20 fevereiro 2010

A NOÇÃO DE ETNIA NA BERLINDA



Antropologia da Etnia:
"Pensar abala a estrutura de tudo"!
Dante Milano.

Quando a Literatura antecipa a Antropologia:
O Admirável Mundo Novo.
Aldous Huxley.

A Divisa do Estado Mundial 'Multicultural':
"Comunidade, Identidade e Estabilidade"

Etnia é uma das noções antropológicas mais difundidas na atualidade. O surto da 'etnicidade' emergiu nos anos de 1980 deixando muitas marcas no pensamento sociológico e antropológico contemporâneo. Contudo, hoje é preciso enfrentar com lucidez os alcances do uso desenfreado desse termo pelas Ciências Sociais. Não basta crer que essa palavra substituiu, com graça ou charme irônico, o famigerado termo 'raça' - totalmente desprestigiado pela comunidade científica mundial: só não se convenceram disso os racistas e os racialistas! Mas, afinal e essa palavrinha 'etnia', veio mesmo para substituir aquela moribunda noção de 'raça'? Conseguiu êxito em tal esforço de superação da noção de 'raça'?
Nos parece que não...
Desde Arthur Ramos, Lévi-Strauss, Canclini e muitos outros antropólogos e sociólogos da cultura que vemos se sedimentar um trabalho importante de desconstrução desses termos canônicos (Identidade, Raça, Etnia, Nação, Classe), porém, curiosamente, em pleno movimento planetário de 'globalização' e 'mundialização' é que vimos re-emergir com virulência a noção: "etnia". Contudo, hoje ela retorna travestida de conteúdo político sustentada em suposta mobilização estratégica por direitos. Diversos grupos encontraram âncora nessa noção construída na Europa Colonialista do século XVIII; dessa vez para justificar neuroses de classe, de grupo, de raça, de nação, etc. Neuroses que sedimentam todos os fundamentalismos, chauvinismos, bairrismos, localismos, nacionalismos, etnicismos, etc. Quando se pensa que se está andando para frente, eis que muitas vezes observamos um grande recuo reacionário da história. Neo-conservadores se utilizam do termo 'etnia' revigorando antigos e velhos preconceitos de 'raça' e 'cultura' enraizados em  mentalidades arcaicas. O tempo todo despertam o alerta de que estão desaparecendo os 'traços étnicos'- desaparecimento que poderia até ser justo, pois, afinal, racismo e etnicismo são coisas que poderíam já ter desaparecido após a II Guerra Mundial se não fosse a confusão de pseudo-letrados e militantes sedentos por neuroses sociais, se apegando aos 'narcisismos das pequenas diferenças' (Freud). Comodamente criam refúgios passadistas, nostálgicos e arcaicos. Lamentável situação que só se agrava, especialmente quando observamos a chancela de instituições acadêmicas que, por questões de culpa ou ressentimento histórico, se 'solidariazam' com queixumes dos 'novos-bons-selvagens', avatares dos novos indigentes do capitalismo: replicantes, ou réplicas, de séries identitárias fabricadas em teses apresentadas em Universidades e Fundações. Franciscanismo, cristianismo, etnologismo e muito mais se condensam nessa geléia de inconscientes 'etnicizados'. Trata-se de uma grande desorientação histórica de supostos 'antropologistas': doubles de militantes diplomados que viraram recentemente, por pura inércia das pessoas esclarecidas, profetas das 'novas etnias'. Tudo isso tem um nome: HETERONOMIA. Proliferam obsessivamente na América Latina movimentos de 'etno-gênese', nos quais populações encurraladas no labirinto da história da expoliação capitalística, se iludem encantados e seduzidos pelos discursos dos 'novos profetas étnicos', defendendo o paraíso da 'terra sem mal' no passado étnico. Agora o 'trabalho' desses 'novos antropologistas etnicistas' é de compor os pedaços dessas 'culturas' e 'etnias' e oferecer uma 'nova' identidade para esses seres humanos abandonados pela história universal. Mas, fica a pergunta: isso tem valor científico e antropológico? Quanto tempo ainda observaremos esses procedimentos pseudo-científicos arregimentarem corações e mentes, antes de entrarem para o museu das idéias equívocas e das ideologias desacreditadas? O que espanta é a demora em chegar a hora dos esclarecimentos... Talvez existam interesses de agências e instituições poderosas promovendo a difusão dessas idéias fora de lugar (nesse ponto, nos acusam de 'paranóicos', submetidos persecutoriamente às 'teorias da conspiração' étnica). Todavia, é fácil entender essa preguiça condescendente; como escreveu o poeta: "pensar abala a estrutura de tudo" (D. Milano). Os pesquisadores que estão descobrindo o Brasil e a América Latina agora, estão sendo (des)orientados por 'peritos' e 'especialistas' que moram nas grandes capitais e nos grandes centros mundiais, e que não fazem mais 'pesquisa de campo', há muito tempo. Os novos 'pesquisadores étnicos', vindo das classes médias, em busca de uma 'identidade cultural', acabam romanticamente aderindo aos etnicismos eventuais (movimentos new hippie reloaded). Acabam também desenvolvendo, com paixão e fúria, esforços sobre-humanos na defesa das 'novas-etnias' antigas, alimentadas pela paranóia de que estão correndo o risco de desaparecerem. Nesse esforço alucinado fabricam simulacros de novos-Outros etnizados - objetos de investimentos contemporâneos do racismo moderno - construindo castelos de areia étnicos por todo país e continente: triunfa enfim a visão fragmentada do processo histórico (relativismo). Eis, que surgem as 'novas comunidades étnicas imaginadas'! Na verdade, como não conseguem entender os pobres, consideram todos eles como Outros: um outro tipo de humanidade. Dessa vez, os pobres da América Latina sofrerão de preconceitos ainda mais terríveis; aqueles que dizem que os pobres ('ninguendade' = 'nínguéns' x 'alguéns') não se desenvolvem porque têm outra 'cultura', ou nenhuma: desse modo, devem viver nessa 'nova velha cultura' e não ser como os outros humanos 'modernos'. O que estamos testemunhando é a criação de parques humanos da pobreza em várias partes do mundo: futuros (Eco-)museus dos Outros-pobres, que foram incapazes de entrar para a modernidade: só poderão ser aceitos na 'pós-modernidade' se vestirem a carapuça de nativos de 'territórios étnicos'. Triste destino antropológico!

