13 fevereiro 2010

FESTAS E CIVILIZAÇÕES

Na Nota Introdutória, escrita por Luiz F. Raposo Fontenelle, à obra de Jean Duvignaud em destaque aqui, o tradutor desse importante texto socioanalítico da festa - após resenhar as principais reflexões contidas no livro e os antecedentes do pensamento do autor francês - nos instiga com a seguinte questão: "A festa brasileira poderia ser a contestação não violenta a um sistema anomizante que esmaga o homem pobre em proveito de outro, que o reduz à forme de energia ou força de trabalho, a resistência não explicitada à 'linguagem do progresso', 'da civilização', 'do humanismo' de uma sociedade de proprietários... (?)" (p. 20).
Na tentativa de responder a essa indagação estimulante - considerando o ensejo de estarmos em pleno desenrolar da 'maior festa popular do mundo' acontecendo em nosso país - Fontenelle sugere: "A sistematização da festa nos diversos patamares da malandragem e dos 'carnavais', em processo ao longo da sociedade brasileira e com seus núcleos criativos nos interstícios da linguagem urbana e tecnocrática onde pululam os marginalizados do processo econômico e social do Brasil oficial (...)", tem que levar em conta o seguinte aspecto, enfatizado por Jean Duvignaud: "(...) o sistema da festa tem outro alcance porque implica, como o transe no qual tem expressão mais frequente, a intensidade de uma natureza descoberta por intermédio das suas manifestações extremas". Assim, persistindo na hipótese de Jean Duvignaud, "ao dizer que a festa é uma forma de transgressão das normas estabelecidas, (...) refere-se ao mecanismo que, com efeito, abala as normas e muitas vezes as desagrega". Fontenelle arremata, enfim: "Desse modo, a festa importaria na descoberta de apelos atuantes sobre o homem externamente ao poder das instituições que o conservam dentro de um conjunto estruturado".
Isso nos faz lembrar, como aponta o comentarista, outro autor, agora nacional, que apresentou com propriedade um dos nossos dilemas sociais fundamentais, Roberto da Matta, na obra 'Carnavais, Malandros e Heróis' (1981), quando comenta sobre: "... as possibilidades [dos brasileiros] de realizar um caminho criativo, mas invertido, dentro da estrutura social. Em vez de entrar mais e mais na ordem social e ser totalmente submetido a ela e suas regras, o que aqui se coloca é a possibilidade de sair do mundo - ou melhor, de deixar 'este mundo'" (1981, p. 259).
O Carnaval e a profusão de festas na sociedade brasileira ainda cumprem essa função social e cultural? Essas festas ainda são 'transgressoras', 'criativas' e 'invertidas' em relação a ordem e a lógica cultural atualmente dominante? As teorias estruturalistas apontam caminhos interessantes para a análise, mas nos parece que o 'espetáculo' do Carnaval e das festas brasileiras entrou numa outro estágio, o que para nós parece exigir novas posturas de análise semiológica. Não se trata de abandonar estas hipóteses, mas de testá-las com mais profundidade.
Devemos considerar, por exemplo, os usos dos conceitos como 'sistema anomizante', 'anomia', 'aitíase', 'transe', 'linguagem perdida', que constituem as ferramentas teóricas importantes de Jean Duvignaud. Testar, especialmente, a hipótese da homologia da festa e do trasse, que, segundo o autor, permite às pessoas "sobrepujarem a 'normalidade' e chegarem ao estado onde tudo se torna possível, porque o indíviduo, então, não se inscreve apenas em sua essência humana, porém em uma natureza que ele completa pela sua experiência, formulada ou não".  
O que nos parece é que a festa e o Carnaval brasileiro já não oferecem essa 'chance' de se situar nesse 'estado onde tudo se torna possível', pois o sentido dessas festas está premeditado e preestabelecido antecipadamente (sob rigoroso controle) e, então, a surpresa, o inusitado, o inesperado não tem mais lugar aí. Talvez a recuperação dessas 'forças criativas' amortecidas e solapadas, pelo excesso de conformismo e passividade consumista (pacotes turísticos de carnavais e festas programadas para as classes médias ascendentes), seja o caminho fecundo para o trabalho de politização cultural e salvaguarda das festas e carnavais, que  merecem ser brincados com entusiasmo e alegria.
Porém devemos estar conscientes para o fato de que 'alegria', 'felicidade', 'emoção', 'prazer', 'extraordinário', 'fabuloso' etc. estão associados e vinculados de modo fetichista as 'mercadorias' festa e carnaval: são produtos excitantes e narcotizantes vendidos a preços altos em 'pacotes' e 'programas' massificados. Procurar de que forma podemos garantir a criatividade e a espontaneidade das brincadeiras, é o desafio que se exige de nós - até porque as desigualdades, as iniquidades, as injustiças dessa ordem social imperante ainda não foram suprimidas, merecendo que a força transgressora e subversiva das festas se mantenha viva. 

DUVIGNAUD, Jean. Festas e civilizações. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro/UFCE, 1983.

(Para Adriana Cajado, considerando seu comentário a postagem anterior. Ver: http://psicanalisesaudemental.blogspot.com/2010/02/era-dos-imperativos-e-regulacao-do.html)

1 comentário:

Adriana Cajado Costa disse...

O diálogo antropologia e psicanálise é muito estimulante. A partir da leitura do seu blog retomei um pequeno escrito sobre o carnaval. Penso que deveríamos pensar mais sobre a ideologia e subversão.