04 abril 2009

MISÉRIA DO ANTROPOLOGISMO

I. O ANTROPOLOGISMO UNIVERSITÁRIO

Com esse título um pouco intrigante começo uma reflexão que exigirá um posicionamento político e crítico inusitado, mas, não extravagante. Por quê? Ora, porque é cada vez mais curioso perceber o fosso que separa as palavras e os discursos, das ações e das práticas; especialmente, entre nós. Numa sociedade cindida, fraturada, é cada vez mais corriqueiro e cotidiano ver disseminado uma grande confusão moral. Já não nos damos conta, ao menos a grande maioria, de que estamos mergulhados até o pescoço numa desconfortável desventura.
Michel Foucault se tivesse nascido entre nós, brasileiros ou latino-americanos, talvez jamais tivesse teorizado sobre o que designou de 'práticas discursivas'. Entre nós, o que se diz está à léguas de distância do que se faz. É o reino do: "Faça o que digo, e não faça o que eu faço!". Quero insistir nesse ponto mais uma vez, pois a questão tratada aqui, sobre os 'antropologistas da universidade' - capítulo de um tema mais vasto que versa sobre a 'antropologia da antropologia' - toca nessa questão especificamente cruel para a mentalidade brasileira, isto é, sobre o que nós pensamos sobre o que somos.
A sensibilidade para o tema não surgiu por acaso. Apareceu, numa intensa iluminação, ao ler o texto de apresentação de João Guilherme Biehl ao livro de Paul Rabinow 'Antropologia da Razão', na sua tradução brasileira (1999). Mais exatamente quando cita a viagem de Rabinow por nosso país, descrita no texto 'A Modern Tour in Brazil'. Escreveu Rabinow:

"[No Brasil] um discurso oficial voa longe do significado ao qual está supostamente ligado. A representação alcançou um alto grau de autonomia no Brasil".

Bem que poderia se dizer que o que se aponta aí tem muitos outros termos que definem mais apropriadamente o que acontece na 'ordem do discurso' entre nós. Destarte, já coloquei no início que percebo uma crescente e cínica cisão, uma fratura, cada vez mais profunda, e que se sedimentou popularmente, no adágio citado mais acima. E é sobre isso que começo a tratar, em relação especialmente ao que ocorre com os 'antropologismos' disciplinarmente estabelecidos e professados nos bancos universitários brasileiros hodiernamente. Ao exagerar na caracterização desse tipo de 'antropologismo' canonizado, não estou a dizer que todo antropologista que se preze, estaria contaminado pela ideologia que aqui será comentada e analisada. Ao exercer um 'raciocíonio de tipo extremo' estou sublinhando traços, enfatizando tendências, que se mostram significativas e que configuram um esteriótipo dominante na mentalidade 'antropologista' hegemônica. Assim, me escuso ao ferir susceptibilidades ou atingir, sem querer, parceiros que também se esforçam em distinguir-se dessa mixórdia universitária.

Sob o signo da diferença

Hoje em dia observamos com bastante facilidade o predomínio vitorioso de uma modalidade de discurso 'antropológico' difundido e disseminado amplamente; que pode ser resumido numa expressão: 'elogio da diferença'. Pelo que se diz ultimamente um 'discurso antropológico' autêntico é um 'discurso' que defende apaixonadamente o 'direito à diferença' num mundo muito igual, cada vez mais globalizado; como se tem propagado. Bem, é aí que começamos a perceber que uma coisa é 'discursar', a outra é 'agir' pela defesa da "diferença"; ao menos entre nós, abaixo da linha do Equador. Ver-se-á que é entre professores do antropologismo que isso se manifesta de forma ainda mais flagrante e imperativa. Podemos dizer que ao tocar nesse assunto, começamos a nos familiarizar com um tema recorrente na crítica intelectual brasileira e que foi analisado por Roberto Schwarz, quando se referia ao complexo designado: 'ideias fora do lugar'. Mas, gostaria de enfatizar algo mais próximo da psicologia social, ou de uma análise institucional, quando prefiro referir-me ao cinismo pseudo-letrado brasileiro. Mas, por que esse tom tão irônico? Ora, porque entre nós esse jargão antropológico da 'diferença', repetido à todo custo, é uma falácia que deve ser denunciada. Pois, são exatamente esses mesmos professores e divulgadores do 'antropologismo universitário' os primeiros a serem intolerantes com a "diferença" na expressão das idéias e dos pensamentos, em nosso meio!
O curioso é o seguinte: por uma conjunção infeliz de acontecimentos vemos se expressar capacidades psicológicas e intelectuais deficitárias. Isso se traduz hoje em dia na seguinte constatação: se é capaz de admirar com grande alarde a 'diferença' entre os modos de vida de povos muito distantes de nós: seus costumes, modos de viver, morar, amar, cantar, falar, etc. - o que é maravilhadamente exaltado e transformado numa mercadoria valiosa e cobiçada; e promovida nos 'Museus das Grandes Novidades' antropológicas. Atualmente se é super-sensível com as admiráveis diferenças culturais de povos e comunidades que estão à margem da modernidade, ou que cultivam algum modo de vida extraordinariamente peculiar. Tudo isso merece ser admirado, e mais, deve ser preservado imediatamente: ninguém discorda. De tal sorte deve-se sempre evitar qualquer tipo de 'intolerância' para com os costumes alheios e distantes, mesmo quando chegam perto demais de nós: o que é cada vez mais frequente. Devemos então ser politicamente corretos: aceitar, e admirar, as diferenças. Ou melhor devemos 'amar o diferente': já não se ama mais o próximo!
Essa apologia da diferença, cultivada e difundida por professores de antropologismo universitário, triunfou! Não temos dúvida! Mas, o que observamos na convivência mais próxima com essa comunidade de professores antropologistas das Universidades? Exatamente o inverso do que difundem e professam! Isso é surpreendente! Vejamos como isso se dá!

Pensar a diferença

Ao conviver com essa comunidade de professores antropologistas das universidades brasileiras, em sua esmagadora maioria, aprendemos muitas outras lições dialéticas importantes. Podemos chamar de amadurecimentos tardios, de um jovem pesquisador em Estudos Culturais, essa análise do 'conhecimento social implícito' inerente a esses meios acadêmicos. Frutos de uma mentalidade exotista, que não passou pelo crivo crítico do verdadeiro método antropológico relativizador, esses antropologistas de plantão assumem deslumbradamente a 'filosofia relativista', sem fazer uma reflexão epistemológica profunda sobre o que dizem e fazem. Como hippies desamparados no mundo 'hipermoderno' (que chamam de 'pós-moderno'), se vêem perdidos no grande labirinto do pensamento; quando o tem. Assim, vemos e testemunhamos com muita facilidade que esses professores de 'antropologismo da diferença', que nos ensinam a sermos tolerantes com os costumes 'diferentes' dos outros povos, são os primeiros a terem aversão fóbica às outras formas de pensamento diferentes dos seus 'padrões' cognitivos. Esta pseudo-sensibilidade apurada para a 'diferença' dos costumes, geralmente se detém nos detalhes mais pitorescos e picantes, na maioria dos casos descritos com riqueza de detalhes, especialmente quando tomam por objeto os comportamentos sexuais alheios!
Esse 'antropologismo da diferença' é ensinado a todos que ingressam nas universidades - pois, a 'cadeira' de Antropologia é uma das disciplinas que os estudantes chamam de 'GIAS', sendo obrigatórias na maioria das graduações brasileiras - agora também introduzida no Ensino Médio como conteúdo trasnversal integrante dos currículos da disciplina Sociologia. Louvável consagração! Mas, é preciso estar atento! Pois, de que forma será difundida essa uma sensibilidade 'pós-moderna'? Será através da expressão dessa 'nova habilidade' em exaltar detalhes minuciosos (etnográficos) a respeito de peculiaridades e particularidades fascinantes da vida humana? Bem sabemos que preferem exercitar essa 'habilidade' na relação com os outros povos e comunidades, os mais distantes possíveis; para não correrem muitos riscos! Não obstante, contraditoriamente a alteridade assusta esses 'antropologistas' quando a proximidade com a lógica de pensar do outro é exigida no convívio de seus gabinetes. Aí, nesse ambiente culturalista, revela-se a espantosa verdade: são esses mesmos professores de antropologismo institucionalizado (os novos outsiders marginais/oficiais do sistema) que desenvolvem uma moléstia terrível, que é a incapacidade de conviver e, muitas vezes compreender, formas diferentes de pensar que não sejam a deles. É uma fobia curiosa e que se difunde em grupos cada vez mais numerosos. Todavia, alguém poderia dizer: mas, afinal são humanos, como toda a gente! A despeito de alguns deles não se considerarem humanos de um modo comum, querem nos fazer crer que são realmente humanos de um tipo especial.
Não obstante, de que tipo de humanos afinal tratamos aqui, amigos? Ora! Aqueles que separam o que defendem e dizem com palavras - de modo bem exótico, é verdade; por vezes emprestadas dos próprios nativos que tomam como objeto de estudo - do que fazem e vivem concretamente. Esses profetas da diferença simulada se esquecem de algo importante, colocado por Maurice Merleau-Ponty, quando destacava a definição do ofício do semiólogo:
"Como compreender o outro sem sacrificá-lo à nossa lógica e sem sacrificá-la a ele?".
Esses antropologistas preferiram sacrificar a lógica. Meus caros, não tenhamos dúvidas, por trás desse elogio todo da diferença, nos outros, revelam uma incapacidade brutal de conviver com modos diferentes de pensar e raciocinar, entre nós. Ou melhor, por trás disso tem uma incapacidade brutal de verdadeiramente 'pensar' entre nós!