[Digno de nota são os dois excelentes textos de George Zarur: (1) Raízes Étnicas do Brasil: modelos de integração e (2) A Guerra da Identidade: Raça e Mestiçagem no Pensamento Latino-Americano. Disponível: (1) http://www.georgezarur.com.br/artigos/75/raizes-etnicas-do-brasil-modelos-de-integracao e (2) http://www.georgezarur.com.br/artigos/166/a-guerra-da-identidade-raca-e-mesticagem-no-pensamento-latino-americano ]
Eis, que estamos enfim no 'Admirável Mundo Novo' de Aldous Huxley! A propósito sugerimos a leitura do instigante texto "Admirável Mundo Novo: Uma Perspectiva Histórica entre a Obra e a Sociedade Pós-Moderna": http://www.bocc.ubi.pt/pag/nunes-maira-admiravel-mundo-novo.pdf Nesse texto iluminador compreende-se os paralelos e homologias entre o imaginário literário, o sociológico e o espontâneo. O inconsciente social se revela, surge, emerge, na leitura desses textos importantes.  

Mas afinal, 'etnia' é um conceito científico?

Para não sermos considerados artificiais e superficias (ou ferozes e abomináveis 'evolucionistas etnocêntricos'), nesse debate e enfrentamento contra a mistificação 'antropologista' atual (verdadeiro obstáculo epistemológico), citamos e indicamos os seguintes textos de Pedro Gómez Garcia, do Departamento de Filosofia da Universidade de Granada, para reflexão:
- Las ilusiones de la "identidad". La etnia como seudoconcepto;
- La identidad étnica, la manía nacionalista y el multiculturalismo como rebrotes racistas y amenazas contra la humanidad;
- Las razas: una ilusión deletérea. 

