04 setembro 2008

O ANTROPÓLOGO COMO ‘CAÇADOR DE RÉPLICAS’ NA HIPERMODERNIDADE


SIMULACROS ETNOGRÁFICOS & CULTURANÁLISE:
O Antropólogo como ‘Caçador de Réplicas’ na Hipermodernidade

Por Alexandre Fernandes Corrêa

RESUMO
Neste breve texto almeja-se analisar simultaneidades epistemológicas que estão ocorrendo no campo da gestão dos patrimônios bioculturais na contemporaneidade. As mutações conceituais efetuadas nos domínios da genética e da cultura colocam em cena a crise profunda dos 'critérios da autenticidade'. Ironicamente, essa crise, sem precedentes na história, acontece ao mesmo tempo em que se aprofunda a desorientação política e ética. Parece que chegou a hora de se estabelecer uma nova prospectiva das heranças culturais, científicas e humanísticas nos domínios do conhecimento.
Palavras-chave: Patrimônio – Genética – Etnologia – Política – Ética

Simulacrums Ethnographycs and Cultural-analysis: the anthropologist as 'hunter of Androides' in hypermodernity
ABSTRACT
In this brief text aims to examine simultaneidades epistemological that are occurring in the field of management of biocultural heritage in contemporaneity. The conceptual changes made in the fields of genetics and culture put into play the deep crisis of the criteria of authenticity. Ironically, this crisis, unprecedented in history, happens at the same time in which deepens the political disorientation and ethics. It seems that it is time to establish a new outlook of the cultural heritage, scientific and humanistic in the fields of knowledge.
Key-words: Cultural Heritage – Genetics – Ethnology – Politics – Ethics

SIMULACROS ETNOGRÀFICOS & CULTURANÁLISE: o antropólogo como ‘caçador de réplicas’ na hipermodernidade.

Ao introduzir o debate sobre as simultaneidades epistemológicas que estão ocorrendo em domínios do conhecimento, antes tidos como estanques e incomunicáveis, faz-se necessário adiantar alguns dados preliminares. O ponto de partida da análise aqui desenvolvida está basicamente estabelecido nas pesquisas realizadas em Antropologia sobre a preservação de acervos etnográficos e da cultura popular na sociedade contemporânea (CORRÊA, 1993-2008). Depois de pesquisar, há alguns anos, no campo específico da Antropologia do Patrimônio Bioculturale da Memória Social, iniciei leituras relacionadas à biotecnologia e aos patrimônios genéticos. Esse domínio do conhecimento tem sido objeto de atenção muito recorrente na mídia, quando aparecem os produtos mais espetaculares e sensacionais da biotecnologia.
Destarte, influenciado por essas leituras desinteressadas, que despertaram minha atenção, comecei a perceber que estavam ocorrendo algumas semelhanças entre fenômenos e acontecimentos epistêmicos, nesses dois domínios do conhecimento. Pensei então na possibilidade de trabalhar a hipótese de que estamos diante de mutações conceituais importantes no campo da teoria do conhecimento, reveladoras de um movimento mais profundo na ordem do saber (CORRÊA, 2004). Creio que estamos testemunhando o nascimento de um novo domínio: o da gestão dos patrimônios etnográficos e genéticos, pensados num mesmo plano antropológico. Mas será ainda cedo para tais elucubrações? Será que já podemos tirar algum proveito de tais aproximações, ou ainda é precipitado pensar em possíveis elos de comunicação?
No velho paradigma cartesiano esses dois domínios do saber são pensados de modo compartimentado, separados e fragmentariamente, isto é, não se considera a possibilidade da comunicação entre eles. Porém, a Antropologia (ou, melhor dizendo, uma sócio/bio/culturanálise) – através do 'olhar distanciado' – pode nos levar a duvidar dessa premissa metodológica cartesiana e fragmentadora.
Tendo dedicado tempo de reflexão ao estudo de recentes pesquisas sobre as transformações conceituais no domínio 'etnográfico', passei a dedicar cada vez mais atenção para os acontecimentos no domínio da 'genética'. Mas é preciso que se diga que, considerando o fato de não ser biólogo ou ecólogo, meu entendimento na matéria genética não é de especialista treinado. Todavia, vai mais além do que surge na mídia sensacionalista que se acompanha comumente nos jornais diários.
Diante dessas considerações, fica explicitado que esta pesquisa atua no nível da transdisciplinaridade e pretende investigar possíveis simultaneidades epistemológicas. Na verdade, nesse ponto não trago novidade alguma.
O etnólogo francês Marcel Mauss no seu 'Ensaio sobre a Dádiva', de 1925, escrevia: “Após terem forçosamente dividido e abstraído um pouco excessivamente, é preciso que os sociólogos se esforcem para recompor o todo. Encontrarão assim dados fecundos” (1974, p. 181) . Creio que esse caminho sugerido não pode ser desprezado. Seguindo essa trilha, cito também um seguidor fiel dessa tradição teórica e que aprofunda a reflexão sobre a aproximação entre as ciências; refiro-me a Claude Lévi-Strauss. E é com esse autor que pretendo balizar o debate, colocando em foco o problema, hoje tão negligenciado, dos 'critérios da autenticidade' nos dois domínios do conhecimento apontados acima.

