08 outubro 2008

DEBATE SOBRE MATÉRIA DA NEWS WEEK

No Domingo 02 de agosto de 2009, propus a LIIB um debate sobre uma matéria da Revista News Week, intitulada TO LIST OR NOT TO LIST. O debate se restringiu, até o momento, a participação de um membro da Lista do ICOMOS Brasil.É interessante acompanhar esse debate para observarmos as resistências a um novo paradigma de salvaguarda biocultural na sociedade.
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Interlocução: 1. Alexandre Corrêa, Colegas, Saudações! Seria um caso de excesso de "patrimonialização" ou de falta de visão local para gerenciar o que é realmente importante? Pelo que li, os dois casos não são problemas da UNESCO ter declarado a coisa como patrimônio mundial ou não, mas sim de agências locais não agindo como deveriam ou colocando os interesses locais acima dos interesses sociais maiores. Essa é uma questão que creio ser muito relevante nos dias de hoje, já que há um questionamento sobre a o problema do nacional versus o local, dos supostos interesses nacionais versos os igualmente supostos interesses das comunidades. O problema de Angkor Wat me parece ser muito semelhante aos do caso do turismo em Congonhas: prefere-se respeitar os interesses da "comunidade" local (leia-se, aqueles que lucram com o turismo) a preservar as estátuas dos profetas de Aleijadinho em um ambiente controlado. O mesmo se aplicaria a questão da destruição dos Budas de Bamyan, dinamitados por causa de interesses locais (afirmação política de um grupo). Quanto a Dresden, o exemplo é ainda mais dramático para mim, pois a experiência do IPHAN tem sido a que o destombamento "por bem social maior" (trânsito???) sempre implicou em perdas ao patrimônio com retornos desprezíveis ou zero para a sociedade - mesmo a local. Melhorar o trânsito - de automóveis - não é justificativa que se apresente! Vejam só: S. João Marcos (Rio Claro, Rio de Janeiro): a cidade foi destombada e destruída a toa, já que a represa que motivou o destombamento não a afeta. Forte do Buraco (Recife): destombado e dinamitado para a construção de uma base de hidroaviões. Essa base nunca foi feita e o Brasil hoje sequer tem hidroaviões militares. Casa na praça Quatro Jornadas e Igreja Nossa Senhora da Mães dos Homens (Campos, Rio): destombada para construção de um colégio. Hoje em dia é um estacionamento. Arcos da Lapa (Rio de Janeiro): dois dos arcos foram destombados e destruídos para passagem de ônibus elétricos. O Rio de Janeiro não usa mais ônibus elétricos. Pico do Itabira (Itabira, MG): foi destruído para dar um pouquinho mais de lucro a Vale do Rio Doce (não precisa dizer mais nada, não)? Campo de Santana (Rio de Janeiro): destombado para construção da avenida Presidente Vargas, junto com quatro igrejas coloniais. E vai por ai. Qual o benefício social desses destombamentos? Foi por causa do "excesso de patrimonialização"? Os casos do Arcos da Lapa e dos bens destruídos para a Construção da Presidente Vargas me parecem muito semelhantes aos de Dresden: para resolver um problema momentâneo - as vezes só afeito a camada privilegiada da sociedade, que usa automóveis, se destrói o patrimônio que deveria ser de todos. O nosso colega Celso Lago criou uma página de bens destombados. Vai desaparecer quando o Geocities for fechado, infelizmente.

