10 julho 2009

LANÇAMENTO DO LIVRO MUSEU MEFISTOFÉLICO


Prefácio

Alexandre Corrêa me solicitou um comentário que valesse como apresentação ou prefácio de seu terceiro livro e a primeira impressão que me vem da leitura é a sedução, a magia que me envolveu de tal forma que não consegui parar de ler enquanto houve página para ser virada. O tempo inteiro eu queria saber o que me esperava na próxima frase, no capítulo seguinte. Como falava Nise da Silveira, “algum gnomo”, da cor da mata onde a polícia seqüestrou oferendas aos deuses do povo da África, brincava com minha curiosidade e a pretensão deste meu ex-aluno feito amigo pelos encontros da vida, de “destabuzar a magia”: – Vão desejo que a Antropologia incita, mas não tem mana para dar aos visionários, que apenas são tragados pela magia de seu objeto de estudo, cercado e penetrado por todas as setas da teoria, do conhecimento científico, sem que o antropólogo tenha poder para rasgar o “véu diáfano da fantasia”, as vestes de Perséfone, que comanda o “retorno do encoberto”, no eterno jogo do esquecimento e da memória.
É excelente ler um livro que nos mergulha na voragem que arrasta um autor numa grande aventura como esta a que se propôs este caçador da materialidade e da imaterialidade da cultura que pode ser categorizada como o “nosso patrimônio”. Teria se sentido assim Dante Milano, pastor da noite boêmia carioca com Jaime Ovale,
Orestes Barbosa e Manuel bandeira; para na manhã seguinte, com o sol invadindo a sala de um Secretário de Segurança do Distrito Federal – seu chefe na luz crua do dia – quando a cotidianidade do emprego lhe devolvia a materialidade humana; para enxergar nos espólios das rasias policiais algo mefistofélico que deveria ser
guardado para ser desvendado pelas futuras gerações?
Que demônios, ninfas ou desencarnados escapavam de corpos mutilados de escravos, e de feitores cheios de ódio constituindo as falanges que marcaram Dante Milano como “o poeta maldito do modernismo brasileiro”? Tudo isso se apresentou a Alexandre Corrêa que, num trabalho extraordinário de pesquisa, didaticamente nos mostra, através da análise histórica e dos olhares policial e antropológico, as abordagens que, até seu encantamento pela Coleção, foram empregadas no estudo da coleção de magia negra do Museu da Polícia, vinculado à Escola da Academia de Polícia.
Esses três capítulos iniciais, pelo rigor da pesquisa histórica e teórica, torna “Museu Mefistofélico e a distabuzação da magia” leitura obrigatória nos cursos de Museologia, Antropologia e História da Arte.
Nos capítulos ‘olhar modernista’, ‘olhar poético’ e ‘olhar mefistofélico’, o livro ganha dimensão inovadora, pela abordagem singular; a novidade de ampliação de perspectivas de análise do fenômeno museológico; e a incorporação de novas articulações interdisciplinares da museologia com a literatura e as artes plásticas.
O próprio Movimento Modernista amplia seu espectro de atuação quando, numa forma de dramatização do social, resgata dos botins policiais objetos tidos como diabólicos, portadores do mal, e os rearruma, roubando-os do contingente, e entronizando-os
como fragmentos não só etnográficos, mas etnológicos – marcas identitárias deste povo, que não poderá expurgar de sua etnia e de seu processo cultural, o imaginário do horror da escravidão, dos germens do mal, que alimentam o medo do desconhecido e do “encoberto”.
O autor constrói nova interpretação do significado cultural da Coleção Museológica de Magia Negra, através da exploração do mito de Mefistófeles no imaginário moderno, isto é: a Coleção tombada vai aparecer como um “processo de simbolização e encenação
museológica do mal, do diabólico e do satânico, na sociedade brasileira moderna”. Enfatizando este papel de congelamento de estados de espírito de elementos da sociedade, através da encenação de sentimentos (cultura imaterial) Alexandre foi muito feliz na escolha da epígrafe de Hegel: “Nada da herança histórica se perde jamais”.
No clima mágico do objeto que estuda, o autor é fascinado e fascina o leitor com a história cheia de episódios misteriosos, não só da organização, mas do tombamento, da preservação, do encobrimento e do descobrimento recorrente da Coleção de Magia Negra, desde sua criação em 1938. Dessa narrativa quase mítica, o episódio mais emocionante é a história do incêndio que quase destruiu a cena que congelou uma conjuntura, um tempo, em que o Brasil, tentando se branquear, criminalizou as crenças e as práticas que – do desespero da perda da liberdade e da condição humana, até o acalanto dos filhos do sinhô e a passagem de boçal a ladino – o negro introjetou no ser brasileiro.
Todas as vicissitudes que emergem dessa história prazerosamente lida, de que fazem parte medo, preconceito, desaparecimento e retorno inscrevem-se, no encantamento do
inexplicável, os caprichos do destino que determinou que fosse esta a primeira Coleção Etnográfica Tombada no país, no momento da criação de um órgão destinado à preservação da memória e do patrimônio artístico e cultural do Brasil.

Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros
Antropóloga, Professora de graduação e pós-graduação da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ.

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