30 julho 2009

HERANÇAS: Silviano Santiago



SINOPSE

Em 'As raízes e o labirinto da América Latina', seu novo livro, o escritor, ensaísta e crítico literário Silviano Santiago, um dos mais originais e prestigiados pensadores da atualidade, colecionador de vários prêmios como o Jabuti e o Portugal Telecom, parte de 'Raízes do Brasil', de Sérgio Buarque de Holanda e 'O labirinto da solidão', do mexicano Octavio Paz, para sugerir uma nova compreensão da América Latina. Assim presta uma dupla homenagem aos intelectuais que pensaram o continente e faz uma interpretação inédita de ambos.
A partir dos aparentes protagonistas de cada livro – o barão que definiria o brasileiro pela herança ibérica e, em contraste, o pachuco que definiria o mexicano como um pária -, Santiago nos mostra como os autores rebatem suas próprias premissas e revelam o que ele chama de inconsciente-do-texto. Mais do que o barão, o brasileiro carrega em si o semeador que planta ao acaso – em contraste ao ladrilhador organizado da colonização espanhola. Já em Octavio Paz, a mulher, que no mito mexicano é vista como inferior, acaba se mostrando um espelho do pachuco, uma chance de abertura ao mundo. De uma visão aparentemente preconceituosa da mulher, revela-se a possibilidade de libertação do "labirinto da solidão".
Nesse caminho de revelar o que cada escritor "comanda e o que ele não comanda dos esquemas da língua de que faz uso", Silviano Santiago se apóia em teóricos como Jacques Derrida, e identifica traços do surrealismo no poeta que transcende o ensaísta Octavio Paz e do construtivismo no racionalismo de Sérgio Buarque. Um dos grandes méritos de 'As raízes e o labirinto da América Latina' é esse seu caráter multi e interdisciplinar, a complexidade com que Silviano Santiago une suas facetas de ensaísta, crítico literário e poeta, servindo-se de teoria da literatura, história, arte, filosofia e lingüística para ir além da superfície dos textos.
Mais do que uma interpretação histórica e sociológica para a América Latina, o autor analisa a construção narrativa dos autores. O brasileiro de Sérgio Buarque, em princípio definido positivamente, acaba por revelar a identidade do ócio e do desleixo – características com que o autor dá uma visão singular ao famoso "homem cordial" de Raízes do Brasil. O brasileiro é como o couro, maleável, em contraste ao cobre do hispano-americano analisado por Octavio Paz. No caso de Paz, percebe-se uma convivência no texto de uma marca ideológica e de uma visão vanguardista, esta só aparecendo quando o ensaísta dá lugar ao poeta. De forma magistral, Silviano Santiago deixa ver como, passando a ser poeta, e suplantando a história pela poesia, Paz torna o poeta também objeto de seu texto.

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SINOPSE

Num apartamento na Vieira Souto, Rio de Janeiro, tendo diante de si uma tela de computador e mais ao fundo o oceano Atlântico, o narrador de Heranças passa em revista seu passado de hábil empresário e maleável sedutor. O acúmulo de bens e mulheres perfaz o capital do relato, conduzido com lentidão e cinismo para dar conta das peripécias — melhor dizer negociatas — da alta burguesia brasileira nos últimos setenta anos.
Do fundo da tela, quando tudo em volta "começa a se esfumar" para quem escreve, vão surgindo traços de Belo Horizonte: o provinciano centro comercial nas décadas de 1940 e 1950 dobra-se à especulação imobiliária nos anos de chumbo e entra de sola na roleta financeira do final de milênio. O "olhar longitudinal", capaz de abranger largo período de tempo, concentra-se na história familiar do herdeiro. Após a morte do pai, dono dos Armarinhos S. José, planeja com sucesso a morte da irmã mais velha, toma posse da herança, lança-se de vez à promiscuidade dos negócios escusos, da política do favor e da alta rotatividade sexual.
O novo romance de Silviano Santiago opera um inesperado corte transversal na ficção brasileira contemporânea, ao apontar outras formas de enunciar questões relativas à burguesia nacional, pouco abordadas na sua radicalidade. Retoma a tradição cínica e jocosa que vem do realismo de Machado de Assis, e mistura com o melodrama de Nelson Rodrigues, para compor um texto que toma a via oposta àquela de heranças literárias mais recentes: banalização da linguagem, visão estereotipada do marginal, violência urbana tornada espetáculo.
No novo texto prevalece o "ritmo da agulha de costura", que o narrador resgata das fornecedoras de crochê e tricô da antiga loja de armarinhos do pai, agregando à trama mais ampla do processo econômico e social brasileiro a pontuação local. Alinhava passado e presente por dentro, abrindo espaço na história para o "comentário indireto", através do qual coloca em xeque os pontos de vista de uma burguesia que se revela por meio das trapaças discursivas que arma. A costura torna visíveis os arremates que lhe dão forma.
Por isso o novo milênio em Ipanema, representado pela imagem dolorida do Pico Dois Irmãos, é "cópia do vazio infinito da existência", que o protagonista de certo modo tenta salvar ao escolher um imprevisível herdeiro ao final da narrativa. Mas nada parece mudar. Sempre outro, sempre o mesmo: mar visto da janela, superfície líquida do computador — "a água empoçada metamorfoseou-se em frases", o leitor tem toda uma vida diante dos olhos.
Como no provérbio da epígrafe, o papel tudo agüenta, até que o fio da história seja rompido e mostre como as coisas "aparecem de maneira violenta e desesperadora". É a essa experiência liminar entre vida e morte que o leitor é chamado a participar; é ela que o novo romance de Silviano Santiago nos deixa como herança do futuro.

Wander Melo Miranda é professor titular de teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais, consultor do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e integrante do corpo editorial da Revista Margens/Márgenes.

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