Resumos desses textos:

1. Las ilusiones de la «identidad». La etnia como seudoconcepto. La obsesión por la «identidad» ha contaminado todos los discursos, haciendo un dudoso tratamiento del hecho y problema de las semejanzas y diferencias, cuyas claves sólo pueden comprenderse adecuadamente desde un enfoque evolucionista. Otrora se tipificaban las razas, hasta que se llegó a la conclusión de que la idea de «raza» no explica nada. Ahora se opera con etnias, etnicidades o identidades étnicas. ¿Tiene esto más fundamento científico que aquello? Un examen crítico del concepto de «etnia», a través de sus diferentes teorizaciones (esencialistas, objetivistas y subjetivistas), demuestra que no cabe ninguna descripción coherente. El estudio sistemático y evolutivo de las diferencias socioculturales apunta a la conclusión de que no existen etnias, exactamente de la misma manera que, según la genética de las poblaciones, no es científico sino ilusorio el concepto de raza.

Illusions of «identity». Ethnicity as a false concept. The obsession for «identity» has contaminated all discourse, making a doubtful treatment of the facts and giving rise to the problem of similarities and differences. The key can only be understood appropriately from an evolutionary approach. Formerly races-types were fixed, until population genetics came to the conclusion that the idea of «race» doesn't explain anything. Now ethnicities or ethnic identities are the important terms. Do these terms have a more scientific foundation than the others? A critical examination of the concept of «ethnicity», through its different theories (essentialist, objectivist and subjectivist), demonstrates that it doesn't fit any coherent description. The systematic and evolutionary study of sociocultural differences points towards the conclusion that ethnicity does not exist, exactly in the same way that the concept of race is not a scientific concept, but an illusionary one.

2. La identidad étnica, la manía nacionalista y el multiculturalismo como rebrotes racistas y amenazas contra la humanidad.
La identidad étnica o cultural, concebida como una esencia permanente, constituye una versión contemporánea del racismo, reformulado en términos de razas sociales. Es un falso concepto. No hay identidad, sino historia. El nacionalismo fundado étnicamente representa un caso particular de etnomanía y, en los contextos democráticos, juega siempre como una fuerza antidemocrática y, por tanto, reaccionaria. No hay etnias homogéneas, sino sociedades internamente plurales. El multiculturalismo implica una interpretación zoológica de la sociedad humana, al suponer erróneamente que las culturas particulares son como especies biológicas distintas. Pero son realizaciones históricas del mismo patrón cultural universal, abiertas al flujo intercultural. Por eso, debemos considerar el etnicismo, el nacionalismo y el multiculturalismo como tendencias patológicas hacia la balcanización del planeta y obstáculos para la emergencia de una sociedad mundial pluralista e integrada.

Ethnicity, nationalist mania, and multiculturalism are racist resurgence and threats against humanity.
Ethnic or cultural identity, conceived as a permanent essence, constitutes a contemporary version of racism, formulated in terms of new social races. It is a false concept. There is no identity, but rather history. Nationalism, founded ethnically, represents a peculiar case of ethnomania and, in democratic contexts, always plays as an anti-democratic and, therefore, reactionary force. There are no homogeneous ethnic groups, but rather societies, internally pluralistic. Multiculturalism implies a zoological interpretation of the human society, assuming erroneously that particular cultures are like different biological species. But they are historical materializations of the same universal cultural pattern, all being open to intercultural flow. Consequently, ethnicism, nationalism and multiculturalism are considered pathological tendencies toward a balkanization of the planet and obstacles to the emergence of a pluralistic and integrated world society.

