29 abril 2008

HENRI-PIERRE JEUDY

HENRI-PIERRE JEUDY é sociólogo do Centre National de la Recherche Scientifique — CNRS (Laboratório de Antropologia das Instituições e das Organizações Sociais — LAIOS) e professor de estética na Escola de Arquitetura de Paris-Villemin. Autor de obras sobre o pânico, o medo, a catástrofe, as memórias coletivas e os patrimônios, publicou entre outros Le Désir de catastrophe (Aubier, 1990), Éloge de l’arbitraire (PUF, 1993), L’Ironie de la communication (La Lettre volée, 1996), Sciences sociales et démocratie (Circé, 1997) e Le Corps et ses stéréotypes (Circé, 2001). Também é autor de obra romanesca: Les Sortilèges du gisant (Klincksieck, 1990) e Conte de la mère morte (La Lettre volée, 1997), e ainda de crônicas como Aligato (La Lettre volée, 1999). Coordena, na França, uma equipe de pesquisa do projeto CAPES-COFECUB "Territórios Urbanos e Políticas Culturais", desenvolvido em cooperação com a UFBa e a UFRJ. Publicou, entre outros, os ensaios O corpo como objeto de arte, A ironia da comunicação, Memórias do social e Espelho das cidades, além de romances e crônicas. O texto publicado aqui é um fragmento de O Último cigarro, livro inédito em português, a ser lançado em maio pela editora Sulina: http://www.editorasulina.com.br


Resenha 123 / junho 2005
Livro resenhado:
Espelho das Cidades, por Henry-Pierre Jeudy, Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2005, 158 p. [Imagem: Foto da capa do livro]


