25 fevereiro 2010

65 anos sem Mario de Andrade

25 de fevereiro de 2010 marca 65 anos sem Mario de Andrade. O poeta, musicólogo e escritor nasceu em São Paulo e construiu praticamente toda a sua vida na metrópole. O escritor Mario Raul de Morais Andrade foi considerado unanimidade nacional e reconhecido por críticos como o mais importante intelectual brasileiro do século XX. Mário de Andrade liderou o movimento modernista no Brasil e produziu um grande impacto na renovação literária e artística do país, participando ativamente da Semana de Arte Moderna de 22.




Poema

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.


O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.

Adeus.

Fonte: IG.com
* * *

Patrimônio Cultural

Carta de Mário de Andrade a Rodrigo Mello Franco de Andrade, 01/11/1937

"S.Paulo, 1-XI-37.
Rodrigo,
na quinta-feira de noite, me aconteceu esse mal terrível que é botar um chapéu em cima da cama, vai daí, tudo me tem corrido tão mal estes dias, que estou positivamente desesperado, com medo até de mover o braço. Você não reparou? Até principiei esta carta com o lado encarnado da fita, ora pinhões! Estou chegandinho da Bertioga, e estou envolvido em talco pra ver se me seco de três dias e meio da maior umidade, vivi n'água.
Mas vamos por partes pra demonstrar bem a caguira. Na quinta já o Paulo Duarte me fez escrever aquela carta que lhe mandei expressa na sexta. Não repare, o Paulo é meio estouvado mas é ótimo sujeito, amigo às direitas. Eu já tinha dado para ele, dado, todas as referências que você me mandou sobre decretos e outras coisas já do passado a respeito da defesa de monumentos históricos. Mas desconfio que perdeu e vai me obrigou a lhe escrever aquela carta, o que não fiz sem uma certa vergonhinha, apesar de sermos bons camaradas. Em qualquer caso desculpe.
Na sexta de manhã partimos já atrasados em busca da Bertioga, o automóvel cedido gentilmente pra estas pesquisas do Paulo pela Ford demorou, o meu, cedido pela Prefeitura estava na hora certa, mas partimos só depois do almoço. Em Santos, o companheiro de lá que ia conosco demorou, mas isso não era nada: a lancha que devia ficar à nossa disposição até amanhã, tinha de voltar no mesmo dia, por obrigações imprescindíveis surgidas de repente. Mas o Paulo deu o estrilo e depois de várias démarches conseguimos que a lancha ficasse até domingo de tarde.
Principiou chovendo. Chegamos na Bertioga quase tempestade e isso às 19 horas. Não pretendíamos absolutamente ficar lá, mas no Indaiá, 14 quilômetros de praia, mas com o mau tempo, e mesmo sem ele, era impossível ir. O transporte único do local são dois caminhões. Um estava escangalhado e o outro estava no Indaiá, 14 quilômetros, e lá pernoitaria esperando os lances de rede da manhã seguinte. As duas pensões não tinham mais quartos, com veranistas. Afinal fomos dormir numa casa de taipa dum tabaréu que nem iluminação de vela tinha, mordemos um presunto e uma pescada amarela de escabeche que levávamos, e passamos uma noite com sede, porque na Bertioga não havia água mineral, só perfumarias, guaranás e coisas que embebedam. Noite de água, manhã de água, inda fomos assim mesmo ver o forte da Bertioga que está com uma das paredes rachadas ameaçando ruir a vigia que dá pro mar alto. Meu maior interesse era ver, do outro lado do canal, a tal de construção de pedra formidável que o Luiz Saia pretendia ter descoberto. Mas era impossível. Preferimos partir pro Indaiá, com o caminhão posto às nossas ordens o dia inteiro, e voltar a qualquer estiada. Estiada nenhuma. E na casa que foi do grande poeta Vicente de Carvalho, umas dezoito camas, casa ótima de madeira, até instalações sanitárias, quando fomos ver, 18 camas, os colchões mexiam com rumorzinho sinistro, percevejo, nunca vi tanto percevejo na minha vida, isto é, só uma vez vi cinco, e isso foi em 1917 em Mariana e por causa deles dormi em pé; e outra vez, num carro da Central vi um, e por causa dele dei tal escândalo que o trem quase parou. Agora, não eram dezenas, eram centenas de percevejos, de dia, de dia claro, ou escurecido pela chuvarada, por cima, por baixo dos colchões, e eram 18 colchões. E a Bertioga estava a 14 quilômetros. E os únicos quartos sobrantes, os em que tínhamos dormido a noite anterior, já estavam cedidos pra outros que chegavam pra descansar estes dias na Bertioga. A infinita paciência de Juanita, a mulher do Paulo Duarte, conseguiu roer a cerberice do caseiro, que resolveu abrir o quarto do atual proprietário do Indaiá. Descobriu-se nesse quarto, uma cama pra casados, e um colchão e cama novos pra solteiro. Este colchão e cama foram conduzidos pra um quarto de frente, depois deste limpo a dez litros de flit com mentira e tudo. O resto da companheirada dormiu nos outros quartos, isto é, nos percevejos. Chovia. Não se pôde voltar à Bertioga ver nada. Passei a noite acordado, sem um só percevejo que eu saiba, mas pensando neles. Na manhã seguinte chovia, ontem.