3. Las razas: una ilusión deletérea.
¿Tiene el racismo fundamentos científicos? ¿Es siquiera la «raza» un concepto científico? Hallar una respuesta clara a un tema vulgarmente tan controvertido y confuso cobra importancia cuando no faltan quienes siguen invocando pretendidos argumentos racistas para descargar fobias internas y externas. No todo rechazo de lo extraño supone racismo, y es algo que conviene pensar para averiguar las causas reales y para respetar el legítimo derecho a preservar la propia identidad cultural. Pero, por la misma razón, interesa clarificar el problema. Este artículo revisa los avances de la genética de poblaciones, que arrumbaron las tipologías raciales de la antigua antropología física, sustituyéndolas por la noción de «población» con una dosificación genética variable. Luego, tocan las relaciones entre raza y cultura, que llegan a invertir la hipótesis racista. Por último, ampliando el panorama, considera el prejuicio racista como un caso particular de etnocentrismo y de antropocentrismo.

Race: a deleterious illusion.
Does racism have a scientific foundation? Is «race» even a scientific concept? It is important to find a clear answer to such a commonly controversial and confused topic, especially as we continue to invoke racist arguments to feed our internal and external phobias. Not all rejection of the stranger implies racism. Thus it is necessary to find out the real causes of racism, and to respect the legitimate right of the preservation of one´s own cultural identity. But, for the same reason, it is interesting to clarify the problem. This text reviews the achievements of the study of population genetics while rejecting the idea of racial typing as determined by the old physical anthropology. The current concept is «population», which involves variable genetic characteristics. The article shows that the relationship between race and culture ends up inverting the racist hypothesis. Lastly, enlarging the panorama, it considers racist prejudice as a particular case of ethnocentrism and anthropocentrism.
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Identidade - Uma Miragem: O Novo Mal do Século!

Claude Lévi-Strauss.
L´Identité. Seminaire. Paris: PUF, 1983.

"Le thème de l´identité se situe non pas seulement à un carrefour mais à plusieurs. Il intéresse pratiquement toutes les disciplines et il intéresse aussi toutes les sociétés qu´étudient les ethnologues".

O Conceito de Identidade na Encruzilhada. Zevedei Barbu.

"Ao dar as boas vindas aos participantes do Seminário 'L´Identité' (1974) C. Lévi-Strauss vai algo além de sugerir que em sua opinião o problema da identidade é uma miragem, 'le nouveau mal du siècle'. E no discurso de encerramento ele se mostra mais do que nunca convencido de que o conceito de identidade é um artífício heurístico redundante, 'une limite à quoi ne correspond en réalité aucune expérience'. Já que isso soa como uma sentença de morte lançada sobre um dos conceitos românticos prediletos de nossa civilização, o debate merece ser reaberto" (p. 293).

Anuário Antropológico 78. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1908.

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CULTURA COM ASPAS

Autor: Manuela Carneiro da Cunha
Texto de orelha: Marshall Sahlins

Destaque: A Questão da Etnicidade

Quando voltei para o Brasil, a questão da etnicidade estava na ordem do dia. Em 1978, a grande discussão era se os índios eram índios, em que medida poderiam ser assimilados pela população em geral. Era uma problemática tanto da direita, quanto da esquerda. A direita queria emancipar as terras e a esquerda queria proletarizar os índios. Havia uma convergência, de certa forma, dessa visão. E meu estudo de etnicidade, que tinha começado na Nigéria, acabou sendo extremamente atual na discussão que se fazia na época. Anos mais tarde, um aluno da Unicamp, que já era um senhor e já faleceu, me disse: "Entendo por que você estuda etnicidade, Manuela. É porque você tem um sério problema com isso. Veja bem, você é nascida em Portugal, filha de país húngaros judeus, criada no Brasil e católica batizada. Você tem um problema evidente de identidade!". Então, essa questão da identidade étnica, segundo esse aluno, seria até um problema pessoal. Não acredito, mas quem sabe ele até tinha razão.

Trecho da Entrevista na Revista Brasileiros:

Etnicidade, indianidade e política

O caráter retórico da 'construção das identidades étnicas' - 'categoria nativa que não deve ser reificada'.