Do Especular ao Espetacular
Resenha de Paola Berenstein Jacques

Espelho das Cidades reúne dois livros distintos de Henri-Pierre Jeudy. A decisão de juntá-los em um só volume deveu-se a sua evidente complementaridade. La Machinerie Patrimoniale (A maquinaria patrimonial) é uma análise crítica da questão patrimonial urbana atual, e Critique de l’esthétique urbaine (Crítica da estética urbana), um questionamento sobre a representação simbólica das cidades contemporâneas.
O autor trata de processos distintos, que podem ser chamados de patrimonialização e estetização urbanas, mas que fazem parte de um mesmo processo contemporâneo e mais vasto que chamo de espetacularização das cidades. Este processo, por sua vez, é indissociável das novas estratégias de marketing, ou mesmo do que podemos chamar hoje de branding urbano, ditas de revitalização, que buscam construir uma nova imagem para as cidades contemporâneas que lhe garantam um lugar na nova geopolítica das redes internacionais. Na lógica contemporânea de consumo cultural, a cultura passou a ser concebida como uma simples imagem de marca ou grife de entretenimento, a ser consumida rapidamente. Com relação às cidades, o que ocorre não é muito diferente: a competição, principalmente por turistas e investimentos estrangeiros, é acirrada e os políticos se empenham para melhor vender a imagem de marca de suas cidades.
Nas políticas e nos projetos urbanos contemporâneos, principalmente dentro da lógica do planejamento estratégico, existe uma clara intenção de se produzir uma imagem singular de cidade. Essa imagem, de marca, seria fruto de uma cultura própria, da dita “identidade” da cidade. Paradoxalmente, essas imagens de marca de cidades distintas, com culturas distintas, se parecem cada vez mais. Essa contradição pode ser explicada: cada vez mais as cidades precisam seguir um modelo internacional extremamente homogeneizador, imposto pelos financiadores multinacionais dos grandes projetos urbanos. Este modelo visa basicamente o turista internacional – e não o habitante local – e exige um certo padrão mundial, um espaço urbano tipo, padronizado. O modelo de gestão patrimonial mundial, por exemplo, segue a mesma lógica de homogeneização: ao preservar áreas históricas, de forte importância cultural local, utiliza normas de intervenção internacionais que não são pensadas nem adaptadas de acordo com as singularidades locais. Assim, esse modelo acaba tornando todas essas áreas – em diferentes países, de culturas das mais diversas – cada vez mais semelhantes entre si. Seria um processo de museificação urbana em escala global: e os turistas acabam visitando as cidades do mundo todo como se visitassem um único museu.
Para Jeudy, a cidade se tornou o principal alvo dos cuidados patrimoniais e por esta razão passou a sofrer cirurgias plásticas ou liftings. Sua restauração permanente é o espelho atual do porvir das sociedades contemporâneas. A conservação patrimonial, muitas vezes obsessiva, corre o risco de petrificar a própria cidade, que se transforma assim em um museu de si mesma. E prevalece o princípio da reflexividade: princípio por excelência da gestão urbana, baseado na idéia de que uma sociedade tem melhores condições de gestão quando se vê refletida em seu próprio espelho. Espelho este que seria tanto das cidades quanto das sociedades contemporâneas.
A noção de reflexividade é, para o autor, um modo determinante de preservação da ordem simbólica de uma sociedade. Mas essa preservação se tornou mundial, “globalizada”. O que interessa é a forma pela qual um certo enquadramento simbólico assegura a transmissão de sentido. A questão patrimonial se torna cada vez mais um problema de transmissão de sentido. O enquadramento simbólico supõe uma determinada gestão das representações comuns de uma sociedade ou de uma cultura. E a transmissão de sentido se vê, por vezes, representada como uma ordem de transmissão. Esta ordem de transmissão, por sua vez, está cada vez mais integrada a um processo, que seria o próprio processo de reflexividade. A lógica patrimonial conduz a uma apologia da reflexividade, ou seja, um estímulo contínuo de se olhar no próprio espelho. O princípio de reflexividade, um dos motores da lógica patrimonial, pode evidentemente provocar efeitos de saturação, como toda longa observação no espelho. Pois a reflexividade patrimonial se desenvolve a partir de um certo exibicionismo cultural: tudo está à mostra, tudo se tornou visível, até mesmo super visível, ou seja, o especular passou a ser espetacular, principalmente nas cidades contemporâneas.
