09 julho 2009

Antropologismo na Universidade: Complexo da Saudosa Maloca!


Fala-se em Antropologia no/do Brasil; mas há uma Antropologia Brasileira? Autores como Nina Rodrigues, Euclides da Cunha, Roquette-Pinto, Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, etc., podem ser considerados as bases da inteligência antropológica brasileira... São referências obrigatórias.
Porém, fica a pergunta: onde se ensina a história da Antropologia Brasileira? Nossos estudantes logo cedo conhecem as idéias dos antropólogos norte-americanos, europeus, e alhures; mas pouco, ou nada, conhecem da história da antropologia brasileira ou latino-americana. Na era da fragmentação, do pensamento fraturado, não existe mais 'antropologias nacionais'? Todas serão desconstruidas e relegadas a um plano anedótico, dos 'antropólogos' que ousaram pensar seu próprio país. Diz-se: - É o fim das 'grandes narrativas'! Vaticinam os profetas da pós-modernidade! O destino das 'antropologias nacionais' é ir para o grande museu antropológico do futuro?
O certo é que não se pensa mais o Brasil, o País, a Nação... os antropólogos atuais se formam pesquisando 'exaustivamente', em minucias, 'densamente', o local, o étnico, o micro-sociológico... Pois, pensar a totalidade, o nacional, o universal, virou tabu; ou algo espúrio, considerado como vestígios perigosos do totalitarismo, do imperial-colonialismo, da megalomania teórica evolucionista do século XIX, das 'grandes narrativas' suspeitas...
As idéias sobre a mestiçagem, o sincretismo, o hibridismo, fusão cultural, interculturalismo, etc., foram abandonadas, ou solapadas, pela moda etnicista obsecada pela fragmentação, pelo detalhe, pelos 0,00001% de diferença cultural, de 'traços diacríticos' ínfimos e infinitesimais... É o minimalismo antropologista... Foi entronizado o multiculturalismo (ou melhor o 'micro-culturalismo'), enfim! Todavia, como sugere a Psicanálise freudiana, trata-se aí, mais uma vez, do velho 'narcisismo das pequenas diferenças' envernizado pela moda pós-modernista da 'diferença' a qualquer preço: é a nova lógica do mercado serial global; no vasto museu planetário das 'grandes novidades'. Tudo isso num mundo em processo veloz de transformações, no qual a própria idéia de 'identidade' é questionada (isso há décadas); mas os antropologistas passadistas e etnicistas preferem viver submetidos aos fantasmas do passado, cultivando aquilo que já oprimiu por muito tempo a mente dos vivos: é a obsessão pelo 'fator X' da identidade... Não será uma 'resistência' neo-conservadora aos processos de transformação em voga? Não será uma armadilha neo-colonialista manter os traços da 'identidade' forjada no jogo das relações de dominação, se apagando de modo neurótico e defensivo a um passado nostálgico? O que supostamente somos - essa identidade imputada - é o que 'verdadeiramente' somos, ou podemos ser? E o vir-a-ser, como fica o porvir? O que somos hoje, é o que devemos ser indefinidamente? O que somos hoje já significa que estamos prontos, definidos, reconhecidos?
Que curiosa petrificação do imaginário social e cultural!
Essa é a miséria da antropologismo contemporâneo...
A crise do futuro nos conduz a doença crônica da nostalgia do passado: Ah! Como erámos felizes, mas não sabíamos! Os antropologistas de hoje, querem nos fazer crer que eramos realmente felizes! "Saudosa maloca, maloca querida!"...
O que essa dificuldade de pensar o presente, o porvir e o vir-a-ser quer nos indicar? O que essa mentalidade anti-modernista, anti-futurista, tem a nos dizer do que nos tornamos? Não se trata de admirar a-criticamente o presente ou o futuro, se trata de enfrentá-lo com lucidez: 'só nos resta a lucidez implacável', diz Grippo.
Parece que a queda da força reflexiva e a dificuldade de enfrentar os desafios de nossa época, está na base dessa impotência do pensamento. Cadê a Antropologia Crítica?
Diante do 'esse aí é o melhor dos mundos possíveis' nos calamos para outras possibilidades, e a imaginação política e sociológica definha, num nostalgismo preservacionista do 'arcaico' simulado. Passado fetichizado, alteridade fabricada por antropologistas de classe média, ávidos por ver o 'outro' ao vivo, nem que seja só para satisfazer sua curiosidade exotista... É isso que podemos designar de 'etnocentrismo as avessas', isto é, provo que não sou etnocêntrico, criando 'outros', para satisfazer a minha fantasia de compaixão antropológica pelos 'outros'...
Alteridade ajustada, domesticada por uma fantasiação ingênua, pseudo-inocente. Como encontrar inocência suficiente para fantasiar alteridades (pseudo-)autênticas?
Um exemplo: jovens com adoração pelas 'raízes culturais'; estilos roots, 100% raíz, etc. Como jovens podem 'amar' o que não viveram? O que é isso: 'amar' o passado que não se viveu? Como ser 100% alguma coisa? 100% negro? 100% raiz?...
Porém, retornando ao tema de abertura, a Antropologia Brasileira (brasiliana) desconhece a transmissão do seu legado. A herança cultural antropológica brasileira não é ensinada nos bancos escolares. É bem capaz de um jovem estudante de Ciências Sociais travar debates acirrados sobre a 'briga de galos' em Bali, das castas hindus na Índia, do que compreender como as rinhas de galo, o compadrio, o patrimonialismo, vicejam em nossa própria sociedade. Talvez isso não seja assim por acaso: mentalidades fracas precisam aplacar suas angústias colocando em foco fatos e fenômenos sociais bem distantes, para poder suportar alguma reflexão; geograficamente distante e sem riscos de contágio. Domestica-se o pensamento com reflexões e idéias repetidas de autores de outros rincões. É mais fácil repetir e fazer comentários infinitos sobre os conceitos inventados por sociólogos e antropólogos de outra parte do mundo, do que investir na produção e criação do imaginário sociológico, onde nós vivemos. Miséria do antropologismo, miséria do pensamento fraco...

