25 outubro 2008

O INFERNO DE WALL STREET


Data de Publicação: 29 de novembro de 2005
(ou Um paralelo entre as Ilhas dos Amores – Manhattan/São Luís)

O Inferno de Wall Street é uma sátira, uma tremenda gozação, cujo pretex-to, para ironizar a corrupção do Bra-sil e, particularmente, a do Maranhão, se centra no desmascaramento da hipocrisia universal detectada em políticos e religiosos célebres, através de uma visão anárquica sobre a vida e os procedimentos de monarcas, reis, oligarcas e nepotistas, de sangue real ou meramente megalomaníacos faraônicos. Um painel humorístico, dantesco e satânico sobre a verdade inconfessável de curriolas e quadrilhas de ladrões oficiais que posam de protetores do povo. Uma visão sincera, mas apocalíptica da maldade e do sadismo do ser humano, quando no poder ou atrelado a ele. Um escancaramento do escândalo aristocrático-burguês em nível do travestimento da falsa moral palaciana e assembléica, cuja extensão em imagem e semelhança mais fiel está na hipocrisia de quase todas as igrejas de inúmeras denominações. Ah, Sousândrade nos vinga ao colocá-los em xeque-mate.

Usando os EUA como pano de fundo e pretexto, de lá, exilado, ele teve o descortínio dos podres poderes de um país honesto, mas através de falsas estatísticas, na realidade um camelódromo de reproduções fajutas, de cópias piratas da realidade. Sim, Sousândrade fez a alegoria de um Brasil envolto em lençol de lama, um país de heróis sem nenhum caráter, onde a falsa moral, a máscara, o encubamento, os bastidores, os agiotas, os roladores de dívidas, os vilões, os camuflados desfilam de santos, mas do pau-oco. O paradigma para representar essa farsália é a Bolsa de Nova Iorque, símbolo universal do carnaval da usura, em que é permitida a prática da alienação do erário público no particular. Em Sousândrade, políticos, banqueiros e religiosos são parasitas típicos dos bens do povo alienado no controle e poder, essa máquina devastadora que promove o enriquecimento ilícito de uma minoria. Como a parodiar Karl Marx ele nos diz que a religião é o ópio do povo, não por desígnios de Deus, mas em virtude de, em nome de Deus, se montarem verdadeiras Bolsas de Valores.

O Inferno de Wall Street é um delírio, um pesadelo, propositalmente montado como um quebra-cabeça, aparentemente sem pé nem cabeça, para ser lido e entendido, 50 anos depois. Sátira violenta, virulenta, venenosa, mortal, grotesca, belamente escrita por um poeta que teve a antevisão do câncer universal da humanidade. Após um porre homérico, o Guesa tem visões alucinatórias, como por exemplo, a ruína ou quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, que corresponde cabalisticamente à Queda da Monarquia, no Brasil. É um episódio louco, apocalíptico, escrito em metalinguagem ou em linguagem nonsense.

Sousândrade camufla o que diz através de neologismos, acoplamentos de palavras, polilingüismos e polissemias, que nos permitem ler, nas entrelinhas, que o Brasil, se não é o que queríamos que fosse, pelo seu potencial natural, é o país do carnaval, não no sentido sério da palavra que quer dizer brincadeira, diversão, mas no sentido perverso de ponte para a corrupção. Os porres e as alucinações do Guesa, no Tatuturema e em O Inferno de Wall Street permitiram a Sousândrade uma visão real do Brasil, a partir da Bolsa de Valores de Nova Iorque e uma visão profética do que são hoje, sem tirar nem pôr.

http://www.guesaerrante.com.br/2005/11/29/Pagina246.htm

Bibliografia básica para estudo da obra literária do poeta Sousândrade

Castelo Branco, Camilo. Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros. Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1879, I, p. 139 – 44.

Romero, Sílvio. História da literatura Brasileira. Rio de Janeiro, H. Garnier, Liv-editor, 1888, II, p. 1161 – 5.

Campos, Humberto de. O precursor, Correio da Manhã (Rio de Janeiro), 3 de agosto de 1924.

Campos, Humberto de. O conceito e a imagem na poesia brasileira. Rio de Janeiro, Livraria Edit. Leite Ribeiro, 1929, p. 48 e 115.

Peixoto, Afrânio. Noções de História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1931, p. 220.

Santiago, Clarindo. Souza Andrade, o solitário da Vitória. Revista da Academia Brasileira de Letras, vol. 39, n. 126, junho de l932, p. 171 – 201.

Campos, Augusto e Haroldo de. Re-Visão de Sousândrade. São Paulo, Edição Invenção, 1964.

G. Williams, Frederick e Moraes, Jomar. Sousândrade: Inéditos (Harpa de Ouro, Liras Perdidas, “O Guesa, O Zac”), Departamento de Cultura do Estado, São Luís, MA, 1970.

G. Williams, Frederick. Sousândrade:Vida e Obra. Edições SIOGE, São Luís, MA,1976.

G. Williams, Frederick e Moraes, Jomar. Sousândrade: Prosa. Edições SIOGE, São Luís, MA, 1978.

Lobo, Luiza. Tradição e ruptura: O Guesa de Sousândrade. Edições SIOGE, São Luís, MA, 1979.

Moreira Duarte, Sebastião. O Périplo e o Porto. CORSUP/EDUFMA, Série Literatura, Crítica Literária 1, São Luís, MA, 1990.

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