Crise dos 'Critérios da Autenticidade' na Atualidade

Claude Lévi-Strauss no seu livro Antropologia Estrutural I coloca em destaque o que designou as 'Missões Próprias da Antropologia'. Nesse texto seminal, intitulado 'O lugar da antropologia nas ciências sociais e problemas colocados por seu ensino' (Unesco-1954), Lévi-Strauss estabelece que a tarefa do antropólogo é “reconhecer e isolar níveis de autenticidade” (1975, p. 408-9). Diante dessa missão categórica, definida há décadas, e cada vez mais conscientes de que é praticamente impossível viver em sociedade sem algum regime de autenticidade, se entende então que sempre haverá a necessidade do saber etnológico: variante de uma autêntica 'socioanálise', ou 'culturanálise', semiológica. Ou, de modo mais preciso, como escreveu Maurice Merleau-Ponty:
"A Etnologia não é uma especialidade definida por um objeto particular – etnia, sociedades primitivas, etc. – é a maneira de pensar que se impõe quando o objeto é 'outro' e que exige nossa própria transformação" (1984, p. 199).
Desde já é necessário enfatizar que no presente texto estamos tratando do problema da 'crise dos critérios' e não de uma suposta 'crise da autenticidade'. Pois esta última é uma característica própria da modernidade, enquanto que na tradição não há crise de tal ordem, isto é, “só há originalidade verdadeira quando estamos dentro de uma tradição; tudo o que não é tradição é plágio” (Eugênio D’Ors apud Josué Montello, 1983, p. 8).
Como veremos mais a frente no texto, é na hipermodernidade que surge algo específico, que designo como a 'crise dos critérios da autenticidade'. Desse mesmo modo, aprofundando a reflexão sobre a dialógica da modernidade e da tradição, Hannah Arendt, na sua obra 'Entre o Passado e o Futuro', observa que há uma acelerada e crescente diluição da Tradição (com 'T' maiúsculo). Tomando como base central as reflexões dessa filósofa, podemos dizer que após a civilização ocidental passar pela 'quebra entre o passado e o futuro', chegamos no momento em que nos dirigimos para uma nova crise: a dos próprios critérios de aferição da autenticidade da herança cultural e humanística.
Em minhas pesquisas na área da preservação da cultura, especialmente com os acervos e bens de natureza etnográfica e folclórica, percebi que está ocorrendo atualmente uma espécie de crise profunda dos critérios da autenticidade. Na década de 60 do século XX, Claude Lévi-Strauss sugeriu que o trabalho do antropólogo estava ligado à construção de quadros de referência para aferição da autenticidade (LÉVI-STRAUSS, 1975). Hoje parece que nosso trabalho é muito mais complexo. Uma crise sem precedentes alastra-se, contaminando diversos setores da sociedade contemporânea. A questão central parece ser como sair dessa crise dos critérios da autenticidade, tanto no domínio etnográfico e cultural, como no próprio domínio genético.
Considerando a possibilidade de estar apresentando um pensamento obscuro, talvez fique mais objetiva a argumentação se atingirmos logo o campo empírico, refletindo sobre exemplos concretos.
