23 janeiro 2009

Fundamentalismo Étnico

"Todo pensar que no es libre no debe llamarse pensamiento", Fernando Savater.

"Pensar abala a estrutura de tudo", Dante Milano.

Reflexões sobre Re-territorializações Neo-conservadoras na Atualidade.

Observamos atualmente a proliferação e a difusão de discursos etnistas, com forte significado neo-racista, disseminando-se mascarados em românticas visões anti-modernistas, anti-capitalistas, anti-consumistas, pró-ambientalismo e geralmente ancorados num ecologismo ingênuo. Paradoxalmente, isso se dá num mundo que caminha a passos largos para um processo social planetário pós-racial. Conceitos clássicos como de raça, nação, classe, etnia, etc, estão em plena crise epistemológica. É surpreendente, no entanto, testemunharmos o nascimento de discursos defendendo re-territorializações conservadoras e nostálgicas, numa reação neurótica ao processo de mundialização atual. 'Neurótica' no sentido empregado por Sigmund Freud, que no início do século XX já analisava o fenômeno do 'narcisismo das pequenas diferenças' - um fenômeno curioso que se alastra atualmente entre diversos grupos sociais. Especialmente nos que têm resistências ao processo analítico e têm posturas intelectuais pré-freudianas e pré-marxistas. Esse quadro histórico e epistemológico particular, em que assistimos regressões psico-sociais arcaizantes, beira o rídiculo do retorno ingênuo ao misticismo esoterista, anacronismo hippie, e outros tribalismos neo-tradicionalistas; isso, tem coloridos diferentes de país, para país - as vezes até de lugar, para lugar.
Em nosso País, contudo, em que alguns sempre imitam o que há de mais mesquinho no estrangeiro, vemos se propagar - através de escritos e discursos retóricos de pseudo-etnografistas e pseudo-antropologistas, embarcando docemente na 'nova onda': o surto etnicista acrítico e fundamentalista! Não se dão conta que caem no velho slogan imperialista do 'dividir para dominar': como os inglêses fizeram na India. Aliás o 'antropologismo', europeu e norte-americano, filho do imperialismo (ver Jean Copans), foi calcado nisto. Todavia, é lamentavel assistir a difusão de ideologias étnicas e separatistas em solo brasileiro: terra do sincretismo e do hibridismo cultural. São fundamentalistas étnicos que não compreendendo a complexidade do processo histórico e cultural do País, preferem as facilidades pseudo-etnografistas que a ideologia fundamentalista oferece: preferem olhar para o passado arqueológico; muitas vezes forjados. Esses 'etnografistas' nunca fazem referência aos textos de Claude Lévi-Strauss - especialmente, 'Raça e História' e 'Raça e Cultura' - não reconhecem o verdadeiro legado da teoria antropológica anti-racista e anti-etnicista. E assim passam a propagar uma visão anti-moderna, anti-capitalista, anti-desenvolvimentista, anti-socialista, anti-marxista... Caso venha a se sedimentar e se cristalizar algo assim, vai-se condenar a população pobre de nosso País, e continente, a mais alguns séculos de atraso e desespero. Ao invés de procurar as formas de o povo brasileiro acessar o 'crescimento sócio-econômico e cultural', pretendem difundir o separatismo e o isolamento étnico: não querem promover a 'inclusão social', querem a exclusão e segregação separatista. Esse tipo de pensamento 'multi-cultural' é racista. Isto é, acredita e difunde a ideia de que o 'moderno', o 'desenvolvimento', etc., é próprio de determinados grupos humanos; o atraso, a pobreza e o rústico, é próprio de outros grupos humanos. Assim, temos uma divisão singular: os que nascem para usufruir a supermodernidade, e os que nascem para viver no superatraso...
O incrível é observar entre nós da América Latina pessoas que aceitam isso: nos tornarmos uma variante 'culturalista' do grande 'museu da pobreza' do mundo... Esse cenário bizarro lembra muito os aspectos tenebrosos do livro de Aldous Huxley 'O Admirável Mundo Novo', pouco lido...
Em tempo: será que estes novos 'antropologistas' serão instrumentos de uma sócio-técnica, em que, inconscientes, contribuem para a construção dos "Bolsões de Selvagens do Admirável Mundo Novo"? Vão continuar a contribuir assim para a criação dos chamados 'territórios étnicos'; que nada mais são que "reservas de selvagens": "lugares em que, em razão de condições climáticas ou geológicas, ou da pobreza dos recursos naturais, não se julgou conveniente realizar as despesas para civilizar" (HUXLEY, 1995). Será que esse novo 'antropologismo' não é mais perigoso que o anterior? Será que não há um paralelo interessante, uma homologia intrigante, entre o que acontece com a 'etnologia racial' contenporânea e os avanços da biologia e da genética? De novo podemos fazer paralelos com a obra literária de Aldous Huxley; paralelos que são inquietantes (ao menos para os que têm 'os olhos livres para ver'). Se não vejamos: "A biologia e a genética começaram a ter mais destaque e a ciência se politizou, justificando o conceito de raças, concebendo um determinismo genético, semelhante à divisão em castas da população de Huxley". Que incrível aproximação de conceitos e categorias. Sobre esse ponto da reflexão ler o artigo "Patrimônios Bioculturais na Hipermodernidade" (do autor desse texto); e, o instigante artigo "Admirável Mundo Novo: Uma Perspectiva Histórica entre a Obra e a Sociedade Pós-Moderna", que se encontra no endereço: http://bocc.ubi.pt/pag/nunes-maira-admiravel-mundo-novo.pdf.
É preciso rever criticamente esse quadro de referência ideológico, pseudo-científico, contra-cultural e irracionalista, através de verdadeiras pesquisas de cunho sócio-político-cultural avançado. É preciso se pesquisar mais e se informar mais sobre a natureza dessas idéias fraturadas da vida social e cultural, na América do Sul e no Brasil; essa neurose de neo-racistas camuflados que se enganam ao acreditarem que estão sendo libertadores: para eles agora, 'tudo é étnico'! Se tudo é 'étnico', nada é 'étnico'!
Caso essa ideologia floreça, lançarão, isso sim, a população local no maior dos obscurantismos: o ódio étnico irracional. Estão semeando as sementes da 'balcanização' dessa região do continente. Perguntamos: a quem isso interessa? Será que é isso que a população brasileira e latino-americana deseja: política étnica?
Vejam em que consiste, em poucas palavras, o fundamentalismo étnico: "No estudo comparativo das etnias, fundamentalismo étnico refere-se a movimentos anti-modernistas nas várias Etnias e Raças, com ideologias separatistas, destinadas a voltar às características fundamentais do grupo que originou o grupo maior, que se impôs pela diversidade cultural, social e econômica. Enquanto a humanidade se "globaliza", as minorias, revoltadas com a ampla "diversidade" cultural gerada por esse fenômeno, destinam-se a formar grupos que compartilhem as mesmas idéias separatistas, e tentam se impor de várias formas. As mais conhecidas tentativas separatistas por grupos fundamentalistas étnicos, podem ser encontradas nos Congressos Nacionais, Assembléias Legislativas, e em Partidos Políticos. Podem também se revelar em Estados Formados, destinados a eliminar minorias (o mesmo termo usado pejorativamente agora ganha uma ar vitimesco e cheio de direitos) raciais, ou podem ser grupos armados separatistas, denominados terroristas. Por se tratar de um fenômeno universal, presente em toda a história da humanidade, desde as tribos nômades, índios e povos africanos, os conflitos étnicos gerados pelo Fundamentalismo, têm uma justificativa na retomada de valores e idéias que podem ter sido esquecidos; mas a guerra, e o terrorismo, não justificam a defesa de ideologias aceitas por minorias(minorias aqui possui tom pejorativo e sem direitos), ou por governos ditadores, bem como a matança de raças inteiras, para se eliminar uma Raça ou até mesmo uma Língua".
Esse trecho foi compilado do Wikipedia, que resume, grosso modo, as linhas gerais desse pensamento menor; para os que desejam informação ligeira. Visite a página: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fundamentalismo_%C3%A9tnico .

Observa-se algo curioso também na ordem da economa da cultura. No momento que uma comunidade sócio-cultural humana decide que é 'território étnico', o que é que a ordem capitalista investe nisso? O que é que o capitalismo vê nisso? Ora, artesanato quilombola, indígena, etc... Pois, é isso que vira produto capitalista no mercado: signos étnicos-exóticos... É nisso que vai dar a tal da política étnica?

Para uma reflexão antropológica aprofundada sobre o fenômeno sociológico em causa, ver os textos da Revista 'Gazeta de Antropología', especialmente o Editorial: "En contra del paradigma identitario" http://www.ugr.es/~pwlac/G24_00Editorial.html

Para adiantar uma reflexão antropológica pertinente ao tema, observa-se as vicissitudes desse tipo de ideologia etnicista - de viés culturalista, mas que na verdade é um neo-racismo camuflado e pós-moderno - num caso etnográfico digno de nota.
O fato que passamos a narrar agora ocorreu no ano 2000, num povoado do município de Alcantara-MA. Uma equipe do Governo Federal ligada aos programas de desenvolvimento, promoveram uma incursão para 'promoção da cidadania' na região. Assim, ao indagar à comunidade, ditas 'tradicionais', quais eram as suas necessidades mais urgentes, ouviram uma série de reivindicações. Entre elas o saneamento básico e a energia elétrica. Prontamente, os agentes públicos envolvidos na ação se comprometeram, em caráter emergencial, realizar as obras. Mas, para surpresa de todos, agentes do Ministério da Cultura, ligados ao IPHAN, logo que souberam da notícia correram para a comunidade e declararam que não era possível a realização das obras desejadas, já que a comunidade era considerada patrimônio cultural (Comunidades Tradicionais) como remanescentes de quilombo, e que por causa disso não se poderia realizar as obras que desejavam! Veja-se que assombrosa artimanha etno-culturalista, que pretende manter a população pobre confinada num 'gueto' étnico-cultural atrasado, isto é, num museu da pobreza e do passado! Isso em nome do 'patrimônio cultural'!
Esse é o preço que o povo brasileiro agora vai ter que pagar - submeter-se a mais nova ideologia pseudo-antropologista que se travestiu em 'preservacionismo' da identidade étnico-cultural, e, pasmem, difundido nas academias, repleta de docentes e estudantes de classe média ávidos por encontrar o 'exotismo' mais perto de suas casas: sem precisar ir muito longe, lá, nas ilhas Trobriand de B. Malinowsky...
Como já foi ressaltado acima, sobressai desse grupo de 'etnografistas' o fato de que nunca fazem referência aos textos clássicos de Claude Lévi-Strauss - 'Raça e História' e 'Raça e Cultura' - pois, não reconhecem o verdadeiro legado da teoria antropológica anti-racista e anti-etnicista. Herança cultural e científica antropológica que é solapada nesse culto ingênuo e equívoco de noções ideológicas como 'raça' e 'etnia' - termos epistemologicamente contaminados e que são reproduzidos sem nenhuma análise crítica.

Fica ainda uma pergunta: 'Política Étnica', o que é isso? Para quem serve isso? É um modelo 'antropologista' de administrar e gerir um futuro "sistema científico de castas-étnicas" (Previsto por Aldous Huxley)? Pode ser pluralista ou democrática uma política que se funda numa ilusão conceitual; contida no termo 'etnia'?
Para aprofundar a reflexão nesse tema fascinante, através de uma possível crítica antropológica fecunda e inteligente, sugerimos a leitura de um texto esclarecedor escrito por Pedro Gomez Garcia, da Universidade de Granada: "La identidad étnica, la manía nacionalista y el multiculturalismo como rebrotes racistas y amenazas contra la humanidad", que pode ser lido no seguinte endereço da Internet:
http://www.ugr.es/~pwlac/G22_02Pedro_Gomez_Garcia.html

Num esforço contrário, temos o texto de Christian Martínez Neira, que pretende defender a possibilidade de uma 'política étnica' pluralista e democrática - o que parece-nos uma contradição dos termos. Todavia, nunca é demais ler os argumentos de seus defensores.
Estudios Avanzados Interactivos|V. 5|Nº7|2006|
http://web.usach.cl/revistaidea/

Agora, fica ao leitor dessas linhas, a reflexão e o juizo independente sobre o tema em tela...

Saudações antropológicas!
alexandre.correa@pq.cnpq.br

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