22 outubro 2008

PERSPECTIVISMO


Em epistemologia, perspectivismo é a visão filosófica que toda percepção e pensamento tem lugar a partir de uma perspectiva que é alterável. O conceito foi criado por Leibniz. O desenvolvedor e mais proeminente defensor da idéia é Nietzsche. Ele influenciou idéias similares em filósofos como José Ortega y Gasset.

O perspectivismo diferencia-se do objetivismo e do relativismo, apesar de semelhanças pontuais com um e outro. Tal como o objetivismo, ou realismo, o perspectivismo defende que há uma única realidade, mas acrescenta a essa tese metafísica (pois se trata de uma tese sobre a realidade) a tese epistemológica sobre a perspectiva de cada um frente a realidade. Tal como o relativismo, o perspectivismo defende que diferentes indivíduos percebem a realidade diferentemente. Mas, ao contrário do relativismo, o perspectivismo não diz que há tantas realidades quantas percepções da mesma.

O Perspectivismo Ameríndio de Viveiros de Castro

Abaixo, parte de uma entrevista de Viveiros de Castro - Antropólogo Brasileiro do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Para além das questões científicas e próprias do conhecimento e interesse de alunos e profissionais da área de Ciências Sociais, as contribuições do Perspectivismo Ameríndio, são essenciais a todos(as), afinal, o ser (estar) "humano" é uma qualidade (?!) também da onça (?!) do porco (?!) e por ai vai. Aqui a íntegra da entrevista. Aqui detalhes da publicação de "Inconstância da Alma Selvagem" - Cosac Naify, aqui a sua resenha.

Lucio Uberdan


Viveiros de Castro
“Perspectivismo” foi um rótulo que tomei emprestado ao vocabulário filosófico moderno para qualificar um aspecto muito característico de várias, senão todas, as cosmologias ameríndias. Trata-se da noção de que, em primeiro lugar, o mundo é povoado de muitas espécies de seres (além dos humanos propriamente ditos) dotados de consciência e de cultura e, em segundo lugar, de que cada uma dessas espécies vê a si mesma e às demais espécies de modo bastante singular: cada uma se vê como humana, vendo todas as demais como não-humanas, isto é, como espécies de animais ou de espíritos.

Assim, por exemplo, as onças se vêem como gente, vendo ainda vários elementos de seu universo como se consistissem de objetos culturais: o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca etc. Em contrapartida, as onças não nos vêem, a nós humanos (que naturalmente nos vemos como humanos), como humanos, mas sim como animais de presa: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram. Quanto aos porcos selvagens (isto é, aqueles seres que vemos como porcos selvagens), estes se também se vêem como humanos, vendo, por exemplo, as frutas silvestres que comem como se fossem plantas cultivadas -mas vêem a nós humanos como se fôssemos espíritos canibais (pois os caçamos e comemos).

Há vários desdobramentos e implicações desse complexo de idéias: por exemplo, que a forma corporal de cada espécie é uma roupa ou invólucro que oculta uma forma interna humanóide; ou, ainda, que os xamãs são os únicos indivíduos capazes de assumir o ponto de vista de mais de uma espécie além da sua própria; ou, ainda, que, dada a humanidade reflexiva de cada espécie, a caça e o consumo de carne animal são empresas metafisicamente problemáticas, jamais livres de conotações canibais. Tudo isso assenta em um pressuposto fundamental, o de que o fundo comum da humanidade e da animalidade não é, como para nós, a animalidade, mas a humanidade.

Os mitos indígenas descrevem uma situação originária onde todos os seres eram humanos, e a perda (relativa) dessa condição humana pelos seres que vieram a se tornar os animais de hoje. Ou seja, se para nós os humanos “foram” apenas animais e se tornaram humanos, para os índios os animais “foram” humanos e se tornaram animais.

Nós pensamos, é claro, que os humanos fomos animais e continuamos a sê-lo, por baixo da “roupa” sublimadora da civilização; os índios, em troca, pensam que os animais, tendo sido humanos como nós, continuam a sê-lo, por baixo de sua roupa animal. Por isso, a interação entre humanos propriamente ditos e as outras espécies animais é, do ponto de vista indígena, uma relação social, ou seja, uma relação entre sujeitos.

Entre as conseqüências filosóficas mais interessantes dessa doutrina perspectivista indígena está uma concepção das relações entre “Natureza” e “Cultura” radicalmente distinta daquela que vigora, em versões historicamente variáveis, na tradição ocidental, desde o par phusis/nomos da Grécia antiga ao par nature/société do Iluminismo."

Introdução ao contexto do perspectivismo
http://amazone.wikia.com/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_ao_contexto_do_perspectivismo

Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio
Eduardo Viveiros de Castro
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-93131996000200005&script=sci_arttext

O solo etnográfico do perspectivismo
http://amazone.wikia.com/wiki/O_solo_etnogr%C3%A1fico_do_perspectivismo_(1)

Aforismos desencapados e perspectivismo
“O perspectivismo (...), como o relativismo, é uma doutrina que só é possível para aqueles que se consideram de fora, descompromissados, ou melhor, atores que encarnam uma série sucessiva de papéis temporários. De seu ponto de vista, todas as concepções da verdade, exceto a mais ínfima, parecem ter sido desacreditadas. E, do ponto de vista da racionalidade da pesquisa constituída pela tradição, fica claro que tais pessoas estão, por sua própria posição, excluídas da possibilidade de possuir qualquer conceito de verdade adequado para uma pesquisa racional sistemática. Portanto, a sua não é tanto uma conclusão sobre a verdade, quanto uma exclusão dela, e, dessa forma, do debate racional.

“Nietzsche compreendeu isso muito bem. O perspectivista não pode empenhar-se numa argumentação dialética com Sócrates, pois esse caminho trairia o que, do nosso ponto de vista, seria um envolvimento com uma tradição de pesquisa racional, e, do ponto de vista de Nietzsche, a sujeição à tirania da razão. Não se deve discutir com Sócrates, devemos ridicularizá-lo por sua feiúra e maus modos. Tal ridicularização, como resposta à dialética, é imposta nos parágrafos aforísticos de Götzen-Dammerung [O Crepúsculo dos Ídolos]. E o uso do aforismo é instrutivo nele mesmo. Um aforismo não é um argumento. Gilles Deleuze o chama de “um jogo de forças” (ver “Pensée Nômade”, Nietzsche aujord’hui, Paris, 1973), algo através do qual energia é transmitida, e não através do qual conclusões são alcançadas.”

Alasdair MacIntyre,
“Justiça de Quem? Qual Racionalidade?”, pág. 395. (Ed. Edições Loyola)
http://marcioguilherme.apostos.com/archives/2006/01/relativismo_afo.html

Ciências Sociais
Para uma análise de questões sobre perspectivismo, multinaturalismo e relativismo, ler também (além da obra de Viveiros de Castro):

1) "Estrutura e Sentimento", de Philippe Descola;

2) "A Parte do Cauim. Etnografia Juruna", de Tânia Stolze Lima.

http://lucio-uberdan.blogspot.com/2007/01/o-perspectivismo-amerndio-de-viveiros.html

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