10 fevereiro 2009

Terry Eagleton: A idéia de cultura


Neste livro, Terry Eagleton propõe a superação das definições antropológica e estética do conceito de cultura, cujo amplo uso nos prende a uma noção de cultura “debilitantemente ampla, e outra desconfortavelmente rígida”. Antes, mostra-nos a transição histórica da palavra, de sua denotação inicial de um processo material para as “questões do espírito”, e como o termo codifica “questões filosóficas fundamentais”.
Para Eagleton, a idéia de cultura significa uma rejeição “tanto do naturalismo quanto do idealismo”, ressaltando a tensão “entre fazer e ser feito, racionalidade e espontaneidade, que censura o intelecto desencarnado do Iluminismo, Tanto quanto desafia o reducionismo cultural de grande parte do pensamento contemporâneo”. Também ressalta sua função de extrair da diversidade a identidade unitária que permite o estabelecimento do Estado moderno, destacando a relação dos termos cultura e civilização, que de sinônimos passam a ter significados antagônicos. O autor aborda o problema da crise contemporânea da idéia de cultura, que difere das crises anteriores por sua afirmação de uma identidade específica no lugar da sua transcendência, já que estas identidades “todas vêem a si mesmas como oprimidas, aquilo que era antes concebido como um reino de consenso foi transformado em um terreno de conflito”. Ou seja, “cultura” deixou de significar um espaço de valores no qual podíamos encontrar outro ser humano, um meio para resolver rivalidades políticas, para se transformar no “próprio léxico do conflito político”.
A obra discute também os choques culturais como “parte da forma que assume a política mundial do novo milênio”. Chamando a atenção para o fato de que não é o conteúdo da alta cultura o que está em jogo, mas os significados de seu uso, Eagleton lembra que é “uma leitura obtusa da Cultura Ocidental tratá-la simplesmente como o registro de uma experiência específica, culturalmente limitada”. Igualmente, parte para uma leitura do problema da identidade, salientando que a “disputa entre alta cultura, cultura como identidade e cultura pós-moderna não é uma questão do cosmopolita versus o local”, mas uma questão geopolítica, o confronto “entre a civilidade ocidental e tudo aquilo com que ela defronta em outros lugares”.
No contexto desse amplo panorama conceitual, Eagleton debate a dialética da natureza e da cultura, além de estabelecer um diálogo profícuo com Marx, Nietzsche e Freud sobre as forças que com ela interagem. Resgatando o conceito das vulgatas que permeiam muitos dos discursos sobre o problema da cultura, ele possibilita umas nova e aprofundada visão sobre questões centrais do mundo contemporâneo, como a homogeneização da cultura de massas, a função da cultura na estruturação do Estado-Nação, a construção de identidades e sistemas doutrinários. A ênfase no significado de cultura torna-se vital para entendermos sua nova função política.
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5. Rumo a uma Cultura Comum.
(...)
"A cultura não é unicamente aquilo de que vivemos. Ela também é, em grande medida, aquilo para o que vivemos. Afeto, relacionamento, memória, parentesco, lugar, comunidade, satisfação emocional, prazer intelectual, um sentido de significado último: tudo isso está mais próximo, para a maioria de nós, do que cartas de direitos humanos ou tratados de comércio. No entanto, a cultura pode ficar também desconfortavelmente próxima demais. Essa própria intimidade pode tornar-se mórbida e obsessiva a menos que seja colocada em um contexto político esclarecido, um contexto que possa temperar essas imediações com afiliações mais abstratas, ms também de certa forma maia generosas. Vimos como a cultura assumiu uma nova importância política. Mas ela se tornou ao mesmo tempo imodesta e arrogante. É hora de, embora reconhecendo seu significado, colocá-la de volta em seu lugar" (p. 184).

EAGLETON, Terry. A idéia de cultura. Tradução de Sandra Castello Branco. São Paulo: Editora UNESP, 2005, 205 p.

Terry Eagleton é o pseudônimo de Thomas Warton, 65, teórico marxista inglês e professor da Universidade de Oxford.