http://www.geocitie s.com/lagopaiva/ destruid. htm#quajor

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Réplica: 1. E a Democracia? - Prezado Adler e demais participantes da LIIB, Li a matéria do News Week com outros olhos. Quando se ouve a voz dos cidadãos, da população - quando se fala em democracia, em participação e gestão social dos bens, das cidades; é preciso ir além da 'ideologia patrimonialista' excessivamente técnica e insensível as vozes leigas. Sabemos que cada caso é um caso. Para cada situação e processo de tombamento e preservação, existem lógicas e aspectos singulares: não quero entrar nas particularidades, apenas aponto para essa questão da democracia, da participação dos leigos, dos cidadãos, dos não-técnicos e não-experts do patrimônio. Sou sociólogo e portanto só estou indicando que uma questão se abre a reflexão, cada vez mais pungente: a gestão democrática das memórias sociais. Creio que já não dá para falar mais em manipulção das massas pelos empreiteiros interessados em construir pontes e destruir o passado; já não dá mais para falar em desinformação e alienação - trata-se de um problema de participação e democratização da gestão das cidades. Em nome da preservação do passado não se pode engessar o futuro, e impor aos cidadãos uma vida que não querem levar, nem se submeter. Isso é que me chama a atenção: as pessoas não querem ver suas vidas decididas em gabinetes de tecnocratas que pensam que sabem mais do que elas sobre o passado, a história, a memória e etc. Democracia é isso! Vc fala que automóveis não são importantes, mas o tráfego não é importante? Por que? A circulação das pessoas nas cidades, a de Dresden em particular, não é importante? Por que o patrimônio é mais importante que a saúde das pessoas na cidade? E o estresse de um trânsito terrível? Por que não se pode construir uma ponte, um viaduto, um metrô - por causa do patrimônio?

E as pessoas com necessidades especiais (cadeirantes) que não podem subir num sobrado porque não tem elevadores? Por que não podem haver elevadores em prédios antigos? Quem decide isso? Tem algo execessivo nisso. Arbitrário, tecnocrático e anti-democrático - arrogante, eu diria... Não adianta dizer que a maioria é insensível, ignorante, e que não conhece o valor da história, do passado, etc. A população não aguenta mais esse tipo de forma autoritária de construção do sentido patrimonial. (Não acho que é o caso dos participantes da LIIB)... Acho que essa matéria, e outras que tem aparecido em outras mídias, trata dessa questão de fundo: a democracia. Creio que é preciso aprofundar o exame do que está posto hoje, as contradições desse processo, e ser mais sensível as inquietações da população, e dos cidadãos comuns... Saudações! Alexandre Corrêa.

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Interlocução: 2. - Alexandre, Saudações! Exatamente! E a democracia? Democracia >>não<< é atender os interesses minoritários em prejuízo dos majoritários, isso é o que estou colocando. Ouvir a voz dos habitantes de Dresden é fazer justamente isso: não se ouviu a voz dos outros interessados no assunto, seja no estado da Saxônia, seja na Alemanha e, muito menos, no mundo. Vozes, expressas através de seus representantes legítimos, que, em tese, deveriam ser respeitadas. Um grupo de interesse restrito decidiu o que era melhor para ele - e dane-se o resto. Foi pela democracia que fiz as minhas colocações. A punição da UNESCO é o que cabia no ato. Você coloca: a circulação de cidadãos em Dresden não é importante? É mais do que um bem de valor universal? A minoria que mora em Dresden e usa carro achou que sim. Isso é democracia? Não creio. Sobre "engessar o passado" - é uma questão de opinião. Jeudy acha que se deve respeitar o direito de "não preservar". Acho eu que isso é uma falácia, pois ignora o desejo de preservar, que também existe e também é importante. Não se dando atenção democrática aos outros interessados, se ignorou os direitos desses. Saúde e fraternidade, Adler Fonseca.

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Réplica: 2. Inquietações de um Pesquisador. - Caros Integrantes da LIIB, Aproveitando o ensejo da referência a Henri-Pierre Jeudy, feita por Adler Fonseca, coloco a disposição dos interessados uma resenha produzida a partir da sua palestra no Petit Trianon, ocorrida nesse último mês de julho.

Sobre a relatividade do conceito de democracia: cada um segue os seus princípios. Fico feliz em poder expressar minhas inquietações como pesquisador.

http://gpeculturais.blogspot.com/2009/08/henri-pierre-jeudy-no-petit-trianon.html

Saudações, Alexandre Corrêa.

