16 agosto 2009

Raça e diversidade na era Obama

Orlando Patterson NYT BOOK REVIEW

O termo "hispânicos" nos remete a uma variada coleção de grupos étnicos.
Eles não são, e nunca serão, uma entidade única.

A vitória histórica de Barack Obama se tornou possível graças a duas grandes forças convergentes que começaram a causar impactos a partir da metade do século passado: a revolução dos direitos civis e as mudanças provocadas pela Lei de Imigração de 1965. O movimento dos direitos civis levou ao rápido desmantelamento das práticas Jim Crow e à inclusão dos negros americanos na política, no exército, na classe média e na cultura popular. A Lei de Imigração de 1965 colocou em ação um vasto conjunto de mudanças demográficas e sociais que alteraram a visão etnoracial dos EUA.
Atualmente, os imigrantes representam 12,6% do total da população americana (este é um valor ainda inferior à estimativa de 14,7%, alcançada em 1910, durante a primeira grande onda de migração). Um pouco mais de metade destes imigrantes são da América Latina e um quarto é, originalmente, da Ásia. Acima de tudo, as minorias constituem agora um pouco mais de um terço da população; em quatro estados, as minorias são a maioria: Havaí (75%), Novo México (58%), Califórnia (57%) e Texas (52%), bem como o Distrito de Columbia (68%). É muito fácil interpretar tudo isso da forma errada e acabar sensacionalizando essas alterações demográficas. Dessa maneira, a informação que nos é divulgada é que os latinos são agora o maior grupo étnico dos EUA, superando a população negra.
De certa forma, isso acaba tirando um pouco o foco dos americanos do histórico complicado das relações entre negros e brancos. Entretanto, o termo "hispânicos" nos remete a uma variada coleção de grupos étnicos. Eles não são, e nunca serão, uma entidade única. Independente do que a juíza Sonia Sotomayor tenha tentado dizer, uma sábia mulher de Nova York de descendência porto-riquenha tem uma visão de mundo profundamente diferente da visão de uma trabalhadora latina de uma fazenda no sul da Califórnia, e mais diferente ainda do que a de uma profissional bem sucedida, de descendência chilena, que more na Flórida. Ainda mais problemáticas são as reclamações periódicas, que declaram a transferência demográfica da chamada população branca não-hispânica. Samuel Huntington, em seu mal informado livro "Quem somos?", escreve: "A maciça imigração hispânica, ocorrida depois de 1965, poderia fazer com que a América ficasse cada vez mais dividida em termos linguísticos (inglês e espanhol) e culturais (cultura anglo e hispânica)." Huntington argumenta que é muito provável que o nativismo racial volte a imperar na sociedade.
A falsa invenção demográfica a respeito dos "brancos não-hispânicos" é, em parte, fonte de tais alertas infundados. A categoria sociológica mais significativa é a das pessoas que se definem como exclusivamente brancas, a qual, atualmente, chega a quase 80% da população, ainda apresentando indícios de crescimento, graças ao fato de que quase metade de todos os hispânicos agora se define como "totalmente brancos".
Até pouco tempo atrás, os cientistas sociais diziam que a adaptação dos imigrantes mais recentes aos EUA seria fundamentalmente diferente da dos imigrantes europeus que vieram no final do século XIX e no início do XX. Há pessoas que alegam que o fato de eles serem de diferentes "raças" os leva a entrar em uma América pós-industrial mais severa, tendo menos oportunidades de mobilidade, além do fato de a facilidade de comunicação e as viagens para suas terras natais acabarem desestimulando a integração. No entanto, estes argumentos deixam de lado o verdadeiro drama sociológico que está em evidência agora: a atual onda de imigrantes, juntamente com seus filhos, está se integrando rapidamente a uma cultura americana cada vez mais vibrante, em um ritmo mais veloz que o dos europeus, que chegaram durante a grande onda anterior. O pressuposto de que a atual onda deverá ter mais dificuldade de integração por ser formada por pessoas de diferentes "raças" se baseia em um equívoco. No momento de sua chegada, os judeus, os italianos e os outros europeus orientais e meridionais e mesmo os irlandeses católicos foram vistos por nativos brancos como pessoas que pertenciam a raças muito diferentes (e inferiores). Na verdade, não é que eles não tenham se adaptado porque fossem brancos: eles se tornaram "brancos" porque se integraram. À medida que a adaptação segue seu curso, estudos mostram que, independente da língua falada em casa, quase todos os filhos de imigrantes que chegaram ao país em períodos mais recentes usam o inglês como primeira língua, e são tão americanos em suas atitudes e comportamentos quanto os nativos homólogos. De fato, o trabalho final resultante da pesquisa de mais de 10 anos feita por Philip Kasinitz, John H. Mollenkopf, Mary C. Waters e Jennifer Holdaway, intitulado "Herdeiros da cidade: filhos de imigrantes chegam à maturidade", fala sobre as "vantagens da segunda geração." Os filhos dos imigrantes se deparam com a realidade dos pais, que, altamente motivados, trabalham duramente para vencer na vida, bem como com os desafios do ambiente americano, o que acaba contribuindo, efetivamente, para o sucesso deles. Há diferentes graus de sucesso e diferentes padrões de integração aos EUA, mas, como base de tudo isso, há uma poderosa "tendência principal": a surpreendentemente rápida americanização. A síntese autoritária do atual processo de adaptação é a obra de arte sociológica de Richard Alba e de Victor Nee, "Redefinindo a maioria da população americana". Esse trabalho mostra que, para aqueles que não são negros, é bem mais fácil se adaptar aos EUA. Não se trata de uma inserção passiva na estática elite anglo-protestante (que, de qualquer forma, sempre foi uma ficção sociológica), mas sim de um dinâmico e infinito processo cultural bidirecional. Os negros americanos são os únicos que não se encaixam neste processo de inclusão social. Há duas grandes razões para isso: a primeira delas está ligada à taxa de pobreza da população negra, que, alcançando quase 25% dos afro-descendentes, é três vezes maior que a taxa de pobreza que afeta os brancos, tal como aconteceu em 1970. Isso é resultado de uma trágica interação de forças socioeconômicas e culturais, analisados, de maneira sucinta, no elegante trabalho de William Julius Wilson, intitulado “Muito mais que uma questão racial: a realidade dos negros de baixa renda no centro da cidade”. Em seu relato que persiste em ressaltar a absurda desigualdade americana, intitulado “Desigualdade categórica: O sistema americano de estratificação”, o eminente sociólogo Douglas S. Massey afirma que os imigrantes negros e indígenas, assim como os mexicanos-americanos, se encontram no nível mais baixo de uma estrutura social enraizada no quase imutável preconceito de gênero, bem como no preconceito social, racial, e na discriminação disfarçada. Massey supera Huntington na profundidade do pessimismo com que escreve.
A análise feita por Massey é assustadoramente sensata até percebermos que ele está falando, em parte, sobre muitos indianos que têm prosperado nos EUA, para não mencionar Colin Powell, negro da segunda geração de imigrantes que quase chegou à Casa Branca. Sob essa perspectiva, algumas colocações pessimistas de Massey parecem irreais, embora, verdade seja dita, os indianos ocidentais obviamente não estejam sensíveis ao racismo disfarçado alfinetando sua ingenuidade. Isto é, exceto em ocasiões quando se rebelam mediante tanta indignação, gerando um número desproporcional de militantes negros da primeira e da segunda geração de imigrantes, como Marcus Garvey (Jamaica) e Stokely Carmichael (Trinidad). A crônica hipersegregação entre os negros está intimamente relacionada à elevada taxa de pobreza entre eles, e isso não acontece apenas entre a grande maioria dos negros pobres, mas também entre a classe trabalhadora e a classe média de negros. Um estudo exaustivamente documentado deste tema é conhecido sob o título de "Desigualdade Urbana: evidências de quatro cidades", editado por Alice Connor, Chris Tilly e Lawrence D. Bobo. No que tange à vida particular, podemos dizer que os negros se encontram tão distantes dos brancos hoje quanto estavam na época de Jim Crow. Seja qual for a razão seja pela persistência do racismo encoberto, pelas preferências dos negros acobertadas por políticas de identidade, ou ambos esse isolamento significa que o problema das relações étnico-raciais na América continua a ser, principalmente, uma questão entre brancos e negros. Tal como o exemplo de Henry Louis Gates Jr. demonstra, até mesmo os negros famosos de classe média ou de classe alta correm o risco de serem discriminados e de serem humilhados por policiais brancos, além de continuarem expostos a abusos de racismo explícito. Os EUA têm trabalhado com mais afinco e determinação do que qualquer outra nação de população majoritariamente branca a fim de enfrentar e corrigir os erros do seu passado racista. As questões cruciais que o país enfrenta agora são estas: Como é possível que os cidadãos brancos que idolatram negros no esporte, na música pop, nos programas de auditório, no Senado, no governo dos estados e, agora, até na presidência, continuem a evitá-los em seus bairros, escolas e vida privada? No que tange à insistente celebração da identidade racial que tanto defendem, em que medida podemos dizer que os próprios negros colaboram para seu isolamento social? E será que Barack Obama, que está dividido entre o mundo dos imigrantes de sucesso e o mundo dos defensores da identidade negra, será capaz de ampliar a inclusão dos afro-americanos? É ver e esperar.

Orlando Patterson é professor de sociologia em Harvard e autor de "O calvário da integração: progresso e ressentimento na crise racial da América.

Domingo, 16 de Agosto de 2009

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