20 setembro 2009

DANÇANDO COM O DIABO


Documentário mostra rotina do tráfico no Rio (08/09/2009)

´´Dançando com o Diabo´´ expõe a complexidade e contradições do universo de violência, do tráfico e da polícia, e a ação religiosa
O homem chega carregado à Assembleia de Deus Ministério da Restauração, em Senador Camará, zona oeste do Rio.
Olho inchado, as feições deformadas, perna com fratura exposta, está inconsciente de tanto apanhar de traficantes. ´´Era para ter tomado logo um [tiro de pistola] .40 na cara, vendeu pó royal em vez de pó [cocaína]. Demos um pau mesmo, era para ter morrido, tapear os outros é motivo de cerol, cortar todinho e sumir´´, diz para a câmera, de cara limpa, Juarez Mendes da Silva, o Aranha, 28, chefe do tráfico de um complexo com 15 favelas na zona oeste do Rio e 150 ´´funcionários´´ armados, ao custo mensal de R$ 94 mil. Foi ele quem determinou a surra.
Aranha tem tatuagens nos antebraços: em uma lê-se Jesus, na outra Cristo. Jura que pretende abandonar o tráfico para ficar com Jesus. Como controla tudo? ´´É Deus!´´ O documentário ´´Dançando com o Diabo´´ expõe a complexidade e contradições do universo de violência, do tráfico e da polícia, e a eventual libertação pela religião, em linhas tortas e tênues.
Foi o correspondente do jornal britânico ´´The Guardian´´ no Rio, Tom Phillips, quem conseguiu duas coisas improváveis para um inglês: a partir do pastor Dione (Johnny) Santos, ter acesso a traficantes das favelas do Rio, como jornalista, e convencê-los a mostrar o rosto a um cineasta estrangeiro, Jon Blair, sul-africano naturalizado britânico. O filme saiu por US$ 500 mil e será exibido no Festival do Rio neste mês.
Ao lado do fotógrafo e cinegrafista americano Douglas Engle -que já trabalhara no México e em El Salvador-, Phillips passou 18 meses visitando favelas da zona oeste e conquistando a confiança dos traficantes. Até que, há um ano, por 45 dias, uma equipe de seis pessoas teve acesso quase irrestrito às favelas da zona oeste.
Parte do sucesso, deve-se ao pastor Dione, ex-traficante que comanda a igreja, a quem Phillips conheceu em fevereiro de 2007. O pastor acolhe vítimas de espancamentos: em vez de matar, ´´dão um pau´´ e os mandam à igreja. ´´Pela lei da favela, tinha de morrer. Liguei para o traficante e ele liberou´´, conta.
O título do filme vem de uma frase do pastor, antes da conversão. ´´Ou eu danço com o Diabo ou caminho com Deus.´´ É nesse mundo cinzento, oscilante, que vivem os personagens. Outro é o inspetor da Polícia Civil Vinícius Torres, viciado em tiroteios. Notabilizou-se ao aparecer nos jornais baforando charuto, após a operação do Alemão, que resultou em 19 mortos, em 2007.
Histriônico, farda camuflada e chapéu, ele se apresenta. ´´Sou Torres Trovão, filho da tempestade, oriundo da tormenta, nascido para combater. A gente não quer confronto, mas quando estala o primeiro tiro, quer que nunca acabe. Tem essa coisa no sangue, não é genético, é espiritual.´´
Com seu método, o pastor Dione promoveu a paz entre traficantes de favelas rivais e circula no submundo, orando e pedindo o abandono dessa vida. Os produtores do filme dizem que a aparente segurança ´´garantida´´ pelos traficantes não eliminava a tensão permanente do ambiente que descrevem como ´´pesado´´.
Em uma visita, durante a invasão da favela do Rebu pela PM, Phillips teve de se abrigar sob uma mesa de sinuca. ´´Não tinha medo dele [Aranha], mas da situação. Andando de carro, pedi para ele não sair da favela, mas ele saiu. Depois, começou a dar cavalo-de-pau, não tinha medo de morrer. Ele dirigia a 100 km/h em vielas entre um muro e um posto. Disse que tinha família. Desci tremendo, e entornei uma cerveja. Eu chegava fritando em casa´´, diz Phillips. Aranha foi morto em março, pela PM.
Os produtores defendem o papel do pastor. ´´É por isso o nome do filme, ´´Dançando com o Diabo´: todo mundo se compromete um pouco. É complexo, nada é simples. A igreja evangélica é a única instituição que entra nesses lugares. O pastor faz bem em uma região onde não tem nada. Se não gostamos, por que não fazemos nada? Ele cumpre uma função importante, dá valor às pessoas, ajuda, faz´´, afirma Engle.

DANÇANDO COM O DIABO Direção: Jon Blair
Produção: Channel 4 e Canal Franco-Alemão Arte Duração: 1h44
# Autor: Raphael Gomide # Fonte: Folha de São Paulo

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