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Intelocução: 3. - Alexandre, Colegas, Saudações! Que a coisa não deveria estar apenas nas mãos dos tecnocratas é uma situação ideal, que deve ser almejada. Mas não foi por ai que fiz a minha colocação, foi por uma questão de democracia mesmo, de interesses sociais maiores sobre os locais. Você escreveu sobre "participação e gestão". Qual foi a participação e gestão dos interessados no bem na decisão? Para todos os efeitos, nula. Só os cidadãos de Dresden tomaram a decisão, que afeta um bem que, em tese, deveria ser de todo o mundo. Devemos ter cuidado com o discurso. Democracia, repito, não é atender interesses menores, locais - apesar desses terem que ser respeitados, se não é ditadura da maioria. Mas a questão dos interesses globais nunca entrou em discussão na questão de Dresden. E não vejo porque "não dá para falar em desinformação e alienação". Isso acontece a todo o momento, em todos os locais do mundo, mesmo nos mais "modernos" e "civilizados" . Por exemplo, a defesa que os americanos fizeram da não aceitação do protocolo de Kyoto, para que "não se alterasse o seu 'estilo de vida'". Isso não é desinformação e alienação? Ou você acha que os americanos são particularmente sádicos e inconseqüentes? A circulação nas cidades é importante? Não conheço o caso de Dresden. Mas certamente lembro o famoso ditado: "um viaduto é o atalho mais rápido entre dois "engarrafamentos" . Duvido muito que uma solução que busque atender minorias (as que usam carro) sejam corretas, quando no mundo moderno se sabe que a questão do transporte coletivo é a solução mais eficiente. Ainda mais que os carros estão fadados a desaparecer em um futuro não muito longínquo: simplesmente não haverá combustíveis fósseis para os mover. Foi por isso que apontei que destruições causadas

por motivadores tecnológicos devem ser vistas com extremo cuidado, como foi o caso do forte do Buraco e dos Arcos da Lapa. Era "vital, importantíssimo" as questões que levaram ao seu destombamento, como o uso de ônibus elétricos. Os arcos se foram, assim como o "vital, importantíssimo" ônibus elétrico. Que as pessoas não queiram ter suas vidas decididas nos gabinetes é ótimo. Mas volto ao meu ponto inicial: as pessoas interessadas foram ouvidas? Não. Fizeram um plebiscito na Saxônia sobre a questão? Não. Fizeram um pebliscito na Alemanha sobre a questão? Não. Fizeram um pebliscito no mundo sobre a questão? Não. Então, como falar sobre os aspectos negativos das "decisões em gabinetes"? Foi exatamente isso que ocorreu em Dresden. Para se atender interesses menores, se desrespeitou os dos outros. Como disse em outra mensagem: uma questão de democracia, que foi totalmente ignorada neste caso e em outros que se discutem por ai, se dizendo que ouvir meia dúzia de pessoas é democracia. Não é. Democracia é respeitar os direitos de todos, o que não ocorreu no caso. Saúde e fraternidade, Adler Fonseca.

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Réplica: 3. News Week, a Lista e o Turismo Mundial. - Caro Adler e demais Integrantes da LIIB, Sobre o tema da democracia e as diferentes concepções sobre a mesma, muito poderíamos debater. Mas uma coisa é certa, a cidade de Dresden deve ser gerida por quem vive nela: a Saxônia, a Alemanha, o Mundo, etc. tem muitos outros problemas para resolver. Não creio que o gabinete da UNESCO em Paris deva decidir o destino urbanístico da cidade de Dresden. Sinceramente, não acho isso correto.

Porém, gostaria de seguir em outra direção, mantendo-me fiel ao texto da matéria do News Week. Lá tem uma outra questão de suma importância. O articulista aponta para o fato de a Lista da UNESCO servir como um tipo de marketing, promoção turística, para o local ou cidade, ou monumento que tem a graça de se ver inscrito nela. Discutiamos isso aqui, por volta dos anos de 2003, em relação à São Luís/MA. O articulista na verdade expressa na revista o que já foi debatido aqui, há cinco ou seis anos atrás. Esse 'selo', essa inclusão na lista, está sendo usado como forma de garantia de investimentos turísticos vultosos nesses espaços e locais patrimonializados e consagrados 'mundialmente' . O fluxo de turistas intensifica- se, quadruplica- se em poucos anos, redendo milhões de dolares. E as consequências disso para a vida dos cidadãos locais? Como é que vão conviver com um fluxo maior de turistas? Afinal: quais são os benefícios disso para a população? Quais as garantias de que esse status de 'patrimônio cultural' da UNESCO, garanta direitos culturais e avanço nas políticas culturais locais: nenhum. É o que constato nas minhas pesquisas. A UNESCO não tem compromisso político nenhum, apenas técnico. Quando a questão política é colocada, os técnicos da UNESCO dizem: mas isso é um problema local! Ora Adler, se quando o problema político é colocado e ele é devolvido para os cidadãos locais, então a questão democrática é local, não pode ser global. Não tem como fazer plebiscito no mundo para uma demanda local, seria um absurdo. O caso de São Luís é típico aí: só beneficiou um grupo pequeníssimo de pessoas ligadas ao clã Sarney; a população não recebeu nem um quinto do que foi investido ali pelo MONUMENTA. Hoje o sítio histórico de São Luís está sendo vendido para os portugueses e italianos; depois de ser valorizado com milhões de dolares do país. Esse problema político a UNESCO não quer nem saber. Mas se o problema é técnico ela tira São Luís da Lista. Acho que podemos refletir mais, aprofundar mais, e trabalhar mais o discurso. Realmente, concordo com vc nesse ponto. Temos que começar a estranhar esses consensos arbitrários, essas obviedades de que é preciso preservar por preservar. Tem muitos interesses subjacentes nisso. O sentido do processo de preservação não pode ser unívoco, inquestionável... Essa associação entre patrimônio e indútria turística deveria ser tratada com mais minucia - há uma conexão interessante entre essas relações econômicas. E pouco se debate sobre os efeitos disso sobre as populações locias. A matéria da revista faz jus a essas questões, que merecem nossa atenção e uma reflexão mais audaciosa. Saudações, Alexandre Corrêa.

