10 maio 2009

A BANALIZAÇÃO DA VIDA EM DR. FAUSTO OU O MAL SEGUNDO THOMAS MANN

ANA LÚCIA MODESTO
Resumo: o texto analisa o significado do mal no romance Doutor Fausto, de Thomas Mann.
Palavras-chave: mal, Dr. Fausto, Thomas Mann, mito, individualismo moderno

A BANALIZAÇÃO DA VIDA EM DR. FAUSTO OU O MAL SEGUNDO THOMAS MANN
Diferentes razões explicam meu interesse pelo estudo do romance Doutor Fausto, de Thomas Mann. Em primeiro lugar, a forma com que o autor retoma o que pode ser chamado de mito do pacto demoníaco em pleno século XX. Em segundo lugar, impressionam-me as transformações que a figura de Fausto sofre na imagem do compositor Adrian Leverkühn, personagem que Mann considera uma de suas principais criações. Essa metamorfose indicaria, em meu entender, a consciência de mundo do seu criador, que retoma um tema clássico e controvertido para discutir o que é o mal, num “tempo sombrio”, usando a expressão de Arendt (1993), cujo pensamento será utilizado no meu trabalho, como ferramenta na busca da compreensão do significado das alegorias do romance alemão. Por último, instiga meu interesse a sobrevivência histórica do mito de Fausto, a riqueza simbólica que mantém o mito, nascido no final dos tempos medievais, como uma história cujo sentido não se esgota – ao contrário, é fonte de inspiração para novas versões. É como se história lendária precisasse ser constantemente re-contada, pois o público não consegue apreender seu sentido – e a História do Homem Ocidental seria a prova dessa incapacidade –, e assim colocar um ponto final nas contínuas versões produzidas. Seria seu problema insolúvel trazer
em si o espectro do mal absoluto, algo por demais inacreditável diante da secularização do mundo, mas, de alguma forma, ainda verossímil? Ou, ao contrário, por que o personagem que dá nome àobra nos persegue como uma sombra, perigosamente próximo, e, no entanto, impossível de ser tocado, absorvido?
Na visão de Carrière (2003) e Watt (1997), Fausto, junto com os personagens de Don Juan e Dom Quixote, representa como algo mais que uma peça dramática: ela é um verdadeiro mito da modernidade, reproduzindo hoje a importância da mitologia na Antigüidade. Para Watt (1997), o mito moderno ocupa uma posição intermediária entre a ficção e realidade. Seguindo a definição de Malinowoski, Watt (1997, p. 16) fala do mito como “uma história tradicional largamente conhecida no âmbito da cultura,
que é creditada como uma crença histórica ou quase histórica, e que encarna valores e simboliza alguns dos valores básicos de uma sociedade”. Acrescentaria à definição a idéia que, se o mito encarna valores, mostra também a impossibilidade do homem segui-los, o que teria, como resultado, o encontro com o trágico. Pensemos em Édipo, por exemplo. Mas meu problema persiste: por que histórias como a de Fausto e não outras atingiram esse patamar de mito dentro da sociedade moderna, sendo que muitas outras também representam valores básicos da sociedade? Carrière (2003) também levanta o problema comparando Dr. Fausto e Próspero, personagem criado por Shakespeare na peça A tempestade. Próspero seria o contrário do mágico alemão: expulso do seu ducado, renuncia a seus poderes mágicos e retorna a seu povo. Mas Próspero não obteve o fascínio que o “doutor negro” (expressão do próprio Carrière,
2003) conseguiu no imaginário social, e por isso: "A nós restaria perguntar porque Fausto se elevou à dimensão mítica enquanto Próspero permanecia um personagem de teatro. Será que os tempos modernos da Europa se reconheceriam, mais clara e facilmente, no doutor negro? Um dos nossos mitos favoritos nos indicaria, com
toda a certeza, como nosso local preferido, os territórios infernais?" (CARRIÈRE,
2003, p. 33).

CAMINHOS. Goiânia, v. 5, n. 2, p. 461-478, jul./dez. 2007 462

ANA LÚCIA MODESTO
Doutora pela Universidade de Campinas. Professora de Antropologia na Universidade
Federal de Minas Gerais.

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