Quando me refiro à contaminação geral pela crise dos critérios de autenticidade nos diversos setores da sociedade atual, estou considerando diversos casos polêmicos que assistimos cotidianamente na mídia. Lembro da mais recente celeuma sobre os alimentos transgênicos, principalmente o caso da soja. Outras polêmicas importantes se relacionam à clonagem, ao DGPI e à pesquisa com células-tronco e embriões humanos congelados. Esses problemas estão no centro do conflito em torno da biossegurança, envolvendo a sociedade civil organizada, o Congresso Nacional e diversas outras instituições como a Justiça (Procuradoria Geral) e o Ministério da Saúde (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança); além das empresas de bio-tecnologia, etc.
Não é demais fazer referência também à questão da pirataria na informática e na Internet. A indústria fonográfica vive uma crise sem precedentes por conta dos direitos autorais 'desrespeitados' pelos indivíduos que fazem gravações (downloads) piratas de músicas e canções, além da pirataria de programas e outros diversos softwares. Em função disso é interessante também perceber esse movimento mutante na cultura hip-hop, quando os rappers fazem citações e réplicas caleidoscópicas de velhas canções e hits - como diz um rapper: 'samplear uma música é diferente de roubar'. Percebe-se que se forma assim um imenso amálgama musical e cultural internacional-popular (ORTIZ, 1994).
Uma outra questão interessante envolve a autenticação da paternidade através do teste genético, exigido atualmente por intermédio da justiça. É uma certificação que garante para os indivíduos a herança paterna biológica. Nesse 'reconhecimento do pai' – que a genética garante no exame dos cromossomos do indivíduo e dos seus familiares – manifesta-se a metáfora fundamental, principalmente para nós que trabalhamos com o 'conceito de patrimônio': em especial entre os que usam idiomas da língua latina. A metáfora paterna está inscrita na própria noção de patrimônio: em nome-do-pai como herança simbólica (PORGE, 1998).
Mas, é a vertigem da simulação que nos aflige. A partir dos exemplos referidos, podemos apontar constantes, e regularidades, no quadro da lógica cultural dominante. Nossa sociedade vive o sintoma da proliferação das cópias, das réplicas e das simulações. A todo momento exige-se algum 'atestado de autenticidade': de algum modo temos que provar que somos quem nós declaramos ser. São documentos e cadastros de todo tipo que se somam a números de código, senhas, etc. Tudo em nome da segurança patrimonial e autoral. Diante desse cenário, será que não estamos presenciando uma 'crise da autenticidade' dos operadores, ou regimes de autenticação, num plano que não tem precedentes na história?
Talvez o problema possa ser considerado de outro modo: da mesma maneira que no domínio da cultura, a questão da crise dos 'critérios da autenticidade' está no centro dos debates no domínio da genética e da natureza. O problema ligado à autenticidade – em relação ao que é ou não autêntico, ou ao que é ou não patrimônio cultural e natural – está no centro da arena política e ética contemporânea, tanto entre os que pesquisam patrimônios etnográficos, folclore e cultura popular; como entre os biólogos, ambientalistas, ecólogos e geneticistas (LATOUR, 2004).

O antropólogo como 'caçador de replicantes' entre os 'andróides-zumbis pós-modernos'

Considerando os princípios delineados para a Antropologia, sugeridos por Claude Lévi-Strauss na década de 60 do século XX, será que podemos afirmar hoje que o antropólogo está se tornando um tipo de “caçador de replicantes”? Será impertinente fazer aqui uma analogia provocativa, ou paródica, com a narrativa ficcional do filme de Ridley Scott 'Blade Runner'?
O antropólogo hoje é reconhecido, cada vez mais, como o 'profissional-cientista' que tem o poder de oferecer 'certificados de autenticidade' aos bens culturais e etnológicos: é ele quem certifica se um bem é etnográfico ou não. Vejamos uns exemplos: é o antropólogo quem dá o certificado, ou laudo, autenticando se uma área ou comunidade rural é remanescente de quilombo, ou não; se uma aldeia ou comunidade é indígena, ou não; se um bumba-boi, ou outra manifestação cultural, é ou não autêntica...
Destarte, retornando aos argumentos apresentados no início deste artigo, podemos traçar um paralelismo epistemológico que parece ainda manter-se latente na consciência científica contemporânea. As simultaneidades, ou homologias, nos dois domínios são evidentes em diversos outros exemplos: levando em conta a gestão da natureza e da genética, de um lado; e a gestão da cultura, de outro. Ou seja, ocorrem fenômenos semelhantes em domínios tidos anteriormente como estanques e incomunicáveis. Sendo assim, podemos dizer com segurança: Marcel Mauss tinha razão, precisamos pensar na recomposição da totalidade! Novas maneiras de pensar 'isso' surgem nesse contexto e tem se destacado cada vez mais a proposta de pensarmos num domínio integrado dos 'patrimônios bioculturais' (CORRÊA, 2003-2008).
No entanto, o paradigma fragmentador, ainda predominante, tem mantido sua foraça e beneficiado a visão mercadológica tecnocrática e utilitarista. Visão que só reconhece o bem cultural ou natural como recurso a ser explorado economicamente. Temos exemplos na indústria do turismo e no discurso do desenvolvimento auto-sustentável; quando se alardea muitas promessas de empregos e progresso para as comunidades nativas 'sub-desenvolvidas': se elas se mantiverem 'autênticas'.
Os usos da cultura e da natureza como mercadoria estão implícitos aí. Contudo, o mais grave é que a emergência de um novo paradigma, pode ser sufocada pela hegemonia da visão fragmentadora e neo-liberal. São ameaças que não são frutos de mente imaginosa, pois não estão longe da realidade dos nossos dias. Sob essa lógica poderosa, os bens naturais e culturais passam a ser pensados não mais como 'patrimônios' e 'direitos culturasi', e sim como 'recursos' passíveis de serem explorados economicamente.
Num novo paradigma, que Mauss e Lévi-Strauss nos convidam a trabalhar, enfrenta-se o dilema dos critérios da autenticidade e das autenticações como um problema de política civilizatória. Desse outro modo de pensar desvela-se a potencialidade de um novo gerenciamento político do teatro das memórias sociais e naturais, como propôs Henri-Pierre Jeudy (1990). Tais percursos fundam uma nova forma de resistência das subjetividades marginais e de fronteira contra a lógica cultural burguesa avassaladora.
Além do mais, não podemos esquecer, o paradigma fragmentador se sustenta no relativismo cultural também dominante. Esse relativismo contamina o imaginário contemporâneo fragmentando os investimentos coletivos nas potências da natureza e da cultura. O novo paradigma re-integrador da natureza e da cultura, encontra resistências poderosas, pois recoloca o problema da totalidade, abandonado ultimamente pelo pensamento tecnocrata e utilitarista (e pós-modernista). É preciso atingir um meta-ponto-de-vista sobre o conceito de totalidade – o que parece ser a exigência ética urgente de nossa época .
O certo é que também estamos testemunhando o surgimento de uma nova engenharia da vida, chamada biotecnologia, que coloca em risco e transforma a lógica da transmissão da herança e da filiação através da vida sexual. Surge desse novo contexto o problema das clonagens – a possibilidade da reprodução assexuada, que a engenharia genética oferece como futuro produto comercial.
Na área da cultura vemos se desenvolver uma demanda semelhante, isto é, um investimento numa nova engenharia da cultura. Do mesmo modo que surge uma nova engenharia da vida (a biotecnologia e o bio-poder) também se desenvolve uma nova engenharia da cultura, transformando nossa relação com a memória e o patrimônio.
Entretanto, como um dos índices da demanda por novos ajustes na engenharia cultural, destaca-se aqui o chamado registro do patrimônio imaterial ou intangível. Trata-se da constituição dos novos Livros dos Saberes e dos Lugares (Decreto Lei 3551/2001), nos quais pretende-se ser registradas as diversas manifestações culturais e artísticas brasileiras. Criou-se novos certificados de autenticidade, uma nova burocracia institucional, algo que não vai além do sintoma da inscrição própria de nossa civilização: inscrever, etiquetar e registrar manifestações culturais certificadas como autênticas nos Livros dos Saberes e dos Lugares do Ministério da Cultura. Registro esse que não 'tomba' e preservação que não promove a integralidade material e imaterial do bem. É o que se destaca dessa iniciativa recente do IPHAN, reforçando o alerta sobre o risco da possível desregulamentação dos tombamentos “materiais” do País, nos Centros Históricos.
Outro ponto a se considerar está igualmente ligado ao tema central em tela. Trata-se dos problemas relacionados às patentes e a propriedade intelectual: há também aí o problema dos 'critérios da autenticidade', da 'autenticação' e do 'monopólio de idéias'; assim como de 'patenteamento de marcas', de 'invenções' e 'criações', etc. Algo que é contraditório com a própria lógica capitalista liberal clássica, na qual não deveria haver, em tese, monopólio algum: todo conhecimento seria livre como recurso a ser explorado. Esse monopólio se legitima ideologicamente, porque se acredita que é preciso recompensar o investimento em pesquisa que foi feito por um laboratório ou um indivíduo. Adquire-se um certificado de monopólio por um certo tempo e se explora a idéia; que depois de algum tempo cai no domínio público. Ora, isso contradiz os fundamentos do liberalismo clássico e, além do mais, confronta com a nova realidade dos 'direitos difusos' em nossa sociedade, a partir da Constituição Federal de 1988. Esses 'direitos difusos', como o ambiental e cultural, invocam patrimônios coletivos de todos os cidadãos e não direitos restritos à propriedade individual ou ao Estado. Surgem os novos patrimônios não-privados e não-públicos: por exemplo, a 'água potável', o 'ar respirável', a 'saúde coletiva', etc.
Nesse ponto, é oportuno apresentar o 'conceito de hipermodernidade' que está no título deste texto. Por que 'hipermodernidade' num momento que se fala tanto de 'pós-modernidade'? Ao contrário dos que pensam que estamos saindo da modernidade, ou que nós já estamos na pós-modernidade, o que assistimos hoje é diagnosticado claramente por Gilles Lipovetsky. Este autor, resumindo aqui seu pensamento de um modo sumário, entende que o período que estamos vivendo se caracteriza pela intensificação sem precedentes do tripé característico da modernidade: mercado, indivíduo e escalada técno-científica. No que concerne ao tema debatido neste texto, estas colocações balizam muito bem os processos que estão ocorrendo em domínios tidos comumente como isolados. O incremento das forças mercadológicas, a crescente difusão da ideologia individualista e o acelerado avanço da tecno-ciência e da biotecnologia, comprovam as teses de Gilles Lipovetsky (2004).
Testemunhamos assim no auge da hipermodernidade, o surgimento do novo teatro das memórias bioculturais. A lógica cultural capitalista penetrou em todos os domínios, do inconsciente à produção da vida: parece que agora chegou a hora dos bens culturais correrem esses mesmos riscos com a nova engenharia cultural que se anuncia.

