16 outubro 2008

RESUMOS DOS TRABALHOS APRESENTADOS NO I ENCONTRO DE ESTUDOS CULTURAIS (2008)


BOLETIM CRISOL - REVISTA DE ESTUDOS CULTURAIS - GPEC

I ENCONTRO DE ESTUDOS CULTURAIS:
DINÂMICAS DO PATRIMÔNIO E DA MEMÓRIA NA ATUALIDADE
Coordenador: Prof. Dr. Alexandre Fernandes Corrêa

CENTRO DE CRIATIVIDADE ODYLO COSTA FILHO

SÃO LUÍS
29 a 30 de MAIO de 2008



1. PSICANÁLISE E CULTURA
ADRIANA CAJADO COSTA (LAPSU/UNICEUMA). Psicóloga. Psicanalista. Especialista e Mestre em Psicologia Clínica (PUC/SP). LAPSU-UNICEUMA: http://psicanalisesaudemental.blogspot.com/
RESUMO: As reflexões orientadas pela teoria psicanalítica no debate científico sobre a cultura entrelaçam necessariamente uma compreensão do diálogo possível entre o discurso universitário e o discurso psicanalítico. No primeiro, o laço social é dominado pelo saber e sustentado pelo significante-mestre. No segundo quem comanda o discurso é a condição de produção de um sujeito, no qual o saber surge como enigma. Para além das “fobias” e “repugnâncias” de alguns psicanalistas ao campo da ciência, esta mesa propôs uma intersecção como “condição de sobrevivência teórica”, pois “é necessário recuperar as dimensões ética e política no discurso teórico da Psicanálise” (Beividas,2001). Compreender as condições do sujeito na contemporaneidade é perceber as modalidades de sua inscrição. O mal-estar na Cultura retrata o desamparo nos laços sociais na atualidade, no qual a resistência à perspectiva científica transforma a clínica psicanalítica em mera terapêutica normativa que favorece à medicalização do social, na medida em que não viabiliza uma análise dos significantes que hoje sustentam o laço social e as modalidades de relação com o Outro. O sujeito precisa gerir o conflito psíquico produzido a partir do desamparo em uma dimensão política e ética por estar regido pelos laços sociais (Birman,1999). Pensar a cultura é pensar o ato de fundação de cada sujeito e suas inscrições no campo das demandas e identificações. A gestão do conflito entre o sujeito e a cultura na construção dos laços sociais configura-se a partir de um dispositivo que deve ser instaurado dialogicamente no campo da linguagem e dos seus alicerces de sustentação. Viabilizar o diálogo político e ética entre Psicanálise e Ciência no estudo, em particular, da cultura, é uma aposta.

2. A CERÂMICA DE ROSÁRIO (MA): arte e mercado
Alexandra Naima Machado Rudakoff (Artes/CS/UFMA).
Esse trabalho reflete sobre as mudanças que ocorreram, nos últimos anos, na dimensão artística da cerâmica de Rosário. A principal foi o surgimento de peças modernas ou novas, decorativas, como sapos, porquinhos e outros modelos trazidos de pessoas interessadas nessa cerâmica. Os tradicionais potes e filtros para água ainda são produzidos, apesar de hoje apresentarem alterações em seus aspectos artísticos, como pinturas e flores. Essas mudanças aconteceram, principalmente, porque agora ela não é feita para uso próprio, mas para a venda para turistas, comerciantes, decoradores, entre outros. Os Estudos culturais, em especial, as concepções de Fredric Jameson, Néstor Canclini e Renato Ortiz, auxiliam a reflexão sobre a situação atual dessa cerâmica. Jameson (2001) diz que, atualmente, ocorreu uma fusão entre economia e cultura, na qual esta última tornou-se uma mercadoria. Canclini (1983; 1998) fala dos impactos do capitalismo no artesanato dos índios tarascos, do México, que tem como resultado mudanças nos seus desenhos; outrossim, ele expõe a idéia de hibridação, que constitui a modernidade junto com o mercado e os meios de comunicação de massa, cuja característica é a inovação. Ortiz (1998) afirma que o contato de grupos provenientes de dois universos diferentes tem como resultado mudanças nos padrões culturais de um ou outro grupo. Nesse sentido, pode-se pensar que a cerâmica rosariense, assim como o artesanato tarasco, hoje é uma mercadoria. A mercadorização dessa cerâmica, o contato desses artesãos com outros grupos e com meios de comunicação de massa, como as revistas, permitiu a inserção de novos modelos, bem como outras mudanças na dimensão artística dessa cerâmica.

3. SÍTIO DO FÍSICO: O ECOMUSEU DE SÃO LUIS
Laura Natasha Néri (História/UFMA & Bolsista PIBIC/CNPq).
Resumo: O subprojeto “Sítio do Físico: o Ecomuseu de São Luis” integra o projeto de pesquisa “Teatro das Memórias Sociais e do Patrimônio Biocultural: Pesquisa Antropológica na Região Metropolitana de São Luís”, trabalho realizado pelo Professor Dr. Alexandre Fernandes Corrêa, e tem como objetivo compreender as ‘representações sociais’- Para tal, iremos nos basear na discussão iniciada com Emile Durkheim e trabalhada atualmente por Serge Moscovici - que permeiam o convívio comunitário no cotidiano do entorno do Sítio do Físico e, assim, qualificar o diálogo Ecomuseu/Sociedade. Para a realização desse trabalho, compreendemos a importância de um estudo histórico preliminar do local, conduzindo-nos ao entendimento do porquê de sua preservação e o como das relações ali estabelecidas, ou seja, a partir da história, desdobraremos os temas sobre patrimônio, sociedade e memória.

4. ARTES PERFORMÁTICAS E PRÁTICAS PERFORMÁTICAS: UM ESTUDO DA CULTURA POPULAR A PARTIR DA ETNOCENOLOGIA.
Keyla Santana. Atriz, arte-educadora e pesquisadora da cultura popular maranhense. (UFMA).
Resumo: Este ensaio pretende lançar um olhar etnocenológico sobre uma manifestação da cultura popular do Estado do Maranhão, a Festa do Divino Espírito Santo. Para tanto, primeiramente é mister construir um entendimento acerca da Etnocenologia. Esta é ainda uma ciência jovem, cujo termo foi cunhado por Jean-Marie Pradier e teve como pedra fundamental, o seu lançamento no Colóquio Internacional de Paris em 1995 com a presença de vários estudiosos que de forma mais ou menos isolada lançavam as bases para o surgimento desta ciência. Em linhas gerais o que a Etnocenologia pretende é o estudo das manifestações humanas extra-cotidianas espetacularmente organizadas, para isso, faz larga utilização da interdisciplinaridade com as outras áreas das chamadas etnociencias, como a etno-história, a etno-psicologia e a etno-botanica, todas com o objetivo único de analisar o ser humano em suas especificidades culturais.

5. A HISTÓRIA DAS SALAS DE CINEMA DE SÃO LUÍS
Rosilan Piorski (História UFMA & PIBIC/CNPq).
Resumo: O subprojeto “A história das salas de cinema de São Luís” é parte complementar do projeto de pesquisa “Teatro das Memórias Sociais e do Patrimônio Biocultural” e tem como objetivo pesquisar a história das salas de cinema de São Luís a fim de preservar parte da memória social da cidade e servir de apoio às atividades técnicas do Museu da Imagem e do Som do Maranhão.
Procuramos analisar a repercussão da cinematografia entre a sociedade e a imprensa local seja ao apreendê-la como um novo gênero de entretenimento e/ou como símbolo da modernidade que finalmente chegava a São Luís. Estamos levantando o maior número possível de registros sobre o funcionamento dos cinemas do período, mesmo no que se refere às apresentações de espetáculos no palco, bailes de carnaval, repertório da orquestra, etc.. Contudo, não pretendemos utilizar os dados que fogem à proposta inicial, que é de avaliar as salas no seu aspecto cinematográfico. No período até agora levantado há empresas que atuaram como cinematográficas e teatrais, ou seja, as salas possuíam além da tela um palco onde se apresentavam grupos de teatro, revistas, atletas, músicos, etc. Tentamos relatar o ambiente que se desenvolve na cidade e na imprensa a partir das notícias veiculadas, da programação apresentada e do referencial teórico.

6. PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO LUÍS
Enne Moreira Lima Soares (Mestranda Ciências Sociais/UFMA & Bolsista FAPEMA).
Resumo: Estudo sobre a Educação Patrimonial e suas práticas na cidade de São Luís. Discutem-se os conceitos de cultura, patrimônio cultural e memória social na aplicabilidade de programas preservacionistas incidentes do Patrimônio Histórico. Observa-se especificamente a Educação Patrimonial, sua importância e sua relevância no contexto sócio-espacial da cidade de São Luís de forma a tentar promover um debate crítico dentro da sociedade ludovicense no intuito de identificar—ou apontar, novas tendências e/ou novas perspectivas e vertentes para o patrimônio histórico cultural.

8. CULTURA POPULAR E PATRIMONIALISMO EM SÃO LUÍS DO MARANHÃO ESBOÇOS PARA UMA PRIMEIRA ESQUEMATIZAÇÃO TEÓRICO-CRITICA
Michele Parodi (Doutorando da Universidade Estadual dos Estudos de Milão-Bicocca/Itália).
Resumo: Desde a última década foi se verificando um crescente deslocamento de interesses – tanto nas ciências sociais e humanas, assim como nas agendas das políticas públicas e nas estratégias de marketing comercial – das questões político-ideológicas para questões culturais identitarias. Foi se difundindo uma nova locução para descrever essa suposta dinâmica das sociedades na era da globalização: Cultural Turn, “virada cultural”. Nessa “virada” observa-se em geral uma democratização e personificação da cultura que se reflete na valorização da cultura popular. na aceitação da cultura de massa e na antropologização do patrimônio cultural (que vem incluindo o folclore e até as práticas cotidianas mais prosaicas). A cultura parece sofrer, ao mesmo tempo, um processo de crescente patrimonialização e mercadorização: tudo que é cultura torna-se um recurso simbólico (comprável e vendível), um patrimônio (valorizável e apropriável) a partir do qual se afirmam identidades e pertencimentos na maioria das vezes desenraizados de uma práxis social efetiva. Assim, o valor da cultura fixa-se basicamente na sua mera declaração tautológica performativa, na sua exposição espetacular, e já não mais na capacidade da cultura de transformar e humanizar o mundo. Depois de delinear as origens da convergência e da fusão dos conceitos de cultura erudita, cultura popular e patrimônio, pretende-se analisar o fenômeno de personalização e proliferação do patrimônio, baseando a análise em observações etnográficas preliminares colhidas em São Luís do Maranhão, tentando individuar os laços entre esses fenômenos e a atual evolução do capitalismo mundial caracterizado pela crescente desmaterialização da mercadoria e pela personalização das estratégias de marketing e de consumo (proliferação de variantes e opções de produtos). Observamos, então, como o patrimônio vem adaptado, com adequados mix culturais, às diversas frações que compõem a sociedade, assim consentindo a indivíduos já autonomizados – libertados dos laços de reciprocidade coletiva enraizados nas capacidades de agir e transformar o contexto da própria existência – afirmar o próprio pertencimento consolatório a nação ou as outras entidades abstractas (como a humanidade, a etnia ou a raça). É a partir desses fenômenos que se funda a proliferação das práticas de patrimonialização e a proliferação dos patrimônios ‘coisificados’. Os movimentos sociais mais ativos como o Movimento Sem Terra e as variegadas organizações do movimento negro, como também as comunidades indígenas e quilombola (esses ultimasa não diretamente objetos desse estudo), presentes no Maranhão, parecem demonstrar formas de resistência e de capacidade de agir que saem do esboço aqui proposto. Na conclusão do artigo caracterizarei as múltiplas configurações pelas quais pode ser descrita e concebida a cultura. Da um lado a cultura entretenimento, a cultura mercadoria e a cultura afirmativa (como afirmação de pertencimento e identidade), num outro plano, a cultura como representação-expressão de formas de vida, a cultura crítico-reflexiva e a cultura utópico-transformativa. São essas últimas configurações, a meu ver, que num processo global de despolitização e desestruturação cultural, estão sendo marginalizadas no processo de expansão da cultura-patrimônio-mercadoria-espetáculo.