A terceira parte (do livro) é composta de textos que, de certa forma, oferecem uma reflexão teórica que complementa o quadro apresentado até aqui. Seu foco nas discussões sobre etnicidade, indianidade e política são contemporâneos aos apresentados nas seções anteriores e atacam um outro conjunto de questões que, além de sua importância teórica, trouxeram questionamentos fundamentais para a esfera política.
Com uma autocrítica honesta e bem calibrada, Manuela expande seus horizontes para a África, onde realiza estudos sobre comunidades de ex-escravos retornados que mantinham (e em alguns casos ainda mantêm) uma identidade de “brasileiros” marcada por traços distintivos que lhe conferiam posições favoráveis na política e na economia. O foco de toda a seção recai sobre a construção das identidades étnicas, seu caráter retórico, de categoria nativa que não deve ser reificada. Sua relação com o desenvolvimentismo e a política indigenista é complementada pelas discussões acerca da noção de cultura, baseada em casos concretos como o da demarcação das terras dos Pataxó Hã-Hã-Hãe que vivem no sul da Bahia. A partir desse exemplo, a autora desconstrói a noção estática de cultura que dá sustentação à idéia de aculturação, liberando da carga negativa os povos indígenas misturados, vítimas de processos históricos opressores, que reaparecem como sujeitos de direito. Aqui, mais do que na seção anterior, a ligação com a política é explícita e clara, marcando de maneira contundente o estilo da antropologia de Manuela.
Trecho: "Manuela Carneiro da Cunha: antropologia engajada".
Por Rogério Duarte do Pateo.

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Castoriadis e as "Reflexões sobre o Racismo"

Reflexões sobre o Racismo – Racismo e Mestiçagem

“Encontramos-nos aqui(*), é evidente, porque queremos combater o racismo, a xenofobia, o chauvinismo e tudo o que se relacione a eles. E fazemos isso em nome de uma posição primordial: reconhecemos todos os seres humanos como tendo valor igual como seres humanos, e afirmamos o dever da coletividade de conceder as mesmas possibilidades efetivas, no que se refere ao desenvolvimento de suas faculdades. Longe de poder estar comodamente fundada em uma suposta evidência ou necessidade transcendental dos “direitos humanos”, essa afirmação engendra paradoxos de primeira magnitude e, em particular, uma antinomia que muitas vezes já sublinhei, e que pode ser definida em abstrato como a antinomia entre o universalismo que concerne aos seres humanos e o universalismo que concerne às “culturas” (as instituições imaginárias da sociedade) dos seres humanos”. (...)
(*) No Colóquio “Inconsciente e mudança social” da 'Association pour La Recherche et l´Intervention Psichosociologiques', em março de 1985.
Blog:
http://seaf-filosofia.blogspot.com/2009/12/castoriadis-e-as-reflexoes-sobre-o.html
Acesse o texto 'Reflexiones en torno al racismo':
http://www.unifem.org.br/sites/800/824/00000434.pdf

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Para Incrementar esse Debate Ilustramos com a Referência ao Projeto de Lei Encaminhado pelo Deputado do PT do Estado do Paraná.

Deputado quer criar territórios culturais brancos

Para Gilberto Freyre, “No Brasil não há clima para nenhuma espécie de ’sudetos’ que se pretendam construir aqui em ilhas etno-culturais de anti-Brasis, quer os ’sudetos’ sejam arianos e adeptos de um arianismo fechado, quer amarelos orientais que aqui pretendessem se agrupar em tôrno de uma mística de amarelidade, ou negros africanos que pretendessem introduzir no Brasil êsse outro sudetismo que tivesse por bandeira o mito da negritude”. O deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), porém, apresentou o Projeto de Lei (PL) 3056/08 que visa ir no caminho contrário ao do compartilhamento e sincretismo entre as culturas de imigrantes europeus, japoneses e descendentes com a dos demais brasileiros. O PL recebeu parecer favorável do deputado Pedro Wilson (PT-GO), da Comissão de Educação e Cultura. Abaixo, notícia da Agência Câmara, de 2008, que resume o PL.

