09 abril 2009

ANTROPOLOGIA DA ANTROPOLOGIA

ANTROPOLOGISMO UNIVERSITÁRIO: FUNDAMENTALISMO ÉTNICO, NEO-RACISMO...

"Todo pensar que no es libre no debe llamarse pensamiento", Fernando Savater.

"Pensar abala a estrutura de tudo", Dante Milano.

Reflexões sobre Re-territorializações Neo-conservadoras na Atualidade.

Observamos atualmente a proliferação e difusão de discursos etnicistas, com forte aporte neo-racista, se disseminando mascarados em românticas visões anti-modernistas, anti-capitalistas, anti-consumistas, e ancorados num 'ecologismo' ingênuo. Paradoxalmente, isso se dá num mundo que caminha, à passos largos, para um processo social planetário pós-racial. Conceitos clássicos como de raça, nação, clase, etnia, etc, estão em plena crise epistemológica. É surpreendente, no entanto, testemunharmos o nascimento de discursos defendendo re-territorializações conservadoras, numa reação neurótica ao processo de mundialização atual. 'Neurótica' no sentido empregado por Sigmund Freud, que no início do século XX já analisava o fenômeno do 'narcisismo das pequenas diferenças' - um fenômeno curioso que vemos alastrar-se atualmente no seio de diversos grupos sociais; especialmente nos grupos que têm resistências ao processo analítico e têm posturas intelectuais pré-freudianas. Esse quadro histórico e epistemológico particular, no qual assistimos regressões psico-sociais arcaizantes, beirando o rídiculo do retorno ingênuo ao misticismo esoterista, anacronismo hippie, e outros tribalismos neo-tradicionalistas... Tudo isso, tem coloridos diferentes de país para país - as vezes até de lugar para lugar; de Universidade para Universidade...
Em nosso país, contudo, em que alguns sempre imitam o que há de mais mesquinho no estrangeiro, vemos se propagar - através de escritos e discursos retóricos de pseudo-etnografistas e pseudo-antropologistas, embarcando docemente na 'nova onda' - o surto etnicista acrítico e fundamentalista. Não vêem que caem no velho slogan do 'dividir para dominar': assim, 'tudo velho, de novo'! Aliás, o 'antropologismo', europeu e norte-americano, filho do velho 'imperialismo' (ver Jean Copans), foi calcado nisso. Todavia, é lamentável assistirmos a difusão de ideologias étnicas e separatistas em solo brasileiro. São fundamentalistas étnicos que não compreendendo a complexidade do processo histórico e cultural do país, preferem as facilidades pseudo-etnografistas (empirismo preguiçoso) que a ideologia fundamentalista oferece. Esses 'etnografistas', por exemplo, jamais fazem referência aos textos de Claude Lévi-Strauss - 'Raça e História' e 'Raça e Cultura' - não reconhecem o verdadeiro legado da teoria antropológica anti-racista e anti-etnicista. E assim passam a propagar ideologias anti-modernas, anti-capitalistas, anti-desenvolvimentistas, anti-socialistas, anti-marxistas, anti-freudianas... Ideologias que, se sedimentarem, vão condenar a população pobre de nosso país, e do continente, a séculos de atraso e desespero. Ao invés de reinvidicarem alternativas ao 'desenvolvimento econômico e cultural' dominante, que consideramos desastroso e catastrófico, pretendem difundir o separatismo e o isolamento étnico: não querem promover a 'inclusão social', querem a exclusão separatista. Esse tipo de pensamento 'multi-cultural' é no fundo uma declaração de princípios neo-racistas. De que modo? Nesse ponto de vista racista-relativista, prega-se que o 'moderno' e o 'desenvolvimento', são próprios de determinados grupos humanos (do hemisfério Norte); o atraso, a pobreza, o rústico e o artesanal, são próprios de outros grupos humanos (do hemisfério Sul). Assim, temos uma divisão singular: os que nascem para usufruir a supermodernidade, e os que nascem para viver no superatraso... O incrível é testemunhar entre nós na América Latina, diplomados e professores, filiados ao 'antropologismo univerisitário', que aceitam servilmente a essa ideologia; aceitam nos tornarmos uma variante 'culturalista' do grande 'museu da pobreza' do mundo... Esse cenário bizarro nos lembra aspectos tenebrosos do livro de Aldous Huxley 'O Admirável Mundo Novo', pouco lido, lamentavelmente...