9. OLHAR FOTOGRÁFICO
José Reinaldo Martins (Jornalista e professor da UFMA. Integra a equipe de pesquisadores sobre Historia da Fotografia da ECA-USP).
Resumo: Ao interpretar e analisar o Album do Maranhão em 1908 (reúne 212 fotografias de paisagens maranhenses da passagem do século XIX para o XX), de autoria de Gaudêncio Cunha, durante minha participação no EEC, o antropólogo Alexandre Corrêa chamou a atenção para uma situação recursiva no que se refere à fotografia: trata-se de uma imagem que inclui e exclui conteúdos. A preocupação de Alexandre Corrêa é recorrente entre destacados pesquisadores, como o fotógrafo e historiador brasileiro Boris Kossoy, os cientistas sociais franceses Philippe Dubois, Roland Barthes e o historiador inglês Peter Burke, só para citar alguns. No momento em que usam a fotografia para estudar a cultura, todos eles se inquietam com as motivações que conduzem o olhar fotógrafo. Por que priorizar determinados conteúdos e exclui a outros? A questão é complexa e nesse comunicado, cabem somente algumas considerações pontuais sobre o tema. É consenso que a seleção é exclusão de conteúdos é inerente ao processo criativo. Só que na fotografia, há particularidades, pois a imagem, depois de recortada e paralisada pelo fotógrafo na sua fase de produção, possibilita múltiplas interações do observador como um recorte do passado, incluindo intercâmbios indiciários carregados de significados. O algum de Gaudêncio Cunha é um exemplo. Ele priorizou a seleção de paisagem de perfil europeu que havia no Maranhão. Contudo, deixou escapar detalhes inusitados que servem de indícios para um amplo processo de discussão sobre a multiplicidade da sociedade maranhense da passagem do século XIX para o século XX.

10. AÇÃO CULTURAL EM MUSEUS E PATRIMÔNIOS: GESTÃO DE HERANÇAS E LEGADOS SÓCIO-CULTURAIS.
ALEXANDRE FERNANDES CORRÊA (GPEC/UFMA).
Resumo: A Importância da Universidade estar vinculada ao processo de debates e reflexões sobre a função social dos Museus na sociedade atual. Reflexão sobre a contribuição das Universidades para a democratização do acesso aos museus em nosso país. Em um campo e área do conhecimento dominada por muito 'conservadorismo' é importante identificar a disposição de se renovar os paradigmas de atuação e das práticas museológicas atuais. Parece paradoxal que os Museus, lugares tradicionalmente estabelecidos como lugares da conservação, possam vir a ser lugares de reflexão sobre transformação cultural, desenvolvimento e inclusão.

11. O OLHAR FOTOGRÁFICO DE GAUDÊNCIO CUNHA.
LUCIANA VILELA (Mestranda do PPGCS/UFMA).
Resumo: Reflexões sobre as estruturas significativas implicitas no processo de formação do olhar fotográfico de Guadêncio Cunha, no início do século XX em São Luís do Maranhão. Introdução a uma sociologia da fotografia no Maranhão. Análise semiológica do álbum de fotografia editado pelo Estado Oficial em 1908.

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