01 abril 2010

ESTUDOS CULTURAIS no espaço social da Memória, Patrimônio e Identidade

Após participar de alguns eventos acadêmicos, científicos, culturais e políticos, acendeu uma fagulha de reflexão um tanto inquietante, no âmbito do espaço social intelectual. Trata-se da constatação de uma fobia pelo conhecimento e pela reflexão articulada. Um deliberado esforço de não atingir as camadas mais profundas do trabalho intelectual, especialmente no espaço público.
Escreveu André Mattelart: Hoje mais do nunca, é preciso “(...) introduzir questionamentos que atingem todas as Ciências. Lembrar que um compromisso crítico dos pesquisadores (...) não é nem concessão a uma visão anacrônica do intelectual militante, nem entrave ao saber, mas pode constituir o MOTOR DE COMPREENSÃO dos fatos sociais. Em tempos em que os pesquisadores e os intelectuais são convidados a se comportar como especialistas e engenheiros do social, respondendo às demandas dos poderes, em que um empirismo instrumental quereria desqualificar as interrogações sobre as condições de produção do saber, uma leitura genealógica só pode reintroduzir questões essenciais” (Mattelart, André. Introdução aos Estudos Culturais. 2004, p. 17).
Mas é realmente possível acoplar o motor da reflexão aos outros motores de acumulação intensa do capital (‘virada cultural’, ‘virada cibernética’, ‘virada biotecnológica’? Qual o sentido da crítica hoje? Não estamos assistindo afinal o triunfo da sócio-técnica? De que modo é possível levar a efeito uma ‘leitura genealógica’ sobre a política cultural?
Essas perguntas emergem num contexto em que a participação em diversos eventos com nomes muitas vezes pomposos como Simpósio, Congresso, Conferência, Encontro, Reunião, etc, com espaços do tipo ‘Grupo de Trabalho’, ‘Forum de Pesquisa’, ‘Arena Reflexiva’, ‘Oficina’, etc, não passam de subterfúgios, ou melhor, termos encobridores de uma estratégia deliberada de negação da reflexão e da potência do pensamento. O que está já dado é o consenso a priori onde as idéias, as teorias e conceitos já estão controlados antecipadamente (em igrejinhas e capelas). Mas, por que apontamos para essas contradições e paradoxos?
Observa-se nesses espaços um excesso de apresentação de trabalhos, comunicações e pesquisas, num verdadeiro ‘shopping de idéias’, sufocando qualquer respiração mais profunda num tema importante. Nunca há espaço para debate e reflexão! Sempre surgem as desculpas de que não houve tempo, atrasou, ultrapassou o tempo, problemas técnicos, etc. Uma vontade inconsciente, e consciente também, de nunca admitir e respeitar o imprescindível e o necessário do pensamento e da reflexão. Cada vez mais estigmatizada como chata, crítica, provocadora, constrangedora, incômoda, etc.
Meu objetivo aqui não é trazer a baila a negação desses eventos, não é promover a idéia de que esses espaços são inúteis, rituais, neuróticos – espaços do consenso, da obviedade, do consumo e repetição de idéias já prontas – e nem tampouco para provar a verdade, ou não, de uma tese, ou teoria, sobre a cena cultural atual. Só gostaria de lembrar que na tradição grega antiga o ser social da ‘verdade’ surgia do diálogo entre os interlocutores, quando o logos se revelava, por exemplo, na técnica socrática da ‘maiêutica’ (parturiente de idéias). Também não é meu objetivo o exercício da retórica, experimentando argumentos numa batalha em que já estão posicionados os lados da contenda e do desafio; pré-estabelecido antecipadamente os prós e os contras. Tão somente, meu intuito é trazer à reflexão uma inquietação ou uma angústia. Exatamente aquela relacionada a questão da falência do pensamento, da reflexão – falência ou recusa, negação, demolição – da crítica no mundo contemporâneo. Contudo, para produzir um tipo de efeito comum nesses meios de discussão, são trazidos a lembrança outros exemplos de eventos e casos de tolerância e ‘inclusão’ da reflexão, referências que ocultam outros exemplos numerosos e múltiplos de ausência reiterada do espaço reflexivo. A estratégia da ‘polêmica’ sem fim, tem esse estratagema, esgotar o pensamento produzindo a sensação da incapacidade de lidar com diversos casos e exemplos ao mesmo tempo: o elogio do caos e da fragmentação como uma estratégia de afirmar a impossibilidade de pensar a totalidade. Mas, isso não dará bons frutos, a médio e longo prazo. Pois, a estratégia de negar e tamponar a reflexão fracassará como invariavelmente ocorre nesses casos. Os bons frutos do pensamento são colhidos através da escuta mais apurada dos temas e subtemas que estão subjacentes aos diálogos, e que em determinados momentos afloram ou emergem, quando não invadem e tomam os espaços.

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