28 janeiro 2009

SOBRAS DO PASSADO: os sobrados das cidades antigas


Crônica da Imaginação Livre

Seria forçar demais a imaginação considerar a hipótese das cidades nascerem 'velhas' e com o tempo se tornarem cada vez mais 'novas': 'jovens' e 'crianças' urbanas? Inspirados no roteiro do filme 'O Curioso Caso de Benjamin Button' de David Fincher, poderíamos considerar essa curiosa possibilidade de algumas cidades nascerem 'antigas', tornando-se mais 'modernas' com o passar do tempo: seria absurdo apostar em algo assim? Seguindo a imaginação extremada, de um realismo fantástico instigante, como ficaríam os sobrados, as 'sobras do tempo' da arquitetura das cidades antigas e velhas? É certo que é necessário mais imaginação e que é preciso começar a arriscar mais com as idéias em relação a promoção das memórias e da(s) história(s) da evolução das cidades no país. Talvez, quem sabe, seja verdadeiro acreditar que as cidades que possuem estas sobras do passado, esses 'sobrados' do tempo antigo, venham a se tornar mais novas com o passar do tempo e venham a adquirir mais 'jovialidade' com o transcorrer do devir histórico. Essa seria uma aventura estimulante para a imaginação dos arquitetos e um desafio para os preservacionistas  - talvez, não para os ortodoxos; que parecem só desejar congelar o tempo da arquitetura em cenários estanques, em memórias petrificadas no que já passou, em alguma data específica e determinada do calendário (que eles escolheram). Isso explica o que tem se expressado na fantasmagoria patrimonialista predominante atualmente. Todavia, como nos lembrava Paul Ricoeur, 'o passado tinha futuro', isto é, o que é velho hoje já foi criança e sonhou o futuro como criança e como jovem; e pode com o tempo tornar-se mais novo, mais jovem, mais criança que as crianças que nascem agora, hoje. Como também nos lembrava W. Reich, 'é do passado que emergirão as crianças do futuro'! Porém, não é toda gente que pode pensar assim. Estamos tão presos a ordem cronológica das coisas (sem entender o tempo lógico), que não imaginamos que o que já está ai, nascido ou 'velho', pode ser mais criança do que as crianças novas, que as vezes já nascem 'velhas'... O que está já aí, pode vir a ter e passar por metamorfoses mais profundas que aqueles que ainda nem nasceram. Só pode rejuvenescer, quem já está vivo. Mas, como escreveu Casanova: 'a juventude é um doença que só o tempo cura'!
Parece ser uma verdade estranha: quantos jovens não encontramos por ai, envelhecidos nas idéias, obliterados na mente, iludidos pelas viagens novidadeiras, presos no 'aqui e agora'? Essa fixação no presente é que sufoca o imaginário. O passado não pode ser pretrificado, pois já teve uma esperança de futuro e, portanto, deve estar sujeito a rejuvenescimentos revificadores do porvir. O modelo de patrimonialização vigente é caduco e esterelizante: só com a imaginação viva poderemos superar esse estado de coisas fossilizante, e sufocante, do real desértico. Nascer 'velha' é a sina de uma juventude desmemoriada, que não aceita verdadeiramente tornar-se nova e criança: tornam-se rapidamente 'adultos infantilizados'. Uma cidade que é 'velha', que tem sobras do passado e sobra-dos (de) esperanças do futuro, poderá se erguer sobre a memória e a história num presente melhor ou num futuro mais criativo e desafiante. O passado não pode estar para o presente como um fantasma terrificante e estrangulador, mas o presente também não pode sufocar o passado, e suas esperanças no futuro. Imaginar o futuro parece ser o resultado de uma operação em que há uma síntese entre os investimentos coletivos e individuais, nas esperanças e transformações do passado e do presente. Nas palavras mais precisas de Jean Luc-Goddard: 'o imaginário é uma viagem entre o futuro e o passado, entre o destino e a origem'. Assim, como escreveu o poeta carioca Dante Milano, 'não se deve imitar o passado, mas recriá-lo'! Então, ousemos: é preciso mais poesia e mais imaginação nas ações de promoção cultural!

Comentário 1:
Alexandre, a reflexão que você propõe sobre a gestão da memória e as idéias que o filme nós faz figurar, inquietaram-me. Arrisco, aqui, um paralelo com a clínica psicanalítica, ao mesmo tempo que faço um convite à pensarmos juntos essa questão. Convite que deve ser estendido a quem possa somar esforços para atingirmos uma análise da questão, sem pretensões de atingir uma compreensão exata. Alguns significantes podem ser trabalhados e percorridos em seus deslocamentos e condensações. O primeiro é o de "sobras". Para Freud a memória é algo dinâmico, suas representações são atemporais quando estão no fundamento da experiência do que foi inscrito. Contudo, essa inscrição tem um funcionamento, mesmo que tenha sido fundada, ou seja, tenha efeito de fundação. Funcionamento que implica em sua transcrição, uma espécie de tradução de um campo psíquico a outro, uma retranscrição de tempos em tempos. A fixação da representação em uma cena gera o retorno daquilo que é traumático. Sofremos do que não sabemos e que se apresenta fixado em cenas mudas, deslocadas, num imaginário assombrado, arruinado. Sofremos por ter que carregar mortos que não sabemos que se foram e os carregamos pensando que estão vivos e por isso não os enterramos. O passado que não cessa de se atualizar, o presente que está capturado no gelo de uma cena fora de lugar e um futuro sem ideais. O trabalho da memória comporta uma dialética que só simbolicamente pode dar conta de um presente alicerçado num passado, que passou, que não exige reedição cristalizada, e em criações e invenções balizadas por ideais futuros. Sujeitos arruinados, carregando o peso de uma cena que não é esquecida e nem significada, sobras, fantasmas, restos que aumentam a angústia. Como inventar, recriar, quando não há Outra Cena possível, quando estamos capturados e perplexos diante de uma cena enigmática, não elaborada, fora de lugar, presa no presente? Existem outros significantes importantes para uma análise, fica aqui uma reflexão inicial.
Um abraço, Adriana Cajado Costa.

1 comentário:

Adriana Cajado Costa disse...

Alexandre,
a reflexão que você propõe sobre a gestão da memória e as idéias que o filme nós faz figurar inquietaram-me. Arrisco, aqui, um paralelo com a clínica psicanalítica, ao mesmo tempo que faço um convite à pensarmos juntos essa questão. Convite que deve ser estendido a quem possa somar esforços para atingirmos uma análise da questão, sem pretensões de atingir uma compreensão exata.
Alguns significantes podem ser trabalhados e percorridos em seus deslocamentos e condensações. O primeiro é o de "sobras". Para Freud a memória é algo dinâmico, suas representações são atemporais quando estão no fundamento da experiência do que foi inscrito. Contudo, essa inscrição tem um funcionamento, mesmo que tenha sido fundada, ou seja, tenha efeito de fundação. Funcionamento que implica em sua transcrição, uma espécie de tradução de um campo psíquico a outro, uma retranscrição de tempos em tempos. A fixação da representação em uma cena gera o retorno daquilo que é traumático. Sofremos do que não sabemos e que se apresenta fixado em cenas mudas, deslocadas, num imaginário assombrado, arruinado. Sofremos por ter que carregar mortos que não sabemos que se foram e os carregamos pensando que estão vivos e por isso não os enterramos. O passado que não cessa de se atualizar, o presente que está capturado no gelo de uma cena fora de lugar e um futuro sem ideais. O trabalho da memória comporta uma dialética que só simbolicamente pode dar conta de um presente alicerçado num passado, que passou, que não exige reedição cristalizada, e em criações e invenções balizadas por ideais futuros. Sujeitos arruinados, carregando o peso de uma cena que não é esquecida e nem significada, sobras, fantasmas, restos que aumentam a angústia. Como inventar, recriar, quando não há Outra Cena possível, quando estamos capturados e perplexos diante de uma cena enigmática, não elaborada, fora de lugar, presa no presente? Existem outros significantes importantes para uma análise, fica aqui uma reflexão inicial.
Um abraço
Adriana Cajado Costa