01 dezembro 2007

“A NOSTALGIA PÓS-MODERNA”

IV JORNADA MARANHENSE DE SOCIOLOGIA

MESA 3: Novas Sociabilidades e Urbanidades Contemporâneas.
Coordenação: Prof. Dr. José Odval Alcântara Jr. (UFMA)
Participantes: Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho (PUC/SP); Profa. Dra. Cristina Bunn (UFMA); Prof. Dr. Alexandre Corrêa (UFMA)

Texto base da apresentação:

SOCIEDADE EM TRANSE: Reflexões num tempo de Transformações.

Por Alexandre Fernandes Corrêa (UFMA)


“A Nostalgia Pós-Moderna”



No texto de justificativa para a realização desse evento, apresentamos um cenário contemporâneo desafiador. Apontamos para o fato de que a sociedade contemporânea passa por transformações sócio-culturais sem precedentes na história. Lembramos ainda que a sociologia nasceu sob a força dos primeiros impactos dos estágios iniciais de industrialização e urbanização inaugurados no início do século XVII, instituindo-se como disciplina acadêmica nos fins do século XIX. Como sabemos, com a aurora do século XXI, torna-se necessário refletir criticamente sobre os cânones da disciplina buscando novos parâmetros teóricos que dêem conta do ‘admirável mundo novo’ que se descortina aos nossos olhos.
Quais as contribuições teóricas que a Sociologia pode oferecer para que possamos ter mais lucidez diante dos novos enfrentamentos civilizacionais em meio urbano? Certamente as questões ligadas a Cultura Urbana é um dos grandes temas pungentes que marcam uma nova agenda para o pensamento sociológico contemporâneo.
Esse é o panorama sócio-cultural e econômico que fomos convidados a refletir e a compreender. São os novos desafios que a Sociologia e as Ciências Sociais em geral têm que enfrentar na configuração contemporânea do sistema mundo capitalista. E aqui nessa intervenção vou traçar alguns pontos relativos a sociabilidade atual em meio urbano, especialmente ao aspecto que mais me interessa como pesquisador, que é a atual atração fetichista pelo passado. Através desse enfoque podemos analisar umas das metamorfoses mais interessantes nesse momento de transformações, que são as novas formações subjetivas em contexto urbano no jogo dialético entre o “passado e o futuro”.

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É nesse contexto e panorama de transformações sócio-culturais vertiginosas que apresento algumas notas e esboços sobre minhas pesquisas acerca das políticas do patrimônio e da memória social nas cidades e núcleos urbanos antigos, na contemporaneidade.
O cenário atual é de aceleração técno-científica, sem precedentes na história, como já apontamos. Esse é o ponto de partida das idéias aqui colocadas. Somos testemunhas e atores numa sociedade em que no palco da vida social cotidiana encenam-se jogos conflituosos de traços sócio-culturais marcantes. Identificamos um quadro particular em que se destacam: excesso de mercadorias, consumo alucinatório e um individualismo altamente exacerbado, além de outros traços semiológicos importantes, a serem sublinhados no decorrer dessa apresentação.
Nesse quadro civilizatório destaca-se de modo significativo um traço psico-cultural preocupante. Recentemente esse quadro foi configurado causticamente, pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek, como de uma paisagem em que “nos arrastamos como zumbis pós-modernos”. Parodiando um dos seus livros mais famosos, podemos dizer que esse quadro exemplifica muito bem a frase “eles não sabem o que estão fazendo” (eles somos nós), Isso parece certo; como o tempo e a velocidade das transformações são alucinantes e transtornantes, não há tempo para reflexão e elaboração dos processos psico-sociais subjacentes. Walter Benjamin já identificava esse fenômeno quando lembrava, apoiado em K. Marx, que a velocidade das transformações na base tecnológica e econômica das sociedades é maior que o tempo das transformações morais, psicológicas e culturais. É o que estamos vivendo: esse é o nosso ‘transe’!
Parece que o filósofo F. Nietzsche também tinha razão ao apontar para o nihiilismo europeu e ocidental que via emergir no horizonte histórico.
H. Arendt apontou esse fenômeno identificando, desde o fim da II Guerra Mundial, a crise da cultura no mundo ocidental, e o que chamou de ‘quebra’ ou ‘fratura’ da mente, que não conseguia mais pensar as contingências do mundo atual, já que a Tradição se perdeu definitivamente.
É nesse cenário, pintado aqui grosso modo, em pinceladas ligeiras, que vemos emergir e se erguer as chamadas ‘novas sociabilidades’ ou ‘novas formações subjetivas’. O curioso é que nos enganamos muito com o termo ‘novo’, pois essas transformações não indicam uma ‘novidade’ faústica, pois não refletem necessariamente melhoras progressivas, como acreditavam os iluministas, os evolucionistas clássicos ou os progressistas atuais. Essas ‘novas sociabilidades’ trazem muitas preocupações, pois são fruto de vários níveis de desordem (Balandier) e de anomia (Durkheim). São sinais ou sintomas de agudo transtorno psico-social e coletivo.
O que vemos no dia-a-dia é o que Castoriadis designou de ‘ascenção da insignificância’, qual seja: violência irracional, síndromes, pânicos, depressões, sensação de vazio (que se choca com o excesso de tudo), variadas ofertas de ‘novas’ drogas sintéticas, estetização exagerada dos corpos, etc. Esse cenário foi caracterizado por Gilles Lipovetski, como a ‘Era do Vazio’.

