05 agosto 2009

COMUNICAÇÃO SBS 2009


XIV CONGRESSO BRASILEIRO DE SOCIOLOGIA
RIO DE JANEIRO, 2009
GT05 - Cultura, Política e Memória

1º Sessão - "Patrimônio, Memória Social e Poder"- 29/07

O ‘MITO DE DÉDALO’ NA ATUALIDADE:
A gestão das paisagens, patrimônios e memórias sociais em perspectiva .

Alexandre Fernandes Corrêa
Universidade Federal do Maranhão
alexandre.correa@pq.cnpq.br

O ‘MITO DE DÉDALO’ EM PERSPECTIVA

Breve reflexão sobre as repercussões do ‘Mito de Dédalo’ no imaginário social, desde sua expressão na mitologia Grega clássica até a sua mais recente manifestação na tecnocrática mentalidade ocidental. É uma interpretação das ‘encruzilhadas do labirinto’ das políticas de gestão do patrimônio e da memória na atualidade.
O foco recai especialmente nas recentes dinâmicas de aceleração dos processos de ‘turistificação’ e ‘gentrificação’ da paisagem urbana dos centros antigos das metrópoles brasileiras. Trata-se de uma critica aos excessos da nova sócio-técnica do patrimônio sobre a memória social; Uma crítica aos processos de normatização e institucionalização do sentido (Jeudy), nesse espaço social.

DÉDALO: PERSONAGEM MITOLÓGICO

Dédalo elabora os aspectos mais técnicos, simbolizando a ‘engenhosidade’. Tanto constrói o LABIRINTO, onde o homem se perde, quanto as asas artificiais de Ícaro, que contribuem para a escapada e o vôo, e provocam, finalmente, a perda. Arquiteto construtor do labirinto, símbolo do subconsciente. Representa, em estilo moderno, o tecnocrata abusivo, dos quais se destaca, de modo caricato, um profissional de: “Intelecto pervertido, de pensamento cego pelo afeto, que, perdendo a lucidez, faz-se imaginação exaltada e fica prisioneiro da sua própria construção, o subconsciente” (Diel, 1966: 47). Essa figura mítica está na base da formação ideológica da nova sócio-técnica do patrimônio.

DÉDALO: O APRENDIZ DE FEITICEIRO

A personagem lendária de Dédalo é o símbolo do tecnocrata, do aprendiz de feiticeiro fantasiado de engenheiro, que não conhece os limites do seu poder, se bem que seja representativo da inteligência prática e da habilidade de execução e o tipo do artista universal, sucessivamente arquiteto, escultor, inventor de meios mecânicos. Com as estátuas animadas que lhe foram atribuídas, faz lembrar L. da Vinci e seus automata. Mas, Dédalo não teve mais sorte do que Leonardo, com os diferentes príncipes a que serviu (Chevalier, 1991: 327).



DÉDALUS DO PATRIMÔNIO

O significado da palavra ‘labirinto’ não é unívoco, apresenta sentidos aparentemente paradoxais. Comumente se considera uma “construção arquitetônica, sem finalidade aparente, de estrutura complicada e da qual, uma vez em seu interior, é impossível ou muito difícil encontrar a saída” (Cirlot, 1984: 329). Encruzilhadas do Labirinto: Gestão dos Parques Temáticos do Patrimônio – Teatro das Memórias. Exemplos: Proliferação de Guias de Patrimônio, demonstrando a impossibilidade de o cidadão seguir nesse espaço social. Fios de Ariadnes (guias) são produzidos enquandrando o olhar dos turistas, dos visitantes, etc.

MINOTAUROS DAS MEMÓRIAS SOCIAIS

As origens clássicas do labirinto “é o palácio cretense de Minos, onde estava encerrado o Minotauro e de onde Teseu só conseguiu sair com a ajuda do fio de Ariadne”. Percebemos ai que se conservam do seu significado original, o sentido da “complicação de seu plano [arquitetônico] e a dificuldade de seu percurso” (Chevalier, 1991: 530).
Fantasmas do Passado – Minotauros da Memória.

ENCRUZILHADA ÉTICO-POLÍTICA

O LABIRINTO atravessa o tempo como um desafio à imaginação e ao pensamento. Sua imagem arquitetônica nos atravessa desde a mitologia Grega, até a contemporaneidade tardia. Desde o labirinto de Creta, construído por Dédalo, para encerrar o Minotauro – criatura touro-homem – numa arquitetura repleta de encruzilhadas e dificuldades; vivemos o jogo fascinante de suas variações caleidoscópicas no ‘admirável‘ museu atual das grandes novidades. O Mito de Dédalo atravessa a contemporaneidade.

GESTÃO DO PATRIMÔNIO & DA MEMÓRIA

A noção de labirinto funda-se como um arquétipo trans-histórico; uma construção tortuosa que se destina a desorientar os indivíduos que se atrevem a desafiá-lo - aceitando “perder-se nas galerias que cavamos, andando em círculos, ... até que essa rotação inexplicavelmente abra fendas por onde se possa passar”. “Um labirinto é uma casa edificada para confundir os homens; sua arquitetura, pródiga em simetrias, está subordinada a esse fim” (Borges, 1998: 598).

‘RE-ANIMAÇÃO’ DO PASSADO

A metáfora do ‘labirinto’ encaixa-se nesse contexto cultural. Castoriadis (1987) sugere uma refinada reflexão sobre a ‘ascensão da insignificância’ (2002) numa ‘sociedade à deriva’ (2006). Esse ‘mundo fragmentado’ dominado pelo conformismo triunfante, pretende permanecer fossilizado. Eterniza-se através da estetização ‘turistificada’ de todos os bens culturais; criando ‘parques temáticos’ em que se enclausura o passado como mercadoria fetichizada, coisificada , folclorizada e exotizada.

PARQUES TEMATICOS DO PASSADO

A METÁFORA DO LABIRINTO dá sentido a essa experiência como ‘perda num mundo que é equivalente ao caos’ (Cirlot, 1984: 330). As ‘encruzilhadas’ desse ‘labirinto’ construído pelos arquitetos e engenheiros são os novos ‘dédalus’ da engenhosidade tecnocrata contemporânea. Análise crítica e contextualizadora para uma nova ‘política da paisagem’ que respeite a polifonia das cidades e garanta a voz e a expressão democrática das memórias sociais marginalizadas nesse contexto de intensificação, sem precedentes, de uma ‘gentrificação’ petrificadora. Conter os excessos da patrimonialização – H.P. Jeudy.

O PASSADO TINHA UM FUTURO

“Os homens de outrora não tinham somente um vivido presente e um horizonte de incerteza quanto ao futuro. Eles tinham também opções abertas, projetos, temores, expectativas, sonhos. Para nós, que chegamos depois, esses projetos parecem não cumpridos. à indeterminação do futuro do passado junta-se a não-realização ulterior dos desejos.
Assim o passado é também para nós aquilo que não puderam fazer as pessoas da Idade Média, as pessoas da Renascença ou da Reforma, as do Iluminismo, os nacionalistas e os revolucionários do século XIX (...)”
Religação dos Saberes (Morin, 2003: 375): necessidade de re-unificação do campo epistemológico; superação da visão fragmentada: especialista x leigo.
Superação da tecnocracia patrimonialista na atualidade; através de uma escavação no iconsciente social, no sentido de encontrar as bases profundas da 'ideologia do patrimônio' na atualidade.

1 comentário:

Sara L. Miranda disse...

Belo blogue. Um beijo