08 outubro 2008

LANÇAMENTO DE LIVRO & ENTREVISTA


Lançamento do livro Patrimônios Bioculturais: Ensaios de Antropologia do Patrimônio Cultural e da Memória Social. São Luís: EDUFMA-Núcleo de Humanidades, 2008.

Foi no Dia 02 de outubro de 2008, às 17:30h, Auditório A do CCH-UFMA.

Autor: Alexandre Fernandes Corrêa - UFMA

Palestra e Relançamento do Livro "Patrimônios Bioculturais".

Palestra:`Gestão do Patrimônio Cultural e da Memória Social'.

Prof. Alexandre F. Corrêa (UFMA)

Convidados para debate:
Prof. Henrique Borralho (UEMA)
Prof. Francisco Araújo (UEMA).

Sexta-feira, 17 de outubro, 10hs da manhã.
Curso de Ciências Sociais - UEMA.


PATRIMÔNIOS BIOCULTURAIS: ENSAIOS DE ANTROPOLOGIA DO PATRIMÔNIO CULTURAL E DAS MEMÓRIAS SOCIAIS


LANÇAMENTO LIVRO PATRIMÔNIOS BIOCULTURAIS

ÍNDICE
PREFÁCIO – INTRODUÇÃO –
CAPÍTULO I – PATRIMÔNIO EM PERSPECTIVA
CAPÍTULO II – ASPECTOS SÓCIO-HISTÓRICOS & CONCEITUAIS
CAPÍTULO III – MEMÓRIA SOCIAL & PATRIMÔNIO
CAPÍTULO IV – PATRIMÔNIOS BIOCULTURAIS
CAPÍTULO V – PATRIMÔNIOS, MUSEUS & SUBJETIVIDADES
CAPÍTULO VI – SOCIEDADE ANÔNIMA & URBANIDADE ENFURECIDA
CAPÍTULO VII – NOVOS PATRIMÔNIOS & NOVOS MUSEUS
CONSIDERAÇÕES FINAIS – A GESTÃO POLÍTICA DO TEATRO DAS MEMÓRIAS
PRÓLOGO – O ‘COMPLEXO DE DÉDALO’ EM UMA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

São Luís: EDUFMA-Núcleo de Humanidades, 2008.

COMUNIDADE VIRTUAL DE ANTROPOLOGIA (CVA) –
http://www.antropologia.com.br/

ENTREVISTA AO AUTOR DO LIVRO

PATRIMÔNIOS BIOCULTURAIS: ENSAIOS DE ANTROPOLOGIA DO PATRIMÔNIO CULTURAL E DAS MEMÓRIAS SOCIAIS


Autor: Alexandre Fernandes Corrêa - UFMA

Entrevista por Gláucia Buratto Rodrigues de Mello


Perguntas:

1. Gláucia: Alexandre, como foi o trabalho feito para a publicação de seu último livro?
Alexandre: Gláucia, primeiro é uma satisfação participar dessa entrevista, pois nossa amizade já tem longa data e é uma grande alegria poder compartilhar com vc esse momento. Esse livro é resultado de um longo trabalho que começou logo após a defesa da tese, na PUC/SP, em 2001, e que continuou com a publicação em edição limitada de uma versão preliminar do texto academista original. Esse livro que lanço agora, recebeu um tratamento mais rebuscado. Além disso ele está acrescido de textos que foram publicados e apresentados em revistas, em anais de eventos e congressos, na Internet, etc, no decorrer desses sete anos.

2. Gláucia: Qual a importância que vc vê na publicação do seu livro?
Alex: Bem, estava lendo recentemente José Ortega Y Gasset, e esse grande filósofo espanhol escreveu algo que me impressionou pela sinceridade e verdade. No texto Rebelião das Massas, ele escreveu que uma “excelente ocasião para praticar a obra de caridade mais adequada a nosso tempo; é não publicar livros supérfluos”. Eu creio que esse livro que publico agora não é um livro supérfluo, pois apresenta uma contribuição original, genuína e autêntica de um pesquisador independente. Creio que, sem querer ser desagradável, há muita mesmice e repetição de idéias dos supostos ‘centros’ do pensamento antropológico, sobre o tema do patrimônio cultural e da memória social. Nós da suposta ‘periferia’ somos um tipo de ‘complexados’ e nós, brasileiros em especial, do ‘terceiro mundo’ tendemos a imitação e repetição obsedada. Vence quem repete melhor – o mais talentoso entre nós, é aquele que empreende uma ‘franquia’ da moda, hoje rentável no capital acadêmico, de algum autor ‘estrangeiro’. Nesse livro não se encontrará isso. O que certamente decepcionará os que são ávidos por simulações ou emulações intelectuais. Pois, se encontra nessa publicação um exercício de imaginação sociológica brasileira e latino-americana, que tenta pensar as singularidades de nossa realidade; que as importações intelectuais não dão conta. Mas, também se trata da publicação de ensaios que reúnem reflexões acerca de temas que estão em voga num contexto de acelerado processo de mundialização cultural. Assim, acredito que se trata de uma boa ferramenta para estudantes e pesquisadores cultivarem debates fecundos sobre a gestão política das memórias sociais na atualidade.

