21 fevereiro 2010

BOURDIEU: Por um Corporativismo do Universal

[Esse texto] "quer ser uma tomada de posição normativa assente na convicção de que é possível extrair do conhecimento da lógica do funcionamento dos campos de produção cultural um programa realista para uma ação colectiva dos intelectuais. Um programa que tal impõe-se com uma urgência particular nestes tempos de restauração: sob o efeito de todo um conjunto de factores convergentes, as conquistas coletivas mais preciosas dos intelectuais, a começar pelas disposições críticas que eram ao mesmo tempo produto e garantia da sua autonomia, estão ameaçadas. É moda proclamar por todo o lado, com grande algazarra, a morte dos intelectuais, quer dizer, o fim de um dos últimos contrapoderes críticos capazes de se oporem às forças da ordem econômica e política. E os profetas da desgraça recrutam-se evidentemente entre os que tudo teriam a ganhar com este desaparecimento: esses plumitivos que a 'impaciência por se verem impressos, representados em palco, conhecidos, gabados', como dizia Flaubert, impele a todos os compromissos com os poderes do momento, jornalísticos, econômicos ou políticos, gostariam de se desembaraçar dos que se obstinam em defender ou em incarnar as virtudes e os valores ameaçados, mas ainda ameaçadores para sua inexistência. É significativo que um dos mais representativos desses 'filósofos jornalistas', como çlhes chamava Wittgenstein, se tenha ocupado expressamente de Baudelaire, antes de fazer, para a televisão, uma história dos intelectuais na qual, à maneira dessa personagem de Walter de Mare que só via a parte inferior do mundo, os plintos, os pés, o calçado, só relata da imensa aventura aquilo que nela logra apreender, as cobardis, as traições, as baixezas, o mesquinho.
Dirijo-me aqui a todos os que concebem a cultura não como um patrimônio, cultura morta à qual se presta o culto forçado de uma piedade ritual, nem como um instrumento de dominação e de distinção, cultura bastião e bastilha, que é oposta aos Bárbaros do interior e do exterior, muitas vezes os mesmos, hoje, para os novos defensores do Ocidente, mas como instrumento de liberdade supondo a liberdade como modos operandi permitindo a superação contínua do opus operatum, da cultura coisa, e fechada. Esses conceder-me-ão, segundo espero, o direito que aqui a mim próprio concedo de invocar essa incarnação moderna do poder crítico dos intelectuais que poderia ser um intelectual colectivo capaz de fazer ouvir um discurso de liberdade, sem conhecer outro limite para além das imposições e dos controlos que cada artista, cada escritor e cada cientista, armado com todas as aquisições dos seus predecessores, faz pesar sobre si próprio e sobre todos os outros" (p. 379-80).

Regras da Arte. Lisboa: Presença, 1996.  

Sem comentários: