22 junho 2010

Étnico Light, Soft... A Pegada Étnica!

Em Vogue Brasil, junho é a edição de destinos, época de fazer as malas e partir. Na bagagem, peças de 'pegada étnica' são de rigueur*. Mas nada de obviedades. Fuja dos clichês e inspire-se na mochileira cool idealizada pelo diretor de moda Giovanni Frasson e arrematada por Franco Pellegrino em 'On The Road'.
O leitor do 'Portal Extremos', pode se manifestar e responder: o que achou da proposta da mochileira cool da Vogue? Acha que emplaca essa moda? Você já viu algo parecido nas trilhas? Para situar um pouco a realidade da Vogue, nas primeiras imagens coloca-se o que a modelo veste e quanto custa: - diga o que acha? Visite o Portal...
Foto da 'A mochileira cool da Vogue'. O 'Étnico Light', seu lema: - Aposente o ultraestampado e aposte em tons neutros e texturas rústicas...
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**Rigueur = a rigor, o que é socialmente esperado, obrigatório de acordo com a moda popular!

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Étnico Light... A 'Pegada Étnica'!
 
Que é interessante nessa matéria da VOGUE Br é que ela sintetiza superbem o que temos apontado aqui, como uma tendência curiosa dos costumes 'pós-modernos'. Nesse mesmo Blog, nós já fizemos uma reflexão sobre o que chamamos de "Cultura Light, Pensamento Soft!": http://gpeculturais.blogspot.com/2010/04/cultura-light-pensamento-soft.html.  Temos feito alguns comentários sobre a mais nova onda-voga étnica e multicultural... que está se manifestando na moda brasileira e internacional. Desde os anos oitenta e noventa que se está buscando emplacar essa linha de design e estilo. O que nos interessa aqui, numa análise socio-antropológica ligeira, é verificar o alcance de certas hipóteses interpretativas que estamos arriscando fazer. Trata-se da costatação de que há uma intensificação obsessiva e repetitiva de uma busca por produção da diferença a todo custo. Curiosamente essa apropriação do lema da 'esquerda' desconstrucionista - de proclamar a diferença como a luta política do final do século XX e do início do XXI - pelo sistema da moda, pelo sistema de consumo e da produção desejante, é incrívelmente irônica! O lema individualista consagrado é: - seja diferente!
O caso aqui em análise trata da questão ligada a idéia de que essa 'diferença' deve existir, deve ser cultuada e buscada, mas ela deve ser cada vez mais 'ligth' e 'soft'; nunca 'hard'... Ou melhor  a 'rigueur', isto é, "o que é socialmente esperado, obrigatório de acordo com a moda popular!". A moda (popular ou burguesa) procura incorporar e aceita introjetar uma apropriação antropofágica do 'diferente', mas ele deve ser degustável, palatável, isto é, 'diet'; próprio de uma dieta sofisticada e refinada: diferenciada. É chic ser 'étnico light'!
Porém, o que isso tem a ver com antropologia, etnologia e sociologia? Ora, tudo a ver. Pois, percebe-se que nas 'academias' e 'universidades' se está fabricando essa visão 'ligth' da diferença. É a 'cultura light' e o 'étnico ligth' que vigora nas salas de aula e nas pesquisas. Nada que abale as obviedades é aceitável, mas se o que você encontrou de exótico numa determinada aldeia servir para um bom negócio artesanal (um grafismo, um desenho, um colorido, etc.) então, já temos aplacado a idéia angustiosa de que, afinal, antropologia e a etnologia não são tão inúteis assim: servem para caçar e fabricar 'diferenças'. É o novo exotismo difundido, sacramentado, legitimado... Pode até virar 'patrimônio cultural imaterial'! Para quem? Para quê? Nem mesmo os que trabalham com isso sabem... Registrar o exotismo, alimenta ou aplaca que angústia? O que é que se está procurando, perdendo, produzindo, alucinando, aí? Essa apropriação do discurso do outro, em outros-fake, forjados pela nossa lógica mercantil e utilitária, mereceria uma reflexão menos ingênua, menos positivada e aderente. Basta de tanta bobagem! Está faltando mesmo é criatividade! 
Como disse Eduardo Coutinho, sobre o que move a sua arte: "Entender as razões do outro, sem lhe dar razão". É o que tem faltado hoje em muitos pesquisadores, que se dedicam a positivar tudo que vem do 'outro'!

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