Outras obras de Terry Eagleton publicadas no Brasil:
___. A ideologia da estética. Jorge Zahar Ed., 1993.
___. Ideologia: uma introdução. UNESP, Boitempo, 1997.
___. As ilusões do pós-modernismo. Jorge Zahar Ed., 1998
___. Marx e a liberdade. UNESP, 1999.
___. Teoria da literatura: uma introdução. Martins Fontes, 2003

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TERRY EAGLETON: UMA APRESENTAÇÃO
INÁ CAMARGO COSTA * MARIA ELISA CEVASCO**

Aluno de Raymond Williams (1921-88) em Cambridge, Terry Eagleton (1943-) é uma das forças motrizes da grande tradição britânica de crítica cultural materialista. Tributária de uma linha de pensamento oposicionista que vincula a produção artística às condições materiais da sociedade, cujos melhores exemplos no século XIX são John Ruskin e especialmente William Morris, essa tradição tem, nos atribulados anos 30 deste século, seu primeiro grande momento de expansão. Esta foi uma década saturada de política, em que o "rumor da História" se fez ouvir com força, abrindo um espaço para a idéia do engajamento no interior da visão da arte como expressão única da genialidade de um indivíduo, predominante tanto no romantismo como no modernismo inglês.
É de 1937 a publicação de lllusion and reality de Christopher Caudwell (1907-37), o livro de crítica mais marcante dos "Red Thirties". Nele, seguindo o costume ortodoxo, o jovem crítico tenta forjar uma teoria totalizante da natureza da arte e do desenvolvimento da literatura inglesa, dos primórdios até o século XX. Mergulhado na atmosfera política desses anos decisivos, Caudwell reivindica para a poesia a tarefa de criar o futuro ao articular as idéias e esperanças do presente. Essa valorização de mão única da arte como forma de mudar a realidade alcançará ainda a produção crítica na década de 40, como no Aeschylus and Athens, de George Thomson.
É certo que podemos preterir muitas características dessa produção crítica que, no dizer de Raymond Williams, eram mais respostas às urgências da época do que contribuições conscientes aos estudos marxistas na Grã-Bretanha.
Mas é deste chão que vem o próprio Williams, "o último entre os grandes intelectuais socialistas e revolucionários nascidos antes do fim da 'Idade da Europa’(1942-1945)”, como disse Cornel West em seu elogio fúnebre. Se WiIliams pode ser assim equiparado à galeria dos grandes pensadores marxistas de nosso século é questão que pode ser discutida, mas foram obras como o seu Culture and society (1958) e The long revolution (1961) que deram novo alento à crítica de esquerda nos novos e frios tempos do pós-guerra. WiIliams é parte importante da tradição da New Left que se vai delineando a partir dos anos 50. Não se trata mais, como nos anos 30, de uma crítica ligada ao movimento cultural da classe trabalhadora. Enquanto Caudwell falava aos estivadores de Poplar e morreu lutando na Guerra Civil Espanhola, WiIliams, fruto de outro tempo, é um dos expoentes do "marxismo ocidental". Sua atuação se dá na esfera do trabalho intelectual, mas certamente é difícil pensar em outro crítico britânico que tenha dado contribuição maior à história cultural de nosso século.
A produção de Eagleton descende desse tronco fértil. Como WiIliams, Eagleton é um escritor prolífico, que transita entre a crítica e a criação literárias. Ainda como WiIliams, Eagleton alia a atuação didática a uma atenção concentrada tanto na produção literária quanto na crítica que cada vez mais atua como mediadora da experiência da literatura. Ao longo de uma produção de mais de uma dezena de livros e inúmeras resenhas e artigos, fica claro que o projeto intelectual de Eagleton está fundado na consciência de que a crítica da cultura não é uma disciplina acadêmica anódina mas uma forma efetiva, ainda que limitada, de intervenção na realidade. E sua intervenção se dá em várias frentes. É autor de ficção e obras teatrais.
É professor na Universidade de Oxford. Tendo produzido estudos de largo fôlego como A ideologia da estética (1990) - que examina a constituição do estético na história do pensamento ocidental, discutindo tanto as posições da tradição inglesa quanto da alemã, de Kant a Adorno -, Eagleton não se exime da tarefa de publicar obras de caráter didático como Marxism and literary criticism (1976), em que explica para não-iniciados os problemas centrais de uma abordagem marxista da literatura, ou Teoria da literatura (1983), onde faz uma apresentação crítica das principais correntes teóricas de nosso século.
Fica evidente nas suas exposições a diferença que faz uma abordagem da literatura marcada por uma visão histórica. No confronto de teorias críticas que marcam o assim chamado pluralismo da produção teórica contemporânea, a perspectiva marxista traz a vantagem adicional de iluminar as determinações materiais das vogas crítico-literárias. Muitas adesões de primeira hora que infestam a produção crítica brasileira, por exemplo, seriam evitadas se prestássemos alguma atenção à ironia profilática de Eagleton. Mas ele sabe que o calibre de uma teoria se mede antes pelo seu valor explanatório, e que sua contribuição para a tradição se dá na razão direta de sua capacidade de a um só tempo conservar os achados do passado e superá-las tomando efetiva sua atuação no presente. Grande leitor de Walter Benjamin - sobre quem publicou em 1981 Walter Benjamin or towards a revolutionary criticism com o objetivo declarado de livrá-Ia do perigo iminente de apropriação pelo establishment crítico -, Eagleton enfatiza que uma de suas tarefas como crítico de cultura é "romper com o continuum da História" e resgatar o passado, forjando novas conjunções entre nosso próprio momento e um aspecto significativo do passado, conforme aprendeu nas "teses sobre o conceito de História". Assim, além dos estudos "teóricos", ele recria para o presente alguns dos clássicos da literatura inglesa por meio de instigantes releituras em obras como William Shakespeare (1986), em que consegue ser original a respeito do mais explorado dos autores ingleses; Myths of power (1975), um estudo perspicaz sobre as obras das irmãs Bronte; ou The rape of Clarissa (1982), de Samuel Richardson, pioneiro do romance inglês descrito por Eagleton como um intelectual orgânico da classe burguesa britânica do século XVIII. A relevância dessa produção, que aqui resumimos de forma incompleta, atesta a vitalidade da tradição crítica marxista inglesa. Por certo pode-se medir a distância que o separa de um Raymond Williams - que em The function of criticism (1984) Eagleton considera o maior crítico britânico da cultura do pós-guerra - com a mesma régua histórica que ambos manejam tão bem. Expressões de diferentes dominantes culturais, Williams seria o crítico modernista enquanto Eagleton está imerso no pós-moderno. Disto decorre muito de seu ar "eclético", de seus flertes com a psicanálise e o pós-estruturalismo ou da facilidade com que ele "muda de faixa" entre Walter Benjamin e Althusser - seu Criticism and ideology (1976) é marcado por um althusserianismo inflado do qual se penitencia mais adiante. Seriam marcas de nossa era em que, segundo Eagleton, as teorias atingiram uma fase epidêmica.
Não estando seu trabalho teórico totalmente isento de alguns dos sintomas dessa epidemia, ele nos oferece, entretanto, uma oportunidade de resgatar a substância e desconstruir um pouco o estereótipo corrente do marxista "jurássico", que nossa era neutraliza como um sujeito mal ajambrado, cujo arraigado espírito de contradição o leva a continuar insistindo teimosamente em velhos dogmas - como o de que o capitalismo tem produzido mais concentração de renda do que felicidade - quando todos os outros já saíram para se divertir no shopping center mais próximo. Isso porque uma gratificação extra da leitura de sua obra é a comicidade. O leitor mais idealista pode até se aborrecer com sua insistência em despir a cultura do glamour de repositária de valores humanos eternos, mas poucos vão deixar de se divertir com a inventividade de Eagleton. Ele é mestre nos achados irônicos e na construção de imagens reveladoras que conquistam nossa cumplicidade pelo riso, nisso demonstrando ser um continuador da tradição crítico-humorística inaugurada pelos autores da Sagrada Família. Ele é capaz, por exemplo, de intitular um estudo certeiro dos limites da teoria de Jacques Derrida, disponível em sua coletânea de artigos Against the grain (1986), citando, numa revelação demolidora (a palavra de ordem não é desconstruir?), a canção infantil: "Frère Jacques e a política da desconstrução", ou ainda de puxar uma nota de rodapé em seu livro sobre Richardson em que explica a base material do ataque moralista de um contemporâneo (um certo Povey) ao fogo da paixão que faz o sangue correr quente nas veias dos apaixonados, com a constatação de que o tal cavalheiro trabalhava com seguros contra incêndios.
Mas para quem se lembre de que a ironia pressupõe um certo sentido arrogante de superioridade, vale ressaltar a autoconsciência de Eagleton como expressa em uma conferência proferida nos Estados Unidos e publicada em The significance of theory (1990): "É um erro imaginar que os teóricos emancipatórios - os socialistas, feministas e outros - têm com suas crenças a mesma relação que budistas e vegetarianos. Enquanto estes provavelmente querem continuar fiéis a suas crenças a vida inteira, os primeiros querem se livrar delas o mais rápido possível. Seu objetivo é contribuir para a realização das condições materiais nas quais suas teorias não seriam mais essenciais ou até, após um certo tempo, sequer inteligíveis. Se ainda houver radicais daqui a cinqüenta anos, isso será muito triste. Em uma sociedade justa não haverá necessidade de teóricos radicais (...)"
Enquanto esse tempo não vem, vale a pena procurar entender algumas das razões do atraso lendo Terry Eagleton.
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· Professora do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
.. Professora do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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