Nós todos pensando por dentro que o milhor era voltar, mas como cada qual aparentava bem-estar por causa dos outros, ninguém não sentia coragem de propor a volta. Mas isso eram dez horas da manhã, chovia, a frase como que arrebentou da boca de todos, 'Vamos embora pra S.Paulo'! Chovia. Mas o caminhão estava do outro lado, 14 quilômetros, na Bertioga, onde fora levar o resultado dos últimos lances de rede. Aliás mesmo que estivesse ali, a lancha pra Santos só partia às 15 horas. Presunto, pescada amarela de escabeche, caminhão que vinha chegando, e lá voltamos com malária, raiva e chuva pra Bertioga. Mas quando chegou neste momento eu estava completamente bêbado. Bêbado de raiva, embebedado de propósito por causa do tempo e dos contratempos. Mas havia de atravessar o canal. Tratamos um tabaréu mais suas canoas, e lá fomos ver a tal ruína, de mapa do Luiz Saia em Punho. De repente o tabaréu deu uma deixa e dei um murro na testa bêbada, era por força o convento de S.João, não podia ser outra coisa, de que o relatório diz apenas fronteiro a Bertioga e séc. XVII. É uma construção verdadeiramente espantosa, seu Rodrigo, tudo ruína é verdade, ruína quase informe, mas são cem metros quadrados de morro trabalhado em pedra, tudo construções de pedra, e provavelmente mesmo, as aparelhadas, vindas de Portugal. Só consegui fazer a identificação depois de muitas e das mais disparatadas versões e imaginações, você bem pode imaginar. Parece, por informações que recebi, que ainda se conseguirá descobrir o orago da igreja, todinha de pedra e ruída, apenas com o arco da capela-mor íntegro. A cruz de pedra, da frontaria dessa igreja, sete pedras, está no museu do Ipiranga. E se trata, ao que parece, duma das construções mais ingentes que tivemos. E tudo é ruína disforme... Fui beber pinga. Não sei mais, os sentimentos estavam muito nublados e úmidos, não sei bem se bebi por causa do tempo ou por causa da ruína. Eram 15 horas, lancha partia. Mas então já todos estavam mais ou menos contagiados por mim, e numa das paradas da lancha quisemos comprar uma garrafa de cachaça boa, o homem deu ela! Deu dado!
Chegamos em Santos, com os olhos de ontem, bêbados. Partir pra S.Paulo quem que tivesse a coragem pra! O seu Arantes nos deu pousada, e, pra abreviar, depois duma série de mais dezoito contratempos, apesar de todas as providências, telefonemas, automóvel garantido pra volta, eram onze e trinta da manhã de hoje, nós esperando automóvel desde oito e trinta, recebemos telefonema de S.Paulo, que daí a alguns dez minutos partiria de S.Paulo o automóvel que nos iria buscar! Eu tinha tomado banho anteontem de-noite e estava com barba por fazer, guardando a felicidade pra esta minha casa da rua Lopes Chaves, não pude mais, estourei, disse inconveniências, passei a mão no telefone, tratei um V-8, seis minutos depois o automóvel estava na porta, eu partia sem agradecer nada, com cara de zangado, gritava pro chofer, 'Mais depressa". Ele foi multado pouco antes de sair de Santos, ficou puto da vida, o que foi bom porque tocou inda mais depressa eu sem almoçar nem nada, mas hora e dez depois da multa estava na rua Lopes Chaves, deixando mala, roupa, tudo em baixo, não fosse algum percevejo estar escondido por ali, me lavei, barbeei, pus um quilo de talco pra acabar com a umidade do ser, comi um bife a cavalo e chá perfeito. E lhe escrevo dando conta da excursão mais gorada que nunca fiz na minha vida.
Recebi os jornais, os mapas, tudo. Mil vezes obrigado. De certo é o fim da urucubaca. Em todo caso vou botar umas folhinhas de arruda pelos bolsos e invocar Mestre Carlos que foi quem me fechou o corpo lá em Natal, diante do forte dos Reis Magos.
Ciao com abraço.
Mário.
não reli."

Fonte: ANDRADE, Mário de. Mário de Andrade - cartas de trabalho: correspondência com Rodrigo Mello Franco de Andrade (1936-1945). Brasília: Ministério da Educação e Cultura, Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Fundação Nacional Pró-Memória, 1981. (Publicações da SPHAN, 33). p.107-109.
* * *

PRINCIPIOS DE POLÍTICA CULTURAL EM MÁRIO DE ANDRADE


Não é só expor (...) mas agir.

Carta de Mário de Andrade à Rodrigo de Mello Franco, 29/7/1936.


As propostas de Mário de Andrade foram pioneiras em vários pontos e aspectos. O importante para nós atualmente é que a retomada de suas idéias evitam principalmente os usos pejorativos e colonialistas, assim como o preservacionismo nostálgico, debatidos anteriormente. As propostas andradianas originais são um excelente antídoto contra a inércia burocrática.
Desse modo, pretendo recuperar alguns tópicos da obra desse grande escritor paulista enfatizando sua importância e atualidade. O resgate deste autor e seus trabalhos precursores[1] vem sendo feito desde o final da década de setenta, principalmente por Aloísio Magalhães, servindo de fonte inspiradora para sua atuação frente ao CNRC e ao IPHAN/Pró-memória (Magalhães;1997).
Apesar da relutância de alguns, vivemos uma retomada das idéias originais desse pensador modernista. Um homem que atuou de modo apaixonado no incipiente campo do serviço do patrimônio na década de trinta e quarenta no Brasil.
Parece evidente a importância do pioneirismo das atividades de Mário de Andrade junto ao Departamento de Cultura do Município de São Paulo. Destaco, entre elas, a Sociedade de Etnografia e Folclore (1934-8), na qual registra-se o curso de Etnografia e Folclore, ministrado pelo casal Dinah e Claude Lévi-Strauss, recém chegados da França, contratados pela USP.
Em 1938, organizou-se a Missão das Pesquisas Folclóricas com Luiz Saia, Martin Braunwiser, Benedicto Pacheco e Antonio Ladeira, percorrendo diversas cidades do Norte e Nordeste do país. O resultado da missão foi uma coleção enorme de esculturas, fotografias, documentos, filmes e desenhos[2].
Suas práticas inovaram contribuindo para o desenvolvimento definitivo da noção de patrimônio no país. A maioria sabe das repercussões que tiveram suas idéias e ações. Mário de Andrade é um nome que se impõe no centro do debate sobre o que é e o que não é etnográfico na sociedade brasileira. Entre outros feitos formulou uma série de diretrizes que, infelizmente, não foram incluídas por completo no Decreto-Lei n° 25/37[3].
O ante-projeto de 1936 – intitulado originalmente de SPAN (Serviço do Patrimônio Artístico Nacional) – merece ser retomado como objeto de uma reflexão mais profunda. Pois não se trata, como muitos acreditam, de um documento romântico ou utópico fruto de uma mente artística e sonhadora.
Para além disso, Mário de Andrade desenvolveu uma concepção particular do que seria um Museu ou um Patrimônio Etnográfico brasileiro. Grosso modo, sua proposta era que os bens artísticos nacionais (semióforos) passassem a integrar acervos dos museus correspondentes aos volumes do Livro do Tombo, nos quais foram inscritos os bens e acervos catalogados[4].
Ver-se-á mais a frente no texto que a própria noção de arte[5], usada por este autor, tende a ser mais interessante que a própria noção de cultura hoje dominante no meio acadêmico; difundida sob influência da antropologia e da etnologia.
Devido a diferentes razões históricas as pesquisas contemporâneas sobre o tema do patrimônio passam ao largo dos temas centrais apontadas pelo escritor e musicólogo. Um retorno às suas posições originais parece ser necessário para qualquer investigação sobre o tema.

Noção de arte para Mário de Andrade

Da década de 1930 aos anos de 1960 predominava no SPHAN uma visão arquitetural na qual a história da arte e a história da arquitetura organizavam as inscrições dos bens nos livros do Tombo.
No entanto, Mário de Andrade propunha algo diferente colocando a categoria da arte, e não a de arquitetura, como organizadora do saber patrimonial. Mas sua posição não prevaleceu. Para ele a arte[6] deveria ser tomada como conceito central, sendo definida especialmente desta forma:

Arte é uma palavra geral, que neste seu sentido geral significa a habilidade com que o engenho humano se utiliza da ciência, das coisas e dos fatos (Ante-projeto, 1936).

Este trecho não foi incluído no decreto-lei n.25/37 aprovado no Congresso Nacional no período do Estado Novo. Tentou-se naquela situação ajustar um aparato jurídico possível para aprovação e sanção de Getúlio Vargas.
As idéias contidas no ante-projeto são bem mais refinadas, complexas e inovadoras. O documento sugerido pelo jurista Rodrigo de Mello Franco foi um documento possível naquele momento, fazendo concessões em relação aos interesses públicos e ao direito à propriedade privada dos bens imóveis.
Desse modo, temos de um lado a arquitetura que é tomada como categoria organizadora das ações patrimoniais desde a fundação do SPHAN, de outro lado tem-se a categoria arte. Para Mário de Andrade, o patrimônio artístico nacional é apreendido enquanto arte-ação e só como tal merece ser avaliado[7]. De acordo com isso, um bem devia ser tombado enquanto arte arqueológica, arte histórica, arte popular etc.
O choque entre as posições andradianas e as dominantes na área da preservação torna-se mais forte quando a própria noção de patrimônio cultural começa a entrar em deriva. Observa-se então que quando aparecem os chamados “novos patrimônios” na década de oitenta, o antigo aparato conceptual ligado à arquitetura, desmorona completamente. Já não é possível pensar exclusivamente no valor arquitetural dos bens, pois não é mais a história da arquitetura que vai dar o eixo do sentido para o histórico e o artístico no patrimônio. Creio que a noção de “arte como engenho humano” ultrapassa a História da Arquitetura e das Belas Artes. Saliente-se o fato de até hoje o Livro do Tombo da Artes Aplicadas, ainda pouco entendido, com raríssimas inscrições.
Entretanto, novos ventos sopraram com Aloísio Magalhães que, nos anos de 1975 até 1982, conseguiu unir o CNRC, Pró-Memória e o IPHAN fundamentando sua prática na idéia de bens culturais. Todavia, esta noção ainda carrega dificuldades importantes, pois, para Magalhães o debate que hoje gira em torno da globalização, por exemplo, deveria estar ligado diretamente a questão da identidade cultural brasileira[8]. Para ele o fato do Brasil ser um país jovem não tendo uma cultura consolidada, como os países mais velhos da Europa, cria peculiaridades nacionais. É esta: “juventude que predispõe nossa cultura muito mais à mudança do que à permanência. Muito mais à invenção do que à preservação” (Magalhães;1997:8).
Observa-se um fluxo que passa da idéia de juventude para a da inventividade, do velho passado colonial barroco devemos agora vislumbrar o futuro, o porvir da criatividade brasileira. Aloísio Magalhães como designer e artista plástico atuante está preocupado não com um passadismo elitista, mas com a originalidade do signo, do traço brasileiro.
A maneira de encarar esses problemas denuncia um certo culturalismo, quando se está preso a busca pelas particularidades e singularidades em cada país. Porém, estas propostas anunciaram fecundas mudanças na política cultural patrimonialista no Brasil, prenunciando novas vertentes.
Não obstante às novidades surgidas a partir da atuação de Aloísio Magalhães, após sua morte parece que tudo se ajeitou novamente em torno dos velhos conceitos. Assim, sugiro que uma retomada da noção de arte proposta por Mário de Andrade pode vir a ser mais eficaz, desenvolvendo a noção de bens culturais utilizada por Magalhães. A soma destas duas perspectivas pode trazer novos frutos.
É lógico que isso só pode ser implementado a partir da superação do viés eurocêntrico da história da arte e da arquitetura – que tem que ser descentrado, ou deslocado, para se incorporar novas formas de expressão artística, social, cultural atualmente em processo na sociedade civil brasileira. Isso é de suma importância já que a maioria das ações políticas organizadas na área do patrimônio foram executadas em períodos autoritários, chegou a hora da verdadeira cidadania cultural civil.
Acontecimentos e eventos culturais que expressam e manifestam estas mudanças de paradigmas não são poucos: a emblemática Semana de Arte de 1922, o Tropicalismo nos anos sessenta, o Cinema Novo, a Bossa Nova, o movimento das Escolas de Samba, etc., todos manifestaram  surtos descontínuos de criatividade. É preciso agora uma atuação mais constante e que absorva o dinamismo social.
A partir do momento que se incorporam os valores das etnias e dos grupos de imigrantes constituintes de nossa história social valoriza-se os bens culturais fora do eixo central da história da arte e da arquitetura européias ou nacionais.
            As dificuldades atuais de organizar as categorias patrimoniais em função dos novos valores e das novas referências culturais tornam necessárias novas atitudes e, por conseguinte, uma atualização histórica de novas ações prospectivas.
Todavia, constata-se que ao invés de se retornar às propostas de Mário de Andrade, ou mesmo seguir as idéias renovadoras de Aloísio Magalhães, assistimos a incorporação simplificadora da noção de cultura emprestada das correntes comportamentalistas e positivistas da antropologia ocidental. Do eixo dominado pelo histórico arquitetural passamos para o viés culturalista, expresso no conceito de “cultura” que hoje possui uma infinidade de definições. De repente, difundiu-se a idéia simplista de um patrimônio cultural e natural que ultrapassaria as idéias de monumento e patrimônio histórico.
O que proponho nesta tese é um retorno mais efetivo ao conceito utilizado por Mário de Andrade. É certo que o conceito de patrimônio cultural é um grande avanço no sentido de uma abrangência menos reducionista. No entanto, devido aos problemas que se colocam perante sua imprecisão convém retornar àquelas idéias originais andradianas e re-integrar a questão do meio ambiente e da natureza. Nessa integração torna-se importante também a discussão da cidadania cultural.

Trecho do Livro:

CORRÊA, Alexandre Fernandes. PATRIMÔNIOS BIOCULTURAIS: Ensaios de antropologia da memória social e do patrimônio cultural. São Luís: EDUFMA/Coleção Humanidades. 2008


[1] “O aspecto antecipatório da proposta de Mário de Andrade surge também em destaque quando se pensa em outros fenômenos culturais que adotaram a palavra ação como emblema. A referência imediata, embora não de todo ligada ao contexto imaginado pelo autor de Macunaíma, é a action painting de Jackson Pollock (1912-56), que em 1947 – portanto três anos depois de Mário – abandonou o uso de pincéis e passou a pingar sobre  uma tela diretamente a partir dos tubos, espalhando-a com as mãos e os pés (...). Pollock dizia que sua pintura era ‘direta’ e antes expressava seus sentimentos do que ilustrava. Mário de Andrade, apesar da dose de profecia passadista contida nesta afirmação, sem dúvida teria dito que era exatamente isso que ele desejava para a arte brasileira” (Coelho;1999:53).
[2] No ano 2000 este acervo foi aberto à exposição pública, após ficar décadas guardado no Centro Cultural São Paulo (CCSP).  Uma boa filmografia desta expedição encontra-se preservada e, recentemente, foi transmitida pela rede de televisão Cultura sob o título “A Missão de Pesquisas Folclóricas (1938)”.
[3] Rodrigo de Mello F. de Andrade, incumbiu Mário de Andrade da tarefa de apresentar um ante-projeto de criação de um serviço de patrimônio no Brasil.. Algumas linhas básicas desse texto nunca foram aplicadas.

[4] Sobre os 4 Livros do Tombo e os Museus correspondentes, ver final da citação 30 mais à frente.
[5] O conceito de arte-ação, exposto por Mário de Andrade, aponta nesse sentido ao recusar a “arte gratuita”, a arte que tem a “preocupação exclusiva com a beleza” (Coelho;1999:46).
[6]  Ver O Banquete, livro inacabado, redigido entre 1944 e 1945, por Mário de Andrade, no qual fala numa arte-ação para a qual prevê princípios.

[7] Vê-se que ao ligar a arte-ação ao princípio da utilidade, Mário de Andrade propôs um programa de ação para a arte e para o artista brasileiro que pretendesse comunicar-se com o público e firmar-se no cenário internacional.
[8] Numa época dita de globalização, em que predominam os fenômenos de extrema mobilidade de tudo e todos (produtos e pessoas, indivíduos isolados e grupos inteiros), geradores, entre outras, da desterritorialização, o próprio conceito de identidade entra em crise.



* * *
Textos de Mário de Andrade fazendo referência aos problemas da Cidade e do Urbano.

1- Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio
de Janeiro: Villa Rica, 1993.
2- A Lição do Gura (Cartas de Mário de Andrade a Guilherme Figueiredo -
1937/1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.
3- COLI, Gorge e DANTAS, Luiz Carlos da Silva. "Sobre o Banquete". In;
ANDRADE, Mário de. "O Banquete". São Paulo: Duas Cidades, 1977.
4- ANDRADE, Mário de. "Crítica do gregoriano". In:- "Música, Doce Música".
São Paulo: Martins, 1963.
5- _________________. O turista Aprendiz. São Paulo: Duas Cidades, 1976.
6__________________. Entrevistas e Depoimentos. São Paulo: T.A. Queiroz,
1983.
7__________________. Táxi e Crônicas no Diário Nacional. São Paulo: Duas
Cidades, 1976
8- _________________. Macunaíma: o Herói sem nenhum Caráter. Várias edições.
9- _________________, "Guaxinim do Banhado". In: - Os Filhos da Candinha.
São Paulo: Martins: 1976.

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