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Tréplica: 3.1. Excessos da 'patrimonialização': contextualização... - Caros Membros da LIIB, Para esclarecer melhor o uso dos termos, é preciso dizer algumas palavras em relação a questão relativa ao 'excessos da patrimonializaçã o'. O que ocorre na Europa é o extremo do que está referido no uso do termo e da expressão, apresentado em mensagem anterior sobre a matéria da News Week. Em nosso contexto não seria conveniente utilizá-lo, ja que naquele continente há duzentos anos se iniciou um intenso processo de salvaguarda, que com a II Grande Guerra só fez se sedimentar. Algo diferente ocorre entre nós latino-americanos. Só no século XX encontramos o inicio de um processo de tal envergadura; um movimento tardio e contraditório. Assim, para que não se cometa injustiças e equivocos de avaliação e juízo sobre os fatos, é necessário localizar e contextualizar esse uso. Dreden fica na Europa, como todos sabem, e o resultado do processo de sua retirada da cidade da Lista da UNESCO, é um desgaste do processo de 'patrimonializaçã o' excessivo que se dá naquele continente, acometido de ingerencias de diversas ordens, em diversos departamentos, estados e países do Velho Continente. O que chamo atenção é para o fato de que entre nós não venhamos a reproduzir e cometer esses mesmos excessos. Desafortunadamente, creio que isso ocorrerá pois os espíritos estão armados aqui para reproduizir os erros de lá. É a nossa sina de latino-americanos, não conseguimos avaliar a tempo, e deixar de reproduzir os erros e ter a felicidade de só replicar os acertos. Isso é histórico e teremos que saber lidar com isso. Mas, o que não se pode querer é que não se possa tentar alertar e esclarecer espíritos ainda livres e que possam contemplar a ação preservacionista por um outro paradigma, que na Europa e nos EUA, Japão e Grande Oriente, começa a vicejar. O que não podemos é negar a possibilidade de se interrogar as idéias dominantes. Apesar dos fundamentalismos de plantão, podemos vislumbrar o tempo em que conseguiremos religar o campo epistemológico e não ver o mundo de modo fragmentado. Há uma ordem no aparente caos, o que não nos deixa vè-la são as velhas ideáis que temos na cabeça. Saudações, Alexandre Corrêa.

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Resposta: Alexandre, Colegas, Saudações! Me perdoe, mas discordo totalmente de você quando diz que "a cidade de Dresden deve ser gerida apenas por quem vive nela" - não é uma verdade absoluta, como a frase poderia levar a crer. Isso se aplica em alguns

casos mas não em outros. Se me perguntassem sobre a demolição do Minhocão em São Paulo, eu diria que é um assunto de São Paulo, já que até onde sei o minhocão não é especialmente protegido. >>Contudo<< se fizessem - e já fizeram - a pergunta se um estacionamento deveria ser autorizado na praça Tiradentes, em Ouro Preto, a resposta é que esse é um problema que excede, em muito, a alçada municipal - é um patrimõnio

