28 setembro 2009

O mal está em toda a parte

AGRESSIVIDADE, VIOLÊNCIA E CRUELDADE com faces diversas.

Delinquência em baixo, corrupção em cima, ou vice-versa. Criminalidade que se dissemina a céu aberto. Desigualdades, impunidades e o velho vício de levar vantagem em tudo – o mal impregna as nossas menores ações. Pode mudar a escala de grandeza do impacto, mas afeta e aterroriza a todos. Quebra os códigos de solidariedade, desorganiza os laços sociais, lança-nos a um penhasco de insegurança e medo, do qual somente nos livraremos com uma conjugação de esforços multidisciplinares.
É do diagnóstico sombrio e da luz de compreensão exibidos acima que trata a nova obra do psicanalista Joel Birman: Cadernos sobre o mal, um livraço que a editora Civilização Brasileira acaba de levar às livrarias.
É mais denso, profundo e útil do que a superficial apresentação deste colunista. Na definição de Birman, “a colaboração de um psicanalista para esse debate”. Mas não é preciso cadastrar-se na pasta dos sociólogos, filósofos, economistas, juristas ou cientistas políticos para ler e apreciar Cadernos sobre o mal.
Professor da UFRJ e da Uerj, articulista do JB e um dos mais respeitados acadêmicos do país, Birman dividiu seu novo livro em três cadernos. No primeiro, registra e analisa o discurso psicanalítico para a agressividade e a violência. No segundo, dedica-se à política e à prática da crueldade no exercício do poder. No terceiro, põe uma lente sobre os pequenos e grandes males brasileiros, combinando ensaios mais analíticos e breves artigos de natureza impressionista.
O leitor pode optar em dispensar os primeiros e optar pelo último, ignorar a teoria e avançar sobre os fait divers. Perderá, no entanto, uma boa oportunidade de ler sobre o tema da violência e do medo para além da horta impressionista que costuma brotar nas páginas de jornais e revistas. Um dos méritos de Birman é associar os temas do psiquismo aos da experiência comum e do espaço público. Mostra aí como existem apetites e pulsões diretamente em jogo.
Se é certo que o mal está em toda a parte, também é verdadeiro não se tratar exatamente de uma novidade, muito menos de uma preocupação analítica nova. Maquiavel, Hobbes, Montaigne ou, para desembarcar no século 20, Freud, Adorno, Lacan e Benjamin, entre muitos outros, já dissecaram a natureza da crueldade, da violência e da agressividade – incluase aí o próprio Joel Birman em outras obras sobre o mal-estar. Autor e objeto de análise, diga-se, fortemente ancorados na tese central sustentada por Freud em Mal-estar na civilização.
Publicado em 1930, o livro mostrava como a pulsão de morte seria a matéria-prima por excelência desse mal-estar. A civilização, dizia Freud, era promotora de infelicidade e sofrimento. A vida em sociedade se basearia na renúncia à liberdade e numa troca – graças ao controle e à repressão, garante-se a ordem e a segurança contra a agressividade da pulsão de morte. A repressão, porém, não seria suficientemente capaz de eliminar o que Freud classificou de “inclinação para a agressão” como característica do ser humano. Deu no que deu.
Em sua genealogia do mal-estar, Birman mostra que, de lá para cá, houve uma separação crescente entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, de modo que “a violência, a destruição e a autodestruição passaram a dominar fartamente a cena social da contemporaneidade”. Resultado: uma forma de subjetividade marcada pela passividade e pelo desalento. A isto se soma, no caso brasileiro, a insegurança ampla, geral e irrestrita nas grandes cidades.
Birman identifica o uso intencional e a manipulação do medo pelo poder público, por meio dos quais os governos propõem não a elaboração de novas políticas sociais, mas “a criação de medidas repressivas cada vez mais violentas e de exceção”.
“Perseguição” e “paranóia” estreitam ainda mais os limites que separam os espaços sagrados da vida e da morte. É o preço a pagar pela civilização? Para os céticos, sim. E ao ler alguns dos textos de Birman, como o longo ensaio sobre o Rio de Janeiro – símbolo do que o Brasil exibe de beleza e de medo – é possível questionar o paradoxo do tema: a genealogia desse mal-estar passa pela aceitação do preço civilizatório.
Neste ar sombrio só se respira a mera possibilidade de aplacar a asfixia do medo, da violência, da crueldade, do mal.

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

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