3. Gláucia: Alexandre, então, se não se trata de um livro supérfluo e repetitivo, qual, ou quais são as contribuições originais que ele traz ao debate?
Alex: Primeiramente, o livro procura contribuir com a superação de um paradigma ainda muito poderoso que é o cartesianismo, isto é, esse modo de pensar que fragmenta, separa e compartimentaliza o mundo. Por isso o livro chama-se Patrimônios Bioculturais. Nesse sentido, encontra-se nesse livro uma tentativa clara de enfrentar essa visão de mundo que se pretende perpetuar reproduzindo indefinidamente dicotomias e antinomias do tipo Natureza/Cultura, Material/Imaterial, Tangível/Intangível, e assim por diante. Isso é, eu creio, uma questão que no livro aparece de modo preciso e que não vejo ser enfrentado nas publicações mais recentes sobre esses temas, tão importantes, ligados a política cultural. Outra coisa que se encontra no livro, e que parece ser outra contribuição significativa, é a ousadia de apresentar alternativas a esse paradigma. Não se trata de só criticar, mas de apresentar também saídas para essas ‘encruzilhadas do labirinto’ em que nos encontramos hoje, parafraseando Castoriadis. O livro é crítico, mas também é propositivo e sugere prospectivas mais democráticas para a ação cultural.

4. Gláucia: Nesse seu trabalho crítico, quais são as principais referências teóricas que vc destacaria?
Alex: Bem, são muitas as fontes do pensamento crítico exercitado no livro, mas eu destacaria o legado da Teoria Crítica, com incursões no pensamento de Walter Bejamin e também de J. Habermas; nos textos de Castoriadis, já referido ainda a pouco; Edgar Morin, em relação a crítica ao cartesianismo, quando se aproxima da Epistemologia da Complexidade e nesse mesmo caminho, tem muitas afinidades, nesse livro, com a produção dos autores ligados aos Estudos Culturais. Não poderia deixar de fazer referência a Marcel Mauss, que na seqüência dos trabalhos de C. Lévi-Strauss, serviram de base para o enfrentamento da visão fragmentadora.

5. Gláucia: Alexandre, então, seria o momento para vc falar um pouco sobre o conceito de patrimônios bioculturais, que vc considera a sua contribuição mais valiosa ao debate sobre gestão e promoção dos patrimônios naturais e culturais e das memórias sociais.
Alex: Sim, é verdade, considero que esse é um ponto forte do conjunto desses ensaios. De imediato já gostaria de fazer uma referência importante a um professor e pesquisador, que fez o prefácio do livro, e que é o grande responsável pela formação desse conceito no processo da pesquisa de doutorado, realizado nos anos de 1997 a 2001. Trata-se do professor Edgard de Assis Carvalho. Foi nas conversas e diálogos com ele que surgiu esse conceito. As idéias não são propriedades de autores, elas estão vivas no mundo das idéias, como diz Edgar Morin, na noosfera. E esse conceito surgiu como uma noção plástica que incorpora realidades tidas como separadas, pelo paradigma cartesiano fragmentador. Na verdade, esse conceito tem uma herança que vem desde Marcel Mauss, Lévi-Strauss e Merleau-Ponty e passa por Morin, Bateson, Prigogine, Francisco Varela, Fritjof Capra, e muitos outros que trabalham com a epistemologia da complexidade e os estudos culturais. É um conceito que rebate essa moda triunfante das dicotomias de patrimônios materiais e imaterias, tangíveis e intangíveis, naturais e culturais – é um conceito formulado por um pensamento que se insurge contra esses reducionismos. De modo bem geral, pode-se dizer que se trata de um conceito re-integrador, que remete a “recomposição do todo”, como afirmava M. Mauss.

6. Gláucia: Essa ‘insurreição’ de que vc fala, do que se trata, mais exatamente?
Alex: Bem, se trata de um problema político. Nesse domínio do patrimônio, da memória e da cultura, tem muito conservadorismo, como aponta Canclini, em Culturas Híbridas, é nesse campo e espaço social que as oligarquias mais reacionárias se instalam (veja o caso do Maranhão, que é exemplar); então, como não poderia deixar de ser no que se refere a política cultural, esses conceitos que estamos introduzindo no debate, são instrumentos para uma insurreição do pensamento, contra essas formas domesticadoras e fossilizantes do excessivo processo de patrimonialização que estamos vivendo. Nesse sentido, esses textos trilham as veredas da crítica abertas pela reflexão mais recente de Henri-Pierre Jeudy. Causa muita espécie vc se colocar contra esse modismo patrimonialista atual, que pretende recolher dividendos na onda da ‘turistificação’ e ‘gentrificação’ alucinada dos sítios históricos brasileiros. Esse livro é uma forma de enfrentamento duro contra essa ideologia.