Simulacros etnográficos: Política Étnica e Etnogênese?

Os paralelismos aqui traçados demonstram as simultaneidades epistemológicas enfatizadas acima. Claro que esse assunto merece muito mais tempo de reflexão. Estas poucas linhas, no entanto, servem como uma interlocução de pesquisa, em busca de novas trilhas através do diálogo com outras áreas do conhecimento.
Todavia, talvez seja útil analisar um último exemplo, agora retirado do contexto mais propriamente 'etnológico', para que possamos atingir, enfim, algum nível de pertinência mais específica na ordem disciplinar ainda dominante. Ao enfocar um 'caso etnográfico', gostaria de recorrer a uma anedota que Pierre Clastres narra após uma “excursão” etnográfica pela América do Sul. Nos relatos publicados em 'Les Temps Modernes' na década de 70 do século XX, o antropólogo francês, já falecido, descreve um fato curioso que ilustra nossa reflexão. Naquela ocasião ele estava com alguns turistas atravessando a região do Paraguai onde ainda residiam remanescentes de grupos indígenas guaranis. O casal que os acompanhava, o Sr. e a Sra. Brown, desejavam fotos de “autênticos” índios sul-americanos e tudo fariam por isso. Foi assim que, face a face com um indivíduo em farrapos quase moribundo encontrado numa “aldeia”, aconteceu o seguinte diálogo:

"- Retrato! Os olhos do índio sobem dos pés aos joelhos do Sr. Brown.
- Um peso. Bom. Pelo menos ele sabe o que é dinheiro. Era de se esperar. Enfim, não é caro!
- Sim, mas é preciso tirar tudo isso! Retrato, mas não com isso! O Sr. Brown imita o ato de tirar as calças e faz um sinal para que desabotoe a camisa. Despe o selvagem e livra-o de seus trapos sujos.
- Eu tirar roupa, cinco pesos.
- Meu Deus, como é possível alguém ser interesseiro a este ponto! Ele está exagerando, por uma ou duas fotos. A Sra. Brown impacienta-se.
- E então? Vai ou não vai tirar este retrato? Pergunta impaciente a Sra. Brown.
- Mas você esta vendo que a cada hora ele inventa uma coisa?
- Mude de índio.
- Será a mesma coisa com os outros.
O homem continua sentado, indiferente e fuma tranqüilamente.
- Está bem. Cinco pesos.
Ele desaparece por alguns instantes no interior da cabana e sai inteiramente nu, atlético, calmo e livre em seu corpo. (...). Clic-Clac!
- E as penas? Não tem penas?
Com grandes gestos, veste o índio com ornamentos, cobre sua cabeça com enfeites e dota-o de grandes asas.
- Você tirar retrato meu com penas, quinze pesos. (...)" (CLASTRES, 1982, p. 48-9).

Essa narração se desenrola com muito mais nuances. O Sr. e a Sra. Brown ainda desejam comprar objetos de barro, enfeites e chegam a pagar mil pesos pelo arco e flecha do “índio”. Mas, afinal, que tipo de situação é essa vivida pelos turistas, pelo pesquisador e pelo remanescente indígena? Nesse teatro do absurdo etnológico encenam-se personagens pós-modernos (ou como descreve Slavoj Zizek [2005]: os 'zumbis pós-modernos') que vivem o dilema da alteridade social e cultural de modo dramático.