Torna-se, pois, de fato, cada vez mais urgente, a respeito das cidades contemporâneas, um questionamento mais complexo e crítico da noção de patrimônio cultural e das práticas de intervenção urbanas que lhe são tributárias. Henri-Pierre Jeudy busca nos dar ferramentas teóricas para refletir sobre questões bem atuais. O que são exatamente os patrimônios urbanos, ou os ambientes culturais contemporâneos? Em que medida estes devem ou não ser preservados, ou ainda, como se diz, “revitalizados”? Qual o sentido da atual museificação urbana (transformação da cidade em museu)? E o que podemos dizer do uso contemporâneo que se faz da cultura como estratégia principal dos novos projetos ditos de revitalização urbana? O que quer dizer da atual "musealização" (proliferação de novos museus ou centros ditos culturais) que se produz nas cidades globalizadas? Qual o sentido desta estetização generalizada dos modos de vida? A nova produção artística que passa a ter novas funções sociais, além daquelas puramente estéticas, ainda pode ser considerada “arte”? E ainda, o que podemos pensar sobre o novo papel dos artistas, contratados pelo Estado, para “salvar” espaços públicos considerados “problemáticos”? E qual seria o novo papel do arquiteto-urbanista diante desses processos urbanos contemporâneos?
Nas últimas décadas, vêm-se acentuando em todo o mundo iniciativas que desencadeiam processos que podem ser classificados como uma "culturalização" das cidades contemporâneas. Essas intervenções – que tendem sempre a uma espetacularização urbana – muitas vezes se iniciam com uma patrimonialização das próprias cidades, com vistas a uma revitalização urbana que possibilite sua efetiva inserção na competitiva rede global das cidades turísticas.
A noção de Patrimônio Cultural Urbano – e seus conceitos correlatos, historicamente construídos – é hoje tratada como se fosse algo natural, como se a conservação patrimonial se desse quase por instinto, e esta “naturalização”, inicialmente conceitual, se rebate nos próprios procedimentos técnicos e práticos de intervenção e preservação dos patrimônios urbanos. Assim se dá uma “naturalização” dos procedimentos técnicos, decorrente da naturalização das noções conceituais, que se tornou tão intensa a ponto de construir um pretenso consenso entre os discursos teóricos, práticos, institucionais e políticos sobre a questão: “a preservação é uma prioridade da gestão urbana”.
A preservação do patrimônio urbano destaca-se hoje como uma das principais estratégias para a revitalização de certas cidades. Os casos orientais, principalmente das cidades japonesas – onde a questão do patrimônio não tem tanta importância, uma vez que as tradições ancestrais se mantêm vivas no cotidiano da população – poderiam ser vistos, como sugere Henri-Pierre Jeudy, como um contraponto aos casos europeus, ou seja, à atual museificação e petrificação das cidades européias, que chegam a ser consideradas cidades mortas. O caso brasileiro parece estar entre esses dois “modelos”: patrimonialização (européia) e inexistência da noção de patrimônio (oriental), muito embora os procedimentos técnicos e práticos sejam, em sua maioria, uma simples importação do savoir-faire europeu.
Pensar em outra forma de intervir torna-se, então, urgente, diante da tensão atual entre as forças de preservação e de destruição, que têm como principal palco de batalha as cidades contemporâneas globalizadas. No Brasil, os projetos de revitalização urbana de caráter patrimonial, realizados por intermédio da conservação do Patrimônio Cultural, vêm-se multiplicando em diferentes cidades consideradas históricas. A maior parte desses projetos repete a mesma fórmula, sem questionamento crítico: patrimonialização, estetização, espetacularização, padronização dos espaços, e o que seria mais grave, gentrificação (expulsão dos moradores mais pobres das áreas de intervenção que recebe moradores mais abastados ou novas funções elitizadas).
O projeto, dito de revitalização, do Centro Histórico de Salvador (Pelourinho), por exemplo, literalmente “limpou” o sítio histórico ao expulsar seus habitantes e suas respectivas práticas cotidianas populares e substituí-las por simulacros culturais turísticos. O antigo centro, tombado pela UNESCO como patrimônio mundial da humanidade, vem sendo restaurado desde 1992 (hoje na 7a etapa, com auxílio do BID, programa Monumenta), através de um processo de patrimonialização – restauração de fachadas, do espaço público (muitas vezes criados em antigos quintais das casas coloniais) – de mudanças de uso e de gentrificação – com a remoção de mais de 2000 famílias para dar lugar a restaurantes, bares e lojas de souvenirs para turistas – que faz parte de uma agenda maior, de um plano estratégico da agência estadual de turismo. O plano, que visa vender o produto cultural “Pelourinho” para turistas – conta ainda com uma programação de animação cultural nas praças criadas: “Pelourinho Noite & Dia”- que visa exatamente dar nova “vitalidade” ao local. A nova vitalidade inventada para turistas, com baianas fantasiadas para fotos e rodas de exibição de capoeira regional, é totalmente artificial, cenográfica.
Os sintomas da espetacularização das cidades podem ser detectados em todo o mundo e são amplamente discutidos na mídia. As causas e conseqüências desse fenômeno são debatidas em Espelho das Cidades, de Henri-Pierre Jeudy. O titulo reúne dois livros distintos do filósofo francês que tem se especializado em investigar os processos de patrimonialização e, consequentemente, homogeneização urbana que eliminam as singularidades locais de cada espaço urbano para enquadrá-los em um padrão mundial que visa atrair o turismo estrangeiro e o capital multinacional.