Projeto cria áreas de preservação do patrimônio cultural

O Projeto de Lei 3056/08, do deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), institui as Unidades de Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro e estabelece os critérios para a sua criação, implantação e gestão. Caberá ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) identificar os aspectos étnicos, históricos, culturais e socioeconômicos do grupo ou dos grupos que constituirão as áreas de proteção. O Iphan também deverá delimitar as terras consideradas suscetíveis de reconhecimento e demarcação.
O texto define como unidades de preservação os “territórios habitados por povos e comunidades tradicionais, participantes do processo civilizatório” do Brasil. Para constituírem uma unidade de preservação, esses povos devem preservar bens de natureza material e imaterial referentes à sua identidade, ação e memória.
Entre esses bens, a proposta destaca língua própria, formas de expressão; modos de vida; criações científicas, artísticas e tecnológicas; obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artísticas e culturais; e conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

Combate à discriminação

O projeto estabelece que as unidades de preservação devem levar em conta aspectos como etnia, raça, gênero, idade, religiosidade e orientação sexual. Também devem ser considerados, segundo o texto, a segurança alimentar e nutricional e o desenvolvimento sustentável como forma de promoção da melhoria da qualidade de vida das populações. Outro princípio para orientar a formação das unidades deve ser o combate a todas as formas de discriminação, incluindo a intolerância religiosa.
Angelo Vanhoni argumenta que o País já conta com normas para a preservação da cultura indígena (Estatuto do Índio) e da afro-brasileira (Decreto 3.912/01), mas lembra que não há leis proporcionais à importância de outros grupos. Ele destaca especificamente os imigrantes que chegaram ao País a partir do século 19, como alemães, italianos, poloneses e japoneses.
Com o objetivo de preservar as contribuições desses povos à cultura nacional, o projeto determina que, nos processos de reforma agrária onde houver unidades de preservação do patrimônio dessas populações, os novos colonos devem receber treinamento sobre as técnicas agrícolas tradicionais.
A proposta determina também que as escolas, públicas ou privadas, de municípios que contem com unidades de preservação ensinem o idioma da população tradicional.

Fonte Disponível:
http://nacaomestica.org/blog4/?p=880

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RAZA, NACIÓN Y CLASE de Etienne Balibar y Immanuel Wallerstein. Madrid, 1991

"Nuestro objetivo, pues: abrir las mil preguntas que sobre esas realidades, movimientos, aspiraciones, categorías, abstracciones..., que se llaman raza, nación, clase, pueblo, estado, tribu, étnia, incluso sociedad..., existen o deben existir; Y contribuir a que los afectados -¡todos!- nos atrevamos a repensar sin metafísicas especiales qué somos, por qué y cómo nos organizamos; hacia donde vamos y qué queremos construir que sea visible y humano.
No queremos abrir este espacio para que crezcan los nominalismos sino para que la razón (la pura, la práctica, la instrumental..., pero también la razón ética frente a la "razón" de Estado y la "razón" nacional -valga la contradicción-) se abra camino y adelantemos el momento interno constituyente de esto que consiste en ser humanos, en que nadie tenga razón suficiente para matar o herir a otro, ni construir absurdos."

Acesso ao Livro: 
http://crisol-gpec.com.br/site/publicacoes/29/273/raza-nacion-y-clase---(identidades-ambiguas).html

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“OS POLÍTICOS ENCOBREM OS CONFLITOS DA ÁGUA COMO SE FOSSEM RELIGIOSOS E ÉTNICOS”.
Entrevista com a ativista Vandana Shiva.

“Em abril de 2011 a ONU adotou uma resolução sobre a água como um direito humano. Mesmo com toda a ganância das multinacionais, a energia democrática dos movimentos sociais também está crescendo e desafiando a privatização da água”.