Em tempo: será que estes novos 'antropologistas' serão instrumentos de uma sócio-técnica, em que, inconscientes, contribuem para a construção dos "Bolsões de Selvagens do Admirável Mundo Novo"? Vão continuar a contribuir assim para a criação dos chamados 'territórios étnicos' (Política Étnica); que nada mais são que "reservas de selvagens": "lugares em que, em razão de condições climáticas ou geológicas, ou da pobreza dos recursos naturais, não se julgou conveniente realizar as despesas para civilizar" (HUXLEY, 1995). Será que esse novo 'antropologismo' não é mais perigoso que o anterior (Nazismo)? Será que não há um paralelo interessante, uma homologia intrigante, entre o que acontece com a 'etnologismo-racial' contenporânea e os avanços da biologia e da genética?
De novo os paralelos com a obra de Aldous Huxley são inquietantes e surpreendentes. Se não, vejamos: "A biologia e a genética começaram a ter mais destaque e a ciência se politizou, justificando o conceito de 'raças', concebendo um determinismo genético, semelhante à divisão em castas da população de Huxley". Que incrível aproximação de conceitos e categorias! Sobre esse ponto da reflexão ler o artigo "Patrimônios Bioculturais na Hipermodernidade", do autor desse Blog (Corrêa, 2008); e, o instigante texto "Admirável Mundo Novo: Uma Perspectiva Histórica entre a Obra e a Sociedade Pós-Moderna", que se encontra no endereço: http://bocc.ubi.pt/pag/nunes-maira-admiravel-mundo-novo.pdf.
É preciso rever criticamente esse quadro de referência ideológico, pseudo-científico, contra-cultural e irracionalista, através de verdadeiras pesquisas de cunho sócio-político-cultural avançado. É preciso pesquisar mais e colher mais dados sobre a natureza dessas idéias fraturadas da vida social e cultural, na América do Sul e no Brasil; essa neurose de 'neo-racistas étnicos' camuflados que se enganam ao acreditarem que estão sendo libertadores: para eles agora, 'tudo é étnico'! Caso essa ideologia floreça, lançarão, isso sim, a população local no maior dos obscurantismos, que é o ódio étnico irracional. Estão semeando as sementes da 'balcanização' no continente...
Perguntamos: a quem isso interessa? Será que é isso que a população brasileira e latino-americana deseja: política étnica? Vejam em que consiste, em poucas palavras, o fundamentalismo étnico: "No estudo comparativo das etnias, fundamentalismo étnico refere-se a movimentos anti-modernistas nas várias 'Etnias' e 'Raças', com ideologias separatistas, destinadas a voltar às características fundamentais do grupo que originou o grupo maior, que se impôs pela diversidade cultural, social e econômica. Enquanto a humanidade se 'globaliza', as minorias, revoltadas com a ampla 'diversidade' cultural gerada por esse fenômeno, destinam-se a formar grupos que compartilhem as mesmas idéias separatistas, e tentam se impor de várias formas. As mais conhecidas tentativas separatistas por grupos fundamentalistas étnicos, podem ser encontradas nos 'Congressos Nacionais', 'Assembléias Legislativas', e em 'Partidos Políticos' (de cunho 'etnizante'). Podem também se revelar em Estados Formados, destinados a eliminar minorias (o mesmo termo usado pejorativamente agora ganha uma ar 'vitimesco' e reivindicatório de direitos) raciais, ou podem ser grupos armados separatistas, denominados terroristas. Por se tratar de um fenômeno universal, presente em toda a história da humanidade, desde as tribos nômades, índios e povos africanos, os conflitos étnicos gerados pelo 'Fundamentalismo', têm uma justificativa na retomada de valores e idéias que podem ter sido esquecidos (hoje chamam isso de 'etno-gênese'); mas a guerra, e o terrorismo, não justificam a defesa de ideologias aceitas por minorias ('minorias' aqui possui tom pejorativo e de grupos 'sem direitos'), ou por governos ditadores, bem como a matança de raças inteiras, para se eliminar uma Raça ou até mesmo uma Língua". Esse texto foi compilado do Wikipedia, que resume, grosso modo, as linhas gerais desse pensamento menor; para os que desejam informação ligeira visite a página: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fundamentalismo_%C3%A9tnico.
Para os que desejam aprofundar a reflexão:
Castoriadis, C. O Mundo Fragmentado: encruzilhadas do labirinto - III. Rio de Janiro: Ed. Paz e Terra. 1992.
"O combate ao racismo é sempre essencial. Não deve servir de pretexto para renunciar à defesa de valores que foram criados 'entre nós', que julgamos váidos 'para todos', que nada têm a ver com a raça ou a cor da pele, e aos quais queremos, sim, 'racionalmente converter' toda a humanidade" (In, 'Reflexões sobre o Racismo', p. 41).

Economia da Cultura e 'Política Étnica': Paradoxos...

Observa-se também algo curioso na ordem da 'economia da cultura'. No momento em que uma comunidade sócio-cultural humana decide que em determinado local tem um 'território étnico': o que é que a ordem capitalista investe nisso? O que é que o capitalismo vê nisso? Ora, artesanato quilombola, indígena, etc... Pois, é isso que vira produto capitalista no mercado: signos étnicos-exóticos... É nisso que vai dar a tal da 'política étnica'? Para uma reflexão mais antropológica sobre o fenômeno sociológico em causa, sugere-se os textos da Revista 'Gazeta de Antropología', especialmente o Editorial: "En contra del paradigma identitario" http://www.ugr.es/~pwlac/G24_00Editorial.html
Para adiantar uma reflexão antropológica pertinente ao tema observa-se as vicissitudes desse tipo de 'ideologia etnicista' (de viés culturalista, mas que na verdade é um neo-racismo pós-moderno camuflado), eis um caso 'etnográfico' digno de nota. O fato que passamos a narrar agora ocorreu no ano 2000, num povoado do município de Alcantara-MA. Uma equipe do Governo Federal ligada aos programas de desenvolvimento oficial, promoveu uma incursão para 'promoção da cidadania' na região e ao indagar àquela comunidade, dita 'tradicional', quais eram as suas necessidades mais urgentes, ouviram uma série de reivindicações. Entre elas as de saneamento básico e energia elétrica. Assim, os agentes públicos envolvidos na ação se comprometeram, em caráter emergencial, a realizar as obras. Mas, para surpresa de todos, agentes do Ministério da Cultura, ligados ao IPHAN, logo que souberam da notícia acorreram a comunidade e declararam que não era possível a realização das obras desejadas, já que a comunidade era considerada 'patrimônio cultural' (Comunidades Tradicionais) como remanescentes de quilombo! Então, por causa disso não se poderia realizar as obras de saneamento e iluminação, que tanto desejavam, pois descaracterizaria a comunidade destruindo seus traços culturais tradicionais autênticos! Veja-se que assombrosa artimanha etno-culturalista: pretende manter a população pobre confinada num 'gueto' étnico-cultural atrasado, isto é, num museu da pobreza e do passado! Isso em nome do 'patrimônio cultural'! Como escreveu Claude Lévi-Strauss, em 'Raça e História': "Tocamos aqui no ponto mais sensível de nosso debate: de nada adiantaria querer defender a originalidade das culturas humanas contra elas mesmas". Mas, nas mãos desses 'etnologistas' de plantão, parece que esse será o preço que o povo brasileiro pobre agora vai ter que pagar - submeter-se a mais nova ideologia pseudo-antropologista que se travestiu em 'preservacionismo' da identidades étnico-culturais! E mais, meus caros, uma ideologia difundida nas academias, repletas de docentes e estudantes de classe média ávidos por encontrar o 'exotismo' mais perto de suas casas: de um modo que assim garantam que não vão precisar mais ir muito longe, lá, nas 'Ilhas Trobriand' de B. Malinowsky; para, enfim, encontrar os 'selvagens'...
Como já foi ressaltado acima, sobressai desse grupo de 'etnografistas' o fato de que nunca fazerem referência aos textos clássicos de Claude Lévi-Strauss; não reconhecendo o legado científico da teoria antropológica anti-racista e anti-etnicista. Herança cultural e científica antropológica que é solapada nesse culto ingênuo e equívoco de noções ideológicas como 'raça' e 'etnia' - termos epistemologicamente contaminados e que são reproduzidos sem nenhuma análise crítica. Fica ainda uma pergunta: 'Política Étnica', o que é isso? Para quem serve isso? É um modelo 'antropologista' de administrar e gerir um futuro 'sistema científico de castas-étnicas' (previsto por Aldous Huxley) implantado na América Latina? Perguntamos: pode ser pluralista ou democrática uma política que se funda numa ilusão conceitual; contida no termo 'etnia'?
Para aprofundar a reflexão nesse tema fascinante, através de uma possível crítica antropológica fecunda e inteligente, sugerimos a leitura de um texto esclarecedor escrito por Pedro Gomez Garcia, da Universidade de Granada: "La identidad étnica, la manía nacionalista y el multiculturalismo como rebrotes racistas y amenazas contra la humanidad", que pode ser lido no seguinte endereço da Internet:
http://www.ugr.es/~pwlac/G22_02Pedro_Gomez_Garcia.html
Num esforço contrário, temos o texto de Christian Martínez Neira, que pretende defender a possibilidade de uma 'política étnica' pluralista e democrática - o que parece-nos uma contradição dos termos. Todavia, nunca é demais ler os argumentos de seus defensores. Estudios Avanzados Interactivos|V. 5|Nº7|2006|  http://web.usach.cl/revistaidea/

