10 julho 2009

O IMAGINÁRIO DA MAGIA


Feiticeiras, adivinhos e curandeiros em Portugal, no século XVI
Francisco Bethencourt

Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 392

Ainda hoje, a visão historiográfica de Portugal Quinhentista é focalizada num nível cultural, institucional e político protagonizado pelos estratos mais elevados da população. Deixa de fora a vida cotidiana dos trabalhadores da terra, camponeses, artesãos, pequenos comerciantes: estratos geralmente não letrados, que representam mais de 80% de uma população em luta pela sobrevivência.
Como essas pessoas enfrentavam suas dificuldades pessoais e familiares, ou seja, os problemas básicos de dinheiro, saúde, relações amorosas? Qual era sua percepção das possibilidades de influenciar os outros e de obter apoio? A sua visão do mundo seria exclusivamente definida pela Igreja e pela preparação da vida para além da morte? Qual era a percepção real do universo e das forças que o dominam? Qual a percepção do poder do homem face a essas forças?
Com base nessas perguntas, Francisco Bethencourt identifica uma visão mágica do mundo, que se encontrava difusa em toda a população, inclusive nos estratos mais elevados, com uma forte base de cultura oral, mas com ramificações na cultura escrita.
Através de inúmeros relatos das próprias feiticeiras, bruxas, adivinhos e curandeiros aos juízes dos tribunais da Inquisição, o autor recupera, num trabalho minucioso e de grande erudição, o significado simbólico e social dessa visão mágica, realizando um levantamento cuidadoso dos agentes mágicos e suas práticas, das crenças e da visão demonológica projetada por juízes e inquisidores, do espaço social desses agentes e da "máquina" de repressão inquisitorial.
Para evitar interpretações enviesadas, Bethencourt recorreu a autores estranhos à historiografia tradicional, como Wittgenstein, Cassirer, Dumézil ou Evans Pritchard, além de escritores como Gil Vicente, Sá de Miranda ou Luís de Camões – que fazem extraordinárias representações de agentes mágicos, encenações de prodígios e de assombrações, narrativas nas quais sobressaem as contaminações entre o sagrado e o profano, o miraculoso cristão e o maravilhoso pagão.

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