03 agosto 2009

HENRI-PIERRE JEUDY NO PETIT TRIANON


Rio de Janeiro, 22 de julho de 2009.
Academia Brasileira de Letras. Ciclo de Conferências: “A França Volta ao Petit Trianon”.

Resenha da Conferência “Fiction Théorique”, de Henri-Pierre Jeudy.

Sociólogo do Centro Nacional de Pesquisa Científica, Laboratório de Antropologia das Instituições e das Organizações Sociais – LAOS. Sociólogo que tem estudado o pânico, o medo e a catástrofe. Temas de interesse: Patrimônio, Memória, Comunicação, etc.

Tópicos tratados na Palestra:

O conferencista inicialmente sugeriu que era necessário tomar algumas precauções, especialmente em relação a questão do uso do termo ‘ficção’. Sabe-se é uma palavra do domínio da escrita literária e teórica; portanto, o uso se fará aqui está carregado de certa ironia. Pois, o ponto a ser atingido é o das possíveis aventuras sobre a construção de sentido; cuja questão do singular emerge particularmente.
Todavia, é preciso adiantar que a produção de sentido atualmente está institucionalizada, isto é, as Instituições controlam a produção de sentido; o lema geral é: manter e conservar o sentido.
Porém, como se sabe, quando escrevemos, pintamos, filmamos, etc., produzimos sentido. Nossa questão aqui é: como produzir uma falha no que já foi produzido, na ordem do sentido? É possível vislumbrar a falha, em meio a normatização e instituição reiterada do sentido?
Por exemplo, o discurso tão difundido da diversidade cultural, do multiculturalismo e do intercultural; há hoje uma obrigação e imposição de sentido nesse espaço social – produz-se um consenso perigoso nesse domínio. Usa-se os mesmos conceitos, o discurso se uniformiza, se torna monolítico. No limite isso se torna ridículo, idiota...
Desse contexto surge o que Henri-Pierre Jeudy tem chamado de ‘princípio de reflexidade’: uma forma reiterada de fazer coincidir o discurso com o que se passa na sociedade. Tenta-se fazer coincidir os modelos de gestão do social com o discurso e a fala sobre o social. Denota-se um idealismo nessa pretensão de uma sociedade que quer tornar-se espelho de si mesma; nesse particular, um discurso em que a sociedade pretende espelhar a gestão de si mesma.
A questão que merece ser problematizada aí é a da constatação de que os discursos já estão prontos, já estão dados... Não existe a falha, não há espaço para a falha... Será, então, que a tarefa do escritor, do teórico, do artista é produzir perturbações na ordem do sentido nessa sociedade – através de feitos estéticos, teóricos, etc.? Produzir efeitos de ‘perturbação’ na ordem do mundo?
Henri-Pierre Jeudy alude a um fato ocorrido no Rio de Janeiro; um fenômeno–evento no Carnaval de 2008. A Escola de Samba Viradouro, através de seu carnavalesco, resolveu colocar em cena o horror do Holocausto, da II Guerra Mundial. Fato que repercutiu na mídia e tornou-se objeto de polêmicas; problema que chegou à justiça e que acabou em censura da mise-en-scène proposta. Esse fato ocorrido coloca em evidência as relações entre o que é o carnavalesco e a liberdade no trato dos fatos ocorridos no passado; em suma, os limites da criação e da produção do sentido na atualidade. Para Jeudy, é preciso não esquecer que ‘não construímos o futuro, enterrando o passado’. A História é um processo em que se deve e em que se pode re-interpretar os acontecimentos e os eventos; não estão fossilizados, petrificados... O caso em questão revela os limites da interpretação hoje. A censura feita à cenografia e à arte carnavalesca, sugerida pela Viradouro, demonstra que o sentido está instituído e que não se pode apresentar novas leituras sobre os acontecimentos. Há, portanto, uma exacerbação do sentido, um excedente do sentido, que aprisiona e fecha as possibilidades de novas interpretações.
O que se expressa daí, o que se revela daí, é uma necessidade moral reiterada de normatização e institucionalização do sentido e do significado. Pretende-se abolir, assim, as tensões entre os modos de interrogação. A exacerbação do sentido é a marca da impossibilidade de abertura para outros sentidos e significados.
Todo evento, e a produção de sentido a ele vinculado, invoca uma política do significado que é assolada por esta reiterada institucionalização e normatização repetitiva e monolítica. As interpretações, desse modo, têm variações limitadas, pois, o sentido já está dado: antes da leitura de um livro, de assistir um filme, uma peça, ler um jornal, etc. Como já adiantava Jean Baudrillard – seu amigo – desponta daí que há uma irredutibilidade do sentido no evento. O evento não reduz ao sentido previamente estabelecido, é sempre um a mais. Há possibilidades de novos sentidos e novas interpretações...
Cabe ao intelectual perscrutar os ‘modelos de interpretação’, dos quais a construção teórica constitui apenas uma parte. Proliferam cada vez mais dispositivos habituais de interpretação, em que ‘modelos cognitivos’ normatizam e impõem uma limitação da capacidade de interpretação dos sentidos dos eventos.
Desse modo como construtores de sentido, trabalha-se tendo em vista antecipações dos sentidos dos eventos, a partir de dispositivos e modelos elaborados pelas instituições.
Questão que se torna importante: será que esperamos que o cientista e o artista antecipem o devir? Os modelos de interpretação servem como dispositivos antecipatórios dos sentidos?