France - Libération. 01/01/2008. Henri-Pierre Jeudy fears the new sanitary order. The writer and CNRS sociologist reacts to the smoking ban which comes into force in France this January 1st 2008. "Society's new sanitary order seems to be well and truly imposing itself on the ruins of an era when a taste for freedom and for life was expressed through plumes of smoke, now the symbol of a grave, unhealthy mistake. ... This impression of living 'the end of an era' curiously coincides with the disappearance, both ostensible and insidious of individual freedoms in the name of an optimised management of society. ... The public health care economy justifies an increasingly coercive control of private life, the body belongs less and less to individuals who are finding themselves obliged to consider it a product they are responsible for. Hence the multiplication of dietary, sanitary and biological advice destined to become applicable norms."
Espaço Aberto 'PATRIMÔNIO'. Para Henri-Pierre Jeudy, processo tem provocado a morte dos centros históricos, que se transformaram em "museus".

A Revitalização Petrifica Cidades. AMARÍLIS LAGE.
O processo adotado em praticamente todas as grandes cidades para a revitalização dos centros históricos tem, na verdade, promovido o esvaziamento e a morte dessas regiões. A avaliação é do filósofo francês Henri-Pierre Jeudy, 60, que, com voz calma e gestos tranqüilos, dedica-se a desconstruir o que chama de petrificação e estetização das cidades. Para ele, a transformação dos centros históricos em "museus" tem como origem uma estratégia de marketing para atrair turistas que se soma ao medo da população de perder sua identidade cultural. Contraditoriamente, diz, o resultado são cidades mais homogêneas e menos interessantes. A questão é o tema de seu mais recente livro, "Espelho das Cidades", lançado na última quinta-feira no Rio de Janeiro. A obra reúne dois livros lançados previamente na França, "A Maquinaria Patrimonial" e "Crítica da Estética Urbana". Autor de mais de 20 livros -alguns dos quais, como "Memórias do Social" e "O Corpo como Objeto de Arte" foram traduzidos para o português-, Jeudy tem doutorado em sociologia pela Universidade de Nanterre e é diretor do LAIOS (Laboratório de Antropologia das Instituições e Organizações Sociais) do Centro Nacional da Pesquisa Científica da França. Leia a seguir trechos da entrevista dada à Folha após uma palestra ministrada na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Folha - Em seu livro, o "Espelho das Cidades", o senhor faz uma crítica ao processo de patrimonialização das cidades. Quais são os problemas que o senhor observa no processo de revitalização dos centros históricos?
Henri-Pierre Jeudy - Há no mundo inteiro uma tendência de conservação patrimonial que se exerce sobre a cidade por meio da reconstituição do centro histórico. É uma maneira de dar uma certa imagem estética internacional para o turismo, de guardar uma idéia de unidade e harmonia da cidade. O problema é que o processo de conservação patrimonial torna as cidades cada vez mais parecidas. No fundo, há sempre um centro histórico, onde tudo é refeito da mesma forma. Normalmente o início desse processo é uma busca de identidade da cidade que leva a cidades patrimonializadas, onde o centro é colocado como a vitrine de uma loja.
Folha - Mas quais são as similaridades entre o centro histórico de Salvador e de Paris, por exemplo? Não são cidades muito diferentes?
Jeudy - Eles são diferentes pelos edifícios, mas são pensados da mesma forma, eles trazem a imagem de uma museografia interna na cidade. Na Europa, quase todas as cidades passaram por isso: Paris, Marseille, Lyon... Eu conheci a Bahia há 15 anos e agora é bem diferente. O centro, que era uma área viva, se transformou num museu, um pólo para turistas. Esse princípio da conservação, de fazer do centro um museu, é uma síndrome de morte da cidade. Ele petrifica a cidade.
Folha - O senhor fala de morte, mas o discurso usado nesses processos é de revitalização.
Jeudy - Claro, é isso mesmo. Mas é o inverso que ocorre, é um processo de morte. As pessoas que moravam no Pelourinho foram expulsas, isso quer dizer que o aspecto vivo da cidade desaparece com a patrimonialização. Havia uma mistura da população, a região era partilhada por todos.
Folha - O diagnóstico que se faz desses centros históricos antes dos projetos de revitalização é que, geralmente, eles haviam se tornado locais violentos. O que poderia ter sido feito para que a região recuperasse a qualidade de vida sem se transformar num museu?
Jeudy - No caso do Pelourinho, por exemplo, seria restaurar mantendo a população que morava ali, mas isso talvez custasse mais caro. Seria uma opção melhor. Tenta-se fazer uma tábula rasa da região, expulsa a população, muda a configuração do lugar para atrair um público mais rico, restaurantes etc... Poderíamos imaginar fazer a mesma coisa mantendo a população e com a população, por meio da arquitetura participativa, na qual os próprios moradores e as instituições que ali atuam fizessem, com a ajuda do governo, a restauração do lugar. A prática hoje é: antes a gente expulsa, depois restaura tudo e estetiza para a população mais rica que chega para morar ali.