Antropologia da Antropologia: Da Miséria da Antropologia à Antropologia da Miséria

Por incrível que pareça, hoje em dia, quem quer realmente desenvolver um pensamento antropológico deve tomar a própria 'antropologia' estabelecida nos balcões universitários, como objeto de uma reflexão e análise. Invariavelmente a própria 'antropologia' estabelecida e a própria Universidade - incubadora oficial de especialistas e tecnocratas - fazem parte dos problemas teóricos e conceituais que temos que superar na atualidade; para efetivamente poder pensar novos conceitos e novos paradigmas, enfim, para pensar os novos problemas que a sociedade contemporânea tem que enfrentar. A 'antropologia estabelecida' e a Universidade canônica, são parte do problema, não são a solução! Na minha vida universitária e na convivência com os antropologistas de plantão, observei que, lamentavelmente, quem deseja atingir um estudo profundo da sociedade e da cultura na atualidade, deve tomar esses pseudo-letrados em Antropologia com distanciamento e estranhamento críticos. A percepção destes problemas, da ordem de uma antropo-ética, tem se aguçado nos últimos tempos. Parece que chegou o momento de começar a colocar em questão esse cinismo dominante e procurar formas de superação desse estado de coisas. É um trabalho difícil, mas necessário. Ainda mais numa época em que os racismos e os fundamentalismos étnicos proliferam nos lugares menos esperados. Entretanto, tudo indica que logo teremos pesquisas importantes sobre os modos de reprodução da mentalidade fóbica contra o pensamento autêntico, e veremos que é preciso ter mais cuidado ao conviver com os que dizem, tão fervorosamente, que 'amam' a 'diferença'. Na verdade talvez tenham a maior de todas as dificuldades: se verem como semelhantes.

Anedota

Atribui-se à antropóloga norte-americana Margareth Mead uma anedota desconcertante, e que merece ser comentada aqui; pois se aplica como uma mão na luva:
"Vocês sabem qual a diferença entre um psicólogo, um sociólogo e um antropólogo? Ora, meus caor, é fácil! O primeiro odeia a si mesmo; o segundo odeia os outros; e o terceiro odeia a si e aos outros".
Talvez já tenha chegado o tempo de nos perguntarmos sobre o alcance desse chiste cruel...

Observações Complementares

Reflexões relativas ao tema da 'antropologia da antropologia':
http://oficinadesociologia.blogspot.com/2006/06/desconstruir-o-sempre-foi-assim.html

http://www.mirelaberger.com.br/mirela/geisa/GREGORY_BATESON.pdf

Antropologias, história, experiências
Organizadoras: Fernanda Arêas Peixoto, Heloisa Pontes e Lilia Moritz Schwarcz
Área:Antropologia. 2004 225p. ISBN: 85-7041-443-9
Fruto maduro do seminário "Antropologia da Antropologia: Desafios e Perspectivas", realizado entre 26 e 28 de agosto de 2003, na Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras da USP, este livro propõe-se a refletir sobre algumas das diversas possibilidades analíticas acessadas pelos antropólogos. Os ensaios que o constituem se alinhavam em torno da experiência: são relatos pessoais e intelectuais; situações de guerra em contextos distintos; militância política – tudo em simbiose com o percurso e a produção dos intelectuais, brasileiros e estrangeiros, aqui reunidos. Ainda que tome a antropologia como eixo e ponto de partida, visa lançar uma reflexão que transborda fronteiras disciplinares, pensando o cruzamento entre distintas áreas: antropologia, sociologia, história e literatura. Reúne textos de Antônio Sérgio Alfredo Guimarães, George W. Stocking Jr., Marcos Chor Maio, Mariza Corrêa, Mariza Peirano, Mauro W. B. de Almeida, Milton Hatoum, Omar Ribeiro Thomaz e uma entrevista com Marshall Sahlins.
http://www.editoraufmg.com.br/carrinho.asp?codigo_produto=646