Henri-Pierre Jeudy alude a outro evento-fenômeno, que serve como elemento de analogia. Em Copacabana, num domingo, presencia uma mise en scène de um charlatão, com capoeiristas, um charlatão-animador de espetáculo acrobático, no calçadão da orla da praia. O objetivo da apresentação atinge seu ponto alto ao preparar para o momento de pular sobre as cabeças de duas senhoras. O charlatão-animador pergunta: - vc está pronto? O acrobata-capoeirista diz: - Eu nasci pronto! Pronto para esse pulo! O desafio da figura da morte se destaca nesse contexto.
Para Jeudy há uma analogia interessante, nesse fato, com a construção teórica, pois se revela o signo da antecipação, de que tudo é possível... qualquer coisa pode acontecer; e ser incorporado a interpretação já dada, o sentido já produzido. Há um destino de antecipação: o acrobata já nasce pronto e o teórico antecipa modelos interpretativos.
Henri-Pierre Jeudy lembra Jean-Paul Sartre quando imaginava o uso do verbo ‘possibilizar’, um verbo que indicava para a idéia de que tudo é possível, ou melhor, fazer com que tudo seja possível.
Esse é o desafio: construir sentidos, produzir sentidos. Há uma catástrofe do sentido; o sentido irá nascer a partir de uma catástrofe. Qual a nossa capacidade de criar sentidos? Há uma parte esquecida de Lacan, que é preciso recuperar, aquela que trata do espelho e de suas fissuras, de suas rachaduras e falhas...
Outro aspecto a se reportar com fecundidade é a proposta modernista da Antropofagia brasileira. A relação do eu e do outro, iniciada com Montaigne, Rosseau e sintetizada na frase de Arthur Rimbaud: ‘Je suis un autre’. Assim como se manifesta também nos ‘Heterônimos’ de Fernando Pessoa; a questão da ambivalência e do desdobramento do corpo; do estranhamento e distanciamento – a questão da Alteridade – Eu/Outro, inaugurada por Arthur Rimbaud.
Dessa relação complexa que se reflete sobre o multiculturalismo; numa crítica que se faz necessária a esse novo modismo, a essa nova ideologia que se coaduna muito bem com a chamada globalização (Zizek). O multiculturalismo se insere na ordem dos modelos já estabelecidos de interpretação teórica das relações entre as pessoas, entre os grupos, entre as ‘culturas’... De novo aí volta o que Henri-Pierre designa como ‘Princípio de Reflexidade’.
Talvez um retorno ao lado esquecido de Jacques Lacan, seja um bom antídoto contra esses modelos pré-fixados: recolocar em cena a questão do espelho... Algo que se desdobra hoje na leitura que fez Guy Debord, sobre o espetáculo; mas dessa vez é bom que se ‘veja’ por dentro, que se considerem os papéis, as representações... Pois, é confortável estar no teatro, não é mesmo? Espelho, espetáculo, reflexo, corpo, Eu, interpretação; são pontos e tópicos importantes na reflexão sobre os Eus – Outros, que o multiculturalismo pretende resolver e mapear...
Henri-Pierre Jeudy faz referência a um outro fato ocorrido com ele, no Japão, que ilustra esses processo equivocados e irrefletidos do que seja o multiculturalismo, ou o interculturalismo. Numa certa ocasião estando em Tókio, sentado num banco de uma rua para pedestres, uma jovem senhora local, ao vê-lo sentado, com a barba grande – como é de seu feitio – observou a reação adversa da jovem senhora ao colocar seus olhos nele. Pareceu atônita, espantada, temerosa. Afinal, no Japão os homens não usam barbas com freqüência! Bem, esta jovem senhora demonstrando todo seu desconforto desconcertante, fez o possível para ultrapassá-lo e seguir bem ao longe, distante de sua presença. Depois de ter passado por ele, olhou para trás com um alívio marcante! Mobilizam-se os signos: Velhice – Barba – Medo... É preciso ir além disso, ir além das fronteiras, evitar demarcações fóbicas... A antropofagia, a mistura, o contágio, a interpenetração, talvez nos ajude a superar essas defesas...