Folha - Mas essa população rica vem realmente? No centro de São Paulo, por exemplo, há museus e centros culturais que esse público mais rico visita, depois entra no carro e vai embora.
Jeudy - É muito difícil fazer uma nova população ocupar o espaço... Isso acontece também na Europa, onde os centros das cidades são vazios. Em Paris, há cada vez menos habitantes no centro.
Folha - O que deu início a esse processo de patrimonialização?
Jeudy - O trabalho de patrimonialização do centro das cidades começou há cerca de 50 anos, na Europa, de uma forma muito ativa. Na origem, há uma ilusão política que consiste em acreditar que a imagem pública da cidade, nacional ou internacional, depende de seu centro patrimonializado. É uma estratégia de marketing, de comunicação política. Na França dizemos que Paris, hoje, é uma grife como Coca-Cola.
Folha - E por que o centro histórico é escolhido para representar a identidade atual das cidades? Isso reflete um medo de perder a identidade cultural?
Jeudy - Sim. Eu acredito que há um medo de perder essa identidade, mas isso é uma contradição porque a cidade sempre possui sua identidade. Uma cidade, mesmo que não seja extremamente bonita, tem uma identidade. São Paulo é considerada muito feia, mas essa feiúra é uma estética fantástica, nós podemos amar também o que há de feio na cidade, a ponto de esses territórios passarem a ser considerados tão bonitos quanto o centro de Salvador. Além disso, há, na Europa, o dever da memória. Uma utilidade da conservação patrimonial é proteger os rituais, manter uma lembrança simbólica do espaço. Na Europa, as pessoas sentem culpa se esquecem alguma coisa, o que também é resultado das guerras [pelas quais os países passaram]. "Como é possível esquecer?", se perguntam. Há muitos memoriais em todos os lugares, porque é necessário lembrar, lembrar, lembrar. Mas assim é impossível viver o presente.
Folha - Mas o sr. acredita que os valores importantes de uma cultura são capazes de sobreviver naturalmente? Na ausência de uma política específica para defender o patrimônio, ele não corre o risco de ser destruído pela imposição cultural, pela pressão financeira?
Jeudy - Nós podemos ter uma política específica para proteger esse patrimônio, mas isso depende do tipo de política adotada. A atual é muito rígida, as regras da Unesco, por exemplo, são muito duras. Nós podemos imaginar uma política que permita à população um papel ativo na transformação patrimonial, mas isso é muito raro. Na Europa nós temos leis de preservação restritivas: quando uma coisa é declarada patrimônio, não se pode mais tocar nela. Para mim, isso é um erro.
Folha - Os centros patrimonializados são sustentáveis? Essa homogeneidade não pode acabar desestimulando o turismo?
Jeudy - Isso pode causar uma fadiga no turista porque ele viaja e vê sempre a mesma coisa. O que hoje se faz para evitar essa fadiga é colocar o tempo todo animações artísticas no centro, com festivais de músicas, festas, artistas de rua. Mas é uma vida artística artificial, porque vem de uma vontade política muito forte e, no momento em que o governo parar de estimular que elas fiquem ali, o centro fica vazio. Não há uma vida própria, o centro se transformou num cenário de teatro.
Folha - O sr. menciona em seu livro que o Japão tem uma outra noção de patrimônio. Como os japoneses lidam com esse conceito?
Jeudy - O primeiro monumento a ser declarado patrimônio no Japão é a ruína de um edifício que sobreviveu à bomba de Hiroshima. É a partir desse momento que os japoneses começaram a pensar sobre isso. Lá, todos os templos são refeitos de 20 em 20 anos, com outros materiais. Tóquio é a própria cidade sem memória, quase a representação contrária da cidade patrimonial. Isso está ligado ao fato de os japoneses viverem com a idéia de que, a qualquer momento, um terremoto é possível. Não há necessidade de conservar nenhum prédio porque o chão vai afundar. Ao mesmo tempo, os rituais são vividos diariamente, as tradições estão vivas e, por isso, não há uma necessidade de petrificá-las. Hoje, porém, a idéia de conservação patrimonial começa a crescer no Japão. Lá eu visitei uma mina de prata enorme completamente conservada com robôs que repetem os movimentos que os mineiros faziam ali no passado. É muito kitsch, muito Disney World. Eles amam essas coisas, assim como reproduzir locais e prédios de cidades européias.
Folha - O acréscimo de elementos contemporâneos a espaços históricos provoca muita polêmica. Como o sr. avalia essas intervenções?
Jeudy - É sempre uma medida polêmica, pois há o risco de desarmonia, mas, geralmente, funciona. Os arquitetos contemporâneos são mais sensíveis a essa aliança porque há muita coisa já feita, o contexto da cidade demanda aos arquitetos esse tipo de alteração. Esse processo é salutar, caso contrário, somos completamente dominados pelo passado.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0606200509.htm

