03 agosto 2010

FACES DO MAL

As Faces do Mal e a Mercadoria

“Terrorismo; violência urbana; miséria; assimetria na repartição e uso dos bens com concentrações inauditas em nível pessoal, étnico, nacional e continental; demissão ou retirada do Estado comprometendo o funcionamento das instituições democráticas, acoplada ao abortamento da construção dos espaços sociais e serviços públicos nas áreas da educação, saúde, transportes, policiamento; ausência de gerenciamento e regulamentação da economia com liberação total de mercado; novas relações de trabalho com ausência de empregabilidade; narcotráfico; xenofobias; racismos; intolerâncias; extermínios; desbaratamento ecológico comprometendo a biosfera e causador de catástrofes locais e mundiais como poluição ambiental, desmatamentos, erosão, salinização do solo, decomposição gradual da camada de ozônio.

É necessário também que não nos esqueçamos da degradação da psicosfera produzida pela mercantilização de todas as coisas, de todos os viventes, convertidos em mercadoria. É ela o útero fecundo do individualismo exacerbado, da atomização, despersonalização, desmembramento das associações incapacitando para o debate e a luta política gerando o retraimento no sofrimento e no ódio. Se tudo é mercadoria, e assim também os homens, a posse é a medida de todas as coisas, o valor está na capacidade de acumular e consumir. Homens juntos, dando sumiço a si e ao mundo. Decadência da gratuidade, da dádiva, da solidariedade comprometendo nossas vidas mentais, afetivas e morais.

Esta compreensão do mal, vinculada ao modo de produção, tem uma longa história. Já em meados do século XIX Karl Marx vê na propriedade privada dos bens e meios de produção a fonte dos males que assolam a vida social. Dela emana a alienação do trabalhador. O trabalhador alienado é aquele que não se reconhece no produto de seu trabalho e não detém sua posse. É obrigado a vender ao dono do capital seu tempo, sua força física, inteligência, criatividade, energia vital, seu ser. Pouco lhe sobra de tempo de afetividade, de energia para desfrutar junto à família, para ir ao teatro, ouvir música, conversar com amigos, para se interessar e empenhar em questões sociais. A exaustão por ter sido exaurido pela atividadeprodutiva, é seu modo de vida. Como foi obrigado a se vender para poder continuar vivendo, o trabalhador não mais se pertence, mas passa a pertencer a outrem, àquele que por ele pode pagar. Alienado do produto de seu trabalho é assim alienado de seu ser vital. É reduzido à condição infeliz de ser uma ‘mercadoria viva’ pois que é forçado a estar sempre à procura de quem lhe queira comprar. Caso não encontre comprador, ou empregador, está fadado à morte, posto que sem salário não tem outra alternativa para custear sua sobrevivência. Sobreviver custa caro. A competição instaurada pela necessidade de busca de emprego afasta e aliena o trabalhador de outros trabalhadores, também eles mercadorias vivas em busca de compradores, destruindo assim as antigas solidariedades. O modo de produção converte a natureza: água, terra, vegetais e animais em objeto de compra e venda, portanto, mercadorias. Este mundo que tudo perverte em mercadoria é o mundo onde a morte reina. O mundo do mal sem limites, o reino do mal, primado da perversão.

A intuição certeira de Marx pode ser completada pelas reflexões do sociólogo francês Jean Baudrillard, em seu livro A transparência do Mal, no qual analisa as transformações profundas que a sociedade de consumo opera sobre as estruturas mentais do homem moderno. Afirma ele que 'O princípio do mal não é moral: é um princípio de desequilíbrio e de vertigem, princípio de complexidade e estranheza, de sedução, de incompatibilidade. Não é um princípio de morte, mas é princípio vital de desligação'".

Trecho do Capítulo do livro, O Mal como Explicá-lo?, de Afonso M. A. Soares e Maria Angélica Vilhena. São Paulo: Paulus, 2003.

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Proposição Clássica de Epicuro:

“Ou Deus quer eliminar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não quer fazê-lo, ou pode e quer eliminá-lo. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não quer e nem pode, além de não ser um Deus bondoso, é impotente; se pode e quer – e esta é a única alternativa quem como Deus, lhe diz respeito – de onde vem, então, o mal real e por que não o elimina de uma vez por todas?”

Ponderação de Boécio, na Idade Média, A Consolação da Filosofia:

“Se Deus existe, de onde vem o mal? Mas, se não existe, de onde vem o bem?”

Poema de E. Fried:

Um cão que morre
E que sabe que morre
Como um cão
E que pode dizer
Que sabe que morre
Como um cão
É um homem.

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