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Ao desenhar e esboçar os traços marcantes de nossa atualidade, gostaria de chamar a atenção dos presentes aqui, para o fato de que esse quadro sócio-cultural apresenta peculiaridades locais muito interessantes, que dialetizam e nos fazem pensar em coisas importantes. Esse cenário é bom para pensar...
Essas particularidades locais do processo atual não garantem, também é certo, a existência de produções singulares poderosas, que possam resistir frente aos confrontos globais hegemônicos. Mas, podem contribuir para nós compreendermos melhor os traços das metamorfoses e dos avatares das formações subjetivas que se configuram atualmente.
Quero, então, destacar o traço da ‘nostalgia’, que também é tema de análise de diversos autores, desde Walter Benjamin, até Henri-Pierre Jeudy, mais recentemente. A ‘nostalgia’ é um sentimento eminentemente europeu, mas tem uma dialética que se manifesta de modo curioso em nosso contexto cultural latino-americano.
Observamos no desenho feito no início dessa apresentação que o cenário atual é de desconfiança e incerteza em relação ao futuro: há uma crise do futuro, em contexto mundial - o 'futuro está doente!'. Crise ecológica, crise energética, crise de governabilidade, etc. Soma-se a isso o que foi enfatizado na conferência do Prof. Edgard de Assis Carvalho, chamando nossa atenção para a fragmentação acentuada do conhecimento, que não oferece condições de se pensar estas transformações, sem que haja uma religação dos saberes e uma ‘reforma do pensamento’, como Edgar Morin indicou no livro Terra Pátria (1995).
Resulta disso um forte reforço na atualidade do ‘nostalgismo passadista’, que se expressa na atração estetizada pelo ‘mundo do passado’, transformado pelo crescente sentimento de estranheza, em ‘alteridade’ radical. O ‘passado’ transformou-se num ‘país estrangeiro’, como apontou Marshall Sahlins recentemente.
Percebe-se assim, a excessiva e obsessiva fixação patrimonialista na cena do passado. Estamos criando verdadeiros tabus em relação aos centros urbanos, de modo que passamos da fúria contra o passado considerado anteriormente como signo do atraso, para a exaltação exagerada do antigo, a ponto de produzirmos coletivamente um processo de ‘fossilização’ dos objetos que estão em acelerado movimento de obsolescência. Esse é um traço dominante, a vertigem das transformações, produz na subjetividade, dita pós-modernista (aquela que não acredita mais no otimismo modernista), um sentimento nostálgico e passadista. O discurso patrimonialista atual é o sintoma disso – ninguém hoje tem a coragem de fazer um discurso contra a preservação de qualquer bem ou acervo do passado, apesar de não fazer nada para salva-lo. Como aponta W. Benjamin, parece que nossa atração é pelas ‘ruínas’, pelo ‘arruinamento’ e desmoronamento...
Mas, esse sentimento e agenciamento coletivo do desejo e gozo recente pelo passado, é um traço que se expande e se difunde mundialmente, supostamente como uma reação conservadora e identitária, como aponta Canclini, aos impactos poderosos da ‘globalização’.
Todavia, me parece que o interessante aqui não é ficar restrito a repetir os autores consagrados, que caracterizam, muito melhor do que eu, esse cenário contemporâneo. O importante aqui é tomar o vosso tempo, nessa audiência, para refletir sobre como esse processo mundial-global nos afeta particularmente.
Aqui começo a fazer o desfecho dessa apresentação.