7. Gláucia: Alexandre parece que nesse ponto vc se choca com a política que está em voga, já há 10 anos, e que comumente se tem como uma renovação e novidade na área da preservação do patrimônio. Como vc se coloca nesse contexto?
Alex: Sua pergunta é excelente, pois é esse o centro, o ponto chave das distinções que meu trabalho tem aprofundado nesses últimos anos. A política preservacionista hoje em voga parece ter muitos apoiadores e entusiastas, mas ocorre que historiadores, sociólogos e antropólogos estão incorrendo em erro quando pensam que uma ideologia do ‘patrimônio imaterial’ pode vir a ser a salvação para suas pretensões disciplinares. Quando pensam que ‘finalmente’ temos um reconhecimento do nosso trabalho e importância profissional, estão deixando de refletir sobre as conseqüências epistemológicas desse reducionismo consentido. Afinal, todos nós sabemos que não há bem material que não seja simbólico e carregado de significados ‘intangíveis’; qualquer objeto material está carregado de simbolismo. Então, não tem como separar, nem privilegiar uma das dimensões, nem se alegrar com uma coisa dessas. O antropologismo, ou o sociologismo, é tão pernicioso quanto o materialismo, ou o idealismo. Não se supera um paradigma reificando-o e, assim, contribuindo para sua perpetuação. É necessário um novo modo de pensar, numa transformação efetiva da concepção de patrimônio. Creio que essa satisfação em se tornar mais um tecnocrata do patrimônio, com uma nova especialização reconhecida e canonizada, produzirá muitos equívocos. E, vc tem razão, terei que ter muita paciência, pois esse estado de coisas tende a demorar muito tempo para se transformar. Apesar de eu achar que o tempo trabalha a nosso favor.

9. Gláucia: Parece que agora eu entendi melhor a idéia de ‘complexo de dédalo’ que vc apresenta no prólogo do livro...
Alex: É realmente isso! O que chamei de ‘dédalos do patrimônio’ são estes ‘parques’ ‘turistificados’ e ‘gentrificados’ que estão sendo criados nos centros históricos brasileiros e latino-americanos. São os novos brinquedos dos ‘tecnocratas do patrimônio’; o curioso é que parece que os antropologistas e sociologistas estão aderindo de modo acrítico a essa ideologia. É o que Castoriadis chamou de Encruzilhadas do Labirinto; precisamos de superar as heteronomias que estão se impondo de modo tirânico. É preciso mais autonomia e reflexão independente.

10. Gláucia: Vc não considera que nesse ponto encontrará muitas dificuldades de aceitação do seu trabalho, já que está enfrentando um modo de pensar ainda dominante e muito disseminado atualmente nas instituições de cultura e do meio ambiente?
Alex: Já estou detectando muita resistência, é verdade. Mas, essa é uma dificuldade, ou um risco, que um pesquisador não pode se furtar de passar, afinal, foi por meio de um trabalho profundo e criterioso que se chegou a essa nova hipótese, a essa nova forma de pensar a política cultural e ambiental. A proposta do livro é de oferecer uma crítica, mas também oferece uma sinalização nova e alternativa, em nome do que poderia ser diferente e realmente inovador. Oferece um novo paradigma re-integrador, que defende a re-unificação do campo epistêmico; isso pode provocar muitas resistências, mas faz parte do processo de avanço do conhecimento: são os obstáculos epistemológicos que se apresentam no momento. Já estou há mais de 10 anos nessa trilha, não tem problema se as resistências ainda são fortes e que as reações venham a ser recorrentes: o conformismo é geral. O importante é ser honesto com seu próprio trabalho e apresentar a sociedade alternativas legitimas para uma nova gestão política e democrática do teatro das memórias sociais. Nesse sentido político uma publicação universitária ganha uma importância enorme, só numa universidade pública é que eu consegui acolhimento para estas reflexões livres. Agradeço muitíssimo essa chance de apresentar idéias independentes e autônomas. Agradeço muito o verdadeiro espírito universitário e a UFMA! E a vc também, e a CVA, a oportunidade de apresentar essas idéias e propostas. Oxalá vivamos melhores dias na área da política cultural e ambiental!

1 comentário:

Regina Cohen disse...

Sou arquiteta com deficiência física e atualmente me dedico a minha pesquisa de pós-doutorado sobre"Acessibilidade a Museus" com ênfase na antropologia da emoção, da ambiência, da intersensorialidade e da pesquisa etnográfica. Recebi o artigo sobre Acessibilidade em Centros Urbanos antigos que muito me interessou e tenho tentado entrar no blog ou cadastrar para receber alguns informes atuais, mas não tenho tido muito sucesso.
PARABÉNS pela qualidade das pesquisas e aabordagens!