21 outubro 2009

Mestiços Barrocos - Os Inclassificáveis II - Dia do Mestiço, 27 de Junho


Vivemos um época curiosa! Em pleno processo de mundialização das relações humanas, encontramos diversos movimentos, ditos 'sociais' e 'étnicos', invocando as purezas, as autenticidades, as identidades, as raízes culturais: movimentos de retorno ao passado - típicos sintomas tardios de 'narcisismos das pequenas diferenças' (Freud). Trata-se de algo inquietante... O que é preservar 'identidades culturais, hoje?' Qual deve ser nossa postura 'antropológica' diante da crise da própria idéia de 'identidade'? Posições pseudo-teóricas do tipo 'etnogênese', 'emergência étnica', 'revivência étnica', são questões que merecem algum tipo de reflexão crítica, mais aprofundada - através de uma socioan-alise arqueológica que coloca em cheque a própria subjetividade de quem se coloca o 'desejo de preservar'. Talvez não seja o lugar, tão cruto, para expressar essas preocupações, com certa aparência de indagações ligeiras, postas num Blog; já que se trata de uma reflexão mais complexa. Mas, não é possível se esquivar de uma preocupação sincera, honesta e intelectualmente legítima: é preciso medir as consequências do que estão fazendo com a Etnologia e a Antropologia, tanto nas academias como nas universidades do país. Agora é moda defender particularismos e relativismos culturais contra os supostos absolutismos da razão despótica, autoritária, uniformizadora, padronizadora, etc. Ocorre que estamos entrando no inverso disso, isto é, no irracionalismo, na fragmentação cindida, na preguiça pseudo-letrada, na mediocridade fácil das posições relativizadoras - enfeitiçadas pela idéia da 'diferença santa e sacralizada'; isso é próprio de pessoas confusas e desorientadas - que não têm condição alguma de aspirar a qualquer reflexão mais autônoma e ou mais abrangente. Seguem o lema da Coca-Cola: "Seja diferente, beba coca-cola (como todo mundo)"! Hoje é suspeito pensar no campo epistêmico, na religação dos saberes, na complexidade, ou compreender a lógica cultural subjacente (aliás, sempre foi suspeito, mas agora assistimos reações fóbicas). As questões sobre a totalidade, o sistema, o processo, estão sendo estigmatizadas como típico pensamento de megalomaníacos: a exigência agora é pensar menor! Pensar tribal: no bairro, no gênero, na raça, na vila (100% Raíz!)... A charada já foi decifrada: é nova mercadoria do 'turismo étnico' ('Parques Étnicos')! Mas, isso também é preguiça, mesmo: não tem outro nome, não. Preguiça de professores e estudantes preferindo assistir passivamente a falência do pensamento, ao invés de se erguer moral e culturalmente sobre a mediocridade; escavando essas posturas consensuais pequenas e tacanhas. Teme-se as chamadas 'grandes narrativas', e prefere-se dizer que 'tudo é relativo': é uma forma de não se estudar as relações que subjazem as aparentes diferenças. As diferenças são cada vez mais superficiais, fabricadas, simuladas e falsas; fetichizadas de modo sem precedente. Os 1% de diferença, valem mais que os 99% de semelhanças! Lamentável situação: esforça-se para forjar 'diferenças' para evitar fobicamente as semelhanças! Por que tanta resistência e fobia contra a semelhança? Talvez isso se explique com alguma facilidade: os desafios ao pensamento são cada vez maiores e sempre se consegue um jeitinho de fugir das responsabilidades e ludibriar os outros, com sofismas e estratagemas, cada vez menos sutis. 'Pensar abala a estrutura de tudo', como dizia Dante Milano. E abalar as estruturas é tudo que as pessoas não querem: elas estão muito estressadas, estafadas, cansadas, exaustas... Preferem 'naturalizar', 'introjetar', tornar 'habitus'... Melhor é debochar de tudo, defensivamente: refúgio banal dos que não querem mais enfrentar o desafio do pensamento... Dizem: - Estudar demais, deixa a gente doido! Por isso, ignorar essas coisas pra lá! Como dizia a canção: 'Deixa isso pra lá, vem pra cá!'... Para esses 'pseudo-letrados apocalípticos': '- Tudo é Kaos! Não pense, goze!' Esse tipo de postura, que vemos sendo reproduzida por mestres e professores, é que tem chamado a nossa atenção. O elogio do conformismo e da indiferença, o elogio da ignorância, da mediocridade, e da insignificância, é assombroso. É como disse Zizek, é a expressão de 'nihilistas' e 'zumbis pós-modernos', que não querem mais saber de pesquisar e estudar. Ou quando o fazem, arrumam um jeito de isso não causar tanto desconforto (querem é a bolsa do CNPq)... A palavra 'zumbi', utilizada acima, pode sofrer, a qualquer momento, o ataque dos que a consideram um insulto a figura de 'Zumbi dos Palmares'! Será mais uma forma de fugir da questão e lançar mão das mais absurdas acusações, tão em voga hoje, de 'racismo', 'discriminação', etc. Esse é mais um exemplo dos que confundem e tomam a parte pelo todo. Retiram do campo semântico a palavra usada e aprisionam o sentido para atingir seus interesses político-raciais do momento. Assim, o mundo gira e observamos a fraqueza do pensamento proliferar. Um dos sintomas disso é o desaparecimento da questão da mestiçagem barroca em nosso continente e sociedade. A clivagem racial (negro-branco) aboliu e solapou do mapa sócio-cultural brasileiro 'os inclassificáveis' (cafusos, caboclos, caiçaras, morenos, etc.). Como poetizou Arnaldo Antunes: - que negro e branco, que nada! Somos inclassificáveis! Somos Barrocos, enfim! Mestiços Barrocos, e somos muito semelhantes, nossas diferenças são efêmeras, fugazes, fluídas... Chega da neurose das fixações identitárias! Basta de mediocridades e dessa 'culturazinha de merda', que estamos assistindo por aí! Vamos enfrentar o desafio de pensar grande, pensar o processo, pensar a vida...

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Dia do Mestiço - 27 de Junho

A data, 27 de junho, é uma referência aos 27 delegados eleitos durante a I Conferência Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ocorrida em Manaus, Amazonas, de 7 a 9 de abril de 2005, e também ao mês de junho, no qual, Helda de Sá uma mestiça cabocla amazonense, após sistemática oposição de militantes do movimento negro e indígena, cadastrou-se como a única delegada mestiça a participar da 1.ª CONAPIR - Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, ocorrida em Brasília, Distrito Federal, de 30 de junho a 2 de julho de 2005. O Dia do Mestiço foi feito data oficial do município de Manaus pela Lei n.º 934, de 6 de janeiro de 2006, sancionada pelo prefeito Serafim Corrêa e de autoria do vereador Williams Tatá e idealização do jornalista Assis Pinho, do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro (Nação Mestiça).
Em 21 de março de 2006, no Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, o governador Eduardo Braga sancionou a Lei n.º 3.044, de autoria do deputado Sabá Reis, com substitutivo do deputado Evilázio Nascimento e importante colaboração do deputado Belarmino Lins, tornando o Dia do Mestiço uma data oficial do Estado do Amazonas. O Dia do Mestiço objetiva homenagear todos aqueles que possuem mais de uma origem racial (mulatos, cafuzos e outros) e seu papel na formação da identidade nacional. Ocorre três dias após o Dia do Caboclo, o primeiro mestiço brasileiro. O Dia do Mestiço tem como patronos Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_do_Mesti%C3%A7o

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NAÇÃO MESTIÇA

Coloque de volta a opção mestiço no censo do ibge: ibge@ibge.gov.br 


Mestiçofobia - DENUNCIE A POLÍTICA DO GOVERNO BRASILEIRO CONTRA MESTIÇOS:
http://www.nacaomestica.org/hemero_060623_060706_noticia_do_amazonas_pt.htm

- Políticas Públicas de Eliminação da Identidade Mestiça e Sistemas Classificatórios de Cor, Raça e Etnia:
http://www.nacaomestica.org/audiencia_stf_pronunciamento_nm_acra.htm

- O racismo do governo petista:
http://www.nacaomestica.org/hemero_060623_060706_noticia_do_amazonas_pt.htm

- Kabengele Munanga e a “aberração mestiça”:
http://www.nacaomestica.org/la_kabengele_munanga_e_a_aberracao_mestica.htm

"A mestiçagem unifica os homens separados pelos mitos raciais. A mestiçagem reúne sociedades divididas pelas místicas raciais e grupos inimigos. A mestiçagem reorganiza nações comprometidas em sua unidade e em seus destinos democráticos pelas superstições sociais".

Gilberto Freyre

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