem só para as pessoas das classes médias e altas, devem manter-se espaços de encontro dos diferentes segmentos culturais e econômicos da sociedade. Evitando assim a expressão neurótica de um falso amor pelo passado, apontado por Lévi-Strauss na obra Antropologia Estrutural II: “ (...) que o amor pelo passado é uma mentira nas cidades que, para satisfazer a sua necessidade de crescer, massacram todos os vestígios do que foram e do que as fez (...)” (1976, p. 291).
Em traços largos esse é o escopo do campo de problematizações que esse artigo tenta contemplar. Vamos introduzir alguns temas teóricos para balizar a reflexão crítica e por fim, sugerir algumas saídas para esse labirinto de Dédalo.

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