Lévi-Strauss em Antropologia Estrutural II detecta o que chamou de falso ‘amor pelo passado’ nas cidades que destroem a natureza e a ecologia; e que transformam em álibi da destruição, a construção de Centros e Casas de Cultura e Museus de Tudo. Essa excessiva exaltação do investimento partrimonialista, em detrimento de uma política de gerenciamento público do teatro das memórias sociais, é uma estratégia tecnocrática. Os especialistas do patrimônio ‘surfando’ na onda passadista atual, em que o conformismo hegemônico torna inquestionável a sacralidade do passado – e aproveitando o momento a-crítico e o silêncio dos intelectuais e pesquisadores – esses especialistas e tecnocratas do patrimônio investem e reproduzem esse falso ‘amor romântico’ pelo passado na sociedade em transe, que vive a crise do futuro.
Esse quadro sócio-cultural adquire coloridos locais particulares quando observamos que com ele vem se aprofundar a nossa visão de que essa política do patrimônio se baseia numa estrutura de sentimento muito antiga, que agora está potencializado. Trata-se de um ‘sentimento tipicamente português’ enraizado em nosso cultura, qual seja: a ‘saudade do passado’. Ao invés de nos arriscarmos a pensar em novas saídas para os dilemas labirínticos da alta modernidade, ou hiper-modernidade, vemos se manifestar e cristalizar uma regressão coletiva a um sentimento arcaico de nossa formação sócio-cultural. Vemos de difundir o ‘ânimo do desencanto’ em relação ao que está porvir, e nos entregamos ao culto ‘nostálgico’ de um passado fetichizado. Culto nostálgico ritualizado de modo a-crítico, que cultua não ‘o passado’, mas o ‘passado’ sanitarizado, turistificado, tornado mercadoria: a mais nova mercadoria da ‘virada cultural do capital’ (F. Jameson).
Ao menos se soubéssemos invocar a poesia, quem sabe poderíamos elaborar melhor esse jogo de imagens dialéticas que nos tocam atualmente, num cenário urbano vertiginoso. Refiro-me a poesia, por exemplo, de um grande português. Em versos em que vemos se expressar o mundo fantástico, e não nostálgico, de Fernando Pessoa, que lapidou: “saudade imensa de um futuro melhor”, poderíamos, assim, quem sabe, vislumbrar veredas mais fecundas para essa repetição estéril de um passado que nunca existiu.
Arrisco, então, uma tese ético-política: precisamos de mais poesia e menos tecnocracia; mais invenção, menos cópia e menos repetição do passado.
O tema da preservação de Centros Urbanos Antigos nos faz reforçar a idéia de que não se pode ter a pretensão de oferecer, de forma categórica e arbitrária, alguma fórmula, ou panacéia, para a solução de todos os problemas interligados ao vasto tema, tão controverso, da preservação/restauração/tombamento de Centros Antigos.
Isso nos faz lembrar do poeta modernista carioca Dante Milano, que ofereceu uma imagem feliz que pode ajudar a nossa reflexão. Na verdade pode parecer uma referência um pouco enigmática, oblíqua, ou paradoxal, mas tem muita sutileza. Nós afirmamos que alguma coisa é ‘paradoxal’, até o momento em que encontramos a ligação entre as idéias em jogo, que ainda estava subjacente, obscura.
Dante Milano escreveu: “Imitar é recordar. Recordar é recriar. (...) Para a Natureza não existe passado. Igual no presente e no futuro. Isto significa que, imitando-se o passado, não se imita, mas se recria o passado. (...)”. Sublinho a frase: “Imitando-se o passado, não se imita, mas se recria o passado”. É isso que é interessante frisar. Tem-se feito muita imitação do passado, nos Centros Históricos; parece que o que está faltando é “recriar o passado”. Esse é nosso desafio: não se deixar sufocar pelo passado e manter, de alguma forma, viva a chama da criatividade. Petrificar, museificar, congelar o tempo, é um risco real, se não houver investimento na criatividade e na troca de experiências simbólicas comunitárias.
Soma-se a esta colocação do poeta D. Milano, aquelas preocupações pontuais de Claude Lévi-Strauss referidas ainda a pouco, feitas no livro Antropologia Estrutural II (1973). Do qual destaco:

1. A proliferação excessiva de Centros Culturais como álibi da destruição do meio ambiente: "(...) as Casa de Cultura não poderão trazer uma solução para a crise da civilização urbana enquanto esta não se convencer, em seu conjunto, de que a cultura não é tudo, e que lhe é preciso inicialmente imbuir-se de um sentimento de deferência para com os dados - não apenas a natureza, mas também a história... Pois se a natureza não é vivida ativamente pela sociedade geral, os ritos que pretendem celebrá-la em recintos especializados (quer se trate de museus, salas de conferência ou de espetáculos, casas de cultura), na melhor das hipóteses lhe servirão, de alibi".

2. O amor pelo passado como uma mentira: "(...) o respeito pela vida - mesmo humana - não existe numa sociedade que destrói ferozmente formas de vida insubstituíveis, sejam animais ou vegetais; que o amor pelo passado é uma mentira nas cidades que, para satisfazer a sua necessidade de crescer, massacram todos os vestígios do que foram e do que as fez; que o culto do belo e do verdadeiro é incompatível com a transformação das margens marítimas em favelas e em zonas, e da beira das estradas ditas 'nacionais' em depósitos de imundícies".

Decerto que se conseguíssemos manter um equilíbrio homoestático entre criatividade/ mudança e preservação/conservação, conseguiríamos resolver uma equação muito difícil. O que parece muito simplista é dividir o mundo em apenas dois lados: o da mudança/destruição/criação e o da conservação/preservação/musealização. Eu creio que é possível ver nesses dois pólos uma dialética estimulante para o pensamento. Nossa marca é a heterodoxia, que consiste em se colocar mais distanciado das posições fundamentalistas e estranhar as propostas de panacéia radical e definitiva. O risco a se evitado é de se impor uma matriz monolítica que vá impossibilitar e esterilizar o diálogo e a crítica.
Insistimos também na importância de refletir no problema filosófico e histórico colocado por Paul Ricoeur: "o passado tinha um futuro". Ele escreveu: "Os homens de outrora não tinham somente um vivido presente e um horizonte de incerteza quanto ao futuro. Eles tinham também opções abertas, projetos, temores, expectativas, sonhos. Para nós, que chegamos depois, esses projetos parecem não cumpridos. À indeterminação do futuro do passado junta-se a não-realização ulterior dos desejos. Assim o passado é também para nós aquilo que não puderam fazer as pessoas da Idade Média, as pessoas da Renascença ou da Reforma, as do Iluminismo, os nacionalistas e os revolucionários do século XIX (...)”.
O ponto de reflexão que pretendemos atingir e sublinhar aqui está sintetizado como uma cápsula nessas frases de Paul Ricoeur.

Meus agradecimentos.

São Luís, 22 de novembro de 2007.

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