Limites: o labirinto da política e da ética

Destarte, diante dessas considerações e reflexões ligeiras, gostaria de realçar que o problema de fundo, subjacente a esses exemplos aqui comentados, reside nos fundamentos da política e da ética. Especialmente no que tange ao debate jurídico sobre o acesso e uso do genoma humano (LIMITES, 2000), além dos problemas relacionados ao que se convencionou designar como os 'usos dos conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético' (URSINI, 2004). Porém, problemas como os sublinhados aqui surgem desafortunadamente numa época em que os fundamentos políticos e éticos estão à deriva, isto é, ao mesmo tempo em que testemunhamos estes novos investimentos coletivos, assistimos a uma deriva da política e da ética na ordem simbólica dominante. Em suma, o que se argumenta é que a denominada crise dos 'critérios da autenticidade' é, na verdade, uma crise da política e da ética na contemporaneidade. Nossa responsabilidade social mais premente é encontrar a saída dessa encruzilhada, que talvez passe pela refundação de uma visão científica e humanística sobre esses novos problemas.
Nas minhas pesquisas sobre as metamorfoses e mutações conceituais que estão ocorrendo nesses domínios diferentes do conhecimento - que estão apresentadas de modo mais extenso no livro 'Patrimônios Bioculturais' (Corrêa, 2008) - observamos que esse processo toca o problema de fundo crucial relacionado ao futuro da própria natureza humana (HABERMAS, 2004). As encruzilhadas deste labirinto mal começaram a se desenhar no horizonte antropológico. Não parece cedo ou precipitado adiantar algumas reflexões sobre o tema. Talvez nossa responsabilidade social maior seja recompor um novo quadro de referências para que possamos tomar decisões urgentes e decisivas em domínios tão importantes como o da gestão da vida, da cultura e da natureza.

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Simulacros ethnographie et culturanalise: L'anthropologue comme des 'androïdes Hunter' dans hypermodernité
SOMMAIRE
Dans ce bref texte vise à examiner simultaneidades épistémologique qui se produisent dans le domaine de la gestion des bio-patrimoine culturel dans la contemporanéité. Les changements conceptuels réalisés dans les domaines de la génétique et de la culture mis en jeu la crise profonde des critères d'authenticité. Paradoxalement, cette crise, sans précédent dans l'histoire, se produit en même temps qui approfondit dans la politique et la désorientation éthique. Il semble qu'il est temps de mettre en place une nouvelle vision du patrimoine culturel, scientifique et humaniste dans les domaines de la connaissance.
Mots-clés: Patrimoine - Génétique - Ethnologie - Politique - Ethique

Simulacrums Ethnographie und culturanalise: Der Anthropologe als Jäger 'Andróides' in Hypermodernity
ZUSAMMENFASSUNG
In diesem kurzen Text zielt darauf ab, prüfen simultaneidades epistemologischen, die sie im Bereich des Managements von biokulturelle Erbe in Zeitgenossenschaft. Die konzeptionelle Änderungen in den Bereichen Genetik und Kultur spielen in der tiefen Krise der Kriterien der Authentizität. Ironischerweise ist diese Krise, in der Geschichte beispiellose, geschieht in der gleichen Zeit, in der Vertiefung der politischen Orientierungslosigkeit und Ethik. Es scheint, dass es an der Zeit ist, eine neue Perspektive des kulturellen Erbes, wissenschaftlichen und humanistischen in den Bereichen des Wissens.
Schlagworte: Heritage - Genetik - Ethnologie - Politik - Ethik

Simulacros y etnografía culturanalise: El Antropólogo como Cazador de Andróides en Hypermodernity
RESUMEN
En este breve texto tiene por objeto examinar simultaneidades epistemológico que se están produciendo en el campo de la gestión de bio-patrimonio cultural de contemporaneidad. Los cambios conceptuales realizados en los campos de la genética y la cultura pone en juego la profunda crisis de los criterios de autenticidad. Irónicamente, esta crisis, sin precedentes en la historia, sucede al mismo tiempo que profundiza en la desorientación política y la ética. Parece que ha llegado el momento de establecer una nueva visión del patrimonio cultural, científico y humanístico en los campos del conocimiento.
Palabras clave: Patrimonio - Genética - Etnología - Política - Ética

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