“Preservar memória é uma aberração”
Henri-Pierre Jeudy.
Promete polêmica a próxima conferência do ciclo Fronteiras do Pensamento, terça [21/8/2007], às 20h, no Salão de Atos da PUCRS, em Porto Alegre. O sociólogo francês Henri-Pierre Jeudy vai apresentar uma série de idéias singulares sobre a conservação do patrimônio histórico. Professor da Escola de Arquitetura de Paris-Villemin, autor de vários livros (alguns deles disponíveis em português, como A ironia da comunicação), Jeudy é radicalmente contra as políticas de preservação de prédios e centros históricos. Argumenta ele que isso é uma imposição autoritária à memória coletiva, “uma tirania”, sublinha. Jeudy elogia as comunidades que não se preocupam com isso, mas não chega a propor que se coloque tudo abaixo. Vê com entusiasmo, por exemplo, o que se faz hoje em Berlim, onde arquitetos contemporâneos interferem em prédios antigos. A conferência será acompanhada pela exibição de um vídeo com a fala do pensador norte-americano Marshall Berman. Por problemas de saúde, o autor de Tudo que é sólido desmancha no ar, que deveria dividir a noite com Jeudy, foi desaconselhado a enfrentar a viagem.

Zero Hora - Em diferentes livros e ensaios, o senhor procura denunciar certa espetacularização dos centros históricos nas cidades contemporâneas, aquilo que o senhor chama de patrimonialismo. Prédios e áreas históricas são negados à população e oferecidos ao deleite dos turistas. Qual é em sua opinião a questão mais grave desse processo?
Henri-Pierre Jeudy - Em minha opinião, a questão mais grave é que todos os territórios, em nível mundial, vão acabar sendo patrimonializados. Há um espírito de patrimonialização, hoje, difundindo a idéia de que a única solução possível passa pela conservação. Essa, dizem, seria a única forma de sobrevivência das culturas. Para mim, essa patrimonialização significa a morte das culturas.
Zero Hora - O senhor fala de morte das culturas no sentido de que as culturas correriam o risco, com o movimento de conservação, de virar peça de museu?
Henri-Pierre Jeudy - É isso. O mundo pode se transformar em um museu gigantesco.
Zero Hora - O senhor conhece bem o caso brasileiro em termos de políticas de conservação do patrimônio. Talvez uma cidade como Salvador, em que o Pelourinho foi transformado em centro histórico-cultural, mas expulsou boa parte das comunidades que viviam lá, corresponda àquilo que o senhor chama de patrimonialização. Mas não há, no país, o caso mais grave de áreas e prédios históricos sendo destruídos. Há lugares em que não se tem nenhuma consciência pela preservação. Isso não é pior?
Henri-Pierre Jeudy - Eu acho que não. Quem pensa que é pior já está no espírito de patrimonialização. Ao contrário, o fato de haver lugares e comunidades que não se preocupam com a conservação é um signo de liberdade. É um modo de resistência à captura das culturas, à captura museográfica das culturas.
Zero Hora - Mas, sem os movimentos de preservação do patrimônio, o que vai restar da memória das cidades?
Henri-Pierre Jeudy - Para mim, há uma diferença total entre memória e patrimônio. Patrimônio é um modo de gerir a memória. A memória pode sobreviver sem uma concepção patrimonial. A memória coletiva é algo muito livre, ela não está subordinada à conservação museográfica.
Zero Hora - O senhor é contra a idéia de preservar a memória?
Henri-Pierre Jeudy - Preservar memória, para mim, é uma aberração. A memória se preserva ela mesma. O que passa ao esquecimento é o que passa ao esquecimento. Preservar memória traz a idéia de que se vai gerir a memória. Que direito, hoje, se pode ter sobre a memória coletiva?
Zero Hora - Em sua concepção, não deveriam ser preservados nem mesmo os chamados centros históricos das cidades tidas como históricas?
Henri-Pierre Jeudy - A conservação desses lugares já se faz hoje quase como um automatismo. Mas a memória coletiva não entra somente em uma inscrição sistemática nos lugares históricos. A História que pertence à memória coletiva está sujeita sempre a novas interpretações. Se ela for determinada apenas pelos centros históricos, teremos um sentido único. Ora, a memória coletiva oferece interpretações muito mais variáveis. A memória coletiva exprime uma liberdade de culturas, uma liberdade total.
Zero Hora - O senhor acredita em alguma política governamental em relação a casas e prédios antigos nas cidades?
Henri-Pierre Jeudy - Não acredito em nenhuma. Acho que os governos que geram os lugares históricos não prestam um serviço à memória coletiva. Para mim, é uma tirania sobre a memória coletiva, esse caminho da monumentalização. Tudo vira monumento.
Zero Hora - Qual seria, em sua análise, a situação ideal nesse tema do patrimônio?
Henri-Pierre Jeudy - Não posso saber o que seria o ideal. Sei que, hoje, há um excesso da conservação patrimonial. Ela pode provocar uma saturação. Nesse sentido, ela permite acreditar em uma alternativa: uma mentalidade baseada na memória coletiva, que não pode aceitar ser prisioneira da conservação monumental.
Zero Hora - O que, em sua opinião, estaria na base desse movimento de conservação de patrimônio?
Henri-Pierre Jeudy - A origem está em uma angústia coletiva sobre o que seria o futuro das sociedades de hoje. Temos medo do futuro, temos medo do que está por vir, há uma série de incertezas sobre o futuro do homem e do planeta. Nesse sentido, o princípio da conservação patrimonial é um princípio terapêutico. É uma tentativa de se voltar ao passado, de dizer que o passado ainda está presente.
Fonte: Jornal “Zero Hora” nº 15337 (18/8/2007), Segundo Caderno, Cultura.