nacional e mundial. Tanto é que o Ministério Público estadual >>já<< interviu nesse assunto. Isso para preservar um bem que não é só do interesse local (ou "da comunidade") , mas de todos. No caso de Dresden, é óbvio que o Estado da Saxônia, a Alemanha e o resto do mundo têm outros problemas. Isso implica que os órgãos

representativos deveriam se omitir de defender os interesses sociais de

seus cidadãos? Seria um absurdo, não? Se é correto ou não o gabinete da UNESCO decidir o que vai acontecer em Dresden é uma discussão fascinante, que implica não só no problema de trânsito ou de preservação do patrimônio, mas também da organização do mundo moderno - e é por isso que coloquei e reafirmo que a questão é de democracia, de respeito dos interesses da sociedade como um todo. Se passarmos apenas a nos preocupar com os interesses locais isso implicaria em um total redesenho

da sociedade moderna. Eu, por exemplo, vivo numa grande cidade, em um estado rico. Meus impostos são redistribuídos para sustentar municípios mais pobres, o que acho muito correto. Se formos na base de "cada um vê apenas seus interesses", isso não deveria ser feito e inviabilizaria a estrutura dos estados nacionais modernos.

Sobre a questão dos benefícios disso para a população, não sei e acho que não há maneira de se fazer uma análise objetiva, pois não é uma questão objetiva. Como mesurar "satisfação"? "Sensação de Pertencimento" ? "Felicidade" ? "Memória"? Todas são questões que passam pelo patrimônio. Tentar medir a coisa em termos "objetivos" não dá certo.

Eu diria exatamente o contrário do que você disse sobre a UNESCO: ela não tem compromisso técnico nenhum, só político, já que não tem poder de intervir em nada, a não ser autorizando ou negando um título sem efeitos legais. No caso de Dresden, por exemplo, se sabia (em geral, e não só pela UNESCO) que a construção implicaria em perdas para o bem, tanto é que o assunto foi levado a plebiscito local. A opção da localidade, ignorando os direitos dos outros, foi pela destruição do bem. A UNESCO

agiu para não recompensar o ato danoso. Não é uma questão técnica e que, repito, não tem nada a ver com excesso de patrimonializaçã o, mas sim com gestão da coisa que, alguém na própria Alemanha, em algum momento achou que devia ser valorizada por um órgão maior do que os locais. São Luís: o programa Monumenta é do Governo Brasileiro. A UNESCO tem feito gestões junto ao IPHAN para ampliar a ação no local. De qualquer maneira, se beneficiou apenas o clã Sarney ou a população como um todo não é o objetivo da proposta de preservação, que é preservar, na esperança que, no futuro, a população possa usufruir da coisa. E esse usufruto não é uma questão objetiva (só beneficiou um grupo e não a população), como deveria ser óbvio, acho eu.

Quanto ao plebiscito, citei-o pois o fato de ter sido feito um em Dresden dá a aparência (e só a aparência) de um ato democrático. Se fosse, seria necessário fazer esse plebiscito em nível maior. Mas há várias maneiras de se fazer a democracia que não envolvam o voto direto para se resolver todos os problemas - é para isso que existem os organismos representativos e as administrações governamentais. No caso de Dresden, um desses órgãos, a UNESCO, se opôs a intervenção. Foi ignorada. Quanto a associação entre a indústria turística e o patrimônio eu não vejo problema em se examinar com mais cuidado, acho até bom. Mas trabalho na área de seleção de bens e posso lhe afirmar com base em minha experiência que a indústria turística não tem efeito na seleção de bens - não é um fator que é levado em consideração em momento algum do processo de seleção, mesmo porque é incontrolável, nunca se sabe se um bem selecionado para ser patrimônio será objeto de interesse turístico. Certamente a indústria turística, em alguns casos, se aproveita mais dos

resultados da seleção, mas isso é até por incompetência das autoridades em encontrar outros usos para os bens.

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Tréplica: Caro Adler e Prezados Membros da LIIB, No momento estou residindo em Copacabana, no Rio de Janeiro, cidade em que nasci e me formei. Posso perceber, mais perto, a nossa total divergência em relação ao que seja Democracia. Vamos partir de um exemplo local, já que estamos na mesma cidade: O IPHAN tem sede nesta capital, e a sexta superintendência nada fez sobre a situação da Coleção de Magia. Estou no Rio de Janeiro para continuar a pesquisa de Pós-Doc (II), dessa vez na UERJ, sobre esse acervo e a vida do poeta Dante Milano, diretor do Museu da Polícia Civil do Rio de Janiero, por duas décadas. Após observar o estado dessa coleção, e detectar a total omissão dos responsáveis, fiz encaminhamentos de reclamações sobre o estado dessa coleção aos órgãos locais e ao presidente do IPHAN, assim como seus departamentos de apoio técnico. Nada recebi, nem mesmo uma resposta cordial ou educada. Parece que a UNESCO e o IPHAN trabalham com a mesma concepção de 'política' e 'democracia'. Agora compreendo melhor como se articulam os argumentos de quem vê os problemas lá dos gabinetes burocráticos e técnicos. Nossas divergênciaas, nesse momento, estão num estágio muito interessante. Num primeiro momento era sobre o uso da expressão 'excessos da patrimonialização', no caso de Dresden - combatido, aliás, como se fosse uma 'falácia', vinculando meus argumentos ao pensamento do sociólogo francês Jeudy. Depois passou para a questão da democracia, quando afirma aqui que a população de Dresden, ou de qualquer cidade ou localidade que tenha título de 'patrimônio mundial', perde a gestão de sua comunidade, tendo que se submeter as ingerências de organismos e gabinetes internacionais (ou de Paris). Bem, essa é uma questão complicada: será que as populações destas cidades e localidades sabem disso? Eu não sabia. Pode ser que eu tenha entendido mal o argumento expresso na mensagem, mas é o que se depreende do que foi escrito. Acho que seria um ato de lesa democracia: ao tornar-se 'patrimônio mundial' perde-se os direitos de decidir sobre a 'Polis'. Imagine se os atenienses, que inventaram a democracia grega, aceitariam isso, Essa questão é muito interessante mesmo. Patrimônio e democracia. Para se adquirir um título de 'patrimônio' é preciso seguir todo um rito de estudos, levantamentos, inventários - todos técnicos. Só depois de tudo isso é que se consegue o selo - hoje usado como marketing turístico. Para se retirar o título também precisa passar por um rito de avaliação técnica. Especialistas e técnicos decidem isso. Mas, e na gestão política das cidades? Como é que se dá? É bem diferente - faz-se plebiscitos. Basta ser cidadão e organizar-se em partidos, sindicatos, associações, etc.; ou não, e simplesmente votar. Voto universal, igualitário, de leigos e de não leigos. Acho que as cidades e localidades que entraram, ou que ainda irão entrar para as listas de patrimônio, devem começar a ser informadas disso, que perdem a auto-gestão de seus destinos urbanísticos.

Estamos de fato entrando no mundo da 'tecnocracia', e nesse caso da 'tecnocracia do patrimônio', que passará a limitar as decisões dos cidadãos e das populações quie vivem nesses 'parques do passado' arquitetônicos. Estive relendo recentemente o 'Admiravel Mundo Novo' de Aldous Huxley, e comecei a achar que o que estava ali descrito se coadunava muito bem com que estamos começando a viver, já há algum tempo. No momento que abrimos mão da gestão das nossas memórias sociais, e que gabinetes de técnicos e especialistas determinam o que devemos ou não fazer, ou pensar, sobre os acervos, museus, cidades, etc., entramos numa ordem muito perigosa. Pois se democracia é isso, há um problema com o conceito de democracia, ou com quem se utiliza dessa palavra. De fato não estamos nos referimos ao mesmo conceito. Creio que já não estamos dialogando e sim tentando defender visões muito diferentes sobre o processo de salva-guarda das memórias e a promoção cultural das comunidades. Creio que nessa deriva em que se encontra a palavra democracia, todos perderemos. Pois o desgaste dessa preciosa palavra e todo o legado, e o patrimônio cultural, que ela reserva, pode perder-se nesse jogo. O legado da democracia, da participação popular, da gestão dos nossos destinos e de nossas vidas, merece que seja preservado com muito cuidado: parece que estamos precisando de salvaguardas para a democracia! Pois em nome de nobres fins, os meios também devem ser nobres. Não podemos nos esquecer que a retórica do patrimônio não é mais consensual, se é que um dia foi - talvez na academia IPHAN - a retórica da perda já não convence a todos, ainda mais agora quando ficamos sabendo que corremos o risco de perder a gestão do nosso futuro.

Fraternidade, Liberdade e Igualdade, Alexandre Corrêa.



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