10 julho 2009

Bourdieu: O QUE FALAR QUER DIZER

Se o sociólogo tem um papel, este seria, antes de tudo, dar armas e não lições. Vim aqui para participar de uma reflexão e tentar dar aos que têm a experiência prática de um certo número de problemas pedagógicos, os instrumentos que a pesquisa propõe para interpretá-los e compreendê-los. Se, no entanto, meu discurso é decepcionante, e às vezes até mesmo deprimente, não é porque eu tenha qualquer prazer em desencorajar; ao contrário. É que o conhecimento das realidades leva ao realismo. Uma das tentações do ofício de sociólogo é aquilo que os próprios sociólogos chamaram de sociologismo, isto é, a tentação de transformar as leis ou as regularidades históricas em leis eternas. Daí a dificuldade que há em comunicar os produtos da pesquisa sociológica. Temos que nos situar constantemente entre dois papéis: de um lado, o de desmancha-prazeres e do outro, o de cúmplice da utopia. Hoje, aqui, gostaria de tomar como ponto de partida de minha reflexão o questionário que alguns de vocês prepararam para esta reunião. Se tomei este ponto de partida, foi com a preocupação de dar a meu discurso um enraizamento tão concreto quanto possível e evitar (o que me parece uma das condições práticas de toda relação de comunicação verdadeira) que aquele que tem a palavra, que tem o monopólio real da palavra, imponha completamente o arbitrário de sua interrogação, o arbitrário de seus interesses. A consciência do arbitrário da imposição da palavra coloca-se cada vez com mais freqüência, hoje, tanto a quem tem o monopólio do discurso quanto aos que o sofrem. (...)

BOURDIEU, Pierre. 1983. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero. p. 75-88.

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A Distinção: crítica social do julgamento

Ao longo dos anos 1970, o sociólogo Pierre Bourdieu se dedica a várias pesquisas sobre o processo de diferenciação social, visando elaborar uma teoria geral das classes sociais. A Distinção aparece como síntese desse período e é considerada, por vários autores, como a obra central na carreira sociológica de Bourdieu. Com um subtítulo importante, "crítica social do julgamento", ele tenta construir a correspondência entre práticas culturais e classes sociais. Na Distinção, ele expõe duas idéias centrais e originais: de um lado, as relações de poder como categoria de dominação são analisadas pela metáfora do capital cultural, de outro, o entrecruzamento das relações de poder com as várias formas de ações organizadas favorece a capacidade dos indivíduos para elaborar estratégias que, todavia, não ultrapassam as relações de desigualdades sociais. Pierre Bourdieu elabora, assim, um sistema teórico que afirma que as condições de participação social baseiam-se na herança social. Violência simbólica que aparece na ação sutil de comer, vestir, cuidar do corpo, ouvir música ou até mesmo na ação de apreciar uma obra de arte.
Editora Zouk. Capa Dura 16x23cm - 560 págs ISBN 978-85-88840-68-3 R$ 80,00

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