24 setembro 2009

O PASSADO TINHA UM FUTURO (II)

DIREITOS CULTURAIS DOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIA FÍSICA E O ACESSO AOS BENS CULTURAIS

A gravidade e a profundidade dessa questão ultrapassa, e muito, qualquer retórica preservacionista moderna. O século XX passou e os paradigmas canonizados resistem. Mas, deixemos o debate sobre pós-modernismo de lado, pelo menos no momento...
Qual seria, então, meu 'erro grave', relacionado ao tema em tela? Defender que a 'história da arquitetura' não esteja acima dos direitos das pessoas? Bem, posto dessa maneira, não sei mais o que 'errar' ou estar 'certo'... Na verdade, parece-me, a questão é filosófica; é o modo de se colocar diante do problema sugerido (a mirada), que nos distingue. Qual seria realmente o 'erro grave' subjacente aí? Na minha opinião seria a dificuldade de pensar que o passado tinha um futuro! O 'erro grave' é a crença de que no passado vivíam pessoas unidimensionais. Isto é, que as pessoas no passado não imaginavam o futuro, não esperavam melhorias e que não acreditavam que no futuro podería haver algo como elevadores, dispositivos, ferramentas, e mais, transformações, evoluções, mudanças... Essa visão de que o 'certo' é pensar o passado como se nele não tivessem vivido pessoas com sonhos e esperanças no futuro, que não imaginavam outros mundos possíveis: isso é que é surpreendente! Isso é excessivo! Excede qualquer razoabilidade! É preciso encontrar um equilíbirio dessas forças poderosas: 'entre o passado e o futuro'... Não é 'certo' fechar o passado como se nele não tivessem vivido pessoas com problemas físicos (sendo senhores donos dos sobrados e casarões hoje 'preservados', eram carregados nos braços de escravos), e manter esse 'discurso arquitetural' alienado ou isento das contradições da realidade social da época - e o que é pior, mantê-lo, como 'discurso' cenográfico colonial indefinidamente perpetuado. Não existe só 'história da arquitetura', mas sim história social de seres humanos em processo, em devir sócio-cultural. É excessivo essa fixação petrificada num cenário isento das contradições histórico-sociais, isento dos imaginários e dos desejos dos homens e mulheres que vivíam no passado! É um 'erro' que, felizmente, parece, começa a ser finalmente corrigido.

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