01 novembro 2009

GENÉTICA - Cada macaco no seu galho


Franklin Rumjanek
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

A sociedade parece não se cansar de discutir a questão das raças humanas e a adequação de criar normas legais em favor deste ou daquele grupo minoritário. Embora se mantenha em nível dormente durante o ano, o debate é sazonal e adquire mais vigor nessa época, quando, juntamente com a primavera, começam as inscrições para os concursos de admissão às várias universidades públicas do país.
No âmbito da discussão racial, talvez já tenham sido apresentados quase todos os argumentos genéticos enfatizando a dificuldade de definir raças humanas, sem que se tenha conseguido convencer os defensores das cotas para negros ou outras etnias de que tal critério seria mais que imperfeito. As ponderações resvalam nas couraças dos militantes que acreditam que a prática da justiça social se restringe à cor da pele.
Macaco, eu? Aparentemente, genética e política são imiscíveis. Não obstante, aqui vai mais um argumento. Talvez a origem do problema esteja no fato de que as pessoas não sabem quem são biologicamente e onde se encaixam na natureza. Podemos propor um teste. Perguntem a seus semelhantes, ou a si mesmos: consideramse macacos ou não? E, se a resposta for não, por que não? É oportuno lembrar que chamar alguém de macaco é uma ofensa comum em conflitos envolvendo etnias diferentes. Enfim, passado o assombro (ou ultraje) inicial diante da indagação, virá a constatação de que a resposta não é trivial.
Apenas aqueles mais familiarizados com a prática da classificação dos seres vivos se sentirão à vontade para refletir que humanos e grandes macacos pertencem à mesma ordem dos primatas, à mesma superfamília dos Hominoidea, à mesma família dos Hominidae e também à subfamília dos Homininae.
Só quando chegamos ao gênero surge uma divisão que nos distingue, com base em alguns detalhes anatômicos. Nesse nível, os humanos são Homo, os chimpanzés e bonobos são Pan e os gorilas são Gorilla. Para todos os efeitos, no entanto, não há nada muito contundente contra a ideia de que os humanos podem também ser colocados entre os grandes macacos.
Assim, é válido comentar que, se não é tão fácil distinguir humanos de grandes macacos, seria uma grande pretensão opinar com tanta certeza sobre a identificação de raças, uma subdivisão muito mais sutil – se é que existe – dentro da população humana.
Raças? Recentemente, o geneticista indiano Aravinda Chakravarti lançou uma ideia que poderia ser facilmente testada e que colocaria uma pá de cal no assunto. Ele publicou um ensaio, na edição de 22 de janeiro (p. 380) da revista científica Nature, sobre o tópico de vínculos familiares e relações raciais. Após discorrer sobre a diversidade genética existente entre os seres humanos, Chakravarti propôs que, para confirmar a existência ou não de raças, os geneticistas deveriam se concentrar não nas populações, mas nos indivíduos.
Os estudos mais conhecidos realizados até agora compararam populações. Para fazer isso, no entanto, os geneticistas acreditaram, a priori, que os indivíduos que compõem as populações são homogêneos e que as populações comparadas é que são suficientemente diferentes umas das outras.
O caminho mais revelador, na opinião de Chakravarti, deveria ser o oposto.
O pesquisador sugere selecionar aleatoriamente indivíduos e registrar vários aspectos de cada um, como local de nascimento, naturalidade de seus pais, língua e outras características culturais que os unissem a grupos variados. Nos mesmos indivíduos seriam identificadas também as marcas genéticas, exatamente como se faz para montar bancos de dados de populações que normalmente são usados em investigação de paternidade e de identidade.
Com esses dados nas mãos, seria então possível buscar elementos comuns que permitiriam agrupar os indivíduos em populações distintas. As “raças” emergiriam daí. Ou, o que é mais provável, não. Com os equipamentos de análise de genoma já disponíveis, bastaria curiosidade e, claro, vontade política para resolver a pendenga.

Leia mais na revista Ciência Hoje, edição de outubro

Domingo, 1 de Novembro de 2009

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