Publicada originalmente em Folha de São Paulo, edição de 6 de junho de 2005. Para Henri-Pierre Jeudy, a revitalização tem provocado a morte dos centros históricos, que se transformaram em "museus". O processo – adotado em praticamente todas as grandes cidades para a revitalização dos centros históricos – tem, na verdade, promovido o esvaziamento e a morte dessas regiões. A avaliação é do filósofo francês Henri-Pierre Jeudy, 60 anos, que com voz calma e gestos tranqüilos, dedica-se a desconstruir o que chama de petrificação e estetização das cidades. Para ele, a transformação dos centros históricos em "museus" tem como origem uma estratégia de marketing para atrair turistas, que se soma ao medo da população de perder sua identidade cultural. Contraditoriamente, diz, o resultado são cidades mais homogêneas e menos interessantes. A questão é o tema de seu mais recente livro, Espelho das Cidades, lançado na última quinta-feira no Rio de Janeiro. A obra reúne dois livros lançados previamente na França: 'A Maquinaria Patrimonial' e 'Crítica da Estética Urbana'. Autor de mais de 20 livros – alguns dos quais, como 'Memórias do Social' e 'O Corpo como Objeto de Arte' foram traduzidos para o português –, Jeudy tem doutorado em Sociologia pela Universidade de Nanterre e é Diretor do LAIOS – Laboratório de Antropologia das Instituições e Organizações Sociais – do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. Leia, a seguir, trechos da entrevista dada à Folha após uma palestra ministrada na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Anotações e Pontuações
ESPELHO DAS CIDADES. Casa da Palavra, 2005.

