12 fevereiro 2010

O FRUGAL CARNAVAL BRASILEIRO: o Imperativo da Alegria!

O Carnaval em terras brasileiras tornou-se o imperativo da alegria premeditada, com data, local e horário marcado. Mostrar-se alegre a todo custo e não demonstrar a tristeza: é o lema geral. A festa popular, que em tempos recentes era considerada com desconfiança e suspeita de sério risco e perigo de transgressão, generalizada e contagiosa, hoje se tornou algo desejado e consumido com bastante frugalidade. Aquela ordem social sempre desconfiada e temerosa, ciosa do sentido normativo e institucionalizado, por incrível que pareça, através de mecanismos fabulosos de transformação, hoje tem olhos muito complacentes para essa festa programada, agendada, premeditada que em nada mais nos surpreende, em que não se pode nem errar, falhar, mancar, vacilar... A Festa e o Carnaval venceram a ordem careta, burguesa ou fascista?
O certo é que as Festas e os Carnavais já não são mais perigosos e já não se teme a sua transgressão ou desordem subversiva! Hoje a Festa é mas um imperativo da alegria ensaiada, excitada, efervescente e eufórica: permitida e aceita como norma. Uma alegria encenada na qual temos que expressar, quase que obrigatoriamente, nossa 'alegria de viver', nosso contentamento descontente, esfuziante e arrebatador - uma simpatia que seduzirá a todos pela expressão 'natural' da artificialidade, o 'acasual' calculado: uma autêntica demonstração de despojamento e felicidade na medida certa. Carnaval profissional, agendado, cronometrado, fabricado e empresarial. A única coisa que se teme é a violência: mas para isso tem a Polícia - precisamos de Carnavais e Festas bem 'seguras' e 'policiadas'! Todos concordam! É mais um consenso geral!
A Alegria como envólucro e embalagem desse excitante produto, que deve ser do tipo soft, light, sem gordura, cerveja sem alcóol, café sem cafeina, cigarro sem alcatrão ou nicotina: Carnaval curtido como uma semana num spa... Viva o Carnaval frugal!
Mas afinal qual é a função social da festa hoje? Quais os significados que adquire na contemporaneidade? Podemos tentar responder essas perguntas de diversas maneiras. Uma delas é percorrendo a literatura sobre o tema da festa em nosso país, que já é bastante vasta nos Estudos Culturais brasileiros. Para ter uma idéia dessa proliferação de estudos sobre o tema, visite o Portal Agua Forte.Com: http://www.aguaforte.com/antropologia/festaabrasileira/Bibliografiadatesefesta.html
Mais informações e referências teóricas sobre o tema ver a tese de Rita Amaral: "Festa à Brasileira: sentidos do festejar no país que 'não é sério'". Tese de Doutoramento em Antropologia Social, defendida junto ao Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Brasil, no ano de 1998.
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Ver também o e.livro FESTIM BARROCO no link dessa mensagem. Nele encontra-se reflexões sobre a teoria social da festa.



 
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Outra obra fundamental é o já clássico:

"Carnavais, Malandros e Herois: Para Uma Sociologia do Dilema Brasileiro".
Autor: DAMATTA, ROBERTO A.
Editora: ROCCO Assunto: CIÊNCIAS SOCIAIS - ANTROPOLOGIA

1 comentário:

Adriana Cajado Costa disse...

Alexandre,
Há duas semanas que venho pensando sobre o carnaval. É certo que gostamos de festejar, quem não gosta! Mas o incômodo subjacente aos imperativos midiáticos do carnaval precisam ser nomeados. Alegria premeditada, desejo pré-fabricado, amores sem nome, fantasias sem desejo. Bem, nada melhor que um estudioso da cultura para nos ajudar a compreender esse fenômeno de um carnaval frugal.