24 maio 2009

História vira terapia para crianças



Livro ajuda casos de dor e abandono

O ensaio não começou, mas os oito atores estão agitados. Alguns andam pela sala enquanto outros parecem nervosos com a presença de estranhos. Dizem que não dá sorte, ainda mais antes da estreia.
Rapidamente, porém, a escolha do figurino rouba a atenção do grupo. Entre provas de vestidos de fadas, bruxas, capas e coroas de reis, a ordem impera.
Não demora muito e eles resolvem partir para o ensaio. O texto ainda está confuso, faltam alguns personagens serem definidos e a protagonista não parece à vontade na roupa escolhida, mas em pouco tempo já fica claro que o resultado da montagem não é o principal. O mais importante é como eles chegaram até ali.
O caminho foi longo e penoso. São oito crianças em tratamento psiquiátrico que carregam o peso de conflitos, lutos e abandonos.
Elas estão em tratamento no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo, com problemas que vão do transtorno bipolar, depressão e hiperatividade até a esquizofrenia. "Todos os casos aqui são graves, são crianças que não conseguiam se inserir na sociedade", explica a psicóloga Adriane Bacellar Duarte Lima, terapeuta e diretora da peça.
Se a vida trouxe os problemas, as respostas vieram dos livros de contos de fada, reproduções dos conflitos das crianças. Da fábula em que o personagem se torna órfão à história da princesa rejeitada, está tudo ali.
Em pouco tempo é possível perceber avanços, como a melhora no comportamento social, na criatividade, na coordenação motora e na fala.
A iniciativa partiu da Associação Viva e Deixe Viver, uma entidade dedicada a recrutar e treinar contadores de histórias para crianças e adolescentes hospitalizados. A entidade existe desde 1997, mas essa é a primeira experiência com pacientes de um hospital psiquiátrico.
O objetivo é utilizar as possibilidades terapêuticas que o brincar pode trazer. "Cada patologia incide de uma forma diferente em como a criança brinca", diz a psiquiatra Marisol Montero Sendin.
Quando chegaram, algumas delas não sabiam como brincar. A barreira parecia intransponível. Nesse ponto, os médicos e Valdir Cimino, fundador e diretor da Viva e Deixe Viver, perceberam que mais do que mostrar a eles que podiam brincar, os pais também precisavam participar.
Decidiram então estudar os pais de 65 crianças atendidas no instituto. O resultado mostrou que foram criados em um ambiente repleto de histórias e brincadeiras. Mas o mesmo não se repetiu com seus filhos.
Ou seja, com o nascimento de uma criança com patologia psiquiátrica, até mesmo os pais que foram mais estimulados durante a infância se sentem impotentes. "O objetivo é ensiná-las a brincar com seus filhos para que possam fazer isso também em casa", afirma Cimino.
Entre idas e vindas, interrupções e choros, o ensaio termina. Pouca coisa parece definida. A única certeza é que eles estão saindo dali melhor do que entraram.

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