Outro caso importante a se refletir é o relacionado a questão da memória, hoje tão em voga. Refletir de modo a considerar sua complexidade, sua plasticidade. Especialmente em relação a uma doença que tem apontado para importantes aspectos. Trata-se das relações da memória e o Mal de Alzheimer. É uma oportunidade excelente para ver os limites da normatização em que nós estamos inseridos. De que maneira nossas memórias estão submetidas a um princípio de normatividade impositivo e perigoso. Na ordem das normatividades, tudo deve estar ‘normalizado’, submetido à dispositivos. O corpo, a saúde, o pensar devem estar condicionados a dar respostas pré-estabelecidas por uma ordem performática encapsuladora. O ‘doente’ de Mal de Alzheimer deve responder as normatividades: que horas são? Que dia é hoje? Onde estamos?... Quando não se dá condições para que a expressão de seu processo de devaneio de suas memórias, que invariavelmente retornam, submergem ao mundo infantil, revivendo experiências numa outra ordem de registro, outra memórias a partir de re-elaborações do vivido... Não, a ordem normativa exige que nós estejamos submetidos a ‘normalidade’ e seus dispositivos condicionantes.

Já chegando no final de sua fala, Jeudy se pergunta: serão os teóricos e os artistas são antecipadores do sentido? Os que promovem uma perturbação nas instituições produtoras de sentido?
Perdoem-me se usei expressões desagradáveis do tipo ‘idiota’, ‘ridículo’, para me referir a atitudes como a do multiculturalismo, mas de fato estou sendo sincero. É preciso que nosso corpo seja percebido com certa estranheza, que não nos acostumemos a aceitar o sentido pré-estabelecido, que nós possamos nos espantar, sem temer, sem sentir ojeriza.
O caso da velhice, da barba, do estranho, apresenta as falhas numa imagem que se reflete no espelho, revelando os limites do eu normatizado. Talvez seja ainda importante considerar que sempre estamos fora e dentro dos sonhos, e que a precessão dos simulacros, seja uma antecipação – apontada por Baudrillard – de uma outra ordem. É no encontrar das estranhezas de nossos corpos que podemos estabelecer relações mais intensas; e a antropofagia brasileira é um interessante caminho nesse sentido...
Agradeço a audiência e atenção de todos...

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