09 abril 2009

Elogio da Intolerância


Slavoj ZIZEK. Elogio da intolerância. Lisboa: Relógio d’Água, 2006.

Nascido em 1949, em Liubliana, na antiga Iuguslávia (atual Eslovênia), Slavoj Zizek doutorou-se em Filosofia na sua cidade natal e estudou Psicanálise na Universidade de Paris. É professor da European Graduate School e pesquisador no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. É também professor visitante em universidades estadunidenses, como a Universidade de Columbia, Princeton, a New School for Social Research, de Nova Iorque, e a Universidade de Michigan. Entre suas obras, incluem-se "Bem-vindo ao deserto do real", "As metástases do gozo" e "A subjetividade vindoura", obras publicadas pela mesma editora de Lisboa. Seu último livro é 'The Parallax View', ainda sem tradução em língua portuguesa. No conjunto de artigos que compõem o livro que ora se apresenta, Zizek discorre sobre a esquerda e a direita hoje, hegemonia e ideias dominantes, a pós-política, eurocentrismo, sexualidade nos dias atuais, além de um instigante e audacioso artigo a respeito do tamagotchi como objeto interpassivo. O livro reflete o modo de pensar de seu autor, altamente crítico e com imensa densidade teórica, estabelecendo análises que associam a psicanálise, a filosofia, a sociologia e a ciência política para abordar questões da atualidade. Nesta resenha optou-se por destacar suas contribuições em relação especificamente ao multiculturalismo, por ser este um tema que tem tido grande repercussão nos debates sobre educação nos últimos tempos no Brasil. O autor argumenta que o multiculturalismo despolitizado é a nova ideologia do capitalismo global, sendo necessário reafirmar a importância da paixão política, fundada na discordância, e, ao mesmo tempo, defender a politização da economia. Zizek exprime a idéia de que uma certa dose de intolerância é necessária para que se possa elaborar uma crítica à atual ordem de coisas. Partindo daquilo que chama de despolitização da economia e sua regra incontestada do mercado, o autor discorre a respeito da forma pela qual a postura ideológica hoje predominante – o liberalismo multicultural e tolerante – participa em pleno na despolitização da economia. Em suas palavras, “a tolerância multicultural é a ideologia hegemônica do capitalismo global”. O autor apresenta uma interessante discussão sobre o universal e o particular, argumentando que é próprio da política atual produzir uma espécie de curto-circuito entre o universal e o particular: o paradoxo de um singular universal, um singular que aparece como substituto do universal. Segundo o autor, num corpo social estruturado, dentro do qual cada parte ocupa o seu lugar, a ocorrência de uma parte dos sem-parte coloca em xeque a ordem funcional “natural” das relações no interior daquele corpo social. A identificação dos sem-parte com o Todo (ou seja, com o universal), como parte da sociedade mesmo que seus integrantes estejam desprovidos de lugar verdadeiramente justo dentro dela, é o gesto elementar da politização. Ao contrário, a identificação com o particular, característica do processo de despolitização da economia, ajuda a perpetuar a condição de excluídos. De acordo com Zizek, o multiculturalismo é a forma ideal da ideologia do capitalismo planetário, uma atitude que, de uma espécie de posição global vazia, trata cada cultura local à maneira do colono que lida com uma população colonizada – como “indígenas” cujos costumes devem ser cautelosamente estudados e “respeitados”. Em suas palavras, “o multiculturalismo é uma forma de racismo denegada, invertida, autoreferencial, um racismo com distância: respeita a identidade do Outro, concebendo-o como uma comunidade ‘autêntica’ fechada sobre si mesma, em relação à qual o adepto do multiculturalismo mantém, pelo seu lado, uma distância que torna possível a sua posição universal privilegiada”. As reflexões de Zizek chamam a atenção para um debate ainda não de todo superado entre o universal e o particular, entre aquilo que deve constituir o patrimônio de toda a sociedade, seja ele referente à história, à cultura ou aos bens materiais, e aquilo que constitui a história e a cultura dos grupos pertencentes a uma dada sociedade. Em síntese, Zizek nos alerta para o perigo de um multiculturalismo reacionário e conservador no contexto do capitalismo planetário e só por esse aspecto a leitura do livro já terá valido a pena, embora o autor trate, de forma brilhante e arrojada, de outros temas sobre a contemporaneidade.

Ana Lúcia Cunha Fernandes.