30 junho 2010

Anaximandro de Mileto


Os Pré-Socráticos

Diante do espetáculo da natureza, o homem pode manifestar diversos sentimentos: medo, resignação, incompreensão, como também, espanto e perplexidade – sentimentos que acabam por conduzi-lo à Filosofia. O termo grego que pode ser traduzido por “natureza” é physis, mas seu significado vai além: é também realidade, não aquela pronta e acabada, mas que se encontra em movimento e se desenvolve. Nesse sentido, a palavra significa “gênesis”, “origem”, “manifestação”. Ao perguntar “o que é a physis?”, o filósofo procura saber se há um princípio único (arkhé, que significa “comando”) que governe, dirija e ordene todas as coisas do mundo, em seus diversos e até contraditórios aspectos.
A Filosofia é um modo de conhecimento sobre todas as coisas, que nasce do espanto e da admiração em relação ao mundo. Esta atitude de espanto é também uma postura teórica. A atitude teórica, que é uma exigência da Filosofia desde o seu início, é assim um novo modo de olhar o mundo. Não é mais um olhar que se vale dos olhos propriamente ditos, pois estes são muito enganosos e conduzem a impressões subjetivas. A teoria olha o mundo com os olhos da razão, do logos, que pretende ser o único meio capaz de enxergar a verdade de todas as coisas.
Considerados como primeiros filósofos, os pré-socráticos Tales, Anaximandro e Anaxímenes formam a chamada “Escola de Mileto”. Apesar das diferentes idéias que elaboram, o que os une é o fato de terem inaugurado a Filosofia com a mesma pergunta: o que é a physis? Motivo pelo qual Aristóteles, mais tarde, iria denominá-los physiologoi, “fisiólogos”, isto é, estudiosos da physis.

Anaximandro (c.610-545 a.C.)

Contemporâneo de Tales, Anaximandro procura um caminho diferente. O único texto escrito por ele e que sobreviveu ao tempo é um obscuro fragmento:

De onde nascem as coisas, ali também encontram sua corrupção, segundo a necessidade; pois as coisas se pagam mutuamente pena e retribuição por sua injustiça, de acordo com a disposição do tempo”.

Esta frase parece estar associada à concepção de Anaximandro segundo a qual o ápeiron, o “indeterminado” ou “ilimitado”, é o princípio e a origem do mundo. Eterno, o ápeíron está em constante movimento, e disto resulta uma série de opostos – água e fogo, frio e calor, etc. – que constituem o mundo. O equilíbrio do mundo, porém, é instável e tenso: as coisas que constituem o mundo opõem-se mutuamente, uma tentando vencer a outra. As que caem na injustiça por sua corrupção perecem, sendo reabsorvidas pelo ápeíron. Assim, ao inverno segue o verão, a saúde opõe-se à doença. O ápeíron é assim algo abstrato, que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. Com essa concepção, Anaximandro prossegue na mesma via de Tales, porém, dando um passo mais na direção da independência do “princípio” em relação às coisas particulares.
Essa concepção é explicada no fragmento, por meio de idéias políticas e morais: corrupção, injustiça, pena. O pensamento de Anaximandro é assim fortemente impregnado de valores políticos de sua época, em que assiste à consolidação da pólis. Na cidade, o poder não pertence a ninguém em particular, mas ao conjunto dos cidadãos. A arkhé, o comando que governa, não é uma pessoa, mas algo indeterminado. A ordem da cidade, que tem origem nesse governo de ninguém, é garantida por uma disputa contínua entre os cidadãos que, com igualdade de direitos, reúnem-se em assembléia onde cada um tenta fazer prevalecer o seu ponto de vista. Forças iguais em luta, cuja origem é o indeterminado: para Anaximandro, o mundo dos homens não é diferente do mundo das coisas – ambos são aspectos de uma única realidade.

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