12 dezembro 2009

12 ANOS DE PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE: SÃO LUÍS/MA


Por ocasião das comemorações dos 12 anos de inscrição do Centro Antigo de São Luís na Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO), parece justo elaborar algumas breves reflexões sobre o valor dessa data. O Patrimônio Histórico e Cultural da cidade já recebeu diversas intervenções de engenharia e arquitetura com gastos vultosos, num lugar em que esses investimentos só têm beneficiado economicamente poucas pessoas e grupos (especialmente estrangeiros e proprietários dos imóveis). É lógico que se poderia dizer que as pessoas e grupos que freqüentam o local também são beneficiários, mas convenhamos só nos tratam como consumidores e não como cidadãos – aliás, raras vezes se vai ao Centro ‘Histórico’ (Projeto Reviver), para a admiração ou contemplação de algum bem cultural ou artístico, que são raríssimos e precários; comumente se vai para beber, comer, passear e namorar... o que se faz na medida do possível. Todavia, permanecem perguntas difíceis de responder, por exemplo: por que há tanta aceitação e consenso nessas práticas de ‘preservação’? Por que todo mundo concorda com essas práticas de patrimonialização vigentes? Que consenso é esse, qual a sua natureza sociológica? Esses questionamentos devem ser feitos sem qualquer juízo de valor, isto é, não se trata de a priori considerar certo ou errado, positivo ou negativo, mas, de interrogar, problematizar – o que também é um direito de cidadania. Assim, continuamos a refletir e a indagar: como se adquiriu tanta legitimidade, tanta unanimidade nessas práticas e discursos? Não há uma voz sequer que questione isso? Como pode toda contestação marginalizar-se e os contrários e os opostos desapareceram de cena? Como se conseguiu isso, quais os custos e benefícios disso? Onde são aprovados esses projetos de intervenção urbana?
Evidentemente que todo esse processo está sujeito a intercessão de diferentes representatividades e significações; acerca do valor cultural e histórico dessas intervenções de engenharia e arquitetura (urbanismo). Mas, pergunta-se: e a critica à política de Revitalização dos Centros Antigos ‘Históricos’ em nosso país, o que aconteceu com ela? Algum dia houve? Sabemos que hoje existe uma poderosa indústria por trás desse consenso todo: o turismo. E a hipótese mais certa é que essa máquina se move pela força da ‘Ideologia do Desenvolvimento’ – promessa requentada a todo ano pelos empreiteiros, empresários e industriais do país: o ‘turismo’ será a redenção econômica do Nordeste e dos pobres desse país...
Mas, afinal qual a representatividade, ou legitimidade, desses processos de patrimonialização na sociedade atual? Por que a figura do ‘Patrimônio Cultural’ justifica-se plena e unanimemente através desses tipos de intervenções e ‘enobrecimentos’ para o consumo das novas classes médias? Só a ‘turistificação’ é a resposta? Por que se aceita com tanta facilidade o esquecimento do ‘humano’ e do ‘imaterial’ nesses empreendimentos? Por que tanta fixação nos cenários físicos? Algumas vezes aparece, acolá, um projeto de ‘bem cultural imaterial’, mais, ali, um ‘Centro Cultural’, mais, aqui, um ‘Museu’ de alguma coisa, mas, todos já sabem, são apenas mais um álibi, nada mais...
Parece-nos, ao contrário, que um ‘Olhar Sociológico’ – que provoca tanta resistência – pode potencializar uma abordagem verdadeiramente crítica. É uma esperança de podermos enfim perscrutar as contradições desse processo. Porém, trata-se de uma questão metodológica geralmente esquecida e ocultada, até mesmo nas Universidades; e certamente isso é devido a força poderosa dos consensos (afinal os acadêmicos também querem a sua ‘mais-valia’). Assim, dissemina-se o seguinte: pouco se ‘ouve’, efetivamente, os discursos dos agentes públicos e privados, e pouco se ‘vê’, efetivamente, o que realmente fazem: carecemos de uma sócio-análise profunda.
Então, parece certo, o núcleo problematizador e orientador de nossas pesquisas deveria ser: como são legitimadas essas práticas sociais de patrimonialização na atualidade? Como se formam esses consensos e unanimidades? Como esses enunciados foram potencializados de tal forma que hoje já não sofrem qualquer crítica ou avaliação relativizadora? Para os pesquisadores e estudantes: é preciso fazê-los ‘ver’ e ‘ouvir’ essas ‘unidades discursivas’; mostrar-lhes que essas 'estruturas significativas' podem ser isoladas, e aí, sim, se tomar uma perspectiva crítica em relação a essas práticas discursivas dominantes. Como se sabe, o consumo para a classe média tende a se intensificar - de modo sem precedentes na sociedade brasileira - tornando-se esse ‘objeto sociológico’, objeto privilegiado de estudo para os que querem refletir e pensar com os ‘olhos livres’. É um fato sociológico importante estudar hoje o ‘turismo cultural’ e a indústria que tem transformado toda a cultura em mercadoria valiosa e cobiçada. Mas isso não deve ser tratado e analisado apenas pelos 'economistas da cultura'. É preciso formar estudantes e pesquisadores livres para que possam investigar e pesquisar livremente, sobre o poder do agenciamento da cultura e do patrimônio - processo que vai ser inaugurado logo, e intensificado, com os trabalhos de promoção econômica e política (engenharia cultural e política) para a realização da Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas em 2016. É preciso formar estudantes e pesquisadores que possam, através de uma arqueologia, e/ou genealogia, sensível e crítica, avaliar as práticas e discursos (enunciados) em nome da conservação, preservação e promoção cultural em nosso país. Trabalho que é imprescindível e urgente: trata-se de uma verdadeira sociologia da emergência cultural!

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