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Para caricaturar essa situação, vale a leitura de um texto ambíguo e ao mesmo tempo irônico (ou sarcástico, se preferirem) de José Murilo de Carvalho. Observar-se-á que a Universidade não é propriamente o lugar onde encontraríamos a solução de muitos dos nossos problemas, mas, ao contrário, a Universidade, hoje, faz parte dos problemas que temos que enfrentar ao percorer o caminho que vai do 'conhecimento' à 'sabedoria'...

Como escrever a tese certa e vencer.

Reprodução do artigo do historiador José Murilo de Carvalho publicado pelo jornal O Globo em 16/12/99, pág. 7.

Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e na insegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática. Quando passei por ela, gostaria de ter tido alguma ajuda. É esta ajuda que ofereço hoje, após 30 anos de carreira a um hipotético doutorando, ou doutorando, sobretudo das áreas de humanidade e ciências sociais. Ela não vai garantir êxito, mas pode ajudar a descobrir o caminho das pedras.

Dois pontos importantes na feitura da tese ou na redação de trabalhos posteriores são as citações e o vocabulário. Você será identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e a terminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos estará a meio caminho do clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, que pode vir tarde demais. Começo com os autores... A regra no Brasil foi e continua sendo: cite sempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção, não cite qualquer um. É preciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. No momento, a preferência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. Entre os franceses, estão no alto Ricoeur, Lacan, Derrida, Deleuze, Chartier, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem se lembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasados, cheirará a naftalina. Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci, que resiste bravamente, ou o norte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força. Auerbach e Benjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história, são citações obrigatórias. Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre os ingleses, Hobsbawm. P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanos estão em alta. Em ciência política, são indispensáveis, R. Dahl, ainda é aposta segura, Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmo para R. Darnton e H. White em história. Não perca tempo com latino-americanos (ou africanos, asiáticos, etc.). Você conseguirá apenas parecer um tanto exótico.
Brasileiros não ajudarão muito, mas também não causarão estrago se bem escolhidos. Um autor brasileiro, no entanto, nunca poderá faltar: seu orientador ou orientadora. Ignorá-lo é pecado capital. Você poderá ser aprovado na defesa de tese, mas não terá seu apoio para negociar a publicação dela e muito menos a orelha assinada por ele. Se o orientador não publicou nada, não desanime. Mencione uma aula, uma conferência, qualquer coisa.
O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto. Uma palavra errada e você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar (as pessoas não vêem, opinam, comentam, analisam, elas têm um olhar); descentrar (descentre sobretudo o Estado e o sujeito); desconstruir (desconstrua tudo); resgate ( resgate também tudo o que for possível, história, memória, cultura, Deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois ); polissêmico (nada de “mono”); outro, diferença, alteridade (é a diferença erudita), multiculturalismo (isto é básico : tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor); discurso, fala, escrita, dicção (os autores teóricos produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário (tudo é imaginado, inclusive a imaginação), cotidiano (você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero (essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres); povos (sempre no plural, “os povos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda, lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa ); cidadania (personifique-a: a cidadania fez isso ou aquilo, reivindicou, etc.). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro.
Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante.
Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá démodé se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia, nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.
Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda apreender a escrever como um intelectual acadêmico (note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de Letras, mas à universidade). Sobretudo, não deixe que seu estilo se confunda com o de jornalistas ou outros leigos. Você deve transmitir a impressão de profundidade, isto é, não pode ser entendido por qualquer leitor. Há três regras básicas que formulo com a ajuda do editor S. T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior: não é “crítica” mas “criticismo”. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: “é provável” deve ser substituído por “ a evidência disponível sugere não ser improvável”. Terceira: nunca diga de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa. Você não passará de um mero jornalista se disser: “os mendigos devem ter seus direitos respeitados”. Mas se revelará um autêntico cientista social se escrever: “o discurso multicultural, com ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos da rua”.
Boa sorte.
Disponível: http://www.feth.ggf.br/Murilo.htm