Primeira Parte.
A Maquinaria Patrimonial.

O Processo de Reflexividade.

A conservação patrimonial asegura o trabalho de luto.
Não temos mais a liberdade de esquecer.
A conservação patrimonail nos dá como compensação a nostalgia.
Mas pode engendrar o 'ódio ao patrimônio'.
O jogo infernal da memória.
Como e por que se lembrar de uma arqueologia de gestos em vias de desaparecer? Previsão de uma catástrofe planetária?
A conservação patrimonial teria como finalidade secreta preparar-nos para situações pós-catastróficas? E por que censurá-la por isso?

Um Espelho de Cotovias.

As estratégias de conservação caracterizam-se por um processo de reflexividade que lhes dá sentido e finalidade.
A significação contemporânea do conceito de patrimônio cultural vem de uma reduplicação museográfica do mundo.
Para que exista patrimônio reconhecível, é preciso que ele possa ser gerado, que uma sociedade se veja o espelho de si mesma.
O sentido mais corrente atribuído à conservação patrimonial é o da manutenção da ordem simbólica das socieades modernas.
A dinâmica de seu objetico político e social vem de uma resistência que se manifesta pela consegração cultural dos vestígios da História contra os riscos de desestruturação.
O processo de reflexividade, que incita toda estratégia patrimonial, consiste em promover a visibilidade pública dos objetos, dos locais, dos relatos fundadores da estrutura simbólica de uma sociedade.
De imediato a prospectiva patrimonial se vÇe confrontada com uma contradição: por um lado, os patrimônios não podem ser tratados como produtos de marketing, mas, por outro, não existe desenvolvimento cultural sem comercialização. Valor simbólico = valor de mercado.
O culto do passado. Preservação da ordem simbólica.
A idéia de 'reviver o passado'.
Identidade. Um dos primeiros objetivos da ordem patrimonial é o de expressar a identidade de uma região, de uma nação, de um acontecimento histórico... Essa referência obrigatória à identidade, transformada ela mesma na origem dos procedimentos de reconstituição do passado, ou de sua preservação museográfica, parece se opor ao fenômeno da globalização, funcionando como uma defesa contra a perda das identidades culturais.

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