31 março 2010

CULTURA COM ASPAS


O livro reúne a produção ensaística da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha em mais de 30 anos de trajetória, incluindo texto inédito de 2009. Com pesquisas na Amazônia e África Ocidental e professora durante 15 anos nos EUA, a autora fez da “interface” cultural o fio condutor de sua antropologia. Em paralelo à sua produção acadêmica, atuou em debates políticos, atribuindo profundidade histórica à compreensão e defesa dos povos indígenas.
Seus estudos de teoria antropológica e antropologia histórica tratam da maneira como a “cultura” (com aspas, como ela mesma coloca) é reflexivamente constituída e engajada como uma categoria do encontro interétnico.
Nos textos que compõem o livro, o 27º volume da coleção Ensaios, Manuela explora as situações de contraste e contato entre sociedades, tratando, entre outros temas, do movimento messiânico canela, catequese, direito indigenista, etnicidade, xamanismo, conhecimento tradicional e indigenização da cultura.

Autor: Manuela Carneiro da Cunha

Texto de orelha: Marshall Sahlins

 
Destaque: A Questão da Etnicidade
 
Quando voltei para o Brasil, a questão da etnicidade estava na ordem do dia. Em 1978, a grande discussão era se os índios eram índios, em que medida poderiam ser assimilados pela população em geral. Era uma problemática tanto da direita, quanto da esquerda. A direita queria emancipar as terras e a esquerda queria proletarizar os índios. Havia uma convergência, de certa forma, dessa visão. E meu estudo de etnicidade, que tinha começado na Nigéria, acabou sendo extremamente atual na discussão que se fazia na época. Anos mais tarde, um aluno da Unicamp, que já era um senhor e já faleceu, me disse: "Entendo por que você estuda etnicidade, Manuela. É porque você tem um sério problema com isso. Veja bem, você é nascida em Portugal, filha de país húngaros judeus, criada no Brasil e católica batizada. Você tem um problema evidente de identidade!". Então, essa questão da identidade étnica, segundo esse aluno, seria até um problema pessoal. Não acredito, mas quem sabe ele até tinha razão.
Trecho da Entrevista na Revista Brasileiros:
http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/28/textos/787/

Etnicidade, indianidade e política

A terceira parte (do livro) é composta de textos que, de certa forma, oferecem uma reflexão teórica que complementa o quadro apresentado até aqui. Seu foco nas discussões sobre etnicidade, indianidade e política são contemporâneos aos apresentados nas seções anteriores e atacam um outro conjunto de questões que, além de sua importância teórica, trouxeram questionamentos fundamentais para a esfera política.
Com uma autocrítica honesta e bem calibrada, Manuela expande seus horizontes para a África, onde realiza estudos sobre comunidades de ex-escravos retornados que mantinham (e em alguns casos ainda mantêm) uma identidade de “brasileiros” marcada por traços distintivos que lhe conferiam posições favoráveis na política e na economia. O foco de toda a seção recai sobre a construção das identidades étnicas, seu caráter retórico, de categoria nativa que não deve ser reificada. Sua relação com o desenvolvimentismo e a política indigenista é complementada pelas discussões acerca da noção de cultura, baseada em casos concretos como o da demarcação das terras dos Pataxó Hã-Hã-Hãe que vivem no sul da Bahia. A partir desse exemplo, a autora desconstrói a noção estática de cultura que dá sustentação à idéia de aculturação, liberando da carga negativa os povos indígenas misturados, vítimas de processos históricos opressores, que reaparecem como sujeitos de direito. Aqui, mais do que na seção anterior, a ligação com a política é explícita e clara, marcando de maneira contundente o estilo da antropologia de Manuela.

Trecho: "Manuela Carneiro da Cunha: antropologia engajada".

Por Rogério Duarte do Pateo.
http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSaibaMais/10503/Cultura-com-aspas.aspx

Sem comentários: