24 fevereiro 2010

Bourdieu: Algumas Propriedades Gerais dos Campos de Produção Cultural

Reflexividade e Ingenuidade

"A evolução do campo de produção cultural em direcção a uma maior autonomia é assim acompanhada pelo movimento tendente a uma maior reflexividade, que leva cada um dos 'géneros' a uma espécia de reviravolta crítica sobre si próprio, sobre o seu próprio princípio, os seus próprios pressupostos (...) Com efeito, à medida que o campo se fecha sobre si mesmo, o domínio prático das aquisições específicas de toda a história do género objectivadas nas obras passadas e registadas, codificadas, canonizadas por um corpo completo de profissionais da conservação e da celebração, historiadores de arte e da literatura, exegetas, analistas, faz parte das condições de entrada no campo da produção restrita. A história do campo é realmente irraversível: e os produtos desta história relativamente autónoma apresentam uma certa forma de cumulatividade. (...)

O caso das Ciências Sociais

Paradoxalmente, a comunicação entre os profissionais e os profanos nunca é sem dúvida tão difícil como no caso das ciências sociais, onde a barreira da entrada é socialmente menos visível: a ignorância da problemática específica que historicamente se constituiu no campo e por referência à qual as soluções propostas pelo especialista ganham sentido conduz a tratar as análises científicas como respostas a questões do senso comum, a interrogações práticas, éticas ou políticas, quer dizer, como opiniões, 'ataques' na maior parte dos casos (em razão do efeito de desvelamento que produzem). Esta alodoxia estrutural é encorajada pelo facto de encontrarmos sempre, no interior do próprio campo, 'ingenuos' ou naifs (mas não necessariamente inocentes), que, à falta de possuírem os meios teóricos e técnicos de dominar a problemática em vigor, importam para o campo problemas sociais em bruto, sem os fazerem sofrer a transmutação necessária para a sua constituição enquanto problemas sociológios, conferindo uma ratificação aparente à problemática endóxica - o mais das vezes política - que os profanos projectam as produções científicas" (ps. 277-8-9).

As Regras da Arte. Lisboa: Presença, 1996. 

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