26 julho 2010

Dádiva, Reciprocidade e o Utilitarismo Economicista

27A RBA 2010 BELÉM

SIMPÓSIO ESPECIAL 7: Em Torno da Defesa do Patrimônio Cultural
Data: 02/08, segunda-feira, às 16:30h Local: Auditório 04

EM DEFESA DOS PATRIMÔNIOS BIOCULTURAIS:
Dádiva, Reciprocidade e o Utilitarismo Economicista.
Nas encruzilhadas do labirinto contemporâneo das políticas dos patrimônios bioculturais enfrenta-se um dilema importante: como preservar e promover formas e manifestações culturais tradicionais e arcaicas, sem que elas sucumbam ou sejam solapadas, diante da força da lógica cultural burguesa dominante? Hoje, paradoxalmente, assistimos aos agentes de cultura, em nome da ‘mediação’ e da ‘negociação’, abrirem mão dos valores tradicionais anti-utilitaristas, introduzindo, forçadamente, práticas economicistas no cerne das manifestações culturais tradicionais; naturalizando a visão de mundo burguesa e utilitária. Com estas práticas mercantis e estatais equívocas, voltadas agora, mais especialmente, para a ‘salvaguarda’ dos chamados patrimônios intangíveis, corremos o risco iminente de ver destruídos e erodidos os valores humanos fundamentais, como os do dom, da dádiva, da reciprocidade, etc. Os fetichismos atuais das novas mercadorias ‘passado’, ‘tradição’, ‘étnico’, ‘raiz’, são exemplos do sintomático processo de naturalização acrítica da ‘virada cultural do capitalismo’ (Jameson). O retorno à leitura profunda de Marcel MAUSS e de seus continuadores (Lévi-strauss, Lupasco, Caillé, Temple, etc.) pode ser uma forma de resistir intelectualmente contra essa visão mercantilista e estatal que quer de toda forma impor uma ‘economia da cultura’ moderna e capitalista – através dos novos Dédalos tecnocráticos (Balandier) –, na produção dos bens simbólicos e imaginários: arte, cultura, entretenimento, lazer, festas, etc. Como resistir a estas forças históricas poderosas – hoje potencializadas e naturalizadas por um consenso triunfante na crença de que o capitalismo venceu – é o desafio mais importante da Antropologia contemporânea. Parece-nos que a defesa dos patrimônios culturais e naturais poderá ser fecunda se estiver ligada esclarecidamente a um trabalho verdadeiro de salvaguarda biocultural; caso esteja inspirado e fundado sob a influência de um novo paradigma. Paradigma que aglutina experimentalmente filiações, afinidades e convergências teóricas variadas (Lefort, Castoriadis, Morin, Douglas, Goffman, Simmel, etc.), que, em resumo, entendem que o ‘paradigma da dádiva’ serve-se da dialética para abordar os dados no âmbito de uma teoria pluridimensional e paradoxal da ação, isto é, invocando a tripla obrigação de dar que é, com efeito, uma obrigação de liberdade e de espontaneidade, e da ação que é, ao mesmo tempo, interessada e desinteressada: lições éticas e estéticas que ainda resistem no âmago de algumas das manifestações culturais populares e eruditas, tradicionais ou arcaicas; consideradas patrimônios culturais intangíveis da sociedade brasileira.
Alexandre Fernandes Corrêa (UFMA)

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