É o que aborda Vandana Shiva, física e ativista defensora do meio ambiente e dos direitos das mulheres, nascida na Índia. O jornal britânico The Guardian a definiu como uma das cientistas de maior destaque e mais promissoras do mundo. Em seu livro “As guerras da água”, Shiva destaca que este recurso é um direito humano fundamental, o qual não pode ser tratado como uma mercadoria. No mundo, 768 milhões de pessoas não têm acesso à água potável.
A entrevista é de Gabriel Díaz, publicada por Diário.es, 07-08-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Que importância a água tem para a vida humana, para as comunidas e a natureza? Que importância tem para você e para sua cultura?
A água é o próprio sangue da vida. Compõe 70% do planeta, 70% das plantas, 70% do nosso corpo é água. Sem água não há vida. A água circula através de todas as espécies e pelo ciclo hidrológico, que conecta a todos em uma comunidade. É a comunidade da água.
Eu nasci em Himalaya e cresci na região que é a fonte do Ganges. O movimento Chipko, ao qual me uni há uma década, é um movimento de mulheres para proteger o bosque e a água. Durante 10 anos estamos construindo movimentos para evitar a privatização das águas do Ganges. Nosso lema é “Nossa mãe Ganges não está à venda”. Detivemo-los.
Vários analistas internacionais assinalam que o século XXI será marcado pelas guerras da água.
As guerras pela água já estão acontecendo. Os recursos hídricos diminuem, a demanda por água aumenta. Os meios de comunicação e os políticos encobrem os conflitos da água e os apresentam como se fossem religiosos e étnicos. Isso facilita a divisão e as políticas de governo. Se os conflitos da água fossem tratados como conflitos pela água, as elites se veriam obrigadas a abordar a justiça da água, a democracia da água e a paz da água.

Em seu livro “As guerras da água”, você ressalta a importância de conseguir uma democracia real da água. Poderia explicar os princípios fundamentais desta ideia?
No núcleo da solução do mercado para a contaminação está a suposição de que a água existe em quantidade ilimitada. A ideia de que os mercados podem atenuar a contaminação facilitando um aumento da alocação não leva em conta que o desvio de água para uma área produz a escassez da mesma em outros lugares. Em contraste com as teorias das empresas que promovem uma solução de mercado para a contaminação, as organizações de base pedem soluções políticas e ecológicas.
As comunidades que lutam contra a contaminação industrial propuseram um projeto de lei sobre a Comunidade de Direitos Ambientais, que inclui os direitos para “limpar” a indústria, a segurança frente à exposição nociva, a prevenção, o conhecimento, a participação, a proteção e a observação; uma indenização e a limpeza. Todos estes direitos são elementos básicos em uma democracia da água, na qual se protege o direito à água potável para todos os cidadãos. Os mercados não podem garantir nenhum destes direitos.

O livro também insiste no negócio gigante que a venda de água engarrafada representa.
Uma mulher chamada Mylamma iniciou um movimento contra um gigante como a Coca-Cola, na região de Plachimada e , junto a ela, uma pequena aldeia de Keral conseguiu fechar a fábrica. A fábrica em Plachimada foi encomendada em março de 2000, para produzir 1.224.000 garrafas de produtos da Coca-Cola por dia e uma licença condicional para instalar uma bomba de água com motor. Contudo, a companhia começou a extrair ilegalmente milhões de litros de água limpa. Começaram a extrair 1,5 milhões de litros por dia. O nível da água começou a cair e a instalação indiscriminada de poços para aproveitar a água subterrânea teve graves consequências para os cultivos. Como resultado houve uma notificação contra a empresa e sua licença foi cancelada. Trataram de subornar o presidente do panchayat (o conselho comunitário), mas não tiveram êxito. Não apenas o roubo da água, mas também a contaminação do ambiente e as áreas próximas pelo derramamento de resíduos, que estava causando um grave perigo à saúde.
Como resultado destes despejos em poços, sempre de água potável, as instalações agrícolas secaram. O médico distrital informou que a água era imprópria para beber. As mulheres de Plachimada não iriam permitir esta hidro-pirataria e teve início um protesto nas portas da Coca-Cola e o lançamento de um ultimato aos mesmos. O litígio do interesse público foi apresentado por um dos panchayats contra a Coca-Cola no Tribunal Superior de Kerala, e o Tribunal também apoiou a população. Assim a juiza Balakrishan Nair ordenou que a Coca-Cola detesse a pirataria de água de Plachimada.

