26 março 2010

Relação Passado e Futuro


Figuras do Pensável Encruzilhadas do Labirinto VI

Hoje, a relação com o passado se reduz seja ao turismo arqueológico a preços módicos, seja á erudição e ao museísmo de todo tipo. Devemos rejeitar a pseudomodernidade e pseudosubversão - a ideologia da tábula rasa -, assim como o ecletismo ("o pós-modernismo") ou a adoração ao passado. Uma nova relação com o passado supõe fazê-lo reviver como nosso e independente de nós, ou seja, significa ser capaz de entrar em discussão com ele aceitando ao mesmo tempo que ele nos questione. Ainda uma vez, a relação que os atenienses no século V mantinham com o passado se apresenta não com um modelo, mas como um germe, um índice de possibilidades realizadas. A tragédia não 'repete' os mitos; ela os reelabora e os transforma para que, saídos de um passado imemorial, eles possam investir a linguagem e as formas do mais vivo presente e, desse modo, atingir os seres humanos de todos os futuros possíveis. Esse estranho 'diálogo' com o passado, com duas vias com sentido único, disjuntas na aparência, mas não na realidade, é uma das possibilidades mais precisosas que nossa história criou para nós. Assim como devemos reconhecer nos indivíduos, nos grupos, nas unidades étnicas ou outras a sua verdadeira alteridade, e fundar nossa coexistência com eles nesse reconhecimento, devemos reconhecer em nosso próprio passado uma fonte inesgotável de alteridade próxima, trampolim para nosso esforços e abrigo contra nossa loucura sempre à espreita.

Relação com o Futuro

Devemos também estabelecer uma nova relação com o futuro, deixar de vê-lo como um 'progresso' ilimitado, dando-nos sempre mais do mesmo, ou como o lugar de explosões indeterminadas. Não se poderia também onerar nossa relação com o futuro etiquetando com o termo falacioso de 'utopia'. Além daquilo que se costuma chamar de possibilidades do presente, cuja fascinação não pde senão engendrar a repetição, devemos, sem renunciar ao julgamento, ousar querer um futuro - não um futuro qualquer, não um programa estático, mas esse desenrolar sempre imprevisível e sempre criador, de cuja conformação podemos tomar parte, pelo trabalho e pela luta, a favor e contra.

Herança e Revolução. p. 195-6.

Cornélius Castodiadis
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

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