Evento que Ilustra a Difusão e Atualidade do Tema:
Conferência Etnofronteira: impasses da negritude na sociedade brasileira.
Vai realizar-se, no próximo dia 27 de Abril (segunda-feira)/2009, às 16 horas, no Anfiteatro B da Universidade dos Açores (junto aos Serviços Académicos. Campus de Ponta Delgada), uma conferência proferida pelo Doutor Anelito Pereira de Oliveira (Universidade de Montes Claros/Brasil) subordinada ao tema 'Etnofronteira: impasses da negritude na sociedade brasileira'. Este evento é uma organização do Centro de Estudos Sociais da Universidade dos Açores e estará aberto a todos os interessados.

Aprofundamento no Tema:O Elogio da Intolerância, de Slavoj Zizek.
Este livro trata da maneira como a postura ideológica hoje predominante - o liberalismo multicultural e tolerante - participa em pleno nesta despolitização da economia; para o resumir em termos concisos, a tolerância multicultural é a ideologia hegemónica do capitalismo global. A oposição entre o fundamentalismo étnico-sexista-religioso e a tolerância multicultural é, em última análise, uma falsa oposição: a neutralização política da economia é o postulado comum aos dois extremos. a única via de saída deste beco, e o primeiro passo, portanto, a caminho de uma renovação da esquerda, é a reafirmação de uma crítica virulenta, fortemente intolerante, da civilização capitalista global. (Slavoj Zizek, Elogio da Intolerância, 2006, pp. 18-19).
Máxima do Antropologismo Universitário, analisada nessa passagem:
"De acordo com Zizek, o multiculturalismo é a forma ideal da ideologia do capitalismo planetário, uma atitude que, de uma espécie de posição global vazia, trata cada cultura local à maneira do colono que lida com uma população colonizada – como “indígenas” cujos costumes devem ser cautelosamente estudados e 'respeitados'".
Ver: http://www.educacao.ufrj.br/revista/indice/numero2/artigos/alcfernandes.pdf

Slavoj Zizek:
"... não aceito como nível de uma esquerda moderna as chamadas lutas identitárias do multiculturalismo pós-moderno: direitos dos gays, demandas das minorias étnicas, política da tolerância, movimentos antipatriarcais etc. Estou cada vez mais convencido de que esses são fenômenos da alta classe média, que não devem ser aceitos como horizonte de luta da esquerda".
(Arriscar o Impossível. São Paulo: Martins Fontes, 2003: p.178)

Saudações antropológicas!
alexandre.correa@pq.cnpq.br