08 dezembro 2008

TEATRO DAS MEMÓRIAS: paradoxos éticos da instituição preservacionista.


TEATRO DAS MEMÓRIAS: Cidadania e direitos.

Alexandre Fernandes Corrêa - UFMA
alex@ufma.br; alexandre.correa@pq.cnpq.br

Vivemos em tempos difíceis! Mas, não será por isso que deixaremos de tentar manter algum princípio ético de conduta: não vale tudo, a todo custo! De nossa parte é cada vez mais urgente observarmos as atuais contradições entre o dizer e o fazer, em nossa sociedade. Hoje mais do que nunca impera o velho lema patriarcal: “- Faça o que eu digo, não faça o que eu faço!”.
Neste início de dezembro, aqui em São Luís, algo inesperado aconteceu. Pessoas e instituições, em nome da “educação patrimonial” cometeram atos que merecem o crivo e avaliação equilibrada dos que ainda têm um pouco de noção de justiça e sabem manter alguma integridade nas ações e nas idéias. Trata-se do (re-)lançamento do Projeto chamado de Teatro das Memórias. Lamentável acontecimento que não promove a “educação” nem ensina sobre o “patrimônio”. Por quê? Ora, como um grupo de pessoas e instituições que dizem que estão “preservando” a “cultura” e o “patrimônio” na cidade, através de programas de “educação” para crianças e jovens, poderia estar cometendo o pior de todos os equívocos em termos do respeito aos direitos, a propriedade intelectual e a cidadania?
O Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais da UFMA, desde 2004, vem promovendo pesquisas e projetos de extensão universitária na ilha de São Luís, sob o título de Projeto de Ação Cultural Teatro das Memórias. A Companhia Vale do Rio Doce, a Fundação Municipal do Patrimônio Histórico (FMPH) e o IPHAN, desde a mesma data promoveram um Projeto com o nome de “Viver o Desterro”; que logo abandonaram assim que se viu que não levava a lugar algum, a não ser promover os seus diretores e coordenadores de plantão. A comunidade do Desterro, através de sua Associação de Moradores, demandou, então, ao Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais (CRISOL) da UFMA a continuidade de uma ação sincera e comprometida com a comunidade. E assim foi feito. Formulamos e elaboramos o Projeto Políticas do Patrimônio e da Memória (UFMA-2004), depois incorporado ao Projeto Teatro das Memórias, parte integrante do Projeto maior “TEATRO DAS MEMÓRIAS SOCIAIS E DO PATRIMÔNIO BIOCULTURAL: Pesquisa Antropológica na Região Metropolitana de São Luís”; que é um projeto de pesquisa e extensão universitária aprovado no CONSEPE (Resolução nº. 463/2006 – 31.05.2006 – UFMA/CNPq). Desses trabalhos esse pesquisador, que agora escreve esse artigo, jamais recebeu qualquer remuneração ou verba pública.
Assim, causa espécie e profunda indignação assistirmos pessoas e instituições renomadas cometendo atos que atentam contra a própria lição pedagógica que julgam difundir com o coração cheio de “boas intenções”. Lamentável comportamento de pessoas e instituições que, sem o devido cuidado, estão destruindo os princípios da cidadania e do direito que julgam estar defendendo e promovendo. São contradições censuráveis em pessoas e instituições que enganadas nas idéias e na sua retórica, revelam nas suas práticas que, na verdade, não têm noção do que fazem. Diria alguém: “Perdoe-os, pois não sabem o que fazem”!
Todavia, como podem continuar agindo, em nome da “educação” e do “patrimônio”, pessoas e instituições que não sabem “preservar” a ética, o patrimônio, a memória, a cultura, etc, nas suas ações mais cotidianas? Como podem essas pessoas e instituições se utilizarem de impostos e verbas públicas em nome desses bens valiosos da população brasileira e maranhense, se não sabem respeitar e cumprir com as leis vigentes, sobre os usos e apropriações das idéias, projetos e valores de outras pessoas, grupos e comunidades?
Nós do Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais (CRISOL) pensamos bastante em como iríamos agir contra essas atitudes de má fé e lesa dignidade. Depois de refletirmos achamos por bem que inicialmente não iremos contestar na justiça essas pessoas e instituições, e que vamos apenas nos manifestar à sociedade na intenção de sugerir que, em nome do respeito às distinções entre nossas práticas e atitudes, se retire o nome “Teatro das Memórias” do “projeto” (re)lançado nesse dia quatro de dezembro. Desejamos que esse grupo nomeie suas práticas e defina seus conceitos e métodos a partir de seu próprio trabalho, deixando de se apropriar passivamente das idéias, práticas e valores construídos por pessoas, grupos e comunidades. Para promover o patrimônio cultural e uma suposta “educação patrimonial” supõe-se que esse grupo já esteja consciente e já tenha aprendido a respeitar os valores e idéias das outras pessoas e grupos. A falta de reconhecimento do trabalho de pesquisa e das ações culturais promovidas por anos a fio, negados e apropriados por um grupo sem lastro científico e político, espelha bem a falta de noção de preservação dos verdadeiros valores patrimoniais dos grupos, instituições e pessoas.
São quatro anos de trabalho de pesquisa e extensão, com conceitos e métodos completamente distintos dos que estão sendo praticados e executados por esse grupo de pessoas. O Projeto original “Teatro das Memórias” elaborado desde 2004, emprega conceitos e métodos desenvolvidos a partir da leitura e estudos em vasta bibliografia, entre diversas dissertações e teses. A principal referência teórica que funda a própria idéia de investimento na gestão democrática e política do ‘teatro das memórias’ sociais é a obra do sociólogo francês Henri Pierre Jeudy – jamais referido por essas pessoas que agora se dizem continuadoras desse trabalho de pesquisa e extensão univerisitária original. O GPEC, sob a coordenação desse pesquisador, criou um método específico de ação cultural a partir desses estudos teóricos e empíricos. Desse modo, trata-se de um trabalho intelectual com autoria e método, que está sendo usado e deturpado indevidamente.
Através desse documento escrito em forma de artigo faremos publicar nos veículos de comunicação da cidade, do Estado e do país, contestando publicamente essas pessoas e instituições contra o uso indevido do nome e do trabalho de pesquisa da Universidade. Divulgaremos artigos críticos em nome dos direitos difusos e coletivos, das comunidades e dos grupos, das universidades e instituições de preservação do patrimônio biocultural, aos quais estamos filiados e seguimos seus princípios. Nosso Grupo de Pesquisas e Estudos Culturais é filiado a Associação Brasileira de Antropologia, ao ICOMOS-BR, ao Fórum e Grupo de Trabalho do Patrimônio Cultural da ABA, ao 'Observatório Social', ao Conselho de Cultura do Estado do Maranhão, etc., nos quais continuaremos a defender a dignidade e o respeito aos valores culturais e patrimoniais depositados nas memórias sociais da população maranhense e brasileira.
Nosso compromisso é com uma política cultural democrática e verdadeiramente autônoma; que nos prepare para viver e gerir uma vida melhor nessa cidade. Cidade e Estado que ainda precisam encontrar um destino mais democrático e justo. Constatamos, então, que ao perpetuarem essas práticas despóticas, autoritárias e perversas, como essas que agora denunciamos, essas instituições e pessoas se tornaram o maior obstáculo que hoje temos que enfrentar para inaugurar melhores tempos em nossa cidade e Estado.
Nosso apelo é que essas pessoas e instituições parem com estas atitudes cindidas e perversas – presas as raízes mais reacionárias do patriarcalismo colonial. Desejamos que essas pessoas e instituições deixem de continuar mantendo fundo o fosso que separa as suas ações de sua retórica; do que fazem e do que dizem.
EM TEMPO: Projeto aprovado pelo EDITAL Universal CNPq-2008.
alexandre.correa@pq.cnpq.br

Atigo Publicado no Jornal Pequeno, Domingo, 25 de Janeiro de 2009.
http://www.jornalpequeno.com.br/2009/1/25/Pagina97244.htm

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