Você sita exemplos de como nos grandes projetos hidráulicos, as alterações do curso dos rios ou construção de barragens geralmente têm consequências irreversíveis para as comunidades.
Os projetos nos vales dos rios são geralmente considerados a solução para as necessidades da água para a agricultura, o controle das inundações e a atenuação da seca. Nas últimas três décadas, a Índia tem sido testemunha da construção de aproximadamente 1.554 represas. Entre 1951 e 1980, o governo gastou 1,5 bilhões de dólares em barragens de irrigação de grande ou médio prazo. Todavia, o retorno deste investimento tem sido muito menor que o previsto. Nas terras irrigadas, onde deveriam ter sido produzidas pelo menos cinco toneladas de grão por hectare, manteve-se o 1,27 tonelada por hectare.
As perdas anuais devido à inesperada baixa de disponibilidade de água, um assoreamento intenso, redução da capacidade de armazenamento e alagamentos, totalizam agora 89 milhões dólares. A construção de represas em dois dos rios mais sagrados da Índia, o Ganges e o Narmada, gerou um veemente protesto das mulheres, dos agricultores e das comunidades cujas vidas, e modos de subsistência, foram interrompidos, além de terem seus lugares sagrados ameaçados. As pessoas de Narmada Valley não somente resistem ao deslocamento causado pelas represas de Sardar Sarovar e Narmada, mas também estão travando uma guerra contra a destruição de civilizações inteiras.

Quais são as chaves para o desenvolvimento de projetos que combinem os avanços tecnológicos e o cuidado responsável do meio ambiente?
Para garantir a sustentabilidade e a equidade na gestão da água e o uso da água, dois indicadores são de vital importância: como afeta o ciclo hidrológico, e de que maneira impacta na água das pessoas. Se estes critérios são levados em conta podemos garantir a sustentabilidade no uso da água e a equidade e a democracia na gestão da água. Durante as duas últimas décadas, os movimentos pela democracia da água aumentaram e têm desafiado a ideia de que a água é uma mercadoria, assim como as políticas de privatização da água.
Em Nova Deli deteve-se a privatização do abastecimento da água da cidade mediante a Aliança Cidadã para a Democracia da Água. Na Itália, em um referendo, os cidadãos votaram para a democracia da água em junho de 2011. Em abril de 2011 a ONU adotou uma resolução sobre a água como um direito humano. Mesmo com toda a ganância das multinacionais, a energia democrática dos movimentos sociais também está crescendo e desafiando a privatização da água.
Então muita gente está reagindo frente às políticas que degradam a natureza e a forma de vida de muitas comunidades.
Desde o movimento 15M para ocupar Wall Street, a Primavera Árabe ao inverno russo, pessoas de todo o mundo estão se levantando contra a corrupção, a desonestidade e a falta de uma real democracia na classe política que, por sua vez, esta presa em uma camisa de força devido às políticas de privatização impostas pelas instituições financeiras. Nossas democracias passaram de ser do povo, para o povo e pelo povo, para ser das corporações, pelas corporações e elas corporações.
Princípios da “democracia da água”
1. Nós recebemos água livremente da natureza.
2. Todas as espécies e os ecossistemas têm direito a uma parte da água no planeta.
3. A vida está interligada através da água. Todos nós temos o dever de assegurar que as nossas ações não causem danos a outras espécies e outras pessoas.
4. A água deve ser acessível às necessidades de subsistência. A compra e venda com objetivo de lucro viola o nosso direito inerente.
5. A água é limitada e pode acabar se não for usada de forma sustentável.
6. Todo homem tem o dever de conservar a água e a sustentabilidade do uso da água, dentro dos limites ecológicos e justos.
7. A água não é uma invenção humana e não tem fronteiras. Ela é por natureza um bem comum. Ela não pode ser uma posse como propriedade privada e vendida como uma mercadoria.
8. Ninguém tem o direito de abusar, desperdiçar, jogar lixo ou poluir os sistemas de água.

9. A água é intrinsecamente diferente de outros recursos e seus produtores. Ela não pode ser tratada como uma mercadoria.

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