25 janeiro 2009

MUSEU DO ALEIJADINHO: A lenta agonia da beleza

ESTADO DE MINAS. BELO HORIZONTE, MG, 25 DE JANEIRO DE 2009.
Walter Sebastião e Beto Novaes/EM/D.A Press

Projeto de museu em Congonhas, que abrigaria os profetas de Aleijadinho, se arrasta há 10 anos e ainda não saiu do papel. Obras-primas exibem marcas de deterioração e correm graves riscos.

Foto: Descaso inexplicável com uma das maiores obras de arte das Américas: profeta exibe sinais de destruição que se agravam com a ameaça de chuvas de granizo, vandalismo e ação do tempo.

Quase uma década depois do surgimento da proposta de criação de um museu em Congonhas, dando base para a discussão sobre melhores perspectivas de proteção dos profetas de Aleijadinho, o projeto continua sem sair do papel. Depois do apoio dos governos municipal, estadual e federal, vencidas complicadas negociações com a Igreja Católica, chegou-se à licitação, no segundo semestre de 2008, para a realização da primeira fase da obra. Que não teve inscritos, pois o preço estimado foi considerado inadequado pelas empreiteiras, como explica Jurema Machado, coordenadora do setor de Cultura da Unesco. A pedido do Ministério da Cultura, ela está administrando o projeto. Para que o processo caminhe é necessário que a Prefeitura de Congonhas abra nova licitação. A reabertura da licitação, informa Pedro Cordeiro, presidente da Fundação de Cultura, Lazer e Turismo (Fumcult), deve ocorrer em até 40 dias. Não foi realizada até agora devido ao período eleitoral. Além disso, as obras só podem começar depois do período de chuvas. A previsão é de 18 meses de trabalho. O Museu do Aleijadinho, que, chegou-se a anunciar, ficaria pronto em 2006, tem novo adiamento e data prevista de conclusão das obras: 2011.
“É obra complexa”, explica Pedro Cordeiro, repetindo argumento de todos os envolvidos. Enquanto isso, continua a agonia da obra-prima de Antônio Francisco Lisboa, agora ampliada por problemas trazidos no sítio onde estão as esculturas. Como os danos na ladeira que leva ao local, devido a chuvas, e da queda, há cerca de três anos, do muro situado a sete metros de uma das capelas do conjunto.
Pedro Cordeiro, antes de falar sobre o tema, lembra que, quando era adolescente, participou de ato contra a retirada dos profetas da cidade – “uma data histórica para Congonhas”. Ele avisa: mexer no local afeta a população da cidade, pois alguns veem as esculturas como arte, enquanto outros as consideram objetos de fé. “O santuário foi construído pelas irmandades, pertence à Igreja, e o município tem de respeitar. Com a mudança do projeto – o museu agora está em terreno municipal – podemos avançar”, garante. Ele explica que o ponto de partida é a demolição de duas casas já desapropriadas. “A construção do museu é fundamental para Congonhas”, reforça. Cordeiro explica que, ao lado de outras instituições, o museu pode ajudar na solução de problema já identificado pela cidade: o pouco tempo de permanência do turista em Congonhas. Geralmente, ele está apenas de passagem, às vezes só almoçando na beira da estrada, sem entrar na cidade. Para ele, por ser projeto “de excelência, arrojado e de padrão internacional”, a obra vai ter impacto sobre essa situação, trazendo melhor relação com o turista, qualificação do comércio, geração de renda e visibilidade para Congonhas. O presidente da Fumcult ouve sempre a mesma pergunta: os profetas vão permanecer no adro? “O museu contempla espaço para que futuramente seja feita a transferência, em data precisa. Por enquanto, não é necessário, e acho prudente que permaneçam onde estão, pois foram feitos para ficar ao ar livre”.

Foto: Profeta Jonas, no adro do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, exibe marcas de vandalismo.

ORAÇÃO ARQUITETÔNICA
Jurema Machado, coordenadora do setor de Cultura da Unesco, também deixa transparecer seu incômodo com a lentidão das negociações para a construção do Museu do Aleijadinho. Mas explica que, como a obra está fora do terreno da arquidiocese, “do ponto de vista legal, formal”, os problemas estão resolvidos. O cuidado, observa, é só começar a obra se houver recursos para realizar uma etapa completa. Até o momento, há R$ 3,5 milhões já depositados, suficientes para a primeira fase. Toda a obra tem custo estimado de R$ 15 milhões.
“Não é fácil conseguir recursos de leis de incentivo em momento de crise, mas acho que a situação é temporária. Além disso, o museu é projeto prioritário para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério da Cultura. Eles vão nos ajudar a levantar o dinheiro”, garante Jurema. “O santuário tem acervo importante e de grande valor. É local visitado por turistas brasileiros e estrangeiros que não tem nenhum tipo de suporte, informações ou estrutura de permanência. Nossa expectativa é de que a obra seja espaço de reverberação da importância de Aleijadinho, do barroco brasileiro e dos trabalhos de conservação de monumentos em pedra, todos temas caros à cultura e arte de Minas Gerais”, explica Jurema Machado. Não se trata, volta a explicar, simplesmente de um museu, mas de centro de referência sobre uso e conservação da pedra, criando, inclusive, relação dinâmica com a produção contemporânea. A diretora da Unesco desmente boatos de que os recursos já existentes podem ser perdidos. “Eles vêm de leis de incentivos e podem ser renovados”, garante. O Estado de Minas procurou a Arquidiocese de Mariana para saber a opinião da Igreja Católica sobre a criação do museu e a transferência dos profetas para local seguro. O cônego João Ribeiro alegou que apenas o arcebispo dom Geraldo Lyrio fala sobre o assunto. A secretária do clérigo informou que dom Geraldo está viajando e só volta na terça-feira.

Foto: Perigo constante: a ladeira que leva à igreja foi danificada pelas chuvas.

4 comentários:

R Freitas disse...

Quase consegui ver esses ricos tesouros mineiros e brasileiros que são as esculturas de Aleijadinho, o pessoal do ônibus teria que descer do buzão e seguir a ladeira a pé e recusou-se a isso. Fiquei muito chateado. Mas um dia passo por lá.

Preservar a história é garantir uma identidade. uma continuidade, uma noção de mundo de civilização, e não podemos deixar que patrimônios como esse sejam abandonados. Abaixo ao descaso!

Vamos botar a boca no trombone!!!

ab Ovo disse...

Dói na alma...
Estou divulgando no que posso,se tiver algo melhor pra que possamos nos unir e tomar uma atitude mande por favor.

ab Ovo disse...

Criei uma comunidade no Orkut sobre esse descaso das obras do Aleijadinho.Gostaria que visitassem e opinassem.



http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=56326828&refresh=1

luis paulo fernandes seabra disse...

quem passa sempre pela ladeira ou mora por lá sabe que não foram as chuvas responsável pela DESCARACTERIZAÇÃO DA LADEIRA, foi uma obra da COPASA, a disposição de cada pedra sem qualquer cimetria permitiu com o passar de seculos a PERIGRINAÇÃO dos fieis que na maioria erão deficientes